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segunda-feira, outubro 08, 2012

Coronelismo ontem, hoje e eternamente?



"O coronelismo é sobretudo um compromisso, uma troca de proveitos entre o poder público, progressivamente fortalecido, e a decadente influência social dos chefes locais, notadamente dos senhores das terras"  
Victor Nunes Leal, Coronelismo,Enxada e Voto, p. 44

Imagine um candidato no Brasil com as seguintes propostas:

1. Redução de Carga Tributária
2. Redução de bolsa família, bolsa estudo, bolsa alimentação
3. Redução de Cargos Comissionados.
4. Redução de Contratação pelos serviços públicos.
5. Redução de Favores do Estado.
6. Investimentos em Educação,Infra-estrutura, Segurança e Saúde.



Este candidato não iria muito para frente nesta campanha política. A lógica política brasileira tem padrões básicos de assistencialismo, Lula foi bom por causas da bolsas-família, pro-uni, etc.

Contudo, o que as pessoas não calculam é o quanto elas pagam por isto. Se você for de classe média no Brasil, você paga os impostos e também paga um plano de saúde, um colégio para os filhos, a universidade particular, um monitoramento de segurança privada, etc. Você sempre paga uma conta dobrada. Paga pelo serviço público e pelo serviço privado. E quando você usa algum serviço do governo, acha que foi uma benesse de algum político.

O problema disso é a visão matriarcal que as pessoas tem do Estado, como fonte de seus serviços e ajudas, mas elas não entendem que esta mãezona, tem um preço que elas mesmos pagam.

Pensando em Pindamonhangaba, os vereadores mais bem votados seguem a política assistencialista- um dá remédio, outro dá consulta, outro dá cesta básica-e o preço de tanta generosidade que paga? É você mesmo.

Essa é a visão de mundo tanto de um lado como de outro, impostos e mais impostos e alguns serviços a mais. 

O povo precisa entender que quanto mais eles querem que o Estado faça, mais impostos ele irá cobrar, e assim, mais corrupção haverá. No Brasil, não existe nenhum setor político atual que não defenda esse círculo fominha. Por que?

As campanhas são super caras, precisa de financiadores, que lá na frente terão favores. Para que os favores sejam pagos, é necessário que haja dinheiro extra para o pagamento de serviços que custariam bem menos se não houvesse tal ciclo.

É o bom e velho sistema coronelista, se no Coronelismo, o estado era usado para salvar o grande fazendeiro do revés financeiro de sua atividade se apropriando do Estado para garantir seus recursos em troca de favores e votos de seus trabalhadores. A história hoje é a mesma, mudaram-se as figuras, mas o sistema político continua igual.

O sistema é igual em toda a parte porque os políticos nacionais e estaduais começaram no município, e de lá seguem o padrão.

A política é a arte da possibilidade, se o povo ignorando a conta que pagam, busca no Estado, favores e auxílios, isto incentiva, políticos e um sistema que paga essas benesses com um preço mais caro. 

Exemplo claro disso: O Bom Prato, do ponto de vista, social as pessoas pagam 1 real por refeição, excelente. Mas quanto custa este prato de 1 real na verdade?  Ele custa um real mais sei lá quantos reais de impostos que você paga para subsidiar este valor.

Só de ICMS, a fatia de Pinda em 2010 foi de 45 milhões de reais, eu me pergunto quem administra melhor este dinheiro o povo e a prefeitura?

Segundo o UOL, você trabalha 150 dias por ano para pagar os impostos. Imagine que você ganha 12000 reais por ano. Só de impostos num ano você paga 4931 reais, o que daria 410 reais a mais por mês em sua mão, aposto isso daria uma chance melhor de educação, saúde, emprego, prosperidade para cada pessoa.

Enquanto as pessoas ficam super felizes com o retorno de uma merreca na Nota Fiscal Paulista ignorando que os favores que eles tanto querem do governo custam bem caro.

JFK disse que não era para as pessoas perguntarem o que governo poderia fazer por elas, mas o que elas poderiam fazer pelo país. Infelizmente, em toda campanha o povo quer apenas saber do que o governo pode fazer por elas, e o ciclo do assistencialismo nunca morre.

A próxima vez que você abastece seu carro, mais da metade do valor que você paga é imposto, este valor é para pagar a campanha política, os inúmeros cargos que o governos têm, e se sobrar, pagar o caro serviço ruim que você vai receber achando que é um grande favor.


"A melhor prova de que o coronelismo é antes sintoma de decadência do que manifestação de vitalidade dos senhores rurais nós a temos neste fato: é do sacrifício da autonomia municipal  que ele tem se alimentado para sobreviver" Victor Nunes Leal, p. 74


sexta-feira, novembro 20, 2009

GRACILIANO RAMOS: Angústia











A realidade, nos romances de Graciliano Ramos, não é deste mundo. É uma realidade diferente. Após ter lido Angústia até o fim, é preciso reler as primeiras páginas, para compreendê-las. É um mundo fechado em si mesmo. Que mundo é?
"Há nas minhas recordações estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes. Depois um esquecimento quase completo" — confessa Luís da Silva em Angústia. E depois: "Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento." E acrescenta: "Não sei se com os outros se dá o mesmo. Comigo é assim." É assim com todos nós outros, quando entramos no mundo empastado e nevoento, noturno, onde os romances de Graciliano Ramos se passam: no sonho. Os hiatos nas recordações, a carga de acontecimentos insignificantes com fortes afetos inexplicáveis, eis a própria "técnica do sonho", no dizer de Freud. Álvaro Lins, no melhor artigo que se escreveu sobre Graciliano Ramos, observou agudamente a abstração do tempo — "Mas no tempo não havia horas", cita o crítico —, e acrescenta: "Os outros personagens são projeções do personagem principal. Julião Tavares e Marina só existem para que Luís da Silva se atormente e cometa o seu crime. Tudo vem ao encontro do personagem principal — inclusive o instrumento do crime". Estas palavras do crítico constituem a chave da obra do romancista: descrevem perfeitamente a nossa situação no sonho, em que tudo é criação do nosso próprio espírito. Explica-se assim o extremo egoísmo dos heróis de Graciliano Ramos: é o egoísmo daquele que sonha e para o qual, prisioneiro dum mundo irreal, só ele mesmo existe realmente. A mentalidade inteiramente amoral do sonho exclui, decerto, toda "generosidade"; mas a substitui por um sentimento mais vasto de identificação quase mística com as criaturas da própria imaginação, até a cachorrinha Baleia: "Tat twam asi."
O extremo egoísmo do sonho engendra o motivo principal do romancista: cobiça de propriedade. Propriedade de terra, de mulher, em São Bernardo; aqui e em Angústia, a forma extrema desta cobiça, o ciúme. Por isso, nos romances de Graciliano Ramos, esses afetos ultrapassam toda medida; sugerem, ao lado dos afetos análogos na vida real, a impressão de sentimentos patológicos. E quando o autor considera os monstros da sua angústia de sonho, lança o seu grito mais elementar: "Dinheiro e propriedade dão-me sempre desejos violentos de mortandade e outras destruições."
"Ai quando virá o anjo da destruiçãop’ra acabar com a minha memória..."
(Murilo Mendes).
Todos os romances de Graciliano Ramos — e este é o sentido do seu experimentar — são tentativas de destruição; tentativas de "acabar com a minha memória", tentativas de dissolver as recordações pelos "estranhos hiatos" dum sonho angustiado. Trata-se de saber que mundo de recordações se dissolve assim.
A resposta é bastante difícil. Surge, ainda uma vez, o clichê do "sertanejo culto" e sugere aos críticos a idéia de que o romancista está furioso contra o ambiente selvagem do seu passado. Mas não é assim. Não é o sertão o culpado; Vidas secas é o seu romance relativamente mais sereno, relativamente mais otimista. O culpado é — superficialmente visto, numa primeira aproximação — a cidade. O herói de Graciliano Ramos é o sertanejo desarraigado, levado do mundo primitivo, imóvel, para o mundo do movimento. É o vagabundo ("um pobre nordestino..."); e explica-se o seu ódio balzaquiano ao mundo burguês, que conseguiu a estabilidade relativa do comércio de secos e molhados. Esta vagabundagem é o aspecto sociológico do egoísmo do sonho quando se choca com a realidade. É o desejo violento do vagabundo de restabelecer-se na terra: "Como a cidade me afastara de meus avós!" Mas é apenas uma explicação em primeira aproximação: pois Paulo Honório consegue o seu fim, e, contudo, é uma vida malograda. Por quê? Porque o seu criador quer mais do que terra, casa, dinheiro, mulher. Quer realmente voltar aos avós. Voltar à imobilidade, à estabilidade do mundo primitivo. E para atingir este fim, deve antes destruir o mundo da agitação angustiada, à qual está preso.
Os romances de Graciliano Ramos são experimentos para acabar com o sonho de angústia que é a nossa vida. Uma lenda budista conta dum homem que correu, ao sol do meio-dia, para fugir à sua sombra, que o angustiava; correu, correu, sempre perseguido pelo companheiro sinistro, até que encontrou o grande Sábio, que lhe disse: — "Não continues a fugir! Assenta-te sob esta árvore!" E como ele parou, a sombra desapareceu. A sombra sobre o mundo de Graciliano Ramos não é a sombra da árvore da salvação, mas a do edifício da nossa civilização artificial — cultura e analfabetismo letrados, sociedade, cidade, Estado, todas as autoridades temporais e espirituais, que ele convida ironicamente — no começo de São Bernardo — a colaborar na sua obra de destruição. Mas eles mostram-se incapazes de cometer o suicídio proposto. Entrincheiram-se na "dura realidade", imposta a todas as criaturas do Demiurgo, e que se arroga todos os atributos da eternidade. O romancista, porém, não se conforma. Transforma esta vida real em sonho — pois do sonho, afinal, se acorda. Então, as disposições funestas do Demiurgo seriam revogadas, e o destruidor poderia dizer, com o Gide das Nouvelles Nourritures: "Table rase. J’ai tout balayé. C’en est fait. Je me dresse nu sur la terre vierge, derrière le ciel à repeupler."6
O fim é o estado primitivo do mundo — o céu repovoado. Então, a angústia já não assusta.
"Black is night’s cope;But death will not appalOne who, past doubting all,Waits in unhope."
Foi a última sabedoria poética do romancista Thomas Hardy, versos duros, populares e clássicos ao mesmo tempo, rimados em sinal da concordância resignada com o mundo. É possível que o romancista Graciliano Ramos escreva também, um dia, tais versos, duros, populares e clássicos ao mesmo tempo, versos tradicionais, como o velho Hardy. Mas não serão rimados. Serão versos brancos. Pois a primeira rima de Graciliano Ramos já anunciaria o Fim do Mundo.