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quarta-feira, setembro 26, 2018

A CRUCIFICAÇÃO: O SACRIFICIO DE SANGUE


O SACRIFÍCIO DE SANGUE

O motivo do sacrifício e, especialmente, um sacrifício de sangue é central para a historia da nossa salvação através de Jesus Cristo, e sem este tema a proclamação cristã perde muito do seu poder.
Algumas referencias do Novo Testamento a respeito:
At 20:28
Cl 1:19-20
1Pe 1:18-19
Hb 13:11-12
Olhando para estas passagens como representativa de muitas outras, podemos ver que o motivo não é descartável. Se removermos o sacrifício, perdemos o coração de tudo isto.
O SANGUE DE CRISTO COMO METÁFORA
Uma razão para a reação contra o motivo sacrificial é claramente o literal.  Para a cultura moderna, isto parece de mau gosto, politicamente incorreto, etc. Entretanto, não devemos ter uma leitura exclusivamente literal, devemos ver o poder metafórico que há ali.
No Novo Testamento, ao invés de se ater ao aspecto físico, mas ele é entendido quanto aos seus efeitos, sua significância interna, a conquista de Jesus.
Hebreus é um bom exemplo. O autor, conhecido por seu tratamento do tema  do sacrifício, não fica preocupado com os detalhes do sacrifício do Antigo Testamento. Uma compreensiva e fluida imaginação trabalha ali. Os motivos do Antigo Testamento são combinados num modo completamente novo. A ideia geral é suficiente. O ponto saliente era que Deus, conhecendo que os israelitas não podiam se aproximar dele enquanto eles estão na culpa, proveu os meios para eles viverem em sua presença. Uma outra vida, sem manchas, foi oferecida. O sangue aspergido de um animal ofertado pelo sacerdote como meio para obter remissão do pecado.
Em Romanos 5:9-10, Paulo diz pelo seu sangue como sinônimo da morte de Jesus. Em 1Co 5:7, ele diz que Cristo é o nosso cordeiro pascoal que foi sacrificado. Em 1Co 10:16, fala de nossa participação no sangue de Cristo.
No Novo Testamento, as referencias para o sangue de Cristo são três vezes mais frequentes que as da morte de Cristo. Por séculos, o sistema sacrificial de Israel preparado para o povo de Deus para entender que sem o derramamento de sangue não existe perdão dos pecados (Hb 9:22).
Em suas próprias palavras, Jesus se refere ao seu sacrifício, este é o meu sangue que é derramado por muitos (Mc 14:24). O testemunho bíblico consiste de muitos temas e muitas variações  e não há duvida que a morte de Jesus deve ser interpretada como sacrifício pelo pecado.

O sangue de Cristo não é uma descrição do acontecimento físico no Golgota. É uma metominia ou sinédoque- o uso de uma ideia por outra, ou parte pelo todo, para alargar seu significado.
O SANGUE: VIDA OU MORTE?
Existe uma grande debate sobre se o sangue representa vida ou morte.
Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação pela alma. Levítico 17:11
Outras passagens sustentam que a vida de cada criatura está no sangue dela – Gn 9:4, Dt 12:23. O argumento é que o sangue significa derramamento da vida. Isto se torna quase que um artigo de fé para muitos estudiosos. Nesta visão, o elemento essencial na morte sacrificial é o derramamento da vida. Morte é quase que incidental no processo que busca obter sangue. O assunto aqui é de extrema importância. Se toda a ênfase é na doação da vida de Jesus, então ficamos sem uma explicação dele ter sido abandonado ou estar sobre alguma maldição, que é um dos aspectos mais profundos da crucificação. É claramente correto dizer que a essência do sacrifício de Cristo é a doação de sua vida, mas a insistência destes estudiosos nos deixa longe de outros assuntos como representação, substituição, propriciação, sofrimento vicário.
A divisão entre vida e morte é desnecessária, as duas ideias estão presentes no sacrifício.

O CONCEITO DE SACRIFICIO
Algo de valor é deixado
O proposito é obter um bem maior
Quando vemos Jesus, ele toma sobre si o papel sacerdotal, oferecendo sacrifício em ir deliberadamente para Jerusalem onde sabia que a morte o aguardava. Ele então permite que tomem a si mesmo como sacrifício, recusando em resistir, e dando a si mesmo, ele mesmo se torna o sacrifício.
A OFERTA PELO PECADO EM LEVITICO
O motivo bíblico do sacrifício ofertado para  Deus é um tema maior nos Testamentos.
Precisamos lembrar que os códigos de Levitico foram dados para o povo de Deus para viver num território estrangeiro. O que foi verdade para o povo de Israel na maioria da historia bíblica. O período quando estiveram em casa foi de todo breve. Isto ainda é verdade para os cristãos, ou deveria ser, porque o povo de Deus sempre esta mal situado, vivemos como exilados num território cercado por deuses estrangeiros. A igreja deveria sempre tem um senso de ser numa terra estranha, e se não sentirmos esta tensão, não estamos sendo realmente igreja: Ai dos que vivem sossegados em Sião (Amós 6:1).
O código sagrado começa no capitulo 18 de Levítico, o código foi desenhado para diferenciar o povo de Deus do povo da Babilonia e das outras terras da Diáspora. Essa diferenciação tem um proposito: a comunidade santa é para ser uma testemunha perpetua de Deus (1 Co 8:5).

Disse o Senhor a Moisés: "Diga o seguinte aos israelitas: Eu sou o Senhor, o Deus de vocês. Não procedam como se procede no Egito, onde vocês moraram, nem como se procede na terra de Canaã, para onde os estou levando. Não sigam as suas práticas. Pratiquem as minhas ordenanças, obedeçam aos meus decretos e sigam-nos. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês. Obedeçam aos meus decretos e ordenanças, pois o homem que os praticar viverá por eles. Eu sou o Senhor.  Levítico 18:1-5
Santidade cuja raiz significa viver separadamente. O proposito de viver separado é para glorificar a Deus no meio de uma cultura pagã. O único modo que isto poderia ser feito é por um modo distinto de viver. O povo de Deus adere a um diferente modo de existir no mundo, um que proclama o verdadeiro Deus contra os muitos deuses e muitos senhores que Paulo fala a igreja de Corinto.
Esta distinção não significa desdém pelas pessoas em volta:
O estrangeiro residente que viver com vocês será tratado como o natural da terra. Amem-no como a si mesmos, pois vocês foram estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês. Levítico 19:34
A separação não é um encorajamento para um senso de superioridade do povo de Deus, é Deus que é superior e não seus servos.
Em Levítico 1:3, lemos: “Se o holocausto for de gado, oferecerá um macho sem defeito. Ele o apresentará à entrada da Tenda do Encontro para que seja aceito pelo Senhor”.

A pressuposição básica aqui é que não somos aceitos perante Deus do modo como somos, existe uma distancia entre a santidade de Deus e a pecaminosidade humana que é assumida por um sacrifício.
As instruções no começo de Levitico dizem que o adorador deve ofertar um macho sem defeito, ele deve apresentar a porta da Tenda do Encontro para que seja aceito pelo Senhor, e porá a mão sobre a cabeça do animal do holocausto para que seja aceito como propiciação em seu lugar (Lv 1:3-4). 
O colocar das mãos tem o efeito de declarar que o animal será o representante vicário do adorador. Há uma clara sugestão da substituição. De alguma forma, o animal toma o lugar da pessoa que precisa do perdão e da restituição. O sangue do animal substituto é recebido como reparação ou para cobrir o pecado:
Em paralelo: "Para a ordenação de Arão e seus filhos, faça durante sete dias tudo o que lhe mandei. Sacrifique um novilho por dia como oferta pelo pecado para fazer propiciação. Purifique o altar, fazendo propiciação por ele, e unja-o para consagrá-lo. Durante sete dias faça propiciação pelo altar, consagrando-o. Então o altar será santíssimo, e tudo o que nele tocar será santo. Êxodo 29:35-37
As provisões para a oferta pelo pecado começam no capitulo 4. Há menções tanto individuais como coletivas. Havendo o sacrifício de sangue, os pecados serão perdoados. Há uma pressuposição fundamental colocado em Lv 3, sobre a necessidade de reparação para o pecado. O pecado não pode ser simplesmente perdoado e deixado de lado como se nada tivesse ocorrido. Mesmos aqueles que são querer (Lv 4:2,13,22,27)
A ideia básica da reparação é que o pecado tem um custo. Alguma coisa de valor deve ser oferecida em restituição. A vida do animal sacrificado representa este pagamento (Hb 9:22). O sangue representa o maior custo para o doador.
O sacrifício de Cristo não foi uma reação de Deus para o pecado, mas um movimento original e inerente de Deus para si mesmo. É da própria natureza do próprio Deus ofertar a si mesmo sacrificialmente.

O BODE EXPIATÓRIO E O DIA DA EXPIAÇÃO EM LEVITICO.
Levitico 16 tem duas descrições do Dia da Expiação. Há uma versão curta (Lv 16:6-10) e uma longa (11-28).  Na longa, há dois bodes, um para ser morto e outro para ser levado para fora.
"Então sacrificará o bode da oferta pelo pecado, em favor do povo, e trará o sangue para trás do véu; fará com o sangue o que fez com o sangue do novilho; ele o aspergirá sobre a tampa e na frente dela.  Assim fará propiciação pelo Lugar Santíssimo por causa das impurezas e das rebeliões dos israelitas, quaisquer que tenham sido os seus pecados. Fará o mesmo em favor da Tenda do Encontro, que está entre eles no meio das suas impurezas. Levítico 16:15,16
"Quando Arão terminar de fazer propiciação pelo Lugar Santíssimo, pela Tenda do Encontro e pelo altar, trará para a frente o bode vivo. Então colocará as duas mãos sobre a cabeça do bode vivo e confessará todas as iniqüidades e rebeliões dos israelitas, todos os seus pecados, e os porá sobre a cabeça do bode. Em seguida enviará o bode para o deserto aos cuidados de um homem designado para isso.  Levítico 16:20,21
O novilho e o bode da oferta pelo pecado, cujo sangue foi trazido ao Lugar Santíssimo para fazer propiciação, serão levados para fora do acampamento; o couro, a carne e o excremento deles serão queimados com fogo. Levítico 16:27

Há dois tipos de animais aqui, um que é oferecido pelo pecado e outro que é o bode expiatório. Temos muitas dificuldades em relacionar os dois com Jesus, já que nenhum deles é um cordeiro, Jesus nunca foi chamado de o bode de Deus. Mesmo o autor de Hebreus, diz por cima que o sangue de touros e bodes eram usados como oferta pelos pecados.
Para Rutledge não podemos fazer um caso claro de Jesus como bode expiatório no Novo Testamento.
Para alguns,  Jesus seria um antítipo do bode expiatório, reconhecendo que ele foi o inocente em quem projetamos todos os nossos anseios e medos. Jesus realmente entrou nos nossos pecados, assim funcionando como um bode expiatório que é enviado para o deserto ou fora do arraial carregando o fardo do pecado para ser assaltado pelos poderes demoníacos.
Rutledge cita Girard e James Alison, o mecanismo expiatório é a transferência do pecado de alguém para uma vitima inocente, o termo é derivado de Lv 16:20-22. Trata-se de um fenômeno universal humano

O sacrifício consiste em descarregar sobre um bode expiatório, vítima inocente e indefesa, os ódios e tensões acumulados que ameaçavam romper a unidade social. Estes ódios e tensões, por sua vez, surgem da impossibilidade de conciliar os desejos humanos. A razão desta impossibilidade reside no caráter mimético do desejo: cada homem não deseja isto ou aquilo simplesmente porque sim, porque é bonito, porque é gostoso, porque satisfaz alguma necessidade, mas sim porque é desejado também por outro ser humano, cujo prestígio cobre de encantos, aos olhos do primeiro, um objeto que em si pode ser inócuo, ruim, feio ou prejudicial. O mimetismo é o tema dominante da literatura, assim como o sacrifício do bode expiatório é o tema dominante, se não único, da mitologia universal e do complexo sistema de ritos sobre o qual se ergue, aos poucos, o edifício político e judiciário. A vítima é escolhida entre as criaturas isoladas, inermes, cuja morte não ofenderá uma família, grupo ou facção: ela não tem vingadores, sua morte portanto detém o ciclo da retaliação mútua. Mas a paz é provisória. Por um tempo, a recordação do sacrifício basta para restabelecê-la. Nesta fase a vítima sacrificial se torna retroativamente objeto de culto, como divindade ou herói cultural. Ritualizado, o sacrifício tende a despejar-se sobre vítimas simbólicas ou de substituição: um carneiro, um boi. Quando o sistema ritual perde sua força apaziguante, renascem as tensões, espalha-se a violência que, se não encontrar novas vítimas sacrificiais, leverá tudo ao caos e à ruína. A sociedade humana ergue-se assim sobre uma violência originária, que o rito ao mesmo tempo encobre e reproduz. (OLAVO DE CARVALHO,  Girard: a revolução).

O TEMA DO SACRIFICIO NA EPÍSTOLA AOS HEBREUS
Por essa razão era necessário que ele se tornasse semelhante a seus irmãos em todos os aspectos, para se tornar sumo sacerdote misericordioso e fiel com relação a Deus e fazer propiciação pelos pecados do povo.  Porque, tendo em vista o que ele mesmo sofreu quando tentado, ele é capaz de socorrer aqueles que também estão sendo tentados. 
Hebreus 2:17,18
O papel assinado para Cristo é o do sumo sacerdote. A morte de Cristo é identificada como um sacrifício na mesma linha dos sacrifícios do Antigo Testamento, mas com diferenças  tão grandes que são incomparáveis, tanto em relação ao sacerdote como ao sacrifício:
Hb 4:15- Cristo é diferente dos antigos sacerdotes, não tem pecado
Hb  7:16- Cristo é o sumo sacerdote não por causa de ancestrais terrenos
Hb 7:23-26 – Cristo nunca morrerá e sempre está em sacerdócio intercedendo
Hb 8:6-7 – Cristo representa uma melhor aliança – Jr. 31:31-34
Hb 9:24- Cristo não entra num santuário feito com mãos, mas no próprio ceu – 8:2, 10:1
Hb 10:3-4,12- Cristo não precisa oferecer sacrifícios diários, ele ofertou-se para todo o tempo uma vez só – 7:27, 9:25-26
Hb 10:11-12- Cristo é o sacrifício eficaz e poderoso
Hb 9:12-14- Cristo não está na oferta de animais, mas do seu próprio sangue.
A palavra uma vez por todas (ephapax) é repetida 4 vezes em Hebreus (7:27,9:12,9:26, 10:10). O evento único da crucificação é totalmente suficiente.
Em sua obediência e autosacrificio, Cristo abole as primeiras ofertas pelo pecado, aqueles em que Deus não tinha prazer (10:6). Na morte sacrificial de Jesus, o sacerdote e a vitima se tornam um.

terça-feira, julho 21, 2015

Robert G. Hamerton-Kelly: Violência Sagrada - Paulo e a hermenêutica da Cruz


Notas de leitura

"A cruz é um símbolo de violência contra uma vítima, e a teologia cristã tornou a interpretação da cruz uma tarefa central." p. 48

"A violência  é, portanto, o relacionamento entre o desejo e o mediador-tornando-se-obstáculo (mediator-becoming-an-obstacle) durante o processo de desenvolvimento da rivalidade mimética, que é o processo do movimento dos planos relativos entre mediador e sujeito, mutuamente relacionados" - p. 57


"A violência, portanto, é a atualização da propensão mimética do desejo em direção à rivalidade, por meio de um processo no qual o mediador se transforma progressivamente em obstáculo. A violência é a extensão completa dessa deformação do desejo - do início em rivalidade ao clímax na execução da vítima substituta - não apenas a óbvia coerção física. É a energia mantenedora do sistema social. Ela assume formas muito mais sutis do que a mera força física" p. 58

"O nome dado a essa deformação do desejo é idolatria e seu antídoto é a fé no Deus invisível. Sua expressão ética é eros, cujo antídoto é agápe. Assim, quando descrevemos o desejo como deformado, fazemos um julgamento teológico à luz da graça em ágape" p. 59




domingo, novembro 14, 2010

Rene Girard: L´immortel

Revista Cult: Rene Girard

 

 

Entrevista – René Girard

Publicado em 31 de março de 2010
Para o filósofo e historiador francês, a tendência das multidões é canalizar a violência coletiva em um único indivíduo
Melissa Antunes de Menezes
“A concepção romântica do desejo é ilusória”, afirma René Girard, 85, membro da Academia Francesa e professor de Literatura Francesa na Universidade de Stanford. Sua teoria do desejo mimético indica que entre o sujeito e o objeto não existe somente o desejo, mas também o modelo, o mediador do desejo, ou o rival. O conceito de mimesis aqui estabelece o ponto central da articulação. Desde as sociedades primitivas, o desejo mediado é o desejo causador dos conflitos. Pela imitação, aprendemos a falar, a andar e a desejar. E, pela imitação do desejo alheio, competimos e rivalizamos, dando início a um ciclo de violência, capaz de se atenuar pelo sacrifício, neste caso, de uma vítima que acaba por aliviar as tensões do coletivo, reestabelecendo a paz momentânea. Torna-se inevitável, dentro deste esquema, que também o ciúme e a inveja façam parte da mimesis do desejo.
Radicado nos Estados Unidos há mais de 50 anos, Girard estudou o Antigo Testamento sob a ótica sociológica e vê no cristianismo a primeira religião que consegue amenizar a violência pelo expediente da crucificação.
Nesta entrevista, concedida com exclusividade à CULT, o historiador fala sobre alguns dos temas presentes naquele que é considerado seu mais importante livro, Coisas ocultas desde a fundação do mundo, publicado originalmente em 1978 e lançado neste mês pela editora Paz e Terra. Nele, Girard aprofunda, através de diálogos com dois psiquiatras franceses, suas hipóteses sobre a violência, o desejo e a representação do sagrado, desenvolvidas a partir de temas de seu livro anterior, A violência e o sagrado.
CULT – Fala-se muito hoje em violência. Mas não vivemos uma época em que há maior controle social e cultural da violência do que em qualquer outro período da história?
René Girard – Temos um grande controle da violência no que se refere ao local. Entretanto, as pessoas não estão cientes da violência em si. A mediação externa resolve o problema da violência de forma imperfeita porque o faz através de uma vítima. Considero que temos paz no âmbito individual, mas a ameaça está no coletivo. Tanto o rito quanto a proibição somente adiam a explosão da violência.
Sistemas religiosos como o cristianismo atuam no sentido de conscientizar sobre o uso da vítima expiatória. E não existe uso deste mecanismo de forma consciente. O bode expiatório é inconsciente, ou não é.
Em um nível exponencialmente maior, estamos lidando hoje com a possibilidade da destruição total, do uso da violência em termos absolutos, através do crescente desenvolvimento de tecnologias novas como a nanotecnologia — manipulação de partículas que podem desencadear reações de potencial altamente destrutivo.
CULT – Assim como Peter Gay, o senhor afirma que o coletivo é assassino por natureza e não o homem. Poderia explicar?
RG – Penso que o indivíduo não é assassino em sua natureza e, sim, o coletivo. As descobertas coletivas são perigosas em vários aspectos do desenvolvimento humano.
A primeira metade do século 20 foi intensamente bélica. O século 21 traz novos desafios e preocupações, que são o desenvolvimento científico e as descobertas para as quais não estamos novamente preparados.
Acredito que nossa natureza mimética é responsável pela tendência das multidões de focalizar sua violência em um único indivíduo que se transforme, arbitrariamente, no bode expiatório de alguma comunidade. A matança unânime de uma vítima inocente, no passado, pacificava multidões perigosamente perturbadas e tornou possível sua estabilização.
Acredito que o bode expiatório tem um papel essencial na criação e na perpetuação de religiões arcaicas. As culturas arcaicas foram essencialmente a repetição de sacrifícios religiosos, evacuando a violência interna através destas vítimas substitutas. Isto não significa que eu recomende o mecanismo do bode expiatório para a manutenção da paz dentro das comunidades. Uma vez que o ciclo do sacrifício é compreendido, ele perde sua eficácia, como uma arma contra a violência interna.
Os deuses arcaicos, na minha opinião, são vítimas da matança daqueles que põem fim à violência disruptiva e são considerados divindades da violência e da paz.
CULT – Thomas Mann se perguntava: “Não é a paz um elemento de corrupção civil e a guerra purificação, liberação, uma enorme esperança?” O rito sacrificial – o uso da violência para apaziguar ânimos – vem sendo há muito tempo discutido pela literatura universal?
RG – Não concordo que a guerra traga purificação. Na literatura há comentários sobre o comportamento mimético tanto do desejo, quanto da violência. O rito sacrificial é arcaico, é gênese da violência humana. O uso do bode expiatório está presente na literatura, como em Shakespeare, por exemplo.
Esta declaração do jovem Thomas Mann reflete a atitude à época do início da Primeira Guerra e foi compartilhada por muitos ingleses e franceses. Este espírito durou até, aproximadamente, 1916. Estas opiniões sofreram mudanças extremas devido às terríveis perdas da guerra e do progressivo aumento do poder militar.
Mann era muito comprometido e leal às ideias antinazistas e perdeu sua crença no poder enobrecedor do aparato de guerra. Concordo com o Thomas Mann mais velho. No futuro, ou não haverá nenhuma guerra como aquelas do século 20, ou nós veremos a destruição da civilização.
CULT – Em Coisas ocultas desde a fundação do mundo, o senhor diz que os ritos sacrificiais perderam força sob influência do judaísmo e do cristianismo. No que concerne à relação entre Israel e Palestina, existe o uso do mecanismo sacrificial?
RG – Devemos tentar ver todos os conflitos e guerras que temos hoje sob a ótica do mecanismo mimético. Mimesis tanto do desejo, quanto do uso da violência. No cristianismo, quebra-se o ciclo. Cristo oferece a outra face e redime seus algozes. Não busca vingança, não derrama mais sangue. É pela cruz, pelo amor, que se dá a interrupção do ciclo de violência. O cristianismo mostrou que a sociedade humana produzia vítimas únicas. A crucificação desobstruiu o caminho para o entendimento do processo da vítima expiatória.
CULT – Mimetizamos o desejo e também a violência? Ou, ao mimetizar o desejo, criamos a violência?
RG – Sim, as duas sentenças estão corretas. Criamos rivalidade na mimesis, competindo pelo mesmo objeto, desejando os desejos do nosso modelo, o outro. Esta admiração velada do prestígio do outro, do que o outro possui, é a constatação clara de ser insuficiente. Constatação esta muito angustiante e incômoda. Já o modelo, o intermediário, não é passivo dentro deste mecanismo. Pelo contrário, faz de tudo para provocar o desejo do outro sobre seu objeto. Pois, que valor tem o objeto, senão pelo desejo de outrem? Este é o ciclo infernal do desejo. E também dos conflitos.
CULT – Para Freud, o mal-estar do homem moderno ocorreria devido à repressão de sua violência natural, que gera outros problemas de ordem interna e também conflitos sociais de diferentes naturezas. A teoria de Freud não vem de encontro à sua?
RG – Sim, há uma oposição entre as ideias de Freud e as minhas. Muitos diriam que tanto na repressão da libido em Freud, quanto no uso do mecanismo de vítimas arbitrárias para aplacar explosões, reside uma ideia similar. Mas não concordo com Freud e com sua teoria de que tudo está relacionado ao desejo sexual. Freud justifica todo comportamento humano baseando-se nesta ideia. Ele foi o primeiro a ver a profunda influência que uma pessoa tem sobre a outra. Mas discordo de sua visão de que a influência dos pais delinearia a personalidade. A visão de Freud ficou muito restrita ao período em que viveu, no qual predominava um certo tipo de estrutura familiar.
CULT – E quanto àqueles que somente desejam o impossível? Ou, como disse Kierkegaard, “cometem o pecado capital de não querer nada profunda e autenticamente”?
RG – Minhas ideias estão bem mais próximas às de Kierkegaard do que foi visto nas entrevistas que dei e nos artigos escritos sobre minha obra. Para mim, o desejo do impossível e o não-desejo ainda estariam de acordo com mecanismos miméticos.
Kierkegaard constatou, em sua análise dos três estágios do ser, a presença de um homem que se escora no outro. Possuindo um vazio existencial aterrador, ele procura na observação do outro, do que o outro possui, do que o outro aparenta, uma forma de saber quem é e como sentir-se pleno. Portanto, para ser ele mesmo, este homem necessita tomar conhecimento do outro, como no mecanismo do desejo mimético, onde este desejo somente se faz possível pela intermediação do que é e deseja um outro.

sexta-feira, outubro 01, 2010

Insights with Rene Girard




. Whatever the distinctions made between forms of desire, for Girard all desire is properly speaking mimesis or mimetic desire. He has emphasized the acquisitive aspect of desire in identifying cultural and personal crises, and this acquisitive desire (la mimésis d'appropriation) is the precipitating dynamic in the founding scenario. Its initial functioning is prior to all representations; but since it is, even in its embryonic stage, evoked by the other who becomes the model, it easily becomes unstable when pressures on the human grouping, or any particular relations within it, accelerate an anxious groping for certainty and order. It is in some such situation that acquisitive desire leads to conflict and rivalry, issuing then in violence.

Rene Girard




Entrevista – René Girard

Publicado em 31 de março de 2010

Para o filósofo e historiador francês, a tendência das multidões é canalizar a violência coletiva em um único indivíduo

Melissa Antunes de Menezes

“A concepção romântica do desejo é ilusória”, afirma René Girard, 85, membro da Academia Francesa e professor de Literatura Francesa na Universidade de Stanford. Sua teoria do desejo mimético indica que entre o sujeito e o objeto não existe somente o desejo, mas também o modelo, o mediador do desejo, ou o rival. O conceito de mimesis aqui estabelece o ponto central da articulação. Desde as sociedades primitivas, o desejo mediado é o desejo causador dos conflitos. Pela imitação, aprendemos a falar, a andar e a desejar. E, pela imitação do desejo alheio, competimos e rivalizamos, dando início a um ciclo de violência, capaz de se atenuar pelo sacrifício, neste caso, de uma vítima que acaba por aliviar as tensões do coletivo, reestabelecendo a paz momentânea. Torna-se inevitável, dentro deste esquema, que também o ciúme e a inveja façam parte da mimesis do desejo.

Radicado nos Estados Unidos há mais de 50 anos, Girard estudou o Antigo Testamento sob a ótica sociológica e vê no cristianismo a primeira religião que consegue amenizar a violência pelo expediente da crucificação.

Nesta entrevista, concedida com exclusividade à CULT, o historiador fala sobre alguns dos temas presentes naquele que é considerado seu mais importante livro, Coisas ocultas desde a fundação do mundo, publicado originalmente em 1978 e lançado neste mês pela editora Paz e Terra. Nele, Girard aprofunda, através de diálogos com dois psiquiatras franceses, suas hipóteses sobre a violência, o desejo e a representação do sagrado, desenvolvidas a partir de temas de seu livro anterior, A violência e o sagrado.

CULT – Fala-se muito hoje em violência. Mas não vivemos uma época em que há maior controle social e cultural da violência do que em qualquer outro período da história?

René Girard – Temos um grande controle da violência no que se refere ao local. Entretanto, as pessoas não estão cientes da violência em si. A mediação externa resolve o problema da violência de forma imperfeita porque o faz através de uma vítima. Considero que temos paz no âmbito individual, mas a ameaça está no coletivo. Tanto o rito quanto a proibição somente adiam a explosão da violência.

Sistemas religiosos como o cristianismo atuam no sentido de conscientizar sobre o uso da vítima expiatória. E não existe uso deste mecanismo de forma consciente. O bode expiatório é inconsciente, ou não é.

Em um nível exponencialmente maior, estamos lidando hoje com a possibilidade da destruição total, do uso da violência em termos absolutos, através do crescente desenvolvimento de tecnologias novas como a nanotecnologia — manipulação de partículas que podem desencadear reações de potencial altamente destrutivo.

CULT – Assim como Peter Gay, o senhor afirma que o coletivo é assassino por natureza e não o homem. Poderia explicar?

RG – Penso que o indivíduo não é assassino em sua natureza e, sim, o coletivo. As descobertas coletivas são perigosas em vários aspectos do desenvolvimento humano.

A primeira metade do século 20 foi intensamente bélica. O século 21 traz novos desafios e preocupações, que são o desenvolvimento científico e as descobertas para as quais não estamos novamente preparados.

Acredito que nossa natureza mimética é responsável pela tendência das multidões de focalizar sua violência em um único indivíduo que se transforme, arbitrariamente, no bode expiatório de alguma comunidade. A matança unânime de uma vítima inocente, no passado, pacificava multidões perigosamente perturbadas e tornou possível sua estabilização.

Acredito que o bode expiatório tem um papel essencial na criação e na perpetuação de religiões arcaicas. As culturas arcaicas foram essencialmente a repetição de sacrifícios religiosos, evacuando a violência interna através destas vítimas substitutas. Isto não significa que eu recomende o mecanismo do bode expiatório para a manutenção da paz dentro das comunidades. Uma vez que o ciclo do sacrifício é compreendido, ele perde sua eficácia, como uma arma contra a violência interna.

Os deuses arcaicos, na minha opinião, são vítimas da matança daqueles que põem fim à violência disruptiva e são considerados divindades da violência e da paz.

CULT – Thomas Mann se perguntava: “Não é a paz um elemento de corrupção civil e a guerra purificação, liberação, uma enorme esperança?” O rito sacrificial – o uso da violência para apaziguar ânimos – vem sendo há muito tempo discutido pela literatura universal?

RG – Não concordo que a guerra traga purificação. Na literatura há comentários sobre o comportamento mimético tanto do desejo, quanto da violência. O rito sacrificial é arcaico, é gênese da violência humana. O uso do bode expiatório está presente na literatura, como em Shakespeare, por exemplo.

Esta declaração do jovem Thomas Mann reflete a atitude à época do início da Primeira Guerra e foi compartilhada por muitos ingleses e franceses. Este espírito durou até, aproximadamente, 1916. Estas opiniões sofreram mudanças extremas devido às terríveis perdas da guerra e do progressivo aumento do poder militar.

Mann era muito comprometido e leal às ideias antinazistas e perdeu sua crença no poder enobrecedor do aparato de guerra. Concordo com o Thomas Mann mais velho. No futuro, ou não haverá nenhuma guerra como aquelas do século 20, ou nós veremos a destruição da civilização.

CULT – Em Coisas ocultas desde a fundação do mundo, o senhor diz que os ritos sacrificiais perderam força sob influência do judaísmo e do cristianismo. No que concerne à relação entre Israel e Palestina, existe o uso do mecanismo sacrificial?

RG – Devemos tentar ver todos os conflitos e guerras que temos hoje sob a ótica do mecanismo mimético. Mimesis tanto do desejo, quanto do uso da violência. No cristianismo, quebra-se o ciclo. Cristo oferece a outra face e redime seus algozes. Não busca vingança, não derrama mais sangue. É pela cruz, pelo amor, que se dá a interrupção do ciclo de violência. O cristianismo mostrou que a sociedade humana produzia vítimas únicas. A crucificação desobstruiu o caminho para o entendimento do processo da vítima expiatória.

CULT – Mimetizamos o desejo e também a violência? Ou, ao mimetizar o desejo, criamos a violência?

RG – Sim, as duas sentenças estão corretas. Criamos rivalidade na mimesis, competindo pelo mesmo objeto, desejando os desejos do nosso modelo, o outro. Esta admiração velada do prestígio do outro, do que o outro possui, é a constatação clara de ser insuficiente. Constatação esta muito angustiante e incômoda. Já o modelo, o intermediário, não é passivo dentro deste mecanismo. Pelo contrário, faz de tudo para provocar o desejo do outro sobre seu objeto. Pois, que valor tem o objeto, senão pelo desejo de outrem? Este é o ciclo infernal do desejo. E também dos conflitos.

CULT – Para Freud, o mal-estar do homem moderno ocorreria devido à repressão de sua violência natural, que gera outros problemas de ordem interna e também conflitos sociais de diferentes naturezas. A teoria de Freud não vem de encontro à sua?

RG – Sim, há uma oposição entre as ideias de Freud e as minhas. Muitos diriam que tanto na repressão da libido em Freud, quanto no uso do mecanismo de vítimas arbitrárias para aplacar explosões, reside uma ideia similar. Mas não concordo com Freud e com sua teoria de que tudo está relacionado ao desejo sexual. Freud justifica todo comportamento humano baseando-se nesta ideia. Ele foi o primeiro a ver a profunda influência que uma pessoa tem sobre a outra. Mas discordo de sua visão de que a influência dos pais delinearia a personalidade. A visão de Freud ficou muito restrita ao período em que viveu, no qual predominava um certo tipo de estrutura familiar.

CULT – E quanto àqueles que somente desejam o impossível? Ou, como disse Kierkegaard, “cometem o pecado capital de não querer nada profunda e autenticamente”?

RG – Minhas ideias estão bem mais próximas às de Kierkegaard do que foi visto nas entrevistas que dei e nos artigos escritos sobre minha obra. Para mim, o desejo do impossível e o não-desejo ainda estariam de acordo com mecanismos miméticos.

Kierkegaard constatou, em sua análise dos três estágios do ser, a presença de um homem que se escora no outro. Possuindo um vazio existencial aterrador, ele procura na observação do outro, do que o outro possui, do que o outro aparenta, uma forma de saber quem é e como sentir-se pleno. Portanto, para ser ele mesmo, este homem necessita tomar conhecimento do outro, como no mecanismo do desejo mimético, onde este desejo somente se faz possível pela intermediação do que é e deseja um outro.

domingo, dezembro 27, 2009

RENE GIRARD: A violência e o Sagrado


O SACRIFÍCIO


"a própria violência vai deixá-las de lado, assim que o objeto inicialmente visado sair de seu alcance e continuar a provocá-la. A violência não saciada procura e sempre acaba por encontrar uma vítima alternativa" p. 14
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CAIM E ABEL
"Só é possível ludibriar a violência fornecendo-lhe uma válvula de escape, algo para devorar. Talvez seja este, entre outros, o significado da história de Caim e Abel. O texto bíblico oferece uma única precisão sobre os dois irmãos. Caim cultiva a terra e oferece a Deus os frutos de sua colheita. Abel é um pastor e sacrifica os prmogênitos de seu rebanho. Um dos irmãos mata o outro, justamente o que não dispõe deste artifício contra violência, o sacríficio animal. Esta diferença entre o culto sacrificial e o culto não-sacrificial é na verdade inseparável do julgamento de Deus em favor de Abel. Dizer que Deus acolhe favoravelmente os sacríficios de Abel, o que não ocorre com as oferendas de Caim, é redizer em outra linguagem, a do divino, que Caim mata seu irmão, ao passo que Abel não o mata".p. 17
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"A substituição sacrificial pressupõe um certo desconhecimento. Enquanto permanece vivo, o sacrifício não pode tornar explícito o deslocamento no qual se baseia. Mas eletambém não pode esquecer completamente nem o objeto inicial, nem o deslizamento realizado deste objeto para a vítima realmente imolada" p. 18
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"O sacrifício polariza sobre a vítima os germens de desavença espalhados por toda parte, dissipando-os ao propor-lhes uma saciação parcial" p.21
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"O princípio da substituição sacrificial baseia-se na semelhança entre as vítimas atuais e as vítimas potenciais, e essa condição pode ser perfeitamente preenchida, quando, nos dois casos, trata-se de seres humanos. O fato de que algumas sociedades tenham sistematizado a imolação de certas categorias de seres humanos com o objetivo de proteger as outras categorias não tem nada de supreendente" p. 25
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"O desejo de violência é dirigido aos próximos; mas como ele não poderia ser saciado às suas custas sem causar inúmeros conflitos, é necessário desviá-lo para a a vítima sacrificial, a única pode ser abatida sem perigo, pois ninguém irá desposar sua causa" (...) Os homens obtem tanto mais exito na eliminação da violência quanto mais este processo de eliminação não for reconhecido como seu, mas sim como um imperativo absoluto, como a ordem de um deus cujas exigências são tão terríveis quanto minuciosas. O pensamento moderno, ao expulsar completamente o sacríficio para fora do real, continua a ignorar sua violência" p.27
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"A vingança constitui portanto um processo infinito, interminável. Quando a violência surge em um ponto qualquer da comunidade, tende a se alastrar e a ganhar a totalidade do corpo social, ameaçando desencadear uma verdadeira reação em cadeia, com consequencias rapidamente fatais em sua sociedade de dimensões reduzidas. A multiplicação das represálias coloca em jogo a própria existência da sociedade. Por este motivo, onde quer que se encontre, a vingança é estritamente proibida" p.28
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"O sacrifício oferece ao apetite de violência , que a vontade ascética não consegue saciar, um alívio sem dúvida momentâneo, mas indefinidamente renovável, cuja eficácia é tão sobejamente reconhecida que não podemos deixar de levá-la em conta. O sacrifício impede o desenvolvimento dos germens de violência, auxiliando os homens no controle da vingança" (...) A hipotese que levantamos confirma-se: é as sociedades desprovidas de sistema judiciário, e por isso mesmo ameaçãdas pela vingança que o sacrifício e rito em geral devem desempenhar um papel essencial. Mas é incorreto afirmar que o sacrifício subtitui o sistema judiciário. Em primeiro lugar, porque é impossível substituir algo que com certeza nunca existiu, e em seguida porque, na ausência de uma renúncia voluntária e unânime a quqlquer violência, o sistema judiciário é insubstituível em seu domínio". p.32
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Nas sociedades primitivas não exite, entre a não-violência e a violência , o freio automático e onipotente de instituições que nos determinam tão mais intensamente quanto mais seu papel é esquecido (...) O religioso primitivo domestica a violência, regulando-a, ordenando-a e canalizando-a para utilizá-la contra qualquer forma de violência propriamente intolerável. em um ambiente geral de não-violência e apraziguamento. Ele define uma estranha combinação de não-violência e violência. p.34
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O sistema judiciário racionaliza a vingança, conseguindo dominá-la e limitá-la a seu bel-prazer . Ele a manipula sem perigo , transformando-a em uma tecnica extremamente eficaz de cura e secundariamente de prevenção da violência" p. 36

sexta-feira, agosto 28, 2009

RENE GIRARD: O Bode Expiatório


2. OS ESTEREÓTIPOS DA PERSEGUIÇÃO

"As perseguições que nos interessa, se desenvolvem de prefêrencia em períodos de crise que provocam o enfraquecimento de instituições normais e favorecem a formação de multidões, isto é, de ajuntamentos populares espontâneos, suscetíveis de substituir instituições enfraquecidas ou de exercer uma pressão decisiva sobre elas" p. 19
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"Os perseguidores acabam sempre por se convencer de que um pequeno número de indíviduos ou até mesmo um só pode tornar-se extremamente nocivo para a toda a sociedade, apesar de sua relativa fraqueza. É a acusação estereotipada que autoriza e facilita esta crença, desempenhando com toda evidência um papel mediador. Ela serve de ponto entre a pequenez do indivíduo e a enormidade do corpo social"(...) "Os membros da multidão são sempre perseguidores em potência, pois sonham purificar a comunidade de elementos impuros que a corrompem, de triadores que a subvertem. "p. 23
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"Em todo lugar o vocabulário dos preconceitos tribais, nacionais, etc exprime o ódio, não da diferença, mas da privação. Não é o outro nomos qe se vê no outro, mas a anomalia, não é a outra norma, mas a anormalidade; o enfermo se torna disforme, o estrangeiro se torna apátrida(...) Em nossos dias, por exemplo, o anti-americanismo crê diferir de todos os preconceitos anteriores porque esposa todas as diferenças contra o vírus indiferenciador de proveniência exclusivamente americana" (p. 31).
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"Contrariamente ao que se repete ao nosso redor, não é nunca a diferença que aborrece os perseguidores, e sim seu contrário indizível, a indiferenciação" (p. 32).
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CAP. 2- O QUE É UM MITO?
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"A cada vez que um testemunho oral ou escrito relata violências direta ou indiretamente coletivas, nós nos perguntamos se ele igualmente relata: 1. a descrição de uma crise social e cultural , ou seja, de uma indiferenciação generalizada- primeiro estereótipo, 2. crimes indiferenciadores- segundo estereótipo, 3. se os autores mencionados desses crimes possuem marcas de seleção vitimária, marcas paradoxiais de indiferenciação- terceiro estereótipo". (p.33)

quinta-feira, maio 06, 2004

Uma cabeça no prato e famílias sendo degoladas.



Desenvolvendo uma ideia do livro “O Bode Expiatório” de René Girard quero aproveitar a semana do Dia das Mães e falar da importância dela, dos pais como modelos de imitação para aqueles que ainda não sabem nada, que tem neles o primeiro ideal de vida.

Girard desenvolve sua teoria no episódio da degolação de João Batista em Mc 6,17-29 e estabelece ligações com a passagem que Cristo diz em Mateus 18,5-6: “E aquele que receber uma criança como esta por causa do meu nome, recebe a mim. Caso alguém escandalize um destes pequeninos que crêem em mim, melhor será que lhe pendurem ao pescoço uma pesada mó e seja precipitado nas profundezas do mar”.

A criança tem naqueles que estão por derredor delas, modelos de bondade e de maldade que elas irão seguir ou padronizar por toda vida, assim como os alunos têm nos mestres os moldes da sabedoria e da maldade.

Em Marcos, temos uma família construída sobre um adultério, sobre a cova de um irmão e um profeta que escandaliza, que serve de pedra de tropeço para que essa “família real” viva feliz para sempre. Herodes mandara acorrentar João Batista por que esse opunha a união dele com a irmã de seu irmão morto, Filipe (Mc 6,17-18). Heroídes, incapaz de dar plena felicidade ao novo amado via em João Batista, a causa da infelicidade e não no seu pecado, quando estamos numa situação de pecado, a igreja sempre parece um mal, e aqueles que falam a verdade de nossa situação são as pessoas a serem evitadas, pessoas a serem esquecidas da consciência, pessoas que queríamos “matar mas não podemos” (Mc. 6,19) pois o Espírito Santo sempre está nos lembrando do pecado por mais que não queremos.

Herodes, aquele que tem poder para exterminar João Batista está ainda confuso e sente prazer na verdade ainda apesar de toda sua situação pecaminosa, Herodes ainda não negou a verdade por completo, ele precisa ter ofuscamento pleno da luz numa multidão e numa situação aparentemente inocente para que possa revelar qual é realmente o desejo de seu coração.

Eis que surge a filha de Heriades, a canalizadora dos desejos paternais, aquela que vai assumir em si as maldades que tanto tempo vem sendo cultivadas naquele seio familiar, por isso, Cristo diz, aquele que escandalizar um desses pequeninos será pendurada sobre o pescoço uma pesada mó, o desejo do pecado dos pais se tornará a corda mais apertada sobre o pescoço, e revela toda a imundícia que é a família.

A filha dança perante o rei e seus convidados ilustres, fascinado pela dança da menina, ele oferta a ela o que foi ofertado a Ester, mas agora a conseqüência não será mais a salvação, mas a perdição de toda a família, ele oferece a menina metade do reino ou qualquer outra coisa.

Ela é uma criança, não tem desejos a não ser aqueles que são lhe dados, então, ela não sabe o que pedir ao rei Herodes, corre a mãe, que não tem outro objeto de desejo no coração senão a morte do profeta, eis o que ela pede a cabeça do profeta, pede a sua morte.

A filha não só compreende o pedido, como o aumenta com uma maldade incapaz ded ser imaginada pelos pais, de ser o objeto do pedido não apenas a morte, mas literalmente a cabeça mesma ser servida num prato. Na filha não há qualquer filtro de consciência, ela simplesmente aprendeu o mal, por isso ela toma a maldade como literal, o mal é toda realidade que ela conhece e deseja, os conflitos paternos não existem para ela. Ela não conhece a bondade do profeta, apenas conhece que ele é um empecilho para a felicidade egoística da mãe.

Muitas vezes, a maldade dos pais não é diluída e desaparece nos filhos, ela toma proporções maiores, a corda pesa mais e mais, o a satisfação que o pecado não tem fim até que venha a morte que se banaliza e entorpece mais ainda as mentes das crianças (o prato).

Como acabar com esse crescimento? A semente do mal deve ser precipitada nas profundezas do mar( Mt 18,6) para que lá não semeia nada a não ser esquecimento.

Contudo, Herodes no meio da multidão acata o pedido da menina mesmo que triste. A multidão, lembra Girard, tem um papel importante porque quanto mais indeferenciado estamos, mais a nossa violência dos nossos pecados que parece a nossos olhos sumir no meio de tanta gente são revelados.

A lição é o aquilo que a mãe e o pai deseja é importantíssimo para a vida familiar, pois aquele desejo é que vai alimentar o filho, é aquela esperança de felicidade que vai mover a família e dizer se ela está colocando uma corda sobre o pescoço dos filhos apressando a morte deles ou colocando-os com os olhos fitos naquele que devemos receber em nosso lar que é Cristo (Mt.6,5), a criança deve ser recebida como Cristo, aquele que é a Verdade (I Co 13,6) e Amor(I Co 13,13), numa família onde a justiça, paz e alegria são as bases, lá será o Reino de Deus( Rm 14,17) e o Reino de Deus é o lugar onde Cristo pode ser recebido. Se os pais precisam de modelo familiar, lembre-se de S. Paulo “Sede meus imitadores, como eu mesmo sou de Cristo”(I Co 11,1), afinal Cristo também é o Caminho.