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sábado, julho 18, 2009

GAY TALESE: Jettatura



Meu pai costumava dizer isso...e explicva que, na parte da Itália em que ele nasceu as pessoas passam a vida pensando tnto na possibildade de resultados ruins, vivem tão preocupadas com esse medo de azar, que essa coisa tem até um nome. Eles chamam isso de jettatura. Para eles, é como se fosse um padroeiro da má sorte. É o profeta que ninguém invoca, que todos detestam mas que permanece onipresente em suas vidas.


Vida de Escritor, p. 132

GAY TALESE: Frank Sinatra has a cold



fonte http://www.theparisreview.org/viewinterview.php/prmMID/5925
INTERVIEWER
What do you mean by observations?
TALESE
I mean my personal observations, what I myself was thinking and feeling during the day when I was meeting people and seeing things and making notes on shirt boards. When I’m typing at night, on ordinary pieces of typing paper, I’m not only dealing with my daily research, but also with what I’ve seen and felt that day. What I’m doing as a researching writer is always mixed up with what I’m feeling while doing it, and I keep a record of this. I’m always part of the assignment. This will be evident to anyone who reads my typed notes. I uncovered a good example of this recently when I was looking through some old files from the sixties. I had just gotten to the Beverly Wilshire in Los Angeles to begin researching my piece on Frank Sinatra. I hear a knock on the door. It’s the night chambermaid. She comes in to turn down the bed and to place a piece of chocolate on the pillow. And this chambermaid is gorgeous. She’s a strong, lean woman from Guatemala, about twenty-two years old, who speaks English with a heavy accent and wears a wonderful striped skirt. I have a conversation with her. Then I find myself writing about these women who work for the Beverly Wilshire, many of them quite beautiful, and most of them from faraway places, who each day are immersed in the luxurious and privileged lifestyles of the hotel’s guests. So here I’m supposed to be working on Frank Sinatra, but this whole drama about hotel rooms and chambermaids, that’s in there too.

sexta-feira, julho 17, 2009

Gay Talese: Restaurantes.




"Os ingredientes essenciais de todos os restaurantes são esperança, confiança e otimismo. A esperança de que as pessoas gostem do que é servido. A confiança em que mais tarde paguem a conta. E o otimismo de se supor que o investimento seja compensador e recompensador, trazendo satisfação não só aos donos do restaurante mas também a odos os outros envolvidos- garçons e barmen, fornecedores de alimentos, toalhas, velas e música, bem como varredores de migalhas da esa depois do jantar, que podem dar uma escovadela nos ombros dos magnatas, estrelas de cinema e outros vencedores ali sentados, na esperança de atrair para si um pouco de sorte e sucesso"



Gay Talese, Vida de Escritor, p. 91

quinta-feira, julho 02, 2009

GAY TALESSE: A vida de Escritor


Não sou, nem nunca fui, um apreciador de futebol. É provável que isso se deva, em parte, à minha idade e ao fato de que, na adolescência, quando eu morava no litoral sul de Nova Jersey - há meio século - esse esporte fosse praticamente desconhecido dos americanos, a não ser os nascidos no exterior. E embora meu pai fosse nascido no exterior - era um sisudo alfaiate que se vestia com esmero, oriundo de uma aldeia calabresa, no sul da Itália, e naturalizado norte-americano em meados da década de 1920 -, quando conversava comigo sobre futebol ele se limitava a discorrer sobre as brigas de sua juventude relacionadas ao esporte, e sobre a frustração que sentia ao ver os colegas de escola jogando numa praça enquanto ele costurava à janela dos fundos de um ateliê próximo, onde trabalhava como aprendiz. No entanto, como muitas vezes me repetia, já naquela época ele sabia que aqueles jovens atletas (entre os quais havia irmãos e primos seus, menos conscienciosos) estavam perdendo tempo e pondo em perigo seu futuro, chutando bola de um lado para outro quando deveriam estar aprendendo um ofício digno e se preparando para pagar o alto preço de uma passagem para os Estados Unidos, onde poderiam alcançar a prosperidade como imigrantes. Mas não, continuava ele, incansavelmente dedicado a me advertir: eles dissipavam suas tardes jogando futebol na praça, da mesma forma como mais tarde viriam a jogar atrás da cerca de arame farpado do campo de prisioneiros de guerra no norte da África em que foram metidos pelos aliados (aqueles que não foram mortos ou ficaram aleijados em combate) quando se renderam, em 1942, na qualidade de soldados de infantaria do exército derrotado de Mussolini. Vez por outra, eles enviavam cartas a meu pai, contando sobre o confinamento. Um dia, já perto do fim da Segunda Guerra Mundial, ele pôs de lado a correspondência e me disse, num tom de voz que prefiro interpretar como mais triste do que sarcástico: "Eles ainda estão jogando futebol!".
A final da Copa do Mundo feminina entre as equipes da China e dos Estados Unidos, disputada em 10 de julho de 1999, no Rose Bowl de Pasadena, na Califórnia, diante de 90 185 espectadores (o maior público de qualquer evento esportivo feminino na história) seria televisionada para quase 200 milhões de pessoas em todo o mundo. A transmissão ao vivo, que começaria nessa tarde de sábado às 12h30 na Califórnia, seria vista em Nova York às 3h30 da tarde e, na China, às 4h30 da manhã de domingo. Eu não tinha pensado em assistir ao jogo. Para aquele sábado, em Nova York, eu havia combinado uma partida de tênis em duplas, no Central Park, com velhos companheiros que, como eu, tinham vagas lembranças de jogar muito bem no passado.
Antes de sair para o Central Park, resolvi ligar a tv no jogo de beisebol entre os New York Mets e meus queridos Yankees, que começava à 1h15. Contra o conselho mil vezes repetido, embora às vezes sem muita convicção, de meu ranzinza e agora falecido pai, os Yankees conquistaram meu coração e me escravizaram para todo o sempre em fevereiro de 1944. Naquele ano, por causa do racionamento de gasolina provocado pela guerra e de seu efeito restritivo sobre os deslocamentos, a equipe transferiu seu tradicional campo de treinos de primavera de Saint Petersburg, na Flórida, para um estádio menos quente, meio mambembe porém mais à mão, nas proximidades do aeroporto de Atlantic City, e suficientemente perto de minha escola para que ficássemos ali cabulando aulas. A partir de então, na guerra e na paz, durante um período que cobriu a carreira de Joe DiMaggio e Mickey Mantle e chegou até o estrelato, no fim do século, de recém-chegados como o shortstop Derek Jeter e o lançador substituto Mariano Rivera, venho me alegrando com os triunfos dos New York Yankees e sofrido com seus reveses. E, nesse sábado de julho de 1999, eu estava contando com eles para descansar de várias semanas de extenuante batuque em minha máquina de escrever.
Decidi que precisava relaxar, deixar de lado meu livro por algum tempo. E prontamente aceitei a sugestão de minha mulher, feita dias antes, de que passássemos esse fim de semana tranquilamente em Nova York. Nossas duas filhas e seus namorados iriam de carro para a Jersey Shore, para a casa de veraneio que tínhamos comprado perto da de meus pais, trinta anos antes, depois do nascimento de nossa segunda filha. Na noite de sábado, minha mãe, vigorosa viúva de 92 anos, tencionava levar as netas e seus namorados para jantar no cassino Taj Mahal, no calçadão de Atlantic City, onde ela gostava de saborear sua sobremesa e seu café, enquanto alimentava as máquinas caça-níqueis.
No mês anterior, minha adorável mulher e eu havíamos comemorado nosso quadragésimo aniversário de casamento, e espero não ser tachado de pouco romântico se disser que esse longo relacionamento deu certo, em parte, por termos normalmente vivido e trabalhado separados - eu como escritor-pesquisador de não ficção, frequentemente viajando por força do ofício, e ela como preparadora de textos e editora que, ao longo de todos esses anos, fez questão de não trabalhar para empresas com as quais eu estivesse ligado por contrato. Mas quando estamos juntos sob o mesmo teto - desfrutando o que tomarei a liberdade de chamar uma harmoniosa e feliz convivência que começou em meados da década de 1950 num apartamento sem água quente em Greenwich Village, transferiu-se depois para Uptown e, finalmente com as crianças, para uma casa brownstone que até hoje é ocupada por nós (duas pessoas ágeis e ativas da terceira idade determinadas a não morrer num cruzeiro) -, devo admitir que frequentemente me aproveito da presença de minha mulher como profissional das letras, solicitando sua opinião não só sobre o que estou pensando em escrever, como também sobre o que já escrevi. E embora suas respostas, vez por outra, difiram das expressadas mais tarde pelo editor "oficial", considero mais uma bênção que um problema ter vários pontos de vista entre os quais escolher, e julgo essa situação mil vezes preferível à falta de ajuda na revisão textual de que tanto se queixam muitos de meus amigos escritores. Mas a escritores que deploram o fato de passarem a vida abandonados e solitários, quero dizer o seguinte: quando nosso trabalho não está indo bem, ter uma mulher editora pode ser até mais humilhante, principalmente durante os fins de semana e noites que passamos em casa, quando ela lê avidamente as palavras de outras pessoas, recostada em nosso leito conjugal, sob amarrotadas páginas de originais que cobrem nosso edredom de grife ou se escondem entre os lençóis, páginas que no devido tempo ela há de juntar e empilhar ordenadamente em seu criado-mudo antes de apagar a luz e, quem sabe, sonhar com o dia em que serão transformadas num livro muito bem encadernado e elogiado pela crítica.
Seja como for, nesse fim de semana que decidimos (ela decidiu) passar em Nova York, enquanto ela estava lá em cima editando os capítulos de um original com o qual tínhamos dormido na noite de sexta-feira, eu estava embaixo, assistindo ao jogo Yankees-Mets. (Os Yankees fizeram logo 2 a 0 com o home run de Paul O'Neill na primeira entrada, depois do single de Bernie Williams.) Entre uma entrada e outra, eu antevia minha partida de tênis e lembrava a mim mesmo que devia lançar a bola mais alto quando tivesse o serviço e aproveitar todas as oportunidades de subir à rede.
Fui apresentado ao tênis por meu professor de educação física durante o primeiro ano do curso secundário, e muito embora nossa escola não tivesse, naquela época, uma equipe de tênis, eu treinava sempre que podia durante o recreio do meio-dia, pois jogava melhor que os desajeitados colegas que escolhia para adversários, os quais eram também meus subordinados na redação do jornal estudantil. O fato de nunca ter me destacado em algum esporte importante (futebol americano, basquetebol, beisebol ou atletismo) não me aborrecia, já que as equipes de nossa escola eram medíocres nesses esportes. Ademais, como cronista e potencial crítico dos jogadores (além de trabalhar no jornal estudantil, eu escrevia sobre esportes e também sobre atividades escolares em minha ocupação extracurricular de correspondente sobre educação para o semanário de minha cidade natal e para o diário de Atlantic City), eu de repente experimentava a dúbia notoriedade de ser um jornalista, de ter minha imatura personalidade e identidade impulsionadas,senão valorizadas, por meus artigos assinados ou por minha foto, do tamanho de um selo postal, que aparecia sobre a minha coluna no semanário da cidade, para não falar dos muitos privilégios que estavam à minha disposição, como viajar para jogos em outras cidades no ônibus da equipe, numa poltrona reservada atrás do técnico, ou voltar depois, de carona, num cupê Buick com painel cromado, dirigido pela bela esposa do diretor de esportes.
Por piores que fossem os jogadores, pois constantemente tratavam mal a bola, chutando quase sempre para fora e desperdiçando a maioria das faltas, eu nunca os humilhava em letra de fôrma. Invariavelmente, encontrava meios de descrever com gentileza cada derrota da equipe, cada deficiência individual. Meu texto parecia ter uma queda precoce para artifícios de retórica e circunlóquios, muito antes que eu soubesse escrever direito essas palavras. Minha atitude em relação ao jornalismo foi fortemente influenciada, durante todos os meus anos de secundário, por um rebuscado romancista chamado Frank Yerby, um negro nascido na Geórgia que mais tarde se radicou na Espanha e que escrevia prolificamente sobre mulheres de anquinhas e cobertas de joias, com tantos excessos eróticos que, não fosse o floreado estilo de sua prosa - a qual de certa forma encobria o que para mim era assustadoramente obsceno -, seus livros teriam sido censurados em todos os estados americanos, e eu não teria tido a oportunidade de solicitá-los um por um, encabulado, à proprietária da locadora de livros de nossa cidade. Além disso, não teria tentado imitar, em minhas tentativas de encobrir as falhas dos atletas da escola, a facilidade de Yerby para usar eufemismos.
Embora meus textos evasivos e cheios de rodeios pudessem ser em parte atribuídos ao desejo de manter relações amistosas com os atletas e incentivá-los a conceder constantes entrevistas, creio que essas questões práticas tinham muito menos a ver com meu estilo do que minha própria identificação juvenil com a derrota e com o fato de que, com exceção da habilidade para escrever textos que douravam a dura crueza da realidade, eu não era capaz de fazer nada fora do comum. As notas que os professores me davam, tanto no curso primário quanto no secundário, sempre me colocavam na metade pior da classe. Ao lado de química e matemática, inglês era a disciplina em que eu me saía pior. Em 1949, fui rejeitado pelas duas dúzias de faculdades a que me candidatei, em meu estado natal de Nova Jersey, e nos estados vizinhos de Pensilvânia e Nova York. Ter sido aceito pela Universidade do Alabama deveu-se inteiramente aos apelos de meu pai a um magnânimo médico de Birmingham que clinicava em nossa cidade e usava ternos cortados e costurados com perfeição por meu pai, e aos pedidos desse médico, em meu favor, a um antigo colega de classe e amigo de toda a vida, que na época ocupava o cargo de reitor de admissões daquela universidade.
Minhas principais conquistas durante os quatro anos que passei no campus da Universidade do Alabama foram ser nomeado editor de esportes do semanário da faculdade e a popularidade por assinar uma coluna intitulada "Sports Gay-zing", na qual, muitas vezes misturando humor com gentileza e opiniões veladas, mostrava pelo melhor ângulo possível algumas das piores exibições atléticas da gloriosa história da universidade. Até mesmo o time de futebol americano da Alabama, que durante muito tempo se habituara a fazer jus à reputação nacional de estar sempre entre os dez melhores, passou, enquanto estudei ali, por alguns de seus dias mais tristes desde a Guerra Civil. Embora sua glória tivesse sido restaurada depois de 1958, com a chegada do hoje lendário técnico Paul "Bear" Bryant, em minha época cada temporada foi, no mais das vezes, motivo de um clima de velório no estado a cada fim de semana. E o técnico do time, natural da Nova Inglaterra, chamado Harold "Red" Drew, tinha sua efígie sistematicamente queimada nas noites de sábado, no meio do campo, por bandos de calouros turbulentos e suas namoradas, que tinham passado a tarde a costurar panos de saco para produzir figuras, em tamanho natural, de olhos esbugalhados e rostos gorduchos e avermelhados com blush, que supostamente representavam os traços de Red Drew.
Ainda que Drew nunca se queixasse disso a mim ou ao pessoal do jornal, comecei a sentir pena dele, e sempre procurava inserir, em nossa página de esportes, um aspecto positivo sobre sua carreira em queda livre. Em uma de minhas colunas, lembrei a bravura que ele demonstrara ao servir a seu país como oficial da marinha na Primeira Guerra Mundial, destacando um episódio no qual ele havia saltado de um dirigível, a seiscentos metros de altura, sobre o golfo do México. Esse salto, em 1917, quando Drew era apenas um segundo-tenente, fez com que ele se tornasse o primeiro paraquedista da história da marinha, ou pelo menos foi isso que escrevi, depois de obter a informação num recorte amarelado de jornal colado num velho álbum que a mulher dele me emprestou. Além disso, ilustrei minha matéria com uma antiga fotografia da Primeira Guerra, que mostrava um magro e espadaúdo segundo-tenente Drew diante de um caça biplano naval numa base no canal do Panamá, usando culotes, botas longas e um quepe de oficial que protegia seus olhos do sol mas não ocultava um meio-sorriso, o qual, eu esperava, meus leitores interpretariam como a marca de um guerreiro modesto e indômito - julgando, ingenuamente, que isso pudesse despertar neles o patriotismo e extinguir algumas das tochas noturnas que brandiam para vilipendiar o técnico Drew e também, às vezes, seu venerável assistente, Henry "Hank" Crisp, que tinha como especialidade dirigir a frouxa linha de defesa do time da Alabama.

domingo, maio 03, 2009

Manual do repórter

Manual do repórter

Em entrevista exclusiva, o americano Gay Talese, mestre do Novo Jornalismo, fala de seu livro Vida de Escritor, que chega ao País, e dos desafios da imprensa na era da internet
Lúcia Guimarães

A townhouse branca num nobre quarteirão do East Side não chama atenção, mas poderia ser tombada - tanto pelo desfile de luminares que por lá passaram, nos últimos 50 anos, como pelo proprietário. Numa manhã adorável de primavera, abro o gracioso portão de ferro, subo as escadas e toco a campainha da porta de vidro que separa o público da outra porta com a inscrição "Talese". Atrás de mim, Taís Moraes, jornalista-cinegrafista-editora, esconde o equipamento. Tememos uma reação rabugenta do anfitrião que estará inevitavelmente vestido como um dândi de outra era, num horário em que muitos colegas seus só deram conta de escovar os dentes.
O sorriso largo e o aperto de mão generoso, apesar da gripe suína, me encorajam a explicar que a trama é um pouco mais complexa. Além da entrevista, precisamos de foto e vídeo (para veicular trechos da conversa no portal do Estado na internet). Ele concorda sem hesitação e me oferece a escolha entre a belíssima sala de visitas, a sala de jantar ou o jardim de inverno; escolho a sala de visitas. Gay Talese, um dos pais do Novo Jornalismo, um nome que ele desdenha, gosta de conversar com anônimos, algo que transformou numa arte ao longo de sua obra - mas como todo bom contador de histórias, não perde a loquacidade ao revisitar as próprias memórias.
O autor do mais famoso perfil de revista da imprensa americana, Frank Sinatra Está Resfriado, publicado pela revista Esquire, em 1966, não só goza de boa saúde, como não aparenta seus 77 anos. Dois de seus livros mais bem-sucedidos, A Mulher do Próximo, sobre a revolução sexual nos anos 70, e Honra o Teu Pai, uma história da família mafiosa Bonnano, acabam de ser relançados nos Estados Unidos, com novas introduções e posfácios. Vida de Escritor (Companhia das Letras), seu volumoso e atípico livro sobre o ofício que fez dele um cronista obrigatório do pós-guerra americano, sai no Brasil nesta semana.
O ator Stanley Tucci acaba de escrever um roteiro baseado em Para os Filhos, a obra de Talese sobre sua origem italiana. E os 50 anos do que ele descreve como "um arranjo incomum" - seu casamento com a agente literária Nan Talese -, serão contados num próximo livro. Imagino que seu editor estará pronto para registrar bodas mais avançadas porque Talese é lendário na sua lentidão para entregar um manuscrito.
Na entrevista a seguir, concedida com exclusividade, o jornalista e escritor - que estará no Brasil em julho, participando da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) - fala de seu método de trabalho, sexualidade, casamento e, claro, sobre a crise dos jornais e por que a sociedade precisa deles: "No prédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio."
O senhor já descreveu o ato de trabalhar num livro com metáforas dolorosas como "expelir pedras de rins". Com este não foi diferente, certo?
Pior ainda. Demorei mais de 10 anos. No começo, você tem uma ideia e é movido pela curiosidade. Mas não é porque você persegue a própria curiosidade que vai chegar a algum lugar, na análise final de um trabalho publicado. Você tem que se envolver ou, ao menos, começar a se envolver. É aí que o que eu chamo de perda de tempo começa a progredir, em reversão. Porque para escrever não ficção - eu não escrevo ficção -, não fabrico fatos, não tomo liberdade com eles. Para que a sua procura pelos fatos tome a forma da narrativa de ficção, você tem que conhecer seus personagens muito bem. Tem que estabelecer com eles uma compatibilidade, uma compreensão não só do que eles dizem mas também do que estão pensando. É preciso que haja um relacionamento, quase um caso de amor. O que não quer dizer que você passe por uma rendição de todo o afeto e da capacidade de julgar - de jeito nenhum. Há sempre uma parte da vida do escritor que é ser escritor, não importa como você viva. É a sensibilidade isolada do escritor, o estado de alerta, a separação - como escritor, você se separa dos outros o tempo todo. Porque há uma parte de você que está registrando, como escritor, o que vê e o que sente. Mas, ainda assim, você precisa desta relação de trabalho muito próxima e isto leva tempo. Assim como uma amizade demora a se formar, assim como fazer a corte leva tempo. Às vezes, você encontra alguém, acha que gosta da pessoa, que até ama esta pessoa e, depois, não dá certo.
Foi assim com Vida de Escritor?
No livro, eu descrevo a forma que acompanha a curiosidade, o que você faz depois que a curiosidade o leva para uma certa direção. Como você se mantém na missão, como mantém o curso, como não se perde. É isto o que eu chamo a arte de "hanging out". É assim que faço meu trabalho. Eu não saio por aí anotando tudo ou gravando. Mas eu carrego comigo estes cartões aqui (mostra várias cartolinas de caixas de camisas sociais recortadas em retângulos que cabem no bolso do paletó). E eu saio com uma caneta o tempo todo, anoto umas coisas, de preferência não na frente das pessoas. E aí, quando termino de trabalhar no fim do dia, uso a máquina de escrever (a mesma IBM elétrica há 35 anos). Depois que faço toda a pesquisa - e isso pode demorar anos - é que escrevo. Eu demoro 7, 8, 9 anos para escrever um livro.
Mas, se ficar entusiasmado com um personagem ou uma história, não dá vontade de começar a escrever logo?
Oh, não! Nunca tenho vontade de escrever logo (risos). E muitas vezes não quero escrever de jeito nenhum... Esta parte que é dureza. Divertido é pesquisar. Especialmente quando viajo muito com os personagens; às vezes vou longe atrás deles. Neste livro, quando fui atrás da jogadora de futebol chinesa, não tinha nada marcado com ela. Simplesmente tomei um avião e fui procurá-la entre os bilhões de chineses. Mas não é possível escrever sem antes organizar, avaliar o material que se tem. Nunca fiz cinema mas o meu método não é muito diferente do de um diretor fazendo seu storyboard. Tudo o que eu escrevo, seja um livro ou artigo de revista, começa com uma cena.