sexta-feira, novembro 16, 2012

Estante lida - Out/12

Esta postagem busca ajudar pessoas a ler compartilhando as leituras que estou fazendo.

Livros comprados em Outubro:
Os desafios de Jesus de N.T.Wright
Seguindo Jesus de N.T.Wright
O Caminho do Peregrino de N.T. Wright
O Deus que eu não entendo de Christopher J. Wright
Chazown de Craig Groeschell
O Campo e a Cidade de Raymond Williams
O Espírito da Prosa de Cristovão Tezza



Livros lidos em Outubro:
A caixa-preta de Darwin de Michael Behe
A vida cristã normal de Watchman Nee
How to read a book like a professor de Thomas C. Foster
Manual do Diácono de Claudionor Correa de Andrade
O Espírito da Prosa de Cristovão Tezza
O Evangelho e a Evangelização de Mark Dever

Quase-lidos em Outubro:
Chazown de Craig Groeschell



1. Como defender Deus? (2)



Terminei a fase de leitura apologética, lendo A Caixa-preta de Darwin de Michael Behe. O livro não é propriamente apologético, ou seja, religioso. A caixa preta é a bioquímica moderna e a impossibilidade da teoria darwiniana de responder perguntas ou mesmo de ser uma teoria válida.

Behe faz uma defesa do desenho inteligente, o livro deve ser ótimo para as pessoas da área da biologia, confesso que pulei muitas explicações dos processos. Deixe-me citar o fim do livro para vocês terem uma impressão do livro:

"Agora chegou a vez de a ciência fundamental da vida, a bioquímica bagunçar um pouco as coisas. A simplicidade que antes se considerava o alicerce da vida revelou-se uma ilusão; em vez disso, sistemas de complexidade irredutível, espantosa, residem na célula. A compreensão resultante de que a vida foi planejada por uma inteligência é um choque para nós no século XX, que nos acostumamos a pensar nela como resultado de leis naturais simples. Outros séculos, porém, também tiveram seus choques, e não há razão para pensar que deveríamos escapar deles. A humanidade continuou, enquanto o centro dos céus passava da Terra para além do Sol, à medida que a vida se expandia para abranger repteis há longo tempo extintos, na proporção em que o universo eterno mostrou que era mortal. Nós sobreviveremos à abertura da caixa-preta de Darwin" p. 254

O livro é bastante indicado para aqueles que leram Dawkins e acham que possuem todas as respostas.

2. Literatura, fazer e ler.


Em O Espírito da Prosa, Cristovão Tezza traça uma autobiografia literária, fala das suas dificuldades para escrever e seu processo de amadurecimento em escrever. O título da prosa mostra os limites da escrita atual desde Bakhtin, que é somente a prosa.

Sobre ler literatura, terminei depois de meses de para e retorna, How to read a book like a professor de Thomas C. Foster, é um livro de auto-ajuda literária. Mostra que nem tudo que está num livro é o que parece. É divertido e até interessante. A chuva nunca é uma chuva e uma dor no peito pode estar relacionada com alguma dor mais sentimental que fisiológica.


3.Clássico cristão?


Como é duro ler Watchman Nee, o livro A Vida Cristã Normal fala sobre o capítulo mais complexo do apóstolo Paulo, Romanos 6. Nee tem toda uma linguagem alegórica. Num resumão geral, ele coloca que a cruz resolveu o problema do pecado do ser humano, nossa natureza decaída e o sangue resolveu o problema dos pecados, ou seja, da culpa que tínhamos em relação a Deus.

Meus problemas com Nee é que ele tem um modo pessoal de teologia, seus conceitos de salvação, redenção e justificação não seguem a tradição reformada, são próprios. Mas, o livro é um clássico cristão sim! Vale a pena ler e reler até tentar entender.




4. Duro mesmo?


Craig Groeschell é um líder de uma das maiores igrejas nos EUA, a life-church.tv, mas seu livro Chazown é muito muito ruim, não deu para continuar....Não compre, nem para arriscar a ler!

Outra coisa que é dura também é ler Mark Dever. Seu livro o Evangelho e a Evangelização não é ruim, nem ótimo. Na mesma linha, Church Planter do Darrin Patrick é bem melhor.

5. Tom Wright é sempre Tom Wright!


Em Os Desafios de Jesus, N.T. Wright coloca as questões que a vida de Jesus e o judaísmo do primeiro século colocam para seu discípulo hoje. Wright repensa as expectativas da vida cristã, como sempre, ele não anda na companhia de muitos, leva a reflexão sobre como Jesus via sua missão e como, a partir daí, devemos ver.

O subtítulo em português, a escolha de ser um verdadeiro seguidor de Jesus,  pode enganar o leitor. Não se trata de um manual de discipulado, antes de obra devocional, é uma introdução teológica a questões sobre a missiologia cristã

Jesus é apresentado como um profeta do reino de Deus, que substitui em si mesmo, o templo e a torá judaica. Trata o arrependimento como uma questão nacional. A ressurreição é vista no contexto da promessa de redenção para todo o mundo.



"A questão é que o Reino anunciado por Jesus apresentava um novo mundo, em um novo contexto, desafiando seus ouvintes a serem novas pessoas que desafiariam seus contemporâneos a viverem um novo estilo de vida, um estilo que valorizasse o perdão, a oração, e celebração da vida, coisas que poderiam ser praticadas no lugar onde eles viviam, sem que eles precisassem partir para qualquer lugar" p. 51

Ralf K Wustenberg: Cristologia

Ralf K Wustenberg   Cristologia: como falar hoje sobre Jesus. Editora Sinodal

O livro é construído em cima de cinco objeções à mensagem de Jesus como o Cristo:

a. objeção da intolerância - pluralismo religoso.
b. objeção científica: a historicidade de Jesus.
c. objeção existencial-espiritual: a frieza da cristologia
d. objeção iluminista-humanista: Como conciliar a morte de Jesus com um Deus bom?
e. objeção da teologia feminista: como homem Jesus pode salvar?


a. Cristologia num mundo plural de validades iguais.


O autor coloca algumas respostas para a questão do relacionamento entre o cristianismo e as outras religiões. 

1. Exclusivismo.

Karl Barth aparece como o defensor desta posição no sec. 20, Deus não pode ser reconhecido, a não ser que ele se dê a conhecer anteriormente por meio da revelação, esta autocomunicação de Deus se consuma exclusivamente em Jesus Cristo.


2. Pluralismo relativista.

Para John Hick, as religiões são meios diferenciados do transcendente, que servem para conduzir as pessoas num processo designado por ele de soul-making, que vai de uma existência self-centredness para uma existência reality-centredness.

"Jesus é reduzido a um catalisador para a nossa relação com o transcendente, uma função que tambem pode ser desempenhada por outras figuras religiosas" p. 21

3. Inclusivismo.

Todas religiões precisam ser entendidas sob a ótica cristã, Karl Rahner fala aqui em um cristianismo anônimo, Ernst Troeltsch em estrutura inicial de todas as coisas, Paul Tillich em Deus como razão da existência.

4. Pluralismo posicional 
"Absoluto para a fé cristã é só o próprio Deus, cuja essência é a verdade. Toda verdade, independentemente de onde seja deduzida, é rigorosamente relativa em relação à verdade que é Deus" p. 23

b. Cristologia num mundo de progresso e da ciência histórica.


Jesus é só uma quimera de fantasistas religiosos? Há dois fatos que não podem ser questionados: a crucificação de Jesus em Jerusalém e os relatos que de Jesus apareceu vivo  após a sua morte.

A grande questão é a tentativa de desassociar Jesus de Nazaré de Jesus Cristo. A pergunta que o próprio Jesus fez em Mateus 16:15.  A cristologia é assunto de fé ou é um ensino histórico-científico?

A questão do Jesus histórico começou em 1778, quando Reimarus no livro de Lessing (Von dem Zwecke Jesu und seiner Junger) apresentava Jesus como um profeta fracassado, executado com essa característica pelas autoridades romanas. O cadáver teria sido roubado pelos seus discípulos, os quais começaram um mito em torno do morto.

Wustenber dá como exemplo a filiação divina de Jesus para os quatro modelos de hipóteses  do relacionamento entre fé e história:

1.na nomeação para filiação designada pela ressurreição segundo Rm 1:4
2. a vocação para a filiação divina pelo batismo
3. nascimento do Filho de Deus pela virgem Maria
4. a preexistência do Filho de Deus (Jo 1)

Duas heresias estão em jogo aqui, o adocianismo que dizia que no batismo Jesus foi adotado como filho de Deus ( Teodoto de Bizância, 190 d.C.)  e como também o docentismo, que acreditava que Jesus só era aparentemente um verdadeiro ser humano.


c. Cristologia num mundo de busca espiritual.


O questionamento histórico de Jesus levou ao questionamento dos dogmas em torno de sua  pessoa, que relativiza sua divindade. 

Mais tarde, Bultmann pensava que a mensagem cristã deve ser compreensível para as pessoas modernas, assim o revestimento teológico deveria ser traduzido, num projeto de desmitoligização.  Para ele, não interessava nem o Jesus histórico nem o Cristo dogmático.  As formulações cristológicas dos credos se deve à necessidade de expressar a fé cristã na linguagem do helenismo. Ele rejeita a doutrina das duas naturezas.

No Concílio de Niceia, 325 d.C., ficou convencionada a fórmula dogmática de que Jesus foi gerado e não criado, e é de uma natureza com o Pai - homoousios-. Em Jesus aparece o próprio Deus.

Verdadeiramente homem, Cristo pode estar presente num ser humano? Jesus Cristo deve ter sido também igual a nós, pessoas, portanto homoousios com os seres humanos, mas sem pecado.


Divino e humano num só-  alexandrinos Gregório Nazianceno, Basílio e Gregório de Nissa desenvolveram uma doutrina pela qual se deveria contemplar, de um lado, o Logos de Deus e, por outro, o ser humano. Ambos se uniram pelo nascimento de Maria, numa "mistura". 

Divino e humano devem ser mantidos separados segundo os antioquenos, Diodoro de Tarso, Nestório. A unidade das duas naturezas não pode ser pensada como interpenetração natural, já que esta admissão leva à mistura anulando tanto a peculiaridade de Jesus quanto a do Logos. 

O concílio da Calcedônia (451 d.C.) estabeleceu que precisa-se pensar Cristo, que é pleno Deus e ser humano, como um em duas naturezas. 

Não misturadas e não modificadas - contra Eutico - Alexandria.
Não separadas e não divididas - contra Nestório- Antioquia.

"Jesus Cristo não é de forma alguma dedutível conceitualmente. Ele permanece como aquele que não está ao nosso alcance- aos judeus um escandâlo, aos gregos uma loucura (1Co 1,23). O dogma só é verdadeiro enquanto oferecer espaço para o futuro de Jesus predito na Escritura Sagrada, retirando-se, dessa forma, a si próprio na provisoriedade do tempo" (p. 60)

O concílio não pode ser pensado como sub-produto da cultura helenista.

A solução proposta é da proporcionalidade, quanto mais se reconhece Deus em Jesus, mais se reconhece como essencialmente humano.  O dogma não é uma "determinação negativa, vazia" (Harnack), "guardião do segredo que envolve a pessoa de Jesus Cristo" (Wirsching), compromisso político (Simonis).


d. Cristologia num mundo de humanismo e de direitos humanos.


A pergunta do livro é como pode um Deus amoroso encenar a morte de seu filho como se fosse um drama de horror? A resposta está na interpretação do sacrifício oferecido por nós.

Anselmo de Cantuária diz que Jesus reconcilia por meio da satisfação (remoção voluntária da culpa) pelo pecado da humanidade. Sua morte foi necessária. O pecado é para ele que a criatura não serve à vontade de Deus e deixa,assim,de lhe prestar a honra devida. É dirigido contra o próprio Deus - rejeita seu domínio e representa uma infração contra o primeiro mandamento. O ser humano não pode satisfazer a Deus, só um ser superior, que leva necessariamente ao ser humano-Deus Jesus Cristo. Assim, Deus se tornou homem, para se entregar voluntariamente à morte.  A morte de Jesus foi necessária para a purificação das pessoas, pois havia a necessidade de algo que sobrepujasse a grandeza da culpa humana (p. 68-69).

Pedro Abelardo faz uma cristologia da pessoa, coloca no surgimento humano de Deus durante sua existência a revelação do amor de Deus. A reconciliação passa a ser um movimento subjetivo que se realiza no ser humano. Os socianos que levaram adiante a idéia de Abelardo colocam Jesus como exemplo a ser seguido, um processo moral que ocorre no interior das pessoas. Nesta corrente, coloca-se Albrecht Ritschl.

A solução de Calvino, a doutrina do tríplice ofício:

- ofício profético de Jesus terreno como pregador do reino de Deus. Em Cristo, Deus se torna acessível aos homens (revelação)

-ofício real como o domínio pacífico espiritual do exaltado, em Cristo o ser humano é libertado para a vida em comunhão com Deus (redenção)

-ofício sacerdotal em que Cristo oferece na morte o sacrifício para a reconciliação do mundo, em Cristo Deus restabelece a comunhão com o ser humano perdido.

A solução de Lutero se inicia com a humanidade de Cristo, Deus está próximo para a nossa salvação. "A proximidade de Jesus é a proximidade do Logos, bem como do ser humano de Jesus na pessoa de Jesus Cristo. Onde Jesus Cristo está, ali ele também se encontra segundo sua humanidade. Assim, no contexto da teoria da união hipostática,a própria humanidade da pessoa de Jesus Cristo está unida como verdadeira humanidade, direta e não só indiretamente, por meio da pessoa, como a divindade" (p. 77).

Seria a comunicação de propriedades que está em relação com a alegre permuta, Cristo assume nossos pecados por meio da sua morte e nos dá sua justiça em troca.

Bonhoeffer coloca que não se pode diferenciar a obra da pessoa, pois é o "pro me" definição da própria pessoa de Cristo. "Também se poderia formular: a alegre permuta é a essência de Jesus Cristo. O Filho de Deus é definido pelo fato de ser pro me, de colocar-se em meu lugar. Vicariedade e Deus-humanidade se condicionam mutuamente" (p.79-80).

Cristãos estão juntos de Deus no sofrimento dele. Aquela pessoa que não se esquiva desse chamado é um cristão. Assumir a responsabilidade é participação no sofrimento de Deus no mundo. (p.83)


e. Cristologia num mundo de justiça entre os gêneros.


Como o homem Jesus pode redimir? A releitura feminista da Bíblia coloca outra questão na interpretação, a posição patriarcal. Deveria haver uma cristologia pessoal sem qualquer diferenciação de gêneros - Schussler-Fiorenza-.

O que se procura é questionar a mera dimensão teológica da libertação por Jesus Cristo. O assunto está ligado a redenção.

"Ponto de partida da teologia feminista é a tentativa de ganhar, a partir de Jesus, critérios para um novo entendimento da totalidade do ser humano e de sua estética, para uma forma não repressiva de religião e, sobretudo,para uma ética que não seja mais determinada por concepções de domínio masculinas" (p. 86)

A teologia feminista tem uma corrente que possui uma concepção de uma absoluta imanência do divino e da unidade do divino com o homem, o autoconhecimento é conhecimento de Deus, e assim, uma tarefa espiritual.

Outra linha entende a relação entre justificação e santificação num sentido mais particular,  com um viés mais sexista, devendo estar em foco a co-participação dos seres humanos na redenção, há então uma primazia da santificação em relação à justificação, e uma admissão da imanência de Deus, onde "Jesus Cristo é o ser humano paradigmático e, assim, a representação simbólica de graça e redenção, ele é a imanência de Deus" (p.89).

Os problemas levantados pelo autor é que:

a imagem de Deus não é compatível com a Bíblia.
o caminho do conhecimento não é claro
a tensão escatológica é trocada por uma imanência de um novo mundo.

Mais uma vez o autor volta-se para Bonhoeffer, e sua ética das últimas e penúltimas coisas. "a cristologia  transforma-se em modelo para a antropologia (...) a reconciliação com Cristo tem continuidade na vida da comunidade e dos cristãos: a vida dos cristãos transforma-se em agir vicário. Tornar-se um Cristo para o próximo significa sempre também entrar em uma troca com os sofredores e marginalizados, participar do sofrimento de Deus no mundo"(p.96). Isto só pode ser pensado a partir da encarnação.

As últimas e penúltimas coisas é uma interpretação de Bonhoeffer para a ética política de Lutero da doutrina dos dois reinos.  As coisas penúltimas são tudo aquilo que necessita de redenção, justificação e libertação: sofrimento,opressão, tornar-se culpado.  Para Bonhoeffer trata-se de algo que veio a ser, dinâmico e não estático como em Lutero.

As coisas últimas significa rompimento com as penúltimas, que são julgadas e rompidas, aí é o tempo da graça.

"A pessoa do cristão se transforma em um Cristo para seu próximo, entra numa alegre permuta com o que sofre. Cristologia da libertação de acordo com Bohoeffer (e Lutero) é, portanto, sempre ambas as coisas: exclusiva e inclusiva; exclusiva, contanto que o Filho de Deus sofra ( e seja ressuscitado); conclusiva, contanto que Cristo insira o cristão no cossofrimento (bem como também no horizonte da ressurreição e libertação)." (p.103)

A teologia de Bonhoeffer deixa os sofrimentos de Cristo entrarem na vida como um horizonte interpretativo e é justamente na falta de sentido de todo sacrifício após jesus que levanta a pergunta do por quê. Assim, os cristãos são desafiados a participar dos sofrimentos de Cristo no mundo, mas não há aqui uma cooperação para a redenção, porque ela provém de Deus. O que se vê são sinais  da libertação advinda de Deus. 

"Trata-se da esperança de que Deus não deixa o mundo só, mas o conduz à sua vocação, fundamentado na esperança de transformação por ele provocada e que já tem reflexo no aqui e agora" (p.104).

Numa última crítica ao feminismo, o autor diz que "em sua crítica ao monoteísmo bíblico e  à cristologia do Filho, o feminismo teológico radical corresponde surpreendentemente às características neopagãs da modernidade pós moderna"  (p.108).

Conclusão...


"Jesus Cristo é sempre diferente da imagem que se faz dele, seja ela partiarcal ou matriarcal. Isso justamente ensina a cristologia clássica com sua rejeição de afirmações positivas a respeito de Jesus Cristo. Ele permanece um mistério em sua pessoa. Se, entretanto, é verdade que com Jesus Cristo veio coisa nova e decisiva para a vida dos crentes individuais e de todo o mundo, então não vale a pena só refletir sobre ele, vale também a pena aceitar os desafios e encorajar para falar teologicamente sobre Jesus bem hoje" (p.112)

























quinta-feira, novembro 08, 2012

Carlos McCord: A Vida Que Satisfaz



Seguindo o Grupo Permanecer de Leitura, agora nós vamos ler o livro do Pastor Carlos McCord, A Vida que Satisfaz. Conheci o pastor Carlos em 2005 num work shop que ele realizou durante o Louvale. Por meio dele, descobri o que é permanecer, fiquei conhecendo Mike Wells tanto pelos livros como mais tarde pessoalmente. 

Este livro pode ser chamado de uma apresentação daquilo que é mais básico e vital que se encontra nas Escrituras, o permanecer. O convite de Jesus para cada um de nós de obtermos vida na vida dEle a partir da realidade-metáfora da Videira, que se encontra no texto bíblico de João 15.  Como ele mesmo diz na introdução:

"Este livro não é sobre o que está faltando. Aquilo que parece estar faltando, na realidade, não está. Este livro é sobre o que você já possui. Talvez um bom título para ele fosse: O livro para o cristão que já tem tudo. Ainda assim, muitos não o leriam por acreditar que ainda lhes falta alguma coisa" p. 19

Capítulo 1: A Videira.


A presença perfeita de Jesus transforma todas as coisas. 

Pensando a partir de Mateus 7:24-25, João 4:13-14; 6:35 e 15:5, podemos ver que Jesus nos diz que é capaz de dar a cada um de nós uma fonte de satisfação plena, saciando o ser humano e capacitar para dar o fruto que Deus deseja.

A presença de Jesus muda tudo?  Se a presença de Jesus fosse retirada de nossas vidas faria alguma diferença? Para os primeiros discípulos, a ausência de Jesus era a ausência do cristianismo. 

McCord nos lembra que hoje temos muita coisa que parece ser indispensável - bíblias, disciplinas, receitas, denominações, propriedades, membros-, mas será que alguém precisa de outra coisa além da presença de Cristo para ser um cristão ou para viver a vida cristã?

Se o cristianismo é Jesus, quem tem a Jesus não tem falta de nada.

Tudo que temos deve apontar para Jesus. McCord lembra o sistema católico romano que não considera a obra perfeita de Jesus na Cruz. 


"Dentro do pensamento católico, com o passar do tempo, com a ajuda da igreja e com o  esforço pessoal de cada cristão, os méritos de Jesus podem vir e se tornar suficientes para a salvação...eventualmente. Ainda assim, nenhum verdadeiro discípulo desse sistema ousaria declarar sua certeza pessoal de salvação. por que é assim? Porque lhes parece que cometeriam o pecado do orgulho ao fazer tal afirmação e esse orgulho significaria que estão realmente muito longe de alcançar o céu" p. 25
Devemos ver a perfeição de Jesus como a provisão de Deus para cada um de nós no Calvário. Jesus é perfeitamente suficiente agora. Esta é a certeza que cada cristão pode ter. 

O problema da igreja hoje é que conhece a Jesus como perfeito Salvador, mas o considera incapaz para vida cristã e o discipulado, deixando escapar a perfeição de Jesus presente em cada um nós. O que nós criticamos os católicos no que se refere a salvação, fazemos no discipulado.

Quando experimentamos o poder libertador da perfeita presença de Jesus em nós, isto se chama permanecer e passamos a acreditar que todo cristão pode e deve ser como Jesus, a Videira, agora! Por causa de João 15, a capacidade de sermos como Jesus está em nós agora e você pode recebê-la e compartilha-la como fruto.


"Esse perfeito Jesus que viveu por nós ( no Calvário) e vive em nós (agora mesmo) destroi todo e qualquer orgulho. Quanto mais olhamos para o Calvário, mais humildes nos tornamos no que diz respeito a salvação. Quanto mais nos tornamos como Cristo permanecendo nele, somos feitos mais humildes pela experiência de viver como Ele pela graça" p.29
A perfeição de Jesus que está em cada cristão tem objetivo de se mostrar ao mundo através de nós. Aqueles que fracassam em permanecer, não buscar sua satisfação em Deus, falham em dar frutos e glorificar a Deus. "O Deus invisível, que poderia aparecer por meio de suas vidas, permanece invisível porque o fruto da presença de Jesus não nasce delas" (p.31)

A perfeição e abundância de Deus que temos sede e fome podem chegar até nós somente pela presença de Jesus. Quando Jesus veio ao mundo, tornou visível e disponível a perfeita satisfação de Deus.

Quanto a perfeição, o mesmo Deus que a exige, a dá a cada um de nós na presença perfeita de Jesus dentro de cada um de nós.  Como vemos em 2 Co 5:21, temos o sacrifício perfeito, a perfeição que Deus exige. 


"Manter sua perfeita obra perdoadora claramente distinta de nós nos previne da tentação de buscar qualquer tipo de crédito pessoal pelo nosso perdão e justificação perante Deus. Sua presença no Calvário é nossa pela fé, mas jamais pelas obras" p. 33
Somente a presença perfeita de Jesus em mim pode produzir uma alma inabalável e o ser igual a Jesus, momento após momento.







segunda-feira, novembro 05, 2012

João Batista por John P. Meier

E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento;E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão. E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo.E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo. Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará.  Mateus 3:7-12


Dizia, pois, João à multidão que saía para ser batizada por ele: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão. E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não dá bom fruto, corta-se e lança-se no fogo.  Lucas 3:7-9

E, estando o povo em expectação, e pensando todos de João, em seus corações, se porventura seria o Cristo,
Respondeu João a todos, dizendo: Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das alparcas; esse vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele tem a pá na sua mão; e limpará a sua eira, e ajuntará o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga. E assim, admoestando-os, muitas outras coisas também anunciava ao povo. 
Lucas 3:15-18

E João, ouvindo no cárcere falar dos feitos de Cristo, enviou dois dos seus discípulos, A dizer-lhe: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide, e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes: Os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar em mim. E, partindo eles, começou Jesus a dizer às turbas, a respeito de João: Que fostes ver no deserto? uma cana agitada pelo vento? Sim, que fostes ver? um homem ricamente vestido? Os que trajam ricamente estão nas casas dos reis. Mas, então que fostes ver? um profeta? Sim, vos digo eu, e muito mais do que profeta;
Porque é este de quem está escrito: Eis que diante da tua face envio o meu anjo, Que preparará diante de ti o teu caminho. Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele. E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir.Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Mas, a quem assemelharei esta geração? É semelhante aos meninos que se assentam nas praças, e clamam aos seus companheiros, E dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes. Porquanto veio João, não comendo nem bebendo, e dizem: Tem demônio. 
Mateus 11:2-18



João é um profeta do cruel julgamento iminente, mesmo os judeus que vem para serem batizados, são chamados de raça de víboras.  A ira de Deus irá contra todos que se rebelaram contra sua vontade.  João está dentro de uma tradição profética e apocalíptica do seu tempo.

O temor do Senhor não é o suficiente para o seu batismo, há uma exigência de um arrependimento sincero, esta mudança interior deve ser refletida em ações exteriores, frutos dignos de arrependimento. 

Há na expressão raça de víboras, uma ruptura com os antepassados judaicos, ser filho de Abraão não é mais suficiente.  A imagem pode ser vista também na expressão do machado que está posto na raiz das árvores. Esta imagem pode ser vista em julgamentos do Antigo Testamento, em Isaías 10:33-34 e 32:19.

"Seria preciso uma confissão de pecados, não só dos pecados individuais de cada um, mas também dos pecados coletivos do povo de Deus que se desviou do caminho e, portanto, perdeu sua garantia de salvação no dia do julgamento. Assim, nem todos os membros dessa sociedade empírica chamada Israel estarão incluídos no Israel escatológico salvo por Deus. Somente a rápida decisão de aceitar o Batismo de João, aliada a uma profunda mudança tanto da atitude interior como da conduta exterior, pode salvar cada indivíduo judeu do fogo que há de chegar em breve" MEIER, p.49

Meier apresenta uma conjunção de fatores para a explicação do batismo de João: o motivo do julgamento iminente, aniquilamento por fogo, a ruptura com a história da salvação na condição de filhos de Abraão, que colocam João como um apocalíptico.Há uma relação entre seu batismo e seu espaço no drama do fim dos tempos e sua relação com salvação vindoura.

Quanto a salvação vindoura, Batista coloca que haverá de vir um que é mais forte que ele, que vai batizar com o Espírito Santo. João não se via como o agente final de Deus. Para Meier, há um desconhecimento de João sobre quem seria este numa imprecisão da sentença, que mostra que neste momento ele não conhece quem é este. A imprecisão da fala mostra que ela é de João, permitindo aos cristãos aplicarem ela a Jesus.

Quanto ao fogo, Meier acredita que está correlacionado com Atos 1:5 e 2:3.

"O sentido punitivo do fogo requer que o mais forte administre em verdade dois batismos, um salvífico e um destrutivo. Deveríamos atribuir com espírito santo e fogo o significado real de com espírito santo ou fogo, tendo o e (kai), na verdade, conotação disjuntiva. Afinal de contas, não faria sentido dizer que no juízo final o mesmo grupo de pessoas haveria de receber um batismo salvífico e destrutivo ao mesmo tempo" (p. 58). 

Mas, isto coloca mais dificuldades que soluções ao texto. 

Quando João batiza, ele está prefigurando o derramamento do espírito de Deus sobre o verdadeiro Israel.

Como João via seu batismo


1. a representação do arrependimento e da promessa de nova vida por parte do candidato.

2. proclamação, antecipação simbólica da remoção de todo pecado que o Espírito Santo realizaria no último dia, quando o mais forte o derramasse como água sobre o pecador arrependido.

O foco estava ao iminente julgamento cruel, quando os israelitas somente poderiam escapar mediante o arrependimento e o batismo do Espírito Santo que seria realizado pelo mais forte.

É diferente do  Antigo Testamento, onde existem inúmeras prescrições de lavagens rituais - Lv.14:5.6 e 50-52, Nm 19,13 e 20-21. Que profetas e salmistas usaram como símbolo de purificação interior - Is 1,16 e Sl. 51,7.

É distinto da comunidade do Qumram, onde os ritos de purificação dependiam de uma obediência estrita da lei mosaica. 


"João praticava não as frequentes purificações do Qumram, mas um batismo único que ele próprio administrava aos outros. Sua pessoa está tão intimamente identificada com esse exclusivo tipo de ritual de limpeza que só ele, entre os muitos judeus de seu tempo praticavam ritos de purificação, é chamado de Batista" MEIER, p. 42


Era administrado apenas uma única vez,  pelo próprio João tendo em vista sempre o iminente julgamento divino sobre Israel. A natureza de seu batismo, vem de sua própria visão e mensagem escatológicas.

segunda-feira, outubro 15, 2012

Francine Prose - Reading Like a Writer




In the ongoing process of becoming a writer, I read and reread the authors I most loved. I read for pleasure, first, but also more analytically, conscious of style, of diction, of how sentences were formed and information was being conveyed, how the writer was structuring a plot, creating characters, employing detail and dialogue. And as I wrote, I discovered that writing, like reading, was done one word at a time, one punctuation mark at a time. It required what a friend calls "putting every word on trial for its life": changing an adjective, cutting a phrase, removing a comma, and putting the comma back in.

Francine Prose, Reading Like a Writer, p.3