segunda-feira, maio 20, 2013

Herman Dooyeweerd: No Crepúsculo do Pensamento.


Herman Dooyeweerd (1894-1977) é o maior filósofo do neo-calvinismo, herdeiro da tradição de Kuyper.  Ele adotou o método transcendental para explicar a experiência humana e compreender a relação entre a razão e a moral, o direito e a fé.

Segundo Guilherme de Carvalho diz na introdução do livro : "contra Kant e o neokantismo, Dooyeweerd localizou o coração humano como o verdadeiro ponto de partida do pensamento - e não a razão humana- e mostrou a necessidade de autoconhecimento, por meio do conhecimento de Deus, para que o homem possa desenvolver um pensamento autenticamente crítico" (p.24). 

No crepúsculo... está dividido em 4 partes: 1. a pretensa autonomia do pensamento filosófico, 2. o historicismo e o sentido da história, 3. filosofia e teologia e 4. em direção a uma antropologia radicalmente bíblica.

1. A PRETENSA AUTONOMIA DO PENSAMENTO FILOSÓFICO.


No primeiro capítulo, Dooyeweerd faz uma crítica do pensamento teórico, em especial, à autonomia do pensamento filosófico em relação aos pressupostos religiosos. Há um dogma da razão autônoma, ele vai mostrar as origens deste dogmatismo que impede um verdadeiro insight sobre sua estrutura.

Para Dooyeweerd,  Deus é o unificador do pensamento, toda diversidade modal de leis está relacionada à unidade central da lei divina, o mandamento de amar a Deus e ao nosso próximo. 


"Na atitude teórica do pensamento, opomos o aspecto lógico de nosso pensamento e experiência às modalidades não lógicas a fim de adquirir um insight analítico em relação a essas últimas" (p.56)


"Não é de se admirar que as modernas teorias filosóficas do conhecimento as quais se apegam ao dogma da autonomia do pensamento teórico tenham sido incapazes de fazer justiça à experiência ordinária. Perdendo de vista as relações pré-teóricas de sujeito-objeto inerentes à experiência ordinária e a relação antitética característica da atitude teórica, eles interpretam a própria experiência ordinária como uma teoria acrítica. E essa teoria foi denominada realismo ingênuo, ou teoria da cópia (copy theory). Conforme supunha tal teoria, a experiência ordinária assume que a percepção sensória nos dá uma imagem adequada das coisas, de como elas são em si mesmas- como substâncias metafísicas, à parte da experiência humana. Uma refutação dessa alegada teoria, com a ajuda dos resultados experimentais da pesquisa científica, por um lado, e de argumentos epistemológicos, por outro, foi assim, aceita como uma refutação da própria experiência ordinária. de fato, um estranho mal entendido" (p.67)

Para Dooyeweerd, por trás do pensamento teórico autônomo, há a absolutização de um aspecto modal especial sinteticamente concebido. Lembrando que a  estrutura modal, os aspectos modais da realidade, é a base da construção da filosofia cosmonômica.

"Essa absolutização é a fonte de todos os ismos na visão teórica da experiência humana e da realidade empírica. Eles resultam  da tentativa de reduzir todos os outros aspectos modais de nosso horizonte temporal da experiência a simples modalidades do aspecto absolutizado" (p.69-70).

Dooyeweerd critica que eles nunca justificam a si mesmo tendo como um ponto de partida puramente teórico. Há uma influência de motivos suprateóricos mascarados pela pretensa autonomia. E também, "em toda absolutização de um ponto de vista sintético especial o problema fundamental relacionado ao ponto de partida da síntese teórica retorna sem solução" (p. 70)

Um terceiro problema é a origem do ego.  Como é possível a direção concêntrica pensamento em direção ao ego e qual é a sua fonte?  Dooyeweerd critica a noção lógico-transcendental de Kant, pois ele não conseguiu apresentar seu ponto de partida real da reflexão filosófica.

"O pensamento teórico não pode fornecer, a partir de si mesmo, essa direção concêntrica. Apenas o ego central pode fazê-lo desde um ponto de vista suprateórico" (p. 75-76). 

O ego é o centro de toda atividade do pensamento e o ponto de partida está relacionado com a direção concêntrica para o ego  - o coração -, a raiz da existência humana. O impulso religioso em direção à origem determina o motivo básico.

Dooyeweerd apresenta quatro motivos básicos: matéria-foma, bíblico radical criação-queda-redenção, natureza-graça e natureza-liberdade:

"O desenvolvimento da filosofia ocidental tem sido governado por quatro motivos básicos religiosos principais, os quais adquiriram um poder sociocultural na história da civilização ocidental. O primeiro é o motivo grego matéria-forma, cujo sentido religioso passo a explicar adiante. O segundo é o motivo básico bíblico radical da criação, da queda no pecado e da redenção por Jesus Cristo na comunhão do Espírito Santo; o terceiro é o motivo escolástico da natureza e graça e o quarto é o motivo moderno humanista da natureza e liberdade" (p. 87)

"No caso do motivo básico escolástico natureza e graça, a sua origem se encontra na tentativa de uma acomodação mútua entre o motivo básico bíblico e o grego ou entre o bíblico e o humanista, os quais, em princípio, excluem-se mutuamente. No caso dos motivos grego e humanista, seu conflito interno origina-se no fato de que eles desviam o impulso religioso inato do ego humano de sua verdadeira origem, direcionando-o para o horizonte temporal da experiência com sua diversidade de aspectos modais. Ao procurar, assim, sua origem absoluta em um desses aspectos, o eu pensante é conduzido à absolutização do relativo" (p. 88)

Motivo matéria-forma:

"O motivo básico matéria-forma está, assim, no fundamento da visão metafísica grega de ser em sua oposição ao mundo visível do vir a ser e do declínio, e da visão grega da natureza e da sociedade humana. Em razão de seu caráter dialético, esse motivo básico envolveu o pensamento grego em um processo dialético que apresenta todos os traços que havíamos indicado brevemente" (p.93)

Motivo bíblico radical:

É o único ponto de partida possível para uma filosofia cristã.

"O segundo motivo básico do pensamento ocidental é o tema bíblico central e radical da criação, da queda no pecado e da redenção por Jesus Cristo como a palavra de Deus encarnada, na comunhão do Espírito Santo" (p.93)

"Este motivo básico religioso revelou a raiz ou centro real da natureza humana, e desmascara os ídolos do ego humano que surgem ao se buscar esse centro dentro do horizonte temporal de nossa experiência, com sua diversidade de aspectos modais. Ele revela o sentido positivo real do ego humano, como ponto de concentração religiosa de nossa existência integral, como o assunto central da imago Dei na direção positiva do impulso religioso do ego para a sua Origem absoluta. Além disso, ele revela a origem de todas as absolutizações do relativo, ou seja, a direção negativa ou apóstata do impulso religioso no ego humano. Assim, esse motivo revela o caráter real de todos os motivos básicos do pensamento humano, os quais desviam o impulso religioso em direção ao horizonte temporal. Aqui se encontra, também, a significância crítica do motivo básico bíblico para a filosofia, uma vez que ele liberta o ego pensante de preconceitos que, em princípio, por se originarem de absolutizações, impedem um insight filosófico na estrutura real e integral da ordem temporal da experiência" p. 94

Motivo escolástico natureza-graça

"Na esfera natural, uma autonomia relativa foi atribuída à razão humana, que supostamente seria capaz de descobrir as verdades naturais por sua própria luz. Na esfera sobrenatural da graça, pelo contrário, o pensamento humano era considerado dependente da autorrevelação divina" (p. 96)

"A tentativa tomista de sintetizar os motivos opostos de natureza e graça, e a atribuição de primazia ao último, encontrou uma clara expressão no adágio: gratia naturam non tollit, sed perfecit ( a graça não cancela a natureza, mas a aperfeiçoa) (...) Qualquer ponto de conexão entre as esferas natural e sobrenatural foi negado. Isso foi a introdução para uma transferência da primazia para o motivo da natureza. O processo de secularização da filosofia havia começado" (p. 97) 

Motivo humanista natureza-liberdade:

O homem moderno recria  tanto sua origem como seu mundo à sua própria imagem.

"O motivo da liberdade origina-se de uma religião da humanidade, na qual o motivo básico bíblico foi completamente transformado. O esquema relacionado à ideia de renascimento da Renascença italiana significava um renascimento real do homem em uma personalidade criativa e completamente nova. Tal personalidade foi pensada como absoluta em si mesma e considerada como a única governante de seu próprio destino e do destino do mundo (...) A revelação bíblica da criação do homem à imagem de Deus foi implicitamente subvertida na ideia da criação de Deus à imagem idelizada do homem e de sua liberdade radical em  Jesus Cristo foi substituída pela ideia de regeneração do homem por sua própria vontade autônoma, sua emancipação do reino medieval das trevas, o qual estaria enraizadao na crença na autoridade sobrenatural da igreja" (p. 98)

O impulso de dominar a natureza por meio de um pensamento científico autônomo criou uma imagem determinista do mundo, construído sobre uma cadeia de relações causais que podem ser formuladas por equações matemáticas.

Os limites e a possibilidade de diálogo.

"A influência central dos motivos reilgiosos sobre o pensamento filosófico é mediada por uma ideia transcendental básica que se desdobra em três elementos os quais, consciente ou inconscientemente, estão na fundação de qualquer reflexão filosófica e tornam tal reflexão possível. Essa ideia básica tripla a qual denomino ideia cosmonômica da filosofia relaciona-se aos três problemas transcendentais básicos concernentes à atitude teórica do pensamento, que formulamos e consideramos em nossa primeira palestra. Assim, ela contém, em primeiro lugar, uma ideia-limite transcendental da totalidade de nosso horizonte temporal de experiência com sua diversidade de aspectos modais; em segundo lugar, uma ideia do ponto de referência central de todos os atos sintéticos do pensamento e, em terceiro lugar, uma ideia de origem, quer seja ela chamada Deus, quer não, relacionando  tudo o que é relativo com o absoluto" (p.104)

Cada reflexão filosófica é uma atividade humana falível, a filosofia cristã não tem posição privilegiada neste aspecto.

Por conta da graça comum, verdades relativas são encontradas em cada filosofia, embora as interpretações filosóficas podem ser inaceitáveis por estarem sendo governadas por um motivo básico dialético e apóstata.

Apenas na palavra de Deus e em seu sentido central, que revela as absolutizações e pode conduzir o homem ao verdadeiro conhecimento de si mesmo e sua origem absoluta.


2.HISTORICISMO E O SENTIDO DA HISTÓRIA.


O historicismo é apresentado como a absolutização do aspecto histórico. Dooyeweerd vai apresentar a evolução histórica do historicismo, até sua implementação no pensamento teórico contemporâneo. O historicismo radical faz do ponto de vista histórico uma totalidade abrangente, absorvendo todos os outros aspectos do horizonte da experiência humana. Dooyeweerd coloca Splenger como a fonte em seu livro THE DECLINE OF THE WEST.

Mas, ele traça suas origens na Renascença, como movimento religioso que buscava a transformação da religião cristã numa religião da personalidade e da humanidade. Em Descartes e Hobbes, para a governança do mundo apenas pelo pensamento autônomo e criativo projetou uma imagem de mundo a partir de padrões estritamente matemáticos e mecânicos.

A tensão dialética está entre a primazia da natureza (Descartes, Hobbes e Leibniz) e a primazia da liberdade (Locke, Rosseau e Kant).  A síntese dialética é o idealismo pós-kantiano (Hegel, Schelling)

O historicismo radical nasce dessa síntese, com Comte sendo o primeiro a submeter a crença cristã e humanista nas chamadas ideias eternas da razão humana à visão historicista.

"No fim das contas, o problema do significado da história gira em torno da questão: quem é o próprio homem, e qual é sua origem e destino final? Fora da revelação bíblica central da criação, da queda no pecado e da redenção por meio de Jesus Cristo, nenhuma resposta real pode ser encontrada para esta questão. Os conflitos e tensões dialéticos que ocorrem no processo de abertura da vida cultural humana resultam de uma absolutização do que é relativo. E cada absolutização tem sua origem no espírito da apostasia, o espírito da civitas terrena, o reino das trevas, como Agostinho o denominou" (p.171)

3. FILOSOFIA E TEOLOGIA.


Nesta terceira parte, Dooeyeweerd fala da relação entre filosofia, teologia e religião. Os pais da igreja falavam que a teologia cristã tinha seu próprio princípio de conhecimento - palavra-revelação.  A influência grega fez a teologia teórica cristã confundir o verdadeiro conhecimento de Deus e o verdadeiro autoconhecimento.

No escolasticismo, a teologia precisava da filosofia para fornecer a ela o caráter e o espírito de ciência, segundo o papa Leão XIII, em Aeterni Patris. Tomás não faz uma identificação como Agostinho de teologia e filosofia, para ele a filosofia é uma ciência autônoma, que inclui uma teologia filosófica que se reporta à luz da razão. A filosofia sai do controle da palavra de Deus

Em Barth,  a falta de uma distinção clara entre palavra-revelação como princípio central do conhecimento e o objeto científico próprio da teologia dogmática permanece. Barth opõe teologia dogmática e filosofia de uma maneira radical, para ele uma filosofia cristã seria uma contradição em termos.

"Essa é a razão por que  Barth, em clara oposição a Abraham Kuyper nega que a epistemologia utilizada pela teologia seja de caráter filosófico. A teologia dogmática, como um instrumento da palavra de Deus, precisa elaborar sua própria epistemologia, sem interferência da filosofia" (p.182)

Por outro lado, Barth tem que procurar ajuda no pensamento teórico, contudo, este é inadequado para o pensamento teológico. "essa ausência de alternativas ao pensamento teórico é a razão pela qual o teólogo não pode escapar a noções filosóficas. Ele pode tomá-las de todos os tipos de sistemas, contanto que não se prenda a qualquer deles e empregue essas noções em um sentido puramente formal, destacando-se de seu conteúdo filosófico material. Ignorando por um momento essa distinção entre uso formal e uso materialn de conceitos filosóficos, observamos que Barth também emprega o termo teologia de uma forma ambígua. Por um lado, ele entende por teologia o verdadeiro conhecimento de Deus em Jesus Cristo, por outro lado, a ciência dogmática das verdades da fé cristã reveladas nas sagradas Escrituras." (p. 183)

Religião: o conhecimento suprateórico de Deus.


"Assim, o tema central das Escrituras sagradas, ou seja, a criação, queda no pecado e redenção por Jesus Cristo na comunhão do Espírito Santo, tem uma uni dade radical de sentido que está  relacionada à unidade central da existência humana. Ele efetiva o verdadeiro conhecimento de Deus e de nós mesmos. se nosso coração estiver realmente aberto para o Espírito Santo de forma a se encontrar cativo da palavra de Deus e prisioneiro de Jesus Cristo. À medida em que esse sentido central da palavra-revelação estiver em questão, encontrar-nos-emos além dos problemas científicos, tanto da teologia como da filosofia. Sua aceitação ou rejeição é uma questão de vida ou morte para nós, e não uma questão de reflexão teórica. Nesse sentido, o motivo central das sagradas Escrituras é o ponto de partida comum, supracientífico, tanto de uma teologia bíblica quanto de uma filosofia realmente cristã. Ele é a chave do conhecimento, a qual Jesus Cristo mencionou em sua discussão com os escribas e doutores da lei. Ele é a pressuposição religiosa de qualquer pensamento teórico capaz de reivindicar para si, com justiça, a posse de um fundamento bíblico. Mas, como tal, ele nunca poderá se tornar o objeto teórico da teologia, assim como Deus e o eu humano não podem se tornar esse objeto" (p. 188)

Qual seria o objeto teórico apropriado da teologia? A palavra-revelação deve ser o fundamento da vida cristã, tanto em sua atividade prática como científica. Ela não pode ser objeto teórico, funciona como ponto de partida central, ou motivo básico religioso.

"Karl Barth, corretamente rejeitou a metafísica da analogia entis. Ele a chamou de invenção do anticristo e a substituiu pela analogia fidei, a analogia da fé. Mas, como vimos, é exatamente a estrutura analógica da fé o que confronta a teologia com um problema básico de caráter filosofico que não pode ser deixado de lado. Se, como pensa Karl Barth, a crença cristã não tem qualquer ponto de contato com a natureza humana, como pode ela apresentar aquela estrutura analógica pela qual mantém-se conectada, por exemplo, ao aspecto sensório de nossa experiência" (p. 220)

"Se os teólogos negarem a possibilidade de uma filosofia biblicamente fundamentada, são obrigados a tomar suas suposições filosóficas de uma assim chamada filosofia autônoma. É uma vã ilusão imaginar que as noções emprestadas de tal filosofia poderiam ser utilizadas pelo teólogo em um sentido puramente formal" (p.221)

"A teologia carece , acima de tudo, de uma crítica radical do pensamento teórico que, em virtude de seu ponto de partida bíblico, seja capaz de demonstrar a influência intrínseca de motivos básicos religiosos tanto sobre teologia como sobre a filosofia. Esse é o primeiro serviço que a nova filosofia reformada pode prestar à sua teologia irmã. Em minha próxima palestra explicarei a necessidade desse serviço em maiores detalhes" (p.222)

A questão para a teologia é buscar sua fundamentação filosófica numa filosofia cristã, governada e reformada pelo motivo básico bíblico central. Se não for este, será o escolástico ou humanista.

Dooyeweerd coloca os fundamentos gregos do escolasticismo, que vem do motivo básico forma-matéria, que foi gerada do encontro de suas religiões gregas antagònicas: a antiga religião natural da vida e da morte e a religião cultural mais jovem dos deuses olímpicos - Dionísio (matéria) e Apolo (forma).

Tomás acomodou a filosofia grega aristotélica da natureza humana à doutrina cristã. Deus criou o homem como uma substância natural, composta de matéria e forma. Para Dooyeweerd, a doutrina psico-criacionista contradiz a Escritura, pois Deus ainda está criando as almas. Agora, se Deus ainda cria as almas racionais após a queda, como ele cria almas pecadoras? Ou deveríamos assumir que o pecado está ligado ao corpo material apenas?

PARTE 4- EM DIREÇÃO A UMA ANTROPOLOGIA RADICALMENTE BÍBLICA


Nesta última seção, Dooyeweerd vai buscar responder sobre a questão do que é o homem. Ele vai lançar bases para uma antropologia que seja fundamentada na Escritura como seu motivo base. Fala da crise do pensamento ocidental e da incapacidade da filosofia existencialista de dar respostas:

"O homem de massa moderno perdeu todos os seus traços pessoais. Seu padrão de comportamento é ditado pelo que é feito em geral, transferindo este a responsabilidade pelo seu comportamento para uma sociedade impessoal. E essa sociedade, em troca, parece estar sendo controlada por um robô, um cérebro eletrônico ou pela burocracia, pela moda, pela organização e outros poderes impessoais. Como resultado, nossa sociedade contemporânea não deixa lugar para a personalidade humana e para uma comunhão espiritual real de pessoa para a pessoa" (p. 243)

No parágrafo 29, ele fala do sentido do eu. Primeiro, explica sobre a transcendência do eu, do mistério que há nisto que "o ego não deve ser determinado por nenhum aspecto de nossa experiência temporal, uma vez que é ponto de referência central de todos eles. Se ao homem faltasse esse eu central ele não poderia, de fato, ter qualquer experiência" (p. 249)

No mistério do eu, há três relações que Dooyeweerd faz para tentar concebê-lo: "Primeiro, o nosso ego relaciona-se com a nossa existência temporal total e com a nossa experiência integral do mundo temporal como seu ponto de referência central. Segundo, ele se encontra, de fato, em uma relação comunal essencial com o ego de seus semelhantes. Terceiro, ele aponta para além de si mesmo em direção à relação central com sua origem divina, em cuja imagem o homem foi criado" (p. 251)

Dooyeweerd retoma o tema do autoconhecimento em Deus de Calvino

"Ele é a única chave para o verdadeiro autoconhecimento em sua dependência do verdadeiro conhecimento de Deus. E é também o juiz único de ambas as visões, teológica e filosófica do homem. Como tal, esse tema central da palavra-revelação não pode ser dependente de interpretações e concepções teológicas, as quais são trabalhos humanos falíveis, limitados à ordem temporal de nossa existência e experiência. Seu sentido radical pode ser explicado apenas pelo Espírito Santo, o qual abre nosso coração, de forma que nossa crença não é mais uma mera aceitação dos artigos da fé cristã, mas uma crença viva, instrumental para a operação central da palavra de Deus no coração, o centro religioso de nossa vida. Essa operação não ocorre de forma individualista, mas na comunhão ecumênica do Espírito Santo que une todos os membros da verdadeira igreja católica em seu sentido espiritual, independentemente de suas divisões denominacionais" (p. 256)

Qual é o sentido radical de criação, queda e redenção?

Como Criador, Deus é a origem absoluta de tudo o que existe fora de si mesmo. Se o nosso coração não está cativo a Deus, então ele está pronto a absolutizar os relativos - idolatria. Não há zona neutra ou segura fora do alcance de Deus.

"Ele criou o homem como um ser em quem a inteira diversidade dos aspectos e faculdades do mundo temporal está concentrada no centro religioso de sua existência. Esse centro é aquele ao qual denominamos nosso eu, e o qual as Escrituras sagradas chamam, em um sentido religioso, de coração. Como o assento central da imagem de Deus, o ego humano foi imbuído com um impulso religioso inato a fim de concentrar todo o mundo temporal sob o serviço de amor a Deus. E uma vez que esse amor a Deus implica o amor por sua imagem no homem, toda a diversidade das ordenanças temporais de Deus é relacionada com o mandamento religioso central do amor: "amarás, pois, o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento... e ao teu próximo como a ti mesmo" -Mc 12:30,31. Esse é o sentido bíblico  da criação do homem à imagem de Deus. Ele não deixa, assim, espaço para uma esfera supostamente neutra da vida que possa ser subtraída do mandamento central de Deus. 

Uma vez que a imagem de Deus no homem relaciona-se com a radix, ou seja, o centro religioso e raiz de nossa existência temporal total, segue-se que a queda no pecado pode apenas ser entendida no mesmo sentido bíblico radical. A queda no pecado pode ser resumida como uma ilusão surgida no coração humano,  quando o eu humano creu possuir uma existência absoluta como o próprio Deus. Essa foi a falsa insinuação de satanás à qual o homem deu ouvidos - serás como deus". Essa apostasia em relação ao Deus vivo implicou na morte espiritual do homem, pois o eu humano não é nada em si mesmo e pode apenas viver da palavra de Deus e na comunhão amorosa com seu Criador divino. Entretanto, o pecado original não poderia destruir o centro religioso da existência humana e o seu impulso religioso inato de buscar a sua origem absoluta. Ele poderia apenas conduzir esse impulso central para um direção falsa, apóstata, desviando-o em direção ao mundo temporal com sua rica diversidade de aspectos, os quais, entretanto, têm apenas um sentido relativo" (p.260)

Não pode haver um autoconhecimento real longe de Jesus, toda a nossa visão de mundo e da vida precisa ser reformada em Cristo.  Toda visão dualista que separe dessa verdadeira raiz deve ser descartada.

A questão do homem não pode ser respondida pelo próprio homem, mas depende da palavra-revelação que mostra a raiz religiosa e o centro da natureza humana em sua criação, queda e redenção em Cristo.

"O homem perdeu o verdadeiro autoconhecimento desde que perdeu o verdadeiro conhecimento de Deus. Mas todos os ídolos do ego humano, os quais o homem projetou em sua apostasia, quebram-se quando confrontados com a palavra de Deus, que desmascara sua vaidade e seu vazio. Apenas essa palavra, por meio de sua influência radical, pode conduzir a uma reforma real de nossa visão do homem e de nossa visão do mundo temporal; e tal reforma interna é o extremo oposto do esquema escolástico da acomodação" (p.265)



John Frame:Apologética para a Glória de Deus - uma introdução







FRAME, John APOLOGÉTICA PARA A GLÓRIA DE DEUS: UMA INTRODUÇÃO  Tradução de Wadislau Gomes, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

Capítulo 1 - Apologética: as bases.


No primeiro capítulo, John Frame lança as bases de sua apologética. Existem três  tipos de apologética: como prova, como defesa ou como ataque. 

Frame é um pressuposicionalista, para ele o apologeta tem de ser crente comprometido com Deus.  Temos uma apologética pressuposicionalista de um lado e a evidencialista, tradicional, clássica de outro lado.

":Esse tipo de apologética é, algumas vezes, chamado de método clássico ou tradicional, dado que reivindica que muitos o defenderam por intermédio da história da igreja, particularmente os apologetas do século 2o. (Justino Mártir, Atenagoras, Teófilo e Aristides), o grande pensador do século 13, Tomás de Aquino, e muitos dos seus seguidores até o presente, como Joseph Butler e seus seguidores," (p. 15)  

Esta defende uma neutralidade da razão,  procurando desenvolver um argumento neutro, que não tenha pressuposições distintamente bíblicas.


"O ponto não é se os descrentes são simplesmente ignorantes da verdade. Antes, Deus se revelou a cada pessoa com evidente claridade, tanto na criação - Sl 19, Rm 1:18-21- quanto na natureza do homem - Gn 1:26ss-. Em certo sentido, o incrédulo conhece a Deus (Rm 1:21). Em algum nível de sua consciência ou inconsciência permanece tal conhecimento.  A despeito desse conhecimento, o incrédulo intencionalmente distorce a verdade, substituindo-a pela mentira (Rm 1:18-32, 1Co 1:18-2:16- observe especialmente 2:14-,2Co 4:4). Portanto, o descrente é enganado (Tt 3:3). Ele conhece a Deus (Rm 1:21)e, ao mesmo tempo, não conhece a Deus (1Co 1:21, 2:14). Evidentemente, esses fatos suportam o ponto de que a revelação de Deus tem de governar  a nossa aproximação apologética. O descrente não pode ( e não quer) chegar à fé  à parte do evangelho da salvação revelado na Bíblia. Nós também não saberíamos a respeito da condição do incrédulo à parte da Escritura. E não poderemos alcançá-lo apologeticamente a menos que estejamos dipostos a ouvir os princípios apologéticos da própria Escritura" (p.17)

O argumento apologético tem que pressupor a verdade da Palavra de Deus. Isto seria um argumento circular? Todos precisam de um critério último, então, todos seriam culpados desta circularidade. Qual seria, então, as bases da conversa com um descrente?

1. A Escritura diz que Deus se revelou ao incrédulo - Rm 1:21
2. Nosso testemunho está acompanhado pelo Espírito Santo - Rm 15:18-19
3. Está assegurada pelo senso comum de busca pela verdade.
4. Ela pode assumir diversas formas.
5. Há uma distinção entre circular estreito e circular abrangente - o abrangente aceita evidências.

A soberania de Deus requer a responsabilidade humana, dando um papel significativo na história. A apologética é vista como uma obra soberana de Deus que transforma os corações com lugar para o homem nela.  Neste sentido, a pregação é a apologética porque busca a persuasão e a apologética é pregação porque apresenta o evangelho para a conversão e santificação.

O Sola Scriptura requer que se dê a mais alta autoridade para as Escrituras. Ela é o conselho de Deus. 

"Relacionar a Escritura aos seus contextos é relacioná-la à revelação natural. Revelação natural é a revelação de Deus em todas as coisas que ele fez (Sl 19.1ss, Rm 1:18ss), inclusive seres humanos, feitos à sua  imagem (Gn.1:27, 9:6, Tg 3:9). Todo ser humano está cercado pela revelação de Deus, tendo-a, até mesmo, dentro dele. Isso inclui, é claro, o incrédulo. Como já declarado, o incrédulo conhece claramente a Deus (Rm 1:21), mas, de diversas maneiras, procura reprimir tal conhecimento" (p. 25)

A revelação natural mostra o poder e a natureza de Deus, seus padrões morais e sua ira contra o pecado. Não é uma revelação para salvação. A revelação natural não é inferior a especial, ela é apenas corrigida pela especial que nos permite enxergar quem está por trás da natural.

Aquino não fazia distinção entre a revelação natural e especial, mas sim entre raciocínio com e sem a assistência da revelação (p.27)


Capítulo 2 - A mensagem do apologeta.


Para Frame, a mensagem e´a totalidade das Escrituras aplicada às necessidades de seus leitores. 

No que diz respeito à cosmovisão, ele coloca quatro coisas: 

1. a absoluta personalidade de Deus: deve-se evitar uma aproximação impessoal como pressuposição.

2. a distinção de Criador e criatura: deve-se lembrar da transcendência e da imanência de Deus. Evitar o liberalismo e a neo-ortodoxia em que Deus é o totalmente-outro "Todo pensamento não cristão eleva o homem ao nível de Deus ou rebaixa Deus ao nível do homem. Em qualquer dos casos, considera Deus, se é que o reconhece, como sendo igual ao homem, como outra parte da matéria do universo" (p.41)

3. a soberania de Deus: aqui há uma crítica ao arminianismo que hoje move-se em direção a teologia do processo. 

4. a Trindade:  O Deus cristão é três em um. Pai, Filho e o Espírito Santo.  Frame retoma o argumento de Lewis, de que Deus é amor apenas porque é Trindade, seu amor é inicialmente em si mesmo dentro das Pessoas da Trindade, é como seu ser.

Como Epistemologia, Deus é o supremo critério para a verdade e a falsidade. E como Ética, Ele também é o padrão para o bem ou para o mal.

Capítulo 3- Apologética como Prova- métodos.


A fé não é a crença com ausência de evidências, mas a fé honra a Palavra de Deus como evidência suficiente (p. 51)

O conceito de prova é de Van Til, "há provas absolutamente certas para a existência de Deus e para a verdade do teísmo cristão". As provas aqui são axiomas - "são pressuposições consideradas autoevidentes ou, pelo menos, são assumidas para o propósito de discussão". (p.54)

Na página 60, Frame coloca como argumentar:

1. seja intelectualmente apreensível ao inquiridor.
2. desperte e mantenha seu interesse
3. interaja com alguma area que ela admita fraqueza ou insegurança.
4. contenha alguns elementos de surpresa
5. coloque a verdade sem concessões
6. comunique o amor de Cristo.

Van Til colocou que o argumento pressuposicional requer o uso de um argumento em particular e a rejeição de outros.  Seus seguidores, chamam de transcendental, no sentido kantiano de condições para o pensamento. Então, o único argumento em favor de Deus como prova legítima se reduz a prova da possiblidade da predicação, sem a existência de Deus não há raciocínio.


Frame tem algumas objeções a Van Til (p.61):

O argumento transcendental precisa da ajuda de argumentos subsidiários de um tipo mais tradicional/evidencialista. Se sem Deus não há significado, para provar esta premissa precisamos de um validador, que leva ao argumento tradicional de valores. Os argumentos tradicionais de um projetista terminam com um Deus não bíblico.  Os argumentos tradicionais pressupõem uma cosmovisão cristã.

"Mas certamente o alvo geral da apologética é transcendental. Isto é, o deus a quem buscamos provar é, com efeito, a fonte de todo o significado, de toda a possibilidade, de atualidade e de predicação. O Deus bíblico é mais do que isso e certamente não menos. Com tal certeza, sequer deveríamos dizer alguma coisa ao inquiridor que sugira que é possível raciocinar, atribuir, tributar probabilidades, etc...à parte de Deus" p. 63

Van Til via a necessidade constante de repreender o orgulho espiritual, rejeitar o espírito de autonomia e sempre se apegar ao senhorio constante de Cristo sobre toda a estrutura de significados.

"O conhecimento regenerador de Deus é aquele que como já vimos pressupõe a Palavra de Deus. Uma pressuposição é mantida com certeza por definição, uma vez que ela é o próprio critério da certeza" p.66

 Quanto ao ponto de contato. Os arminiamos não acreditam que a depravação total tenha afetado a razão humana e o livre arbítrio. "Na visão de Barth, a graça de Deus cria o próprio ponto de contato. Essa posição é coerente com a noção de Barth, de que a recepção da graça não possui elemento intelectual. A graça não nos traz nenhuma revelação proposicional com a qual o descente, pela graça, venha a entender e confiar. Antes, é um raio vindo do nada e que não faz nenhum contato com o pensamento ou a vontade do incrédulo" (p. 69) 

Contudo, o homem foi criado à imagem de Deus. Há o conhecimento reprimido de Deus segundo Van Til,  não se busca o intelecto ou sua vontade que agora são escravas do pecado.

"As intenções do apologeta quanto ao ponto de contato, portanto, não são relevantes à descrição externa de sua apologética. Entretanto, tais intenções são relevantes às suas descrições e avaliações internas. Assim, a questão  do ponto de contato se resume a isso: estamos aceitando e nos dirigindo à cosmovisão distorcida do incrédulo ou à revelação que não sofre distorção e que ele mantém a despeito de sua visão distorcida?  (...) A questão do ponto de contato, portanto, é espiritual, é aquela por meio da qual examinamos nossos motivos, não aquela por meio da qual podemos facilmente avaliar as intenções de nossos companheiros apologetas"  (p.71)

Frame termina o capítulo defendendo o que ele chama de pressuposicionalismo do coração:

"O pressuposicionalismo de que falamos é :1. um entendimento claro sobre onde repousam nossas lealdades e de como nossas lealdades afetam nossa epistemologia; 2. uma determinação de, acima de tudo, apresentar o pleno ensino da Escritura em nossa apologética, sem comprometimento outros, com toda a simplicidade e com todo o poder ofensivo. 3. especialmente uma determinação de apresentar Deus como plenamente soberano, fonte de todo significado, inteligibilidade e racionalidade, e autoridade final para todo pensamento humano; e 4. um entendimento do conhecimento que o incrédulo tem de Deus e sua rebelião contra Deus, particularmente (ainda que não exaustivamente) a maneira como issso afeta seu pensamento" (p. 73)



Capítulo 4 - A Apologética como prova - existência de Deus.


Toda predicação dependem de Deus, sua existência é pressuposto para qualquer coisa.

Sobre argumentos morais, Frame diz que eles têm sido focalizados na causalidade ou no propósito. Mais recentemente, nos valores morais que é por onde ele argumenta. O valor mais elevado será objetivo como absoluto, assume a precedência e serve de critério para todos os outros, para os cristãos, este absoluto é a vontade de Deus expressa na Escritura.

"a fonte da autoridade moral absoluta é pessoal ou impessoal. Considere em primeiro lugar a última possibilidade. Isso significaria a existência de alguma estrutura impessoal ou lei no universo que coloca e requer justa fidelidade aos seus preceitos éticos. Entretanto, que espécie de ser impessoal poderia fazer isso? Certamente, se as leis do universo forem reduzidas ao acaso, nenhuma significância ética poderia simplesmente surgir. O que poderíamos aprender, de significância ética, de colisões de partículas subatômicas totalmente ao acaso? A que lealdade seríamos devedores se tudo fosse puro acaso?" (p.81)

Frame chega a conclusão de seu argumento dizendo que "se obrigações surgem de relacionamentos pessoais, então obrigações absolutas têm de surgir de relacionamentos com uma pessoa absoluta" (p.82). O argumento é transcendental. 

"A escolha é entre Deus e o caos, Deus e nada. Deus e a insanidade. Para muito de nós, essas sequer são escolhas. Crer em um universo irracional é mesmo que absolutamente não crer" (p.84)

Para Frame, o argumento cosmológico é epistemológico, a busca de causas e razões será autodestrutiva a menos que repouse ultimamente em Deus.

Quanto ao argumento ontológico,  provará o Deus bíblico somente se pressupuser valores cristãos e uma visão cristã de existência. Frame lembra Anselmo, "não que eu entenda para que possa crer, mas que eu creia para que possa entender".


Capítulo 5- Apologética como prova - Evangelho.


Provar a verdade de uma  narrativa da  história (1Co 15:1-11) é diferente de provar uma cosmovisão geral. 

É necessário um pregador para pregar o evangelho - Rm 10:14-15.

A própria Escritura argumenta suas afirmações, ela dá evidência da verdade de sua mensagem. Como testemunho de Deus acerca dele mesmo. Ela tem autoridade central, não é um produto humano ou histórico meramente, mas é a Palavra de Deus.


Capítulo 6 - O problema do mal.


Frame coloca seu pressuposto ao tratar esta questão:

"Se aquilo que queremos é achar encorajamento para continuar crendo no meio do sofrimento, a Escritura providencia isso, com abundância. Se você quiser ajuda para continuar confiando em Deus a despeito da falta de explicação para o mal, sim, podemos ajudar" (p. 119). A resposta a questão é bíblica, é teodicéia.

O que a Bíblia não diz:

  • 1. a defesa da não realidade do mal:  Alguns pensadores cristãos, até Agostinho, tratam o mal como um não-ser, ou uma privação do ser. Mesmo o mal faz parte do plano divino.

  • 2. a defesa da fraqueza divina: Harold Kushner, Deus não se sobrepõe porque é incapaz de fazer. Deus é onisciente, onipotente e soberano.

  • 3. defesa do melhor mundo possível: Leibniz diz que mesmo com o mal é melhor dos mundos possiveis que Deus poderia ter criado. "Deus necessariamente, nessa visão, torna o melhor mundo possível, incluindo quaisquer males necessários para obter o melhor resultado final. Por causa da própria excelência dos seus padrões, ele não poderia fazer nada menos que isso" (p.123)

  • 4. defesa do livre-arbítrio: O mal surgiu da livre escolha das criaturas, não foi causada ou pré-ordenada por Deus, então a existência do mal não compromete a bondade de Deus.  A Escritura concorda que a culpa deve recair sobre os homens pelo mau (Gn. 50:20, At. 2:23).   Contudo, essa visão de liberdade não condiz com a Escritura, Deus pode determinar nossas escolhas - Gn 50:20, 2Sm 24-. As livres escolhas do homem estão em Rm 11:36 e Ef. 1:11. Em Romanos 9, Paulo não usa esta defesa. Mesmo o arminianismo libertário que coloca a livre escolha causada pelo caráter e desejo, introduz fatores sem causa, substitui um determinismo impessoal por pessoal.

  • 5 defesa da construção do caráter: Outra defesa não bíblica é que o homem foi criado imaturo, que para crescer ele precisava de dor e sofrimento. A santificação não é aperfeiçoada pelo purgatório de sofrimento, mas pela própria ação de Deus em nossa vida.

  • 6. defesa do ambiente estável:  um ambiente estável abre a possibildiade para o mal é que o diz Lewis em Problema do Sofrimento, isto coloca a origem do problema na criação o que é antibíblico.

  • 7. defesa da causa indireta: Deus se relaciona com o mal de forma indireta, é a solução de Van Til. Contudo, a Bíblia diz que induzir alguém ao pecado é por si mesmo pecado - Dt 13:6, Rm 14.
  • 8. defesa da Ex Lex:  Gordon Clark é citado por Frame nesta teoria, a idéia é que Deus está acima do bem e do mal, da própria Lei divina. Contudo, a lei reflete o caráter do próprio Deus e obedecer a Deus é imitar a Deus, é refletir sua imagem - Mt 5:45. Deus honra a Lei que ele nos ordenou.


Capítulo 7 - O problema do mal 2



A escritura fornece uma nova perspectiva histórica, no passado está a promessa e a espera. No presente, está a defesa de um bem maior, sendo que este é a própria glória de Deus e não a felicidade do homem. Deus usa males  para o progresso de seu propósito (p.144-145):

1 - demonstração da sua justiça e graça - Rm 5:20-21.
2- o julgamento do mal - Mt 23:35
3- redenção - 1Pe 3:18
4- confronta os valores dos incrédulos para promover mudança de coração - Zc 13:7-9
5- Disciplina paterna nos crentes  Hb 12
6 - Vindicação de Deus - Rm 3:26

"Os crentes, mesmo tendo corações novos, continuarão a perguntar sobre o problema do mal. Mas há tantas razões para dar graças a Deus que jamais poderemos olhar para o mal com a mesma paixão que a do incrédulo. O crente simplesmente olha para o mundo com seus valores de maneira diferente da do incrédulo. E a mudança de valores talvez seja o mais perto que podermos chegar, neste ponto da história, de uma teodicéia" p. 146


Capítulo 8- Apologética como ofensiva 


Há um aspecto duplo do incrédulo: a incredulidade (ateísmo) e a idolatria. 

"Os seguidores de Schaeffer tendem a minimizar a idolatria moderna, pois se inclinam a um compromisso com o modelo histórico em que o antigo otimismo quanto à razão e a ordem se degenerou no irracionalismo moderno (relativismo ateu)" 
(....)
"Entretanto, os dooyeweedianos são menos adequados com respeito ao irracionalismo e ao ateísmo do que com a idolatria, O próprio Dooyeweerd foi um pouco obscuro sobre o  papel da razão no pensamento humano. Ele insistiu que Deus não seria racional, pois dizer que Deus seria racional seria limitá-lo a uma das quinze esferas da criação. Eu duvido que seria assim, parece-me que , se reconhecermos as diferenças que Van Til faz entre a mente divina e a mente humana, poderemos atribuir a Deus uma inteligência análoga, mas não idêntica à racionalidade humana. O fato de que os dooyeweerdianos consideram Van Til um racionalista indica, para mim, que eles têm um desentendimento fundamental nessa área" p. 152

Frame termina dizendo que precisamos nos posicionar contra o relativismo ateu, o relativismo idólatra e a idolatria atéia.

......

Há dois apêndices no livro: um sobre um diálogo com um agnóstico e outro sobre a relação da apologéticas de  Van Til  e de  Sproul.

domingo, maio 19, 2013

Sally Lloyd-Jones, Livro de histórias bíblicas de Jesus.

"Algumas pessoas pensam que a Bíblia é um livro de regras, dizendo a você que deve ou não deve fazer. A Bíblia realmente tem algumas regras. Elas mostram a você como ter uma vida melhor. Mas a Bíblia não fala essencialmente sobre você e o que você está fazendo. Ela fala sobre Deus e o que Ele está fazendo"



Sally Lloyd-Jones, Livro de histórias bíblicas de Jesus.

terça-feira, maio 14, 2013

N.T. Wright: Eu creio. E agora?


Este livro faz parte de uma trilogia, os dois primeiros eram Simplesmente Cristão, onde Wright colocava as bases do que é ser cristão e Surpreendidos pela Esperança, que fala sobre a esperança cristã e seus efeitos no mundo de hoje.

Em "Eu creio. E agora?", N.T. Wright vai falar sobre  as virtudes cristãs na formação do caráter. Como se dá esta construção de caráter e para quê?

A razão para uma vida de virtudes é a ter a vida voltada para um propósito maior, fora de nós mesmos,  colocar o reino de Deus em primeiro lugar e o próximo acima de sua própria satisfação e bem estar.

A transformação do caráter teria três etapas: primeiro, estabelecer o alvo correto, segundo, descobrir os passos necessários, terceiro, tornar os passos hábitos.

"O verdadeiro problema é que as regras sempre parecem ser e se destinam a ser restritivas, No entanto, sabemos, bem no fundo, que algumas das principais características que nos fazem humanos são criatividade, celebração da vida, da beleza, do amor , do riso. Não se chega  a isso por meio da legislação. Regras são importantes, mas não o centro. Podemos mandar as pessoas serem sempre generosas, mas dar um presente apenas como obediência a uma regra, como um dever, acaba com a glória da doação. Se as regras são vistas como o principal, então o "verdadeiro principal" faz falta. O que aconteceu com o caráter?" (p.57-58)

O caráter não nasce da simples obediência ou por esforço próprio, a mensagem cristã é que o caráter surge do seguimento a Jesus.

Wright coloca três movimentos que falaram sobre o caráter até influenciando a visão de alguns cristãos sobre o assunto:

  • 1. O movimento romântico reagiu contra o que achava que era um formalismo frio e racional.
  • 2. O movimento existencialista que enfatizava a noção de autenticidade.
  • 3.O movimento emotivista que insistia que todo discurso moral pode ser reduzido a preferências pessoais.

A ideia de auto-negação cristã foi removida de grande parte do discurso cristão. 

"Deus verdadeiro deu a seu povo em Jesus Cristo e por meio dele (a salvação, vida eterna e assim por diante), ele continua sendo um dom, jamais uma coisa que se pode conquistar. Deus jamais será listado como um de nossos devedores, nós estaremos sempre na lista dos que lhe devem. tudo que afirmo sobre a vida moral,. formação consciente de padrões de comportamento, se enquadra apenas e unicamente na graça que tomou corpo em Jesus, em sua morte e ressurreição" (p. 70)

Tom Wright fala da escatologia cristã e sua importância na formação do caráter, ele critica a visão pré-milenarista e pós-milenarista, para ele:

1. o alvo é o novo céu e a nova terra, com seres humanos levantados dos mortos para serem reis e sacerdotes do mundo renovado.

2. chega-se até o alvo por meio da obra estabelecedora do reino de Jesus e do Espírito, a qual nos apegamos pela fé, da qual participamos pelo batismo e vivemos pelo amor.

3. a vida cristã no presente consiste em antecipar a realidade final por meio da prática da fé, da esperança e do amor, conduzida pelo Espírito, formando novos hábitos, sustentando os cristãos no chamado para adorar a Deus e refletir a glória dele no mundo. (p.78)

A prática da virtude é uma antecipação do novo mundo de Deus. É um aprendizado. A glória da virtude cristã não tem o eu em seu centro, mas Deus e seu reino.

No capítulo 3, ele vai falar do papel central dos seres humanos no reino de Deus - sacerdotes e reis. O autor retorna ao Jardim,  no mandato cultural e vai até a nova Jerusalém onde adorar e reinar será a vocação dupla do novo povo na nova cidade conforme Ap. 22:3-5.

Em Jesus,  a raça humana pode provar da Arvore da Vida.

Tom Wright diz que a glória é a forma padrão que a Bíblia usa para se referir ao governo sábio dos homens sobre a criação.


"Glória é uma qualidade ativa. Sob glorioso governo humano o mundo é levado ao estado frutífero planejado,e os homens chegam a florescer, como planejado para eles. É, na verdade, a glória de Deus - a posição e o status efetivos - que mostram que os homens são mesmo reflexos de Deus. Por meio deles, a soberania sábia e amorosa do Deus criador é trazida à presença poderosa e vivificadora da criação" (p. 96)
Toda a leitura do tema da  glorificação tem este sentido na obra de Wright. Para ele, a santificação é o aprendizado dos hábitos presentes na glorificação, antecipando o futuro definitivo por meio da oração.

"O Espírito capacita o povo de Deus a ser uma comunidade de sacerdotes que reúne a adoração da criação e também o constitui como reis que levam a ordem curadora de Deus ao mundo" (p.101).

No quarto capítulo, O Reino vindouro e o povo preparado, Wright fala que o sermão do monte  aponta que o reino de Deus está chegando no presente, que em Jesus as pessoas já podem encontrar os hábitos de vida que terão no futuro.

O propósito de Jesus não era um plano maravilhoso de vida ou aceito como você é. O começo é do auto-negação, da morte, havia uma doença no coração que não poderia ser curada por aprimoramento pessoal, eles precisam de uma nova vida. 

"O destino real e sacerdotal dos seres humanos  renasceu apenas por causa do Humano perfeito, o único filho do homem que foi tanto rei quanto sacerdote. ele veio para dar início e incorporar o governo soberano e salvador de Deus na criação, incorporar, ainda, a obediência tão aguardada de toda a criação, da humanidade e, em especial,de Israel. No coração das duas vocações - o movimento soberano de Deus rumo à criação e o movimento grato e obediente da criação de volta ao Criador - encontramos nos Evangelhos o movimento não apenas de pensamento, mas de ação, que levou diretamente à cruz.Foi nela que o verdadeiro Deus derrotou os falsos deuses e estabeleceu, com paradoxo profundo e ressoante, seu reino na terra como no céu. Na cruz, a obediência fiel e grata que Deus buscou na criação, nos seres humanos, que carregam sua imagem, e em seu povo escolhido como resposta adequada a seu amor, foi oferecida plenamente, de maneira final.Claro que há muito mais a dizer sobre o significado da cruz, isso é o minimo" (p.121-122) 

A virtude para o cristão é que o você será, você já é em Cristo. Não se trata de uma imitação, Jesus não é para ser um exemplo de vida, ele é o transformador deste mundo. 


Transformado pela renovação da mente, no quinto capítulo vai falar sobre a transformação em si. Pensando em Romanos 12:1-2, a transformação começa com o oferecimento do corpo, que significa todo ser a Deus. Segundo, a oferta  é de um corpo dirigido por uma mente racional. E, em terceiro,  a adoração a Deus com todo o ser leva ao sacrifício de si mesmo em louvor a Deus.

Para Paulo, a mente é o centro do caráter cristão, a virtude resulta de pensamento e escolha (Cl 3:16). Lembrando que para Wright:

"o alvo é a humanidade renovada que reflete a imagem de Deus, e caminho até o alvo é a renovação e a plena atividade da mente. Segue-se uma lista de novos hábitos que devem ser adquiridos e dos antigos, que precisam ser abandonados (Ef. 4:25-5:2, 5:3-20). Como sempre, o viés escatológico está por perto: não se trata (como o título de uma tradução diz) de Regras para a Nova Vida, mas de hábitos de coração e mente, maneiras de aprender como é o pensamento cristão sobre o futuro final e o caminho até lá- caminho que é, digamos assim, ressurreição diária (5.14). (Repito, para não ser mal entendido: não quero dizer que as regras são irrelevantes, nem desnecessárias, na vida de virtude. Apenas penso que não são nem o ponto de partida, nem o destino)" (p.173)

O sexto capítulo fala sobre três virtudes(fé, esperança e amor), nove variedades de fruto  (Gl 5:22-23) e um corpo está baseado em 1Coríntios 13.  

Wright fala da relação do Espírito com a lei, fala que Paulo não faz uma especialização do fruto, pois quando age o Espírito  as nove variedades aparecem. Para ele, o fruto não é automático, se fosse assim, um deles não seria autocontrole.

A unidade da igreja é a uma visão da unidade do reino dos céus. A variedade  dos ministérios busca a construção deste corpo, para crescer numa unidade rica e diversa.

A unidade gera um valor apologético da diferença para o mundo e um valor de atração da benignidade. As virtudes apontam para Deus e para o mundo.

A virtude em ação é o sacerdócio real.

"Paulo e seus companheiros relembraram aos magistrados os deveres deles segundo a lei romana ( Atos 16.35-40), confrontaram a corte pagã mais famosa do mundo greco-romano (Atos 17:22-34), conseguiram veredicto favorável de Gálio, irmão adotivo de Sêneca, e uma defesa implícita do escrivão em Eféso (At 18:12-17,19:35-41), relembraram ao tribuno romano sua posição legal (22:25-29), anunciaram a um governador romano o julgamento iminente de Deus e a outro sua situação legal no momento (24:25-26, 25:6-12) e terminaram usando a cidadania romana para conseguir acesso a Roma, para onde acreditavam havia muito tempo que Deus queria que fossem para anunciá-lo como Rei e a Jesus como Senhor (25:11, 28:3-21, Rm 1:13-15)" (p. 224)

Ser rei significava para os primeiros cristãos viverem juntos de forma que declarava ao mundo que Jesus era o soberano.

"...a glória de Deus será refletida para o mundo quando os seguidores de Jesus aprenderem os hábitos de mente, coração e vida que imitam o amor generoso dele e, assim, levam nova ordem, beleza e liberdade ao mundo" (p.231)
O mundo para Deus na  adoração e Deus para o mundo na missão. 

Por fim, ele fala do círculo virtuoso: ESCRITURAS, HISTÓRIAS, EXEMPLOS, COMUNIDADE E PRÁTICAS. O grande alvo é a transformação da mente.

segunda-feira, maio 13, 2013

O RNA da Vinha




"A vinha de Deus é uma comunidade de ramos vivos que têm tudo que precisam em sua conexão com a Videira e optam por não viver sozinhos" 
Carlos McCord, A Vida que Satisfaz, p. 110.

Todo este texto parte das palavras do pastor Carlos McCord, não que ele tenha escrito ou falado este texto, digamos que inspirado.

A essência da Vinha.


A igreja pode ser pensada como uma vinha. Em João 15, Jesus se coloca com a Videira,  nós somos seus ramos. Podemos pensar que a igreja local é uma vinha, uma parte desta grande Videira. 

A igreja seria um conjunto de ramos que é ligado, nutrido e colhido pelo Agricultor na Videira que é Jesus. Toda criação, toda vida e todo fruto só podem vir da Videira e serem entregues ao Agricultor. 

A essência da vinha é  vida do próprio Deus em cada ramo disponível a cada instante gerando, alimentando e multiplicando vida.


O RNA da Vinha.


O RNA é o ácido ribonucleico, é o responsável pela síntese de proteínas da células vegetais. Ele é o DNA das plantas, falando vulgarmente.


A metáfora do RNA é para enxergarmos melhor como os movimentos da fé, da esperança e do amor dentro desta vinha. 

Ela é a síntese dos processos vitais que acontecem no interior da vinha para que esta continue viva e produzindo.

  • Recebe as perfeições de Deus Pai.
  • Nutrida pelo Espírito Santo.
  • Ama em, como e por Jesus Cristo.


Outra importância desta metáfora é que estes três processos assim como RNA estão presentes no interior de cada ramo e de cada vinha saudáveis.  Por fazer parte da natureza de cada ramo e de cada vinha, estas características sempre estão presentes podendo gerar um crescimento e uma permanência para cada vinha e cada ramo.

A fonte da vida não pode ser copiada ou gerada por qualquer ramo ou vinha, apenas Deus pode criar e reproduzir esta vinha naturalmente pelo seu poder vital. O máximo que os homens podem fazer é clonar este RNA criando uma vinha falsa com ramos artificiais.

Recebe as perfeições de Deus Pai.


Tudo que temos vem Deus, estamos ligados na Videira porque o Pai assim o quis. Sem Jesus, não podemos fazer nada e nem ser nada. 



Em sua eterna bondade, Deus que não precisa de nenhum de nós, escolheu precisar de nós.   


  • A história da imperfeição.



No princípio, Deus criou o mundo e todas as coisas para sua glória. O homem foi criado para glorificar a Deus, carregando dentro de si a imagem  e o sopro divinos para cuidar e desenvolver o jardim que Deus lhe havia dado. 



Contudo, o homem tentado pelo diabo, pensou que era a fonte de sua própria sabedoria, e desobedeceu a Deus juntamente com sua esposa. Eles decidiram viver sem Deus, viver a vida por eles mesmos.




Neste trajeto, toda a humanidade passou a viver em busca de algo que pudesse completar sua carência, o homem deixou Deus e passou a buscar a perfeição nas imperfeições da coisas. 


Deus se fez homem em Jesus, viveu uma vida de perfeita obediência a Deus, uma vida de perfeita satisfação momento a momento em Deus. Uma vida sem idolatria,  uma vida pura de fé, esperança e amor. 

Na cruz, Jesus tomou sobre si aquilo que cada um de nós merecíamos por nossa desobediência, a alienação que era nossa tomou como sua, pagou o preço por cada pecado. 

Na Cruz, Deus nos salvou da condenação que estava sobre a nossa vida por causa do pecado e também nos resgatou das mãos do inimigo. 

Somos declarados justos, aceitáveis, aprovados por aquilo que Deus fez por nós. E recebemos pela fé e pelo arrependimento aquilo que jamais poderíamos conquistar, a salvação. 


A fé e o arrependimento são a porta de entrada para a vida da perfeição. Pela fé, descubro que Deus fez todas as coisas para sua glória e seu louvor. Eu que antes estava entregue à morte e ao pecado, agora fui resgatado e tenho a vida eterna dentro de mim, a presença perfeita de Deus.



No arrependimento, descubro que minhas tentativas de prover para mim mesmo sentido e valor nesta vida são vazias e prejudiciais, somente em Cristo, encontro a perfeição de paz, segurança e satisfação que preciso nesta vida.


Recebendo vida como a vinha.



Vamos voltar a nossa metáfora da igreja como vinha.  Se pensarmos em João 15, a vinha só existe porque existe a Videira e o Agricultor. 


A igreja não surge de um projeto bem elaborado por um grupo de pastores nem por um esforço de um grupo de irmãos, a vinha surge por causa da videira, ela é uma manifestação da vida que existe na Videira e não da vida que existe num formato ou plano de igreja  ou da luta e batalha de um grupo de cristãos. A vinha, a igreja local, surge como um conjunto de ramos da Videira para mostrar ao mundo a vida que existe em Jesus e não em nós.

Andrew Murray, em Permanecendo em Cristo, diz:

a. sem a videira, o ramo nada pode fazer
b. sem o ramo, a videira tampouco pode fazer nada.
c. tudo aquilo que a videira possui pertence aos ramos.
d. tudo que o ramo possui pertence a videira.



Deus escolheu precisar de nós, os ramos não podem ser mais importantes do que aquele que os enxertou, que deu vida a eles.  Se existe uma vinha é por que ele resolveu que precisava existir uma vinha. A igreja surge em Deus para a glória de Deus e vive em Deus.



No princípio é Deus, o criador de sua vinha. A fonte de toda a vida espiritual é Deus, não nossos planos, nossos encontros ou nossos talentos. É uma relação de totalidade, tudo temos é de Deus e tudo que Deus tem é nosso agora pela fé.



Muitas pessoas se perdem na igreja colocando sua sede para ser saciada por cantores, pregadores ou pela comunidade, mas a única coisa que pode realmente alimentar e sustentar sua vida é Deus.



Somos salvos pela fé e não por obras. A justificação pela fé somente nos ajuda a entender que nossos cultos e nossa vida de igreja não tem valor além de adorar a Deus por aquilo que Ele tem fez, tem feito e fará em nossa vida.



Nossas obras religiosas não trazem salvação para a nossa vida. Numa igreja em forma de pirâmide, a fonte de toda a vida é o comportamento, se elege um comportamento padrão, faz-se uma lista de regras e vive um jogo de sejamos iguais ao líder.  



A igreja de Deus, a vinha surge em Deus, a fé nele é o comportamento padrão, as regras vêm da vida em obediência e satisfação nas suas palavras e não há jogos nem encenações, somos todos ramos.



Numa vinha toda a vida vem de Deus, a vida dos ramos não é mais importante do que a vida da Videira. 



Não existe vinha sem estrutura, não existe igreja sem instituição. Contudo, nem as estruturas são mais importantes que a vida, as cercas e os arames servem para dar apoio a vinha. Mas o que dá vida a vinha é a Videira e não as estruturas. As estruturas servem apenas para facilitar a vida na vinha, para facilitar o amor. 



As estruturas são meios e não fins, confundir isto é fatal na vida da vinha porque ela começa a se alimentar daquilo que não é perfeito, vive não da seiva de Deus mas de pregos e tijolos.



Enfim, o que é nascido do Espírito é espírito e o que é nascido da carne é carne. A mesma coisa serve para igreja, ela é uma vinha nascida da vida de Jesus, tem os planos de Deus como seus, e vive do Espírito. 



A vinha é alimentada pela vida perfeita de Jesus que habita nela. As perfeições de Jesus estão presentes na vida da comunidade cristã, quando ela se reúne em seu nome, Cristo está sempre presente disposto a dar tudo e toda a vida que ela precisa.


"Antes de conhecer Jesus, todos vivíamos conduzidos pelo princípio da imperfeição e do medo de nos estar faltando coisas. Essa vida é o que chamamos de viver na carne" (....) "Jesus faz um contraste entre a vida que depende do que pode ser acumulado e guardado, e uma vida em que alguém recebe perfeitamente a fim de distribuir perfeitamente"
(Carlos McCord, A Vida que Satisfaz, p. 90)


Nutrida pela o Espírito Santo.


Filipenses 4.19   O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus. 


A vida da vinha é nutrida pelo Espírito. Já vimos que a vida da Vinha começa em Deus, que as perfeições de Deus estão disponíveis para todos aqueles que têm fé e arrependimento, todos que agora são ramos da videira.


Vimos que fomos feito justos e aprovados perante Deus não por aquilo que podemos fazer, mas por causa da fé naquilo que Jesus fez por nós. A boa nova do Evangelho que chegou a nossa vida e nos transformou em filhos de Deus.


A santificação é uma vida dentro de um processo. Fomos feitos à imagem e semelhança de Deus por causa do pecado perdemos essa sintonia com Deus, com nossos próximos e conosco mesmo. Quando somos salvos, voltamos a viver numa aliança íntima com Deus, somos um com Jesus.


Então, a vida de Jesus em nós passa a ser a nossa vida. A santificação é este viver satisfeito em Deus que reflete de novo a imagem de Deus para o mundo, é um processo do Espírito Santo em nossa vida, é Deus que produz a devoção e o descanso em nosso coração.


Muitas pessoas na igreja pensam que são santas por aquilo que fazem, mas somos santos por aquilo que Deus está fazendo em nós. 


A santificação é a vida que agora passa a ser nutrida não mais pelos prazeres da carne mas pela graça de Deus através do Espírito Santo.


Idolatria. 


O grande inimigo aqui é a idolatria. Aquilo que colocamos no lugar de Deus para ter aquilo que só Deus pode dar. 



Enquanto indivíduo, sei que minha vida é para glorificar a Deus. Isto acontece, quando buscamos nossa alegria em Deus. O pecado é quando deixamos de buscar em Deus nossa salvação, paz, segurança e alegria e buscamos nas coisas ou em nós.  Quando colocamos outros deuses em nossa vida, passamos a viver para servir aquilo.



Na vinha, o que seria idolatria? Quando a igreja descansa em outra coisa que não seja Deus, se alimenta de seus próprios feitos, ela fica rica como diria João de Patmos, acha que tem tudo que precisa e coloca Jesus pra fora.


Pecado é toda vez que coloco minha alegria em outra coisa que não Deus. É quando o ramo deixa de lado a Videira e se alimenta de qualquer outra coisa.



Perdão.


Sem Jesus, nada podemos fazer. A vida em comum da igreja nasce da presença de Deus, não de nossos próprios feitos ou conquistas. Esta vida é alimentada por Deus e não por nós mesmos. Vemos isto quando há a necessidade de perdão.



Numa igreja que confia em seus feitos pessoais e coletivos, o perdão é um desafio enorme porque é uma afronta contra as pessoas que se esforçam tanto para ser  e ao mesmo tempo é uma declaração de fracasso da igreja em ser aquilo que ela acha que é. O perdão se torna um desafio para as pessoas que não podem errar e um obstáculo gigante para uma comunidade que não pode errar.



Nesta igreja, a palavra pecador é designada sempre para as outras pessoas, aquelas que não tem a mesma performance que o grupo. A visão é nós somos bons e os outros são maus. 



Jamais se usa a palavra pecador para si mesmo com profundidade e sinceridade, as referências às próprias falhas são sempre genéricas do tipo "somos todos falhos", "sou um ser humano falho", quase nunca há uma confissão pontual "sou falho nisto" ou "pequei naquilo". Porque a nutrição desta comunidade é a aquilo que ela faz.



O perdão só é concedido quando se vê no errado que ele fez de tudo para corrigir seu erro ou pagou o preço devido.  A fonte do perdão não é o perdão de Deus, mas a intensidade do castigo ou do arrependimento do pecador.  A disciplina não é uma poda para que haja mais frutos, mais um zoneamento de área infértil.


Bonhoeffer disse que a primeira coisa que Deus faz com a gente quando entramos numa comunidade é sermos decepcionados pelas pessoas. Isto acontece para que a nossa confiança não fique nas pessoas, mas, em Deus. Ele também disse que um pastor não pode reclamar de seu rebanho pois foi Deus quem o deu.


Se as pessoas fossem do jeito como gostaríamos que elas fossem não precisaríamos do Espírito Santo para a comunhão e para o perdão.

Orgulho.

Uma igreja nutrida pelo Espírito Santo não pode ser nutrida pelo egoísmo de seus membros e nem pelo orgulho de sua estrutura. O Espírito é o de Cristo, vêm para glorificar a Cristo, a igreja que é nutrida por Cristo se parece realmente com o corpo de Cristo sendo alimentada pelo seu Espírito e pelo seu Sangue.

Conversão


A nova vida acontece de dentro para fora pela fé: Pela obra de Jesus no calvário, recebemos pela fé, em nosso coração uma nova vida. Somos transformados pela presença do Espírito Santo em nossa vida, e não por aquilo que realizamos. A expiação de Jesus é o nosso valor e não a obra de nossas mãos.

A nova vida é de esperança e não de ansiedade: pela ressurreição de Jesus, sabemos que nosso futuro está seguro nas mãos de Deus, Ele está construindo em nós sua imagem e semelhança pelo Espírito Santo, sabemos que um dia tudo aquilo que não é dEle em nossa vida será tirado, e seremos como Ele. 

A nova vida acontece no servir e dar frutos e não no reinar e egoísmo: Pela encarnação de Jesus, descobrimos que Ele abriu mão de tudo que era dEle e entregou para nós tudo. Vemos que mesmo diante da morte, Ele escolheu servir e não ser servido.  Cada um de nós foi habitado por Ele para sermos como Ele em nossa família, igreja e comunidade.



Pregação.

A pregação numa vinha não começa da necessidade, mas da abundância. Se a vinha tem a perfeição de Jesus disponível, ela não parte de uma posição que precisa desta vida, mas que já tem esta vida.

O que é uma pregação de escassez. Normalmente, é  uma pregação que trabalha em cima da culpa e da carência. Se fala nela em lista de coisas para fazer, ser, mudar. Se fala para cristãos, mas é como se estivesse falando para descrentes. 

A pregação é baseada no moralismo, as motivações para a mudança são o orgulho e o medo. Vocês não podem ser pequenos como aqueles que fazem isto ou vocês tem que tomar cuidado para não ser como tais. 

A pregação da vinha começa com o Evangelho, com a vida e obra perfeita de Jesus que habita em nós e nos nutre. A transformação é a vida dele em nós.  Não é uma pregação cega para nossos pecados, mas ela não cura com esforço da carne, ela cura buscando transformar o coração deixando a vida abundante jorrar do interior.


Esperança.


A esperança cristã tem a ver com a vida de santificação do cristão. Como Paulo diz no texto de 1Coríntios quando vier o que é perfeito, o que é em parte será aniquilado. A esperança do crente é que tudo que é imperfeito em nossa vida seja finalmente curado.

É a vida do reino dos céus hoje, a vida eterna alimentada pelo Espírito Santo que habita na igreja.

Ama em, como e por Jesus Cristo.


O amor é a manifestação desta igreja. A igreja é a imagem do Deus vivo na comunidade em que ela está inserida, nosso Deus é um Deus de amor, um Deus que veio para buscar e salvar aqueles que haviam se perdido.

O amor é o amor da cruz, um amor sofredor que busca glorificar a Deus na dependência dele para fazer tudo que faz. Esta igreja sabe que suas obras de misericórdia não são a causa de sua importância, mas efeitos da importância de Jesus em sua comunidade.

O amor faz dela uma comunidade alternativa, uma cidade na colina, um luzeiro que mostra um modo de vida transformado. 

Quando colocamos o amor como fruto da igreja não faz mais  sentido as discussões sobre se é para evangelizar ou cuidar. O amor engloba tanto a missão de serviço, pregação e  comunhão da igreja. Nosso Deus é uno e fez uma igreja multiforme para alcançar as diversas necessidades das pessoas.




Redenção.


O propósito do amor é a redenção,  a transformação do luto em festa, é claro que ainda não viveremos esta plenitude, mas hoje a igreja pode ser um sinal visível do reino de Deus que virá. 

A igreja é Jesus corpóreo, o Jesus que abraça, cura, prega, perdoa e ama. O Jesus que se importa por aqueles que ninguém mais quer. 

A igreja foi chamada para ser a vinha frutífera em, como e por Jesus, que dá frutos que alimentam e saciam o mundo. Gerando novas vinhas, novas vidas.

Lembrando, as obras de amor são manifestação de todo o processo que está acontecendo. A vinha não é apenas a uva doce, mas ela é a Videira, os ramos e todo processo que está acontecendo.

Algumas igrejas gostam de dizer que são fiéis para se desculpar de sua incompetência, outras gostam de dizer que são efetivas para se desculpar de sua superficialidade. O critério bíblico é frutificação.


"A metáfora da jardinagem mostra que tanto sucesso quanto fidelidade em si mesmos são insuficientes como critérios para avaliação de ministério. Ainda no fim, o grau de sucesso de um jardim ( ou do ministério) é determinado por fatores além do controle do jardineiro. O nível de frutos varia de acordo com as condições de solo ( isto é, algumas pessoas tem um coração mais duro que outras) e condições de tempo (isto é, o trabalho da soberania do Espírito do Senhor) também". (Tim Keller,Center Church, p.14)


A vinha tem um processo orgânico e natural de ser contraste e vida em sua comunidade o que gera respostas naturais às questões de contextualização e estruturação. Estas questões são o modo como a vinha compartilha a beleza, a segurança e a satisfação que têm em Jesus.

O limite da frutificação é o limite de quanto a vinha se alimenta da vida da Videira. 


"O fruto é aquilo que o Agricultor pretende dar ao mundo. O fruto é exatamente aquilo que Deus sabe que o mundo precisa. A vida de Jesus demonstrou perfeitamente o que Deus pretende e o que o mundo precisa. Agora Jesus habita em nós para garantir que o fruto permaneça disponível ao mundo que tanto necessita dele" Carlos McCord, A vida que satisfaz, p. 92
Ainda seguindo o ensino de McCord, os frutos revelam a intenção de Deus para com a humanidade. A igreja como uma vinha revela a intenção de Deus para os  homens, um mundo de satisfação e fartura como foi o jardim como será o paraíso.

Apocalipse 22.1-3, 14:   E mostrou-me o rio puro da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça e de uma e da outra banda do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são para a saúde das nações. E ali nunca mais haverá maldição contra alguém; e nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e os seus servos o servirão(...) Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para que tenham direito à árvore da vida e possam entrar na cidade pelas portas.