quinta-feira, maio 14, 2015

Debora e Baraque: Legislador e Resgatador

Juízes 4:1-13Porém os filhos de Israel tornaram a fazer o que era mau aos olhos do SENHOR, depois de falecer Eúde. E vendeu-os o Senhor na mão de Jabim, rei de Canaã, que reinava em Hazor; e Sísera era o capitão do seu exército, o qual então habitava em Harosete dos gentios. Então os filhos de Israel clamaram ao Senhor, porquanto ele tinha novecentos carros de ferro, e por vinte anos oprimia violentamente os filhos de Israel. E Débora, mulher profetisa, mulher de Lapidote, julgava a Israel naquele tempo. Ela assentava-se debaixo das palmeiras de Débora, entre Ramá e Betel, nas montanhas de Efraim; e os filhos de Israel subiam a ela a juízo. E mandou chamar a Baraque, filho de Abinoão de Quedes de Naftali, e disse-lhe: Porventura o Senhor Deus de Israel não deu ordem, dizendo: Vai, e atrai gente ao monte Tabor, e toma contigo dez mil homens dos filhos de Naftali e dos filhos de Zebulom; E atrairei a ti para o ribeiro de Quisom, a Sísera, capitão do exército de Jabim, com os seus carros, e com a sua multidão; e o darei na tua mão. Então lhe disse Baraque: Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei. E disse ela: Certamente irei contigo, porém não será tua a honra da jornada que empreenderes; pois à mão de uma mulher o Senhor venderá a Sísera. E Débora se levantou, e partiu com Baraque para Quedes. Então Baraque convocou a Zebulom e a Naftali em Quedes, e subiu com dez mil homens após ele; e Débora subiu com ele. E Héber, queneu, se tinha apartado dos queneus, dos filhos de Hobabe, sogro de Moisés; e tinha estendido as suas tendas até ao carvalho de Zaanaim, que está junto a Quedes, E anunciaram a Sísera que Baraque, filho de Abinoão, tinha subido ao monte Tabor. E Sísera convocou todos os seus carros, novecentos carros de ferro, e todo o povo que estava com ele, desde Harosete dos gentios até ao ribeiro de Quisom. 


Com a morte de Eúde, mais uma vez, os israelitas fizeram o que era mal aos olhos de Deus. Israel é dada nas mãos de Jabim, rei de Canaã. O principal modo de Jabim oprimir o povo era o capitão de seu exército, um homem chamado Sísera.

A opressão de agora foi ainda pior, então Israel clamou por ajuda.  Aí, aparece Débora, a profetisa, ela prega e ensina a palavra de Deus, vemos isto no verso 6. E ela está liderando Israel, julgando-o. 

Dessa forma, Débora é muito diferente de todos os outros juízes. Ela liderava com caráter e sabedoria, ao invés de força. Se Eúde e Otniel eram de guerra, ela liderava consolando e guiando o povo, ela era mais do que um general de guerra. 

E mandou chamar a Baraque, filho de Abinoão de Quedes de Naftali, e disse-lhe: Porventura o Senhor Deus de Israel não deu ordem, dizendo: Vai, e atrai gente ao monte Tabor, e toma contigo dez mil homens dos filhos de Naftali e dos filhos de Zebulom; E atrairei a ti para o ribeiro de Quisom, a Sísera, capitão do exército de Jabim, com os seus carros, e com a sua multidão; e o darei na tua mão. Juízes 4:6,7

Para ajudar com a questão da guerra, ela vai atrás de Baraque. E dá a comissão de Deus para ele. Baraque deve reunir 10 mil homens no Monte Tabor e Deus irá dar a vitória sobre Sísera.

Nesta história, não há um grande herói apenas sozinho, mas há três, nem Débora e nem Baraque vão vencer Sísera. Como veremos no capítulo 5, a grande honra da vitória não está em nenhum dos três nem nos 10 mil, mas em Deus que deu a vitória.


Então lhe disse Baraque: Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei. Juízes 4:8

Alguns podem até ler este verso e tentar diminuir Baraque por querer a companhia de Débora. Contudo, Baraque é um exemplo de fé, seu desejo de ter Débora com ele não é uma desobediência, mas vem do reconhecimento de que Débora é uma mulher de Deus que fala as palavras de Deus. 

Primeiro, Baraque nos mostra que a fé  é ouvir a Deus em cada estágio de nossa vida, em qualquer circunstância.

Segundo, a fé é mostrar coragem em face de desafios enormes como as carruagens de guerra.

Terceiro, a fé é humilde e não procura a honra própria, ele obedece a ordem divina, vai para a batalha com seus homens sabendo que a vitória será dada por Deus. 


A morte de Sísera

E Héber, queneu, se tinha apartado dos queneus, dos filhos de Hobabe, sogro de Moisés; e tinha estendido as suas tendas até ao carvalho de Zaanaim, que está junto a Quedes, E anunciaram a Sísera que Baraque, filho de Abinoão, tinha subido ao monte Tabor. E Sísera convocou todos os seus carros, novecentos carros de ferro, e todo o povo que estava com ele, desde Harosete dos gentios até ao ribeiro de Quisom. Juízes 4:11-13 


O narrador nos conta que Heber, que não tinha nenhum papel na batalha, conta a Sísera que os israelitas estão em Tabor. A mulher de Heber será importante.

Sísera reúne suas tropas vai ao encontros do povo de Israel e seu comando é derrotado juntos com os seus 900 carros de ferro. 

Porém Sísera fugiu a pé à tenda de Jael, mulher de Héber, queneu; porquanto havia paz entre Jabim, rei de Hazor, e a casa de Héber, queneu. Juízes 4:17


Sísera consegue fugir a pé, e vai para a casa de Jael, a mulher de Héber, que avisou sobre a movimentação do povo israelita no monte Tabor. 

E Jael saiu ao encontro de Sísera, e disse-lhe: Entra, senhor meu, entra aqui, não temas. Ele entrou na sua tenda, e ela o cobriu com uma coberta. Então ele lhe disse: Dá-me, peço-te, de beber um pouco de água, porque tenho sede. Então ela abriu um odre de leite, e deu-lhe de beber, e o cobriu. E ele lhe disse: Põe-te à porta da tenda; e há de ser que se alguém vier e te perguntar: Há aqui alguém? Responderás então: Não. Então Jael, mulher de Héber, tomou uma estaca da tenda, e lançou mão de um martelo, e chegou-se mansamente a ele, e lhe cravou a estaca na fonte, de sorte que penetrou na terra, estando ele, porém, num profundo sono, e já muito cansado; e assim morreu. Juízes 4:18-21
Esta história é muito parecida com Eúde. Também mostra que a profecia de Débora no verso 9 era verdadeira. 

Assim Deus naquele dia sujeitou a Jabim, rei de Canaã, diante dos filhos de Israel. Juízes 4:23

A honra foi dividida, mas, na realidade, a honra não é de nenhum homem. Foi Deus quem disse que isto iria acontecer para Débora. Deus foi adiante de Baraque e lhe deu vitória.

Deus é o grande resgatador, agindo conforme sua vontade e não por causa do mérito do povo. Então, Ele merece a glória. Seu trabalhar através das pessoas é um privilégio para essas pessoas, e não algo que elas mereçam. 


Com a destruição de Jabim, poderíamos esperar que a paz voltasse na terra de Israel, mas o que vemos é um clamor de Débora para que o ciclo de desobediência-punição-arrependimento cesse. 

Então fez dominar sobre os nobres entre o povo, aos que restaram; fez-me o Senhor dominar sobre os poderosos. De Efraim saiu a sua raiz contra Amaleque; e depois de ti vinha Benjamim dentre os teus povos; de Maquir desceram os legisladores, e de Zebulom os que levaram a cana do escriba. Também os principais de Issacar foram com Débora; e como Issacar, assim também Baraque, foi enviado a pé para o vale; nas divisões de Rúben foram grandes as resoluções do coração. Por que ficaste tu entre os currais para ouvires os balidos dos rebanhos? Nas divisões de Rúben tiveram grandes esquadrinhações do coração. Gileade ficou além do Jordão, e Dã por que se deteve nos navios? Aser se assentou na beira dos mares, e ficou junto às suas baías. Zebulom é um povo que expôs a sua vida à morte, como também Naftali, nas alturas do campo. Juízes 5:13-18
Este trecho mostra que nem todo mundo se aliou com Baraque, algumas tribos de Benjamim e Efraim  como Issacar. Mas Rúben ficou com os rebanhos, Glieade, Dã e Aser ficou em casa. A grande honra fica com Naftali e Zebulom que arriscaram suas vidas no campo de batalha.

Vieram reis, pelejaram; então pelejaram os reis de Canaã em Taanaque, junto às águas de Megido; não tomaram despojo de prata. Desde os céus pelejaram; até as estrelas desde os lugares dos seus cursos pelejaram contra Sísera. O ribeiro de Quisom os arrastou, aquele antigo ribeiro, o ribeiro de Quisom. Pisaste, ó minha alma, à força. Então os cascos dos cavalos se despedaçaram; pelo galopar, o galopar dos seus valentes. Juízes 5:19-22

Deus lutou contra os inimigos de Israel, o verso 21 fala que os carros invencíveis de Sísera ficaram inúteis. Deus os arrastou com a água no ribeiro de Quisom. Aqui, Baraque nem é mencionado, porque realmente quem deu a vitória foi Deus.


Fonte: 

Judges for You - Timothy Keller

quinta-feira, maio 07, 2015

Craig e Moreland: Duas Categorias: Propriedade e Substância

NO CAPÍTULO 10 do livro FILOSOFIA E COSMOVISÃO CRISTÃ, Lane Craig e Moreland continuam a tratar de ONTOLOGIA GERAL, Agora falam sobre PROPRIEDADE E SUBSTÂNCIA.

Como devemos considerar a concordância qualitativa? 

NOMINALISMO EXTREMO: defendido por W.V.O. Quine e Wilfred Sellars, as propriedades absolutamente não existem e os indivíduos concretos e os grupos de indivíduos concretos são as únicas coisas reais. As propriedades absolutamente não existem. Em vez disso, os únicos seres que existem são os indivíduos concretos e as palavras das propriedades que são verdadeiras para eles,

NOMINALISMO: defendido por D.C.Williams e Keith Campbell, acreditam na existência das propriedades, mas defendem que são qualidades  específicas, chamadas indivíduos abstratos que não podem ser possuídos por mais de um indívíduo concreto. 

REALISMO: desenvolvido por DM Armstrong e Reinhardt Grossman, a propriedade é um em muitos, ela pode ser possuída por muitos indivíduos concretos, é chamada de relação de exemplificação, predicação ou referimento. As propriedades são chamadas universais, quer dizer, entidades multiplamente exemplificáveis que podem estar presentes ao mesmo tempo em muitas coisas. 


AS PROPRIEDADES E O NATURALISMO.

"O universo pode ser definido como o completo sistema espácio-temporal de matéria e energia (impessoal), ou seja, como a soma total dos objetos materiais de algum modo acessível aos sentidos e à investigação científica. O mundo pode ser definido como a soma total de tudo que existe, inclusive as entidades abstratas não-espácio-temporais. No sentido metafísico, uma entidade abstrata é uma entidade real que não está no espaço ou no tempo."  (PAG 260)

Nominalistas extremos e nominalistas estão ligados ao naturalismo. Negando que as propriedades sejam universais. 

A primeira concepção realista de exemplificação é a visão modelo-cópia: as propriedades são entidades abstratas que existem fora do espaço e do tempo. No entanto, as propriedades não são incorporadas pelos entes que supostamente as possuem. Esta visão não é amplamente aceita devido às dificuldades apontadas contra ela tem sido o argumento do terceiro homem, este mostra que a visão modelo-cópia de propriedades e exemplificação resulta em duas suposições que, tomadas em conjunto, conduzem a um regresso infinito vicioso.

AXIOMA DA LOCALIZAÇÃO: nenhuma entidade qualquer pode existir em diferentes localizações espaciais ou em intervalos descontínuos do tempo.

"Nesse sentido, o realista impuro aceita as propriedades como universais, mas as rejeita como objetos abstratos. Enquanto o realista puro declara que o melhor modo de entender o que significa dizer que as propriedades são universais é vê-las  como objetos abstratos (no sentido metafísico). Os nominalistas puros são natuaralistas  impuros porque rejeitam o axioma da localização, mas aceitam a ideia de que tudo está no espaço e tempo em algum sentido, e os realistas puros rejeitam completamente o naturalismo e admitem os objetos abstratos" (PAG 263).

"o fenômeno da predicação é um problema para o nominalismo extremo e para o nominalismo, porque essas visões não apresentam uma resposta adequada sobre o que inclui alguma coisa em sua classe, o que inclui alguma coisa em sua classe, o que integra a classe, e o que exclui outras coisas dessa classe de membros. O realista pode explicar isso recorrendo à posse da mesma propriedade ou à ausência" (PAG 266)


......

SUBSTÂNCIAS

As propriedades não se apresentam ao mundo totalmente por elas mesmas. Têm possuidores, e uma substância é a possuidora das propriedades, que estão dentro delas, as propriedades são possuidas pelas substâncias a que pertencem.

Uma substância é uma unidade repleta de propriedades e também é uma unidade de capacidades - potencialidades, disposições, tendências.

DECLARAÇÃO CONTRAFACTUAL: é uma alegação que expressa qual seria o caso se, ao contrário do realmente ocorrido, tal e tal coisa acontecesse.  Tais contrafactuais são explicados por um conjunto de capacidades que uma substância possui, que são sua verdade ainda que elas não sejam realizadas. 

A natureza interior de uma substância compreende a unidade estrutural ordenada de suas capacidades finais. É uma profunda unidade de propriedades, partes e capacidades.

IDENTIDADE E UNIFORMIDADE ABSOLUTA ATRAVÉS DA MUDANÇA

Uma substância é um contínuo, que permanece o mesmo através da mudança. A mudança pode ser entendida como a vinda ou a ida de uma propriedade dentro de uma substância durante um período.  Ela perde regularmente partes obsoletas, propriedades e capacidades de ordem inferior, substituindo-as por novas. Mas a própria substância em si mesma forma  a base dessa mudança e permanece a mesma no seu final.

LEI E MUDANÇA LEGIFORME

São  fundamentadas na natureza interna de uma substância que, nesse contexto, pode ser entendida como um princípio dinâmico da atividade ou mudança imanente no interior da substância individual.

A UNIDADE DA PRÓPRIA ESPÉCIE NATURAL.

A espécie natural de uma coisa (ESSÊNCIA, NATUREZA)  é o conjunto de propriedades que a coisa possui, tal que sem ele a coisa não é reconhecida como membro da espécie e, se ela perder quaisquer de suas propriedades essenciais, sua existência finda.

CAUSALIDADE FINAL.

Uma causa eficiente é aquela por meio da qual um efeito acontece. A causa eficiente provoca o efeito. Uma causa material é a substância ou matéria da qual algo é feito. Uma causa formal é a essência de uma coisa. Uma causa final é aquela por cuja finalidade um efeito, ou uma mudança, é produzido.

Hoje a doutrina da causalidade final é tida como antiquada, considera-se que são suficientes a eficiente e a material. Para os autores, ela ainda tem vigor em noções filosóficas e complementares da ciência.

O PROBLEMA DA INDIVIDUAÇÃO.

Quando duas coisas possuem exatamente as mesmas propriedades, como é que os dois não são a mesma coisa? Se elas compartilham todas as propriedades em comum, se as propriedades são universais, o que, então, torna-as duas em vez de apenas uma? Não podemos usar a diferença de localização espacial, porque ela pressupõe a diferença e a individuação, não podendo constituir a própria individuação.

Uma substância individual é um aquele-tal, é uma combinação de duas entidades metafísicas: uma natureza universal e um componente de individuação.

SUBSTÂNCIAS X COISAS-PROPRIEDADE

1. A coisa-propriedade requer duas categorias metafísicas para classificá-la. Em contraste, uma substância é uma unidade verdadeira e complexa, e requer  apenas uma categoria- a da substância- para classificá-la.

2. As coisas-propriedade não são unidades profundas,  mas antes combinações acidentais de uma propriedade relacional ordenada externamente imposta sobre materiais preexistentes. A unidade não surge ou reside dentro do seu próprio ser, em vez disso, pelo menos para os artefatos humanos, reside no plano contido na mente do projetista (designer) da coisa-propriedade. A unidade da substância surge e reside dentro da própria e é devido à essência interna ou natureza da substância que serve como seu princípio de unificação.

3. Para uma coisa-propriedade, as partes existem antes do todo, não só temporalmente mas de forma metafísica. Essas partes são identificadas pelos materiais que as compõem. Na realidade, o todo depende dessas partes para sua estrutura global.  A substância como um todo vem antes das partes, nesse sentido, suas partes são unidas e formadas pela regra da substância e de sua essência tomada como um todo, e tais partes adquirem sua identidade em virtude de sua incorporação na substância como um todo.

4. A coisa-propriedade são relacionadas umas às outras por meio de relações externas, as relações não participam da mesma natureza dessas partes, e estas são indiferentes às relações. As partes de uma substância estão relacionadas umas as outras por meio de relações internas, as partes são o que são em virtude das relações que elas mantêm com outras partes e com a substância como um todo. Se as partes se separarem das relações, elas perdem a sua identidade. Não são indiferentes à sua incorporação numa substância, elas adquirem sua identidade da substância da qual são partes e perdem sua identidade quando fora dela.

5. As coisas-propriedade não possuem nenhum tipo novo de propriedades que já não tivesse contido nas partes, ela fornece uma estrutura pela qual um mediador natural que já exista seja capaz de concentrar energia e produzir um efeito que será interpretado como uma nova forma.  Essa característica é controversa, alguns filósofos acreditam que ela pode ter propriedades emergentes, tipos genuinamente novos de propriedades exemplificados pela coisa-propriedade como totalidade, que não características de suas partes. A substância possui novas propriedades verdadeiramente suas, não de suas partes antes da incorporação em suas substâncias. essas novas são encontradas na natureza da substância.

Para os autores, os organismos vivos são substâncias genuínas.



TEORIA DO FEIXE RELACIONADA À SUBSTÂNCIA

Na visão tradicional, uma substância não é somente um ajuntamento de propriedades, é algo que possui ou está na base das propriedades. Alguns formularam uma visão concorrente da substância, chamada de teoria do feixe.

Uma substância não é uma essência individualizada que possui propriedades embutidas em si, antes, uma substância é uma coleção ou feixe de propriedades.

Aqui, não existe possuidor das propriedades das coisas, elas não se relacionam a uma substância de forma tradicional, a relação entre as propriedades e uma substância é bem maid do que uma relação parte-todo, a substância não é apenas uma lista de propriedades, mas um conjunto de propriedades agrupadas de forma precisa e simultânea.

(pi - pn, uma relação de feixe R)

A vantagem é que não acarreta a aceitação de uma entidade que não seja empiricamente observável. A teoria do feixe será interessante para aqueles que acreditam que a metafísica deve ser feita dentro dos limites das impressões sensíveis.

Os aspectos negativos:

1. não pode responder pela contingência das substâncias, as substâncias individuais não seres necessários, são contigentes- existem no espaço e tempo, surgem e perecem. Mas se as propriedades são universais, logo, a teoria do feixe transforma as substâncias em seres necessários pois ela defende que uma substância é limitada às suas propriedades e todas as suas propriedades são universais, assim, se algo é um agrupamento de propriedades universais, algo é um ser necessário.

2. não pode sustentar que as substâncias permanecem realmente as mesmas durante a mudança, já que uma substância é somente um conjunto de certas propriedades agrupadas, se uma delas acabar, será obtido um novo e diferente feixe.


quarta-feira, maio 06, 2015

Moreland e Craig: Existência, Identidade e Reducionismo

Chegamos ao nono capítulo do livro Filosofia e Cosmovisão Cristã de J.P. Moreland e William Lane Craig. Este continua o assunto da ONTOLOGIA, tratando agora da NATUREZA DA EXISTÊNCIA, NATUREZA DA IDENTIDADE E SUBSTITUIÇÃO E REDUCIONISMO.


A NATUREZA DA EXISTÊNCIA.

O SER É UM GÊNERO?


"Se o ser é um gênero- quer dizer, uma noção unívoca que se aplica da mesma maneira a todas as coisas que possuem o ser - isso significa então que qualquer existência se torna um ser, tudo o que existe terá existência ou, com mesmo sentido, possuirá ser. Ser é uma noção unívoca que significa a mesma coisa para todas as entidades, quaisquer que sejam" PAG  238

TEORIAS DA EXISTÊNCIA

Características

1. ser consistente com e explicar o que, de fato, existe e não existe.
2. explicar o que poderia ter existido, mas, ou não existe ou não se acredita que existe
3. deve admitir o fato de que a existência em si existe.
4. não deve violar as leis fundamentais da lógica
5. tem de admitir a existência de atos de conhecimento,


DIFERENTES TEORIAS SOBRE O QUE É A EXISTÊNCIA EM SI MESMA.

"Várias teorias da existência têm sido propostas. Listamos a seguir algumas que são inadequadas: Existir é a. estar localizado no espaço e no tempo,b. ser físico, c. ser eficaz de forma causal, ou seja, ser capaz de ser uma causa eficiente (por meio do qual um efeito é produzido) ou de ser influenciado por uma causa eficiente), d. ser um evento ou conjunto de eventos, e. ser percebido e ser percebedor, f. ser uma propriedade, g. ser uma propriedade de propriedades" (PAG 240)


Essência e existência.

Existe uma diferença entre a essência da coisa e sua existência.  A existência não é uma propriedade, mas é o pertencimento de uma propriedade. é participar da relação de predicação ou exemplificação. A existência ou é o pertencer de alguma propriedade ou o ser parte de uma propriedade ou, mais simplesmente, a participação no vínculo de exemplificação.


  • existe um
  • a diferença fundamental entre existir e não existir.
  • essa diferença não é uma propriedade normal como a propriedade de ser vermelho.
  • a existência não faz parte da essência ou da natureza das entidades comuns, ou seja, para as entidades comuns há uma diferença entre essência e existência.
Df- definido como

Alterações: são tipos de mudança, a coisa que está mudando deve existir e a coisa que muda deve existir no princípio, durante o processo e ao término da mudança.

A inexistência não possui qualquer propriedade.


Relação de identidade
é uma relação que cada coisa possui consigo mesma e com nenhuma outra.

Co-extensibilidade
significa que alguma coisa ocorre se, e somente se, uma outra coisa também ocorrer.

inseparabilidade
A identidade difere da inseparabilidade, duas entidades podem ser partes de um todo e ser inseparáveis uma da outra, ou do todo, e, no entanto, não serem idênticas.

...


FRANCISCO SUÁREZ- dISPUTAS mETÁFISICAS

"Suárez examinou certas distinções que lançaram luz sobre a identidade e as declarações de identidade. (pAG. 248)

distinção real. Duas entidades diferem no sentido de uma distinção real apenas no caso de poderem ser separadas e ainda continuarem a existir.

distinção de razão, se duas coisas diferem no sentido de uma distinção de razão, então elas são idênticas. Há dois tipos desta distinção:
- distinção de razão de raciocínio: surge somente porque usamos a mesma palavra duas vezes em frases, como Pedro é Pedro.
-distinção de razão inferida: quando ela estiver presente, os conceitos ou os termos são idênticos para se referir ao objeto não esgotam o objeto em questão e expressam diferentes aspectos não-idênticos do mesmo objeto idêntico.


distinção modal: Se A é modalmente distinto de B, então 1. um deles é constituinte do outro e 2. um deles poderia existir sem outro, mas não vice-versa.

..

DECLARAÇÕES DE IDENTIDADE


usamos para expressar afirmações de identidade.

VISÃO TRADICIONAL OU OBJETAL DAS DECLARAÇÕES DE IDENTIDADE: uma declaração de identidade afirma que a coisa referida pelo primeiro termo possui uma certa característica verdadeira, a saber, ser idêntica a si mesma.

VISÃO METALINGUÍSTICA: (Frege) são declarações sobre a linguagem, e elas afirmam que uma certa relação se mantém entre as duas expressões referentes e usadas na declaração, quer dizer, elas são expressões co-referentes usadas na declaração, cada uma delas nomeia a mesma coisa.

Tipos de Sentenças:

DECLARAÇÕES DE IDENTIDADE SIGNIFICATIVAS: quando duas expressões referentes são sinônimas.

DECLARAÇÕES DE IDENTIDADE REFERENCIAL OU NOMINAL: ocorrem quando dois nomes próprios ou dois termos de espécies naturais funcionam simplesmente indicando ou referindo-se ao seu objeto de referência em qualquer circunstância na qual ele possa existir.

DECLARAÇÕES DE IDENTIDADE CONTINGENTES: enquanto que a identidade de uma entidade consigo mesma é necessária, algumas declarações de identidade são contingentes, isto é, elas são verdades em alguns mundos possíveis, e em outros, falsas.


segunda-feira, maio 04, 2015

Mordomia Cristã: um devocional de Tim Keller

Mordomia Cristã 
Timothy J. Keller
fonte: http://www.biblesnet.com/Tim%20Keller%20A%20%20Day%20Study%20in%20Stewardship.pdf

Dia 1- SEU VERDADEIRO E ÚNICO TESOURO.
Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. Mateus 6:21

Jesus aqui nos ensina a lição mais importante sobre dinheiro. Nosso coração, nosso desejo e esperança está ligado com o nosso tesouro. Nosso dinheiro e nosso coração andam juntos. Nós todos sabemos disto, claro, em algum sentido. Mas, quando Jesus chama a nossa atenção para esta parte de nosso caráter, ele nos confronta.

Ele nos alerta  sobre a coisa poderosa que é a posse de riqueza material, um fascínio que nos molda e nos leva agir e acreditar de modo contrário a nossa fé cristã.  Dizemos que vivemos para os céus.  Mas a nossa carteira nos mostra para quem realmente nós vivemos: prazeres terrestres que desvanecem ou o investimento no reino eterno que dura para sempre.

1.        Qual é o seu maior tesouro? Onde está o seu coração?
2.       Quando você dá, isto te deixa triste ou alegre? Por que?



Dia 2 – A CRIAÇÃO É UMA PROPRIEDADE DE DEUS.

E digas no teu coração: A minha força, e a fortaleza da minha mão, me adquiriu este poder. Antes te lembrarás do Senhor teu Deus, que ele é o que te dá força para adquirires riqueza; para confirmar a sua aliança, que jurou a teus pais, como se vê neste dia. Deuteronômio 8:17,18

Deus é o criador (Gn 1:1), o único ordenador e senhor sobre toda a criação. Ele controla todas as coisas no mundo, toda a criação (Sl 50:12). Nada está fora da sua presença soberana sobre toda a criação. Ele é que a criou e a protege e a usa para sua gloria. Então, qualquer que seja o modo como usamos os recursos do mundo, usamos os recursos do mundo de Deus.

Isto também significa que a prata e o ouro são deles (Ag 2:8). Quando olhamos para as nossas próprias finanças, tendemos a esquecer a propriedade soberana da criação por Deus. Esperamos que Ele cuide nós como se Ele nos devesse algo. Em Jó 41:11, Deus responda: Quem primeiro me deu, para que eu haja de retribuir-lhe? Pois o que está debaixo de todos os céus é meu.". Ou, nós pensamos que tudo que temos conquistado nossos tesouros por causa de nossas próprias habilidades (Dt. 8:17). 

Então, Deus não precisa de nosso dinheiro como  como se ele precisasse de um salario. Ao invés, nós precisamos dele a cada momento para ele nos sustentar.  Nosso louvor e a dedicação completa de nossas vidas é um entendimento de que Deus controla tudo. É uma oferta de gratidão, dar de volta daquilo que abundantemente temos recebido (Sl 50:14)

1.        Você age como se Deus fosse seu dono?
2.       O que te faz esquecer o controle amoroso de Deus sobre tudo?


DIA 3- SEU POVO É UMA PROPRIEDADE DE DEUS.

Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido? 1 Coríntios 4:7

Todo bem em nossas vidas vem de Deus: nossas habilidades, nosso crescimento, nossa educação. Não poderíamos estar aqui se não fossem as incontáveis intervenções de Deus em nosso favor. Além de todas essas bênçãos temporárias, Deus deu aos seus filhos, o maior de todos os presentes: Seu único Filho.  A igreja de Corínto e muitos de hoje em dia praticamente ignoram a completa maravilha desta declaração.

O Evangelho é um presente. Nossa união com Cristo é toda pela graça de Deus. Nada que façamos pode merecer ou conquistar isto.  De fato, nós estávamos em rebeldia contra Deus (Rm 1:18). E, mesmo assim, Cristo morreu por seu povo, carregando seus pecados e dando a elas a sua justificação (2Co 5:21). Quando nós esquecemos isto, de acordo com Paulo, nos tornamos orgulhosos e egoístas. 

E se alguém nos emprestássemos 100 mil?  Ficaríamos ressentidos em dar 5 reais?  Nós iríamos tratar todos estes recursos como somente nosso? Deus nos deu as coisas deste mundo para usar para seu proveito. Ele não tinha que fazê-lo. Mas, somos seus filhos, Ele nos ama e nos deu o que precisamos e o que podemos empregar para crescimento do seu reino, para espalhar a graça ainda mais. Sua bondade inclui nos dar a alegria do compromisso com Ele. 


1. Você trataria suas coisas se elas pertencessem a outra pessoa? Como você deve agir sabendo que Deus é dono de tudo de que você tem: seu lar, suas roupas, sua mobília, seu dinheiro, seu tempo?

2. O que você recebeu de Deus? Como sua vida é diferente por causa de Cristo?


dia 4-  A VERDADEIRA SEGURANÇA.

"Se pus no ouro a minha confiança e disse ao ouro puro: Tu és minha confiança" Jó 31:24

Em Lucas 12, o tolo rico pensou que poderia confiar em sua colheita. Ainda assim, a colheita viveu mais que ele. Ele investiu sua saúde com algo que não poderia receber: segurança.  Isto estaria para sempre lá, para fazer sua vida confortável. Mas, as coisas deste mundo são instáveis, uma pilha de areia pronta a desmoronar. A resposta de Deus para ele é direta: Seu Tolo.  


Ter um monte de dinheiro pode ser como uma droga. Isto vai fazer você sentir poderoso e vertiginoso.  Você poderá ficar convencido que tudo está indo bem. Podemos pensar que apenas se nós acumularmos mais e mais teremos o suficiente. Este dia nunca chega- o suficiente nunca é alcançado.  Quando confiamos em Deus, podemos parar de acumular riqueza além de nossas necessidades e nós tornamos ricos em Deus. 


A única verdadeira segurança vem de confiar no cuidado de Deus para seus filhos. Como cristãos, podemos estar seguros que Deus nos ama por causa da obra de Cristo em nosso favor. Então, podemos afrouxar o nosso controle sobre os nossos tesouros.  Vemos eles como temporários e o reino de Deus como eterno.

1. Quanto dinheiro você quer deixar quando morrer? Por que?
2.  Como alguém rico em Deus se parece? Isto reflete seu estilo de vida?


dia 5-  O QUE NÓS ADORAMOS?

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Mateus 6:24,25

Jesus personifica a riqueza como Mamom. Ele até mesmo dá a isto o status de um falso deus, um ídolo e deixa uma declaração de ou tudo ou nada: se você adora a riqueza, você não adora a Deus. Nosso coração não pode conter dois senhores. 

A preocupação é um indicador da adoração. O que preocupa você é aquilo que você não quer perder. Então, Jesus diz que a preocupação quanto ao dinheiro e ao futuro é um indicator de uma falta de confiança em Deus. Pior, isto mostra que a verdadeira esperança do coração está na riqueza. Suas palavras são tão desconfortáveis que mesmo aqueles de nós que dizemos que amamos a Deus e lutamos para defender a autoridade da Bíblia nos achamos por vezes naquilo que Ele está falando. 

Pesquisas tem mostrado que muitas pessoas não dão porque têm medo. O único modo para parar de preocupar-se com dinheiro é quebrar isto no seu coração e se tornar generosos. Quando você dá dinheiro, você para de adorar a ele.

1.  Se você tiver que diminuir seu estilo de vida para dar, isto o preocupará?
2. O que você perdeu para enriquecer? Você abriu mão de seus amigos, família, tempo ou Cristo?


dia 6- CONTENTAMENTO.

Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: Não te deixarei, nem te desampararei. Hebreus 13:5

Em meio a exortação para os cristãos viverem de acordo com o Evangelho, o escritor aos Hebreus, nos ordena o contentamento. Assim como o contentamento é resultado da confiança em Deus é também um meio de confiar em Deus.  Estar descontente é acusar Deus de ser não amoroso e impotente. O contentamento com a nossa vida é, portanto, uma virtude tão importante como amor, hospitalidade, misericórdia e fidelidade. 

Infelizmente,  vivemos numa cultura de descontentamento.  Cada dia nós vemos cerca de 3,500 anúncios na televisão, cada um nos tenta convencer que o que temos não é bom o suficiente. Precisamos de algo melhor, algo novo, algo mais na moda.  Desejos se tornam esperanças, que se tornam vontades até virarem necessidades.

Paulo aconselha Timóteo para continuar focado na alegria duradoura do contentamento. Mas é grande ganho a piedade com contentamento. 1 Timóteo 6:6 

1. Você está contente com o que tem?
2. Como você lida com a pressão de ter mais do que pode ter?


dia 7- DINHEIRO NA RAIZ

Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores. 1 Timóteo 6:10

Esta famosa passagem é centra em nossa visão do dinheiro. Paulo declara que o dinheiro está na raiz de uma grande variedade de pecado e idolatria. Dinheiro é como um tempero numa mistura de desejos pecaminosos. Em outras palavras, poucas pessoas sentem luxúria com pouco dinheiro. Ao invés disto, o dinheiro desempenha um papel importante nas idolatrias de segurança, conforto, aprovação ou poder. Gostamos de dinheiro porque ele nos dá o que queremos. Mesmo como o Tio Patinhas, sempre contando suas moedas, ele está contando sua segurança, está contando a coisa em que ele confia mais que Deus. 

Os sinais de alerta. Como cristãos, somos livres para usar o dinheiro, mas deveríamos usar ele com cuuidado, entendendo sua habilidade perigosa para mudar os nossos corações de Cristo para as coisas deste mundo.  Jesus chega ao ponto de chamar Mamom de injusto (Lc 16:9) Nós queremos acreditar que Mamom não terá poder sobre nós nem autoridade. Contudo, em dar uma descrição do injusto para Mamom, Jesus nos proíbe  de ter uma visão ingênua sobre a riqueza. Devemos ser realistas a respeito disto.

1. O dinheiro tem algum papel nos seus maiores desejos?
2. Você acha que as pessoas que têm mais dinheiro que você são melhores?


sábado, maio 02, 2015

Stephen T. Davis: O argumento ontológico




Nesta segunda parte do livro The Rationality of Theism, vai ser abordado os argumentos para existência de Deus: o ontológico, o cosmológico, o teleológico, o moral como também artigos sobre a experiência religiosa,  a consciência e milagres.

O primeiro texto é sobre o argumento ontológico escrito por Stephen T. Davis, eis aqui um resumão:


O argumento ontológico é umas peças mais controversas e fascinantes da teologia natural na história da filosofia. Foi inventado por Anselmo (1033-1109). O texto vai se concentrar em uma resposta as críticas contemporâneas de Michael Martin.

Martin discute cinco versões do AO- de Anselmo, Malcolm, Hartshorne, Kordig e Plantinga. Ele considera o AO mal sucedido em sua tentativa de provar a existência de Deus.  Mesmo se o AO estiver falho, ele não leva necessariamente a uma vitória do ateísmo, não é algo crucial para o teísmo, mas o autor considera que Martin não alcançou o que diz ter conseguido. Considera justa suas críticas ao AO de Malcolm, Hartshorne e Kordig, concorda com as razões de Martin. Mas sua crítica a Anselmo e a Plantinga podem ser respondidas.

O ARGUMENTO ONTOLÓGICO DE ANSELMO.


O autor vai examinar primeiro o argumento de Anselmo, mas antes vai mencionar dois ponto onde Martin desconstrói ele. Primeiro, como outros críticos, Martin vê o AO como uma tentativa de provar a existência de Deus simplesmente analisando o conceito de Deus. Esta alegação tantas vezes repetida é inofensiva. É verdade que a definição de Anselmo de Deus - "aquele ser que não podemos conceber nada maior"- é crucial para seu argumento. Podemos chamar este ser de o MAIOR SER CONCEBÍVEL (MSC). Mas, simplesmente analisando este conceito não iremos a lugar nenhum para provar a existência na realidade de nada. Deve-se também trazer em consideração que Anselmo tomou certas verdades necessárias (uma coisa é maior se ela existe tanto na mente como na realidade então isto existe meramente na mente e a existência de MSC é logicamente possível).  Estas reivindicações são aspectos essenciais do AO, e não seguem imediatamente do exame de qualquer conceito de Deus. 

Segundo, Martin afirma que Anselmo alega que a pessoa que diz "Deus não existe" contradiz a si mesmo. Mas, isto também é um poucos enganador. De novo, Deus não existe apenas se torna necessariamente falso em conjunto com certas verdades necessárias como as que listei. Anselmo não precisa estar comprometido com a alegação de que apenas a sentença Deus não existe é auto-contraditória, o que é não é certamente. Para ser claro, Anselmo assegura que a posição ateísta pode ser demonstrada como necessariamente falsa. Isto surge porque esta posição é inconsistente com a definição de Deus, junto com outras certas verdades necessárias.

É importante ver a versão do argumento de Anselmo. O autor vai demonstrar o argumento que está no Proslogion II; 

1, Coisas podem existir em apenas dois modos: na mente e na realidade.
2. O MSC pode possivelmente existir na realidade, por exemplo, não é uma coisa impossível.
3. O MSC existe na mente.
4.  O que quer exista apenas na mente e poderia possivelmente também existir na realidade deve ser maior que ele é.
5. MSC existe apenas na mente. 
6. O MSC pode ser maior do que isto.
7. O MSC é um ser que é o maior que é concebível.
8. É falso que o MSC apenas pode existir na mente.
9. Então, o MSC existe tanto na mente como também na realidade.


Obviamente, muito disto precisa de explicação. Na premissa 1, o que Anselmo quer dizer com 'x existe na mente" significa que alguém imagina x, define  ou concebe x. A expressão x existe na realidade significa que x existe como coisa concreta individual e existe independentemente da idéia de qualquer pessoa ou conceito sobre ele. Então, há quatro modos de existência em que X poderia existir:

- tanto na mente como na realidade (e.g. George W. Bush)
- na mente mas não na realidade ( unicórnios)
- na realidade mas não na mente (algum elemento químico ainda não descoberto mas existente)
- de nenhum modo ( energia nuclear  no ano 1550 dC)


A premissa 2 simplesmente significa que não há contradição ou qualquer tipo de incoerência no termo "Maior Ser Concebível". Se for assim, MSC é um ser que pode existir ( isto não significa que existe, claro) diferente de circulos quadrados. A premissa 3 simplesmente significa que alguém, Anselmo ou você- tem concebido o MSC: o MSC existe na mente de quem o concebe. Então, o MSC deve ter um dos dois dos nossos quatro modos de existência, já eliminando outros dois.

Premissa 4 é chamada, algumas vezes, de a premissa escondida de Anselmo. isto é porque ele não deixa ela explícita no Proslogion II, apesar de ficar claro que seu argumento carece dela. A idéia basica é que as coisas são maiores se elas existirem tanto na mente como na realidade do que se elas existissem simplesmente na mente. Então, se tomarmos maior como significando mais poderoso, entenderíamos que Anselmo quer dizer que as coisas que existem tanto na mente como na realidade são mais poderosas, livres e mais capazes que as coisas que existem apenas na mente.

Agora, as premissas 1,2,3 e 4 constituem as suposições básicas de Anselmo. Como qualquer argumento dedutivo, a aceitação do AO depende da verdade de suas suposições. Se qualquer uma delas for falsa, então o AO fracassa. Anselmo os considerava como não apenas verdadeiros, mas também necessariamente verdadeiros,  A premissa 5 é uma premissa que Anselmo introduziu para refutar ela por redutio ad absurdum. Ele acreditava que a suposição da não-existência do MSC, junto com as premissas anteriores, levariam a uma contradição.


As próximas três premissas constituem o resultado lógico das suposições de Anselmo.  Aqui é onde Anselmo mostra que a premissa 5 é inaceitável porque ela é responsável por produzir uma contradição e,então, deve ser negada. Se as premissas 5, 2 e 4 são verdadeiras, então a premissa 6 segue também. Se o MSC é um mero conceito ou algo não existente, então o MSC poderia ser mais maior ainda que isto. Meros conceitos presumem tem certos poderes e habilidades - eles podem, as vezes, ajuda a nos estimular para pensar mais claramente ou agir de determinada maneira, por exemplo. As coisas existentes são maiores que os meros conceitos delas. Se o MSC fosse apenas um conceito, então ainda seria verdade a possibilidade de existir algo que chamaríamos de MSC.

Agora a premissa 6 é ao mesmo implicitamente contraditória, ela diz que, o maior ser concebível pode ter sido maior que ele é. Esta é uma outra forma de estabelecer o mesmo ponto,

7. O MSC é um ser que é o maior a ser concebível.

A premissa 7 é uma contradição explícita, então por reductio ad absurdum, precisamos pesquisar qual premissa acima no argumento é a responsável por produção da contradição. Anselmo argumenta que as 4 primeiras premissas são verdades necessárias. Por reductio ad aburdum, a premissa 5 deve ser negada.

A negação da premissa 5 é a premissa 8. Agora, sabemos pela premissa 1, que as coisas existem em dois modos, na mente e na realidade. E sabemos pela 3, que o MSC existe na mente, e pela premissa 8, que é falso que o MSC existe apenas na mente. isto segue a premissa 9 que o MSC existe tanto na mente como na realidade.

CRÍTICAS AO ARGUMENTO ONTOLÓGICO DE ANSELMA.

Existe é um predicado?

A primeira crítica de Martin é sobre o existir como predicado. A versão de Martin da premissa 4: "Um ente é maior se ele existe na realidade como se ele existe apenas como objeto mental".  Ele aponta que esta sentença foi desafiada, i.e., por Kant que alegou que existir não é um predicado rael, não é uma propriedade real da coisa. Martin não fala que Kant está correto, ele meramente aponta o argumento de Kant  que faz do AO controverso. Para o autor do texto o argumento de Kant não é tão contundente assim.

Martin aponta que os defensores do AO podem mostrar que existir é uma propriedade das coisas, mas isto não é o suficiente para as necessidades do AO. Ele deve também mostrar que existir é uma propriedade das coisas que adiciona grandeza a elas. E Martin está correto sobre sito. A existe de uma coisa pode ser neutra em relação a sua grandeza.

Infelizmente, o texto de Anselmo não diz o que maior quer dizer exatamente ou maior que outro. Qual a noção que Anselmo tinha em mente? Há no texto alguma evidência que Anselmo entendia grandeza em termos de bondade.

Suponha que lemos grandeza como poder, habilidade, liberdade de ação. Isto iria levar a muitas coisas que o AO precisaria. Primeiro, as coisas precisam ser comparadas em respeito a grandeza. Isto é importante porque alguns modos possíveis de entender grandeza não permitem comensurabilidade, ie, um número primo não pode ser maior que outro numero primo.  Segundo, a grandeza entendida deste modo, admite um grau máximo. Todas as coisas vão ser menos grandes que o MSC, onde o MSC é entendido como um ser onipotente ou todo-poderoso, entendido com um ser que tem a propriedade de ser com total liberdade de ação.

Existe é uma propriedade ou um predicado real? Certamente, é uma propriedade não muito usual. Como Kant diz corretamente, se digamos que algo existe não expandimos ou aumentamos o conhecimento acerca deste algo.  Se o predicado é algo que aumenta o nosso conhecimento sobre sujeito, então existe pode, algumas vezes, falhar em ser esta propriedade ou este predicado real.

Mas, isto parece ser verdade apenas em casos onde a existência de algo é já pressuposta na conversa.


Mas, algumas vezes ampliamos os limites dos horizontes de nossa linguagem e falamos sobre coisas que são possíveis ou não-existentes. E nestes casos, isto poderia adicionar o conhecimento de algo que existe ou não existe. Nestes casos, existir aparece como uma propriedade ou um predicado real.

Mas, aqui há uma definição de maior que se torna crucial. A noção que é defendida é que existir realidade é maior que não existir na realidade. Coisas existentes são mais poderosas, livres e mais aptas para fazer coisas que aquelas que poderiam não existir, como os meros conceitos delas.

Martin perde de vista a noção de maior de Anselmo, sugerindo que isto poderia ser trocado por noções como mais valiosa ou mais desejável. Ele coloca que o desejo é uma noção relativa, e há pessoas que não achariam a existência de Deus algo desejável.  Isto é verdade, mas não é relevante para o AO como uma prova teísta. Enquanto, a noção de maior for coerente e fazer do AO bem sucedido, de acordo com a idéia de aquilo que existe na mente na realidade é maior que aquilo que existe apenas na mente, não importa que se as pessoas acham ou não a existência de Deus desejável. É injusto com Anselmo, colocar outras noções de grandeza que não as dele. precisamos perguntar se a noção está consistente com a visão de Anselmo sobre Deus e se ela leva seu argumento adiante.

O ponto de Anselmo é que as coisas existentes não maiores que os meros conceitos delas. Se alguém diz que o MSC é um mero conceito, se ele existe apenas na mente, isto ainda seria verdade que a coisa não-existente descrevida pelo conceito de Maior Ser Concebível poderia existir, e se ele existe seria maior do que isto (não-existente) como de fato é. Existem muitas dificuldades que pode ser levantadas contra o AO neste ponto 9,

ilhas perdidas e grandes seres ruins

A segunda crítica de Martin  é um apelo ao AO paralelo, uma paródia do AO, seguindo a estratégio de Gaunilo séculos atrás, usando a lógica básica do AO para provar a existência de toda a sorte de criaturas bizarras que sabemos bem que não existem. Estas entidades como a Maior Ilha Perdida Concebível ou  O Grande Ruim Absoluto.

Mas, sabemos que o paralelo é falacioso, pois sabemos que nenhuma ilha perdida existe, portanto, eles querem que o MSC também não exista.  Então,ambos não existem.

Anselmo mesmo replicou a Gaunilo:

Agora, digo com confiança que se qualquer homem que buscar qualquer coisa existente na realidade ou apenas como conceito, exceto que o maior não pode ser concebido, pode adaptar a sequência de meu arrazoado, e irá descobrir que a coisa, e a ilha perdida não será perdida de novo.

O ponto crucial é a premissa 2 aqui.  Ela diz que o MSC pode possivelmente exitir na realidade, i.e., por isto não é algo impossível.  E o no argumento paralelo, Gaunilo diz que a Ilha Perdida.

Alguns filósofos tem argumentado que a premissa 2 é falsa. Eles têm que o conceito de Deus é contraditório ou mesmo incoerente. Mas, na minha visão, é que não. Se falarmos considerando o conceito de MSC, não de Deus que eu também interpreto como MSC.  O MSC é claramente algo possível, o MSC tem algo como propriedade, é apto para um conjunto de situações que são logicamente possíveis para ele.

A premissa 2 do AO paralelo é verdadeira? O conceito de Ilha Perdida Maior Concebível é coerente?  Anselmo diria que não, muito aqui depende do que significa concebível, isto depende dos limites daquilo que pode ser concebível. Poderíamos ampliar ou diminuir, podemos ter ele como aquilo que é logicamente possível.


Como Anselmo responde ?

Suponha que a objeção queria aumentar os limites, podemos conceber coisas que são logicamente impossíveis como círculos quadrados, casados solteiros. Então, há um grande problema com a premissa 2a, o maior que vamos fazer com MIPC é um conceito, e isso jamais seria uma ilha. Agora, se colocarmos que coisas necessárias são maiores que coisas contingentes, isto se segue, que a MIPC será um ser necessário e onipotente, que vai ser para sempre, será capaz de existir por si mesma, etc. Agora não há problema em o MSC ser um ser necessário e onipotente- que é aquilo que esperamos. Mas ilhas são essencialmente contingentes e não onipotentes, há coisas que não podem fazer. É por isso que a MIPC não pode existir e a razão pela qual esta premissa é falsa.

Se um defensor de Gaunillo optar por uma conceituação mais estreita da noção de concebível como aquilo que é logicamente possível. Então, o conceito de MIPC nos termos de grande fazedor de propriedades pode possivelmente ter propriedades como temperatura, beleza do cenário, Mas, se alguém pensar na MIPC, numa ilha perfeita, ela não teria um critério interno de grandeza.


Então, o que dizer sobre o Grande Malvado Absoluto. Este conceito pode servir como um contra-exemplo do argumento de Anselmo?  O mesmo acontece com ele, o GMA pode existir na realidade? Aqui a mesma problemática acontece porque há sempre um mal maior que pode ser imaginado, a premissa 2b é falsa.


A Crítica de Mackie

Finalmente,  Martin vai repetir a crítica de J.L. Mackie.  O ponto de Mackie é que impossível provar a existência de qualquer realidade concreta através de um processo inteiro realizado a priori, i.e., meramente examinando conceitos e definições.  Por definição, o MSC deveria existir, deve ser concebido como existente na realidade, mas apenas será um conceito como o monstro do Lago Ness. E, então, a declaração, o MSC não existe deve ser tida como contraditória, 

Podemos, certamente, provar algumas coisas que existem ou não na realidade de maneira puramente a priori, por exemplo, solteiros casados e circulos quadrados não podem existir na realidade. De modo semelhante, podemos olhar para de modo a priori e ver que há um numero primo entre 6 e 10. 



O ARGUMENTO ONTOLOGICO MODAL DE PLANTINGA.


Vamos chamar este argumento de AOM.

Plantinga define como grandeza máxima possuir excelência máxima em cada mundo possível, tendo máxima excelência como onisciência, onipotência e perfeição moral em cada mundo possível.

12 Há um mundo possível onde a grandeza máxima é exemplificada.

13 Há alguns mundos possíveis em que há um ser que é maximamente grande.

14. Necessariamente, um ser que é maximamente grande é maximamente excelente em cada mundo possível (por definição)

15 Necessariamente, um ser que é maximamente excelente em cada mundo possível é onisciente, onipotente e moralmente perfeito em cada mundo possível. (por definição)

16. Então, existe me nosso mundo e em todo mundo um ser que é onisciente, onipotente e moralmente perfeito ( vindo das premissas 13, 14 e  15)


Martin corretamente nota que Plantinga não toma o AOM como uma demonstração conclusiva da existência do ser maximamente excelente Já que Plantinga sabe que as pessoas racionais podem negar a premissa 12. Mas, já que a premissa 12 não é contrária a razão, o AOM demonstra a aceitabilidade racional da crença em Deus.


O argumento é baseado na lógica modal de sistema S5. É crucial a simetria de condição de relações de acessibilidade entre os mundos possíveis.