terça-feira, setembro 18, 2018

CRUCIFICAÇÃO: Páscoa e Exodo


A PASCOA E O ÊXODO
O VELHO E NOVO TESTAMENTO
Qual seria a relação entre a cruz e o Antigo Testamento? O Novo Testamento não irá funcionar sem o Antigo,  Jesus de Nazaré não conhecia outra Escritura senão a Lei e os Profetas nem tampouco os apóstolos.
O TEMA DA LIBERTAÇÃO
Para entendermos a ligação entre a cruz  e os motivos bíblicos, dois temas foram propostos por Rutledge:
1.       Existe o pecado e a culpa pelos quais uma reparação é realizada.
2.       Existe a escravidão, prisão e a opressão das quais a humanidade precisa ser libertada.
Ambas as categorias irão funcionar com relações mutuas, a narrativa original de libertação é a respeito do êxodo do Egito.

Então testificarás perante o Senhor teu Deus, e dirás: Arameu, prestes a perecer, foi meu pai, e desceu ao Egito, e ali peregrinou com pouca gente, porém ali cresceu até vir a ser nação grande, poderosa, e numerosa. Mas os egípcios nos maltrataram e nos afligiram, e sobre nós impuseram uma dura servidão.  Então clamamos ao Senhor Deus de nossos pais; e o Senhor ouviu a nossa voz, e atentou para a nossa miséria, e para o nosso trabalho, e para a nossa opressão.  E o Senhor nos tirou do Egito com mão forte, e com braço estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com milagres;  E nos trouxe a este lugar, e nos deu esta terra, terra que mana leite e mel.  E eis que agora eu trouxe as primícias dos frutos da terra que tu, ó Senhor, me deste. Então as porás perante o Senhor teu Deus, e te inclinarás perante o Senhor teu Deus, (Dt. 26:5-10)
O grande credo é o paradigma do caminho de Deus com seu povo, um caminho que é atestado desde do grito da dor humana quando o sangue de Abel clamou da terra, através dos clamores das vitimas de Sodoma e Gomorra, o povo debaixo da opressão nos tempos dos juízes, um povo exilado na Babilonia, e os que sofreram cujas vozes é ouvida nos salmos de lamento, para o choro de abandono do justo de Deus sofrendo na cruz.

PASCOA E A CEIA DO SENHOR
Até hoje, os judeus continuam dizendo nós ao invés deles quando eles contam a historia do êxodo durante a ceia da pascoa. Isto é de grande significância, já que é um entendimento que a bíblia entende o êxodo como um evento vivo. Como diz Amós,  centenas de anos após:
Assim diz o Senhor: Por três transgressões de Israel, e por quatro, não retirarei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos,  Amós 2:6
Também vos fiz subir da terra do Egito, e quarenta anos vos guiei no deserto, para que possuísseis a terra do amorreu. Amós 2:10

A velha historia sobre os pais e mães se torna uma nova para as gerações emergentes.
A ceia da pascoa é uma ordenança na Torá:
"Este dia será um memorial que vocês e todos os seus descendentes o comemorarão como festa ao Senhor. Comemorem-no como decreto perpétuo. Durante sete dias comam pão sem fermento. No primeiro dia tirem de casa o fermento, porque quem comer qualquer coisa fermentada, do primeiro ao sétimo dia, será eliminado de Israel. Convoquem uma reunião santa no primeiro dia e outra no sétimo. Não façam nenhum trabalho nesses dias, exceto o da preparação da comida para todos. É só o que poderão fazer. "Celebrem a festa dos pães sem fermento, porque foi nesse mesmo dia que eu tirei os exércitos de vocês do Egito. Celebrem esse dia como decreto perpétuo por todas as suas gerações.  Êxodo 12:14-17

A pascoa é observada como um dia memorial. Memoria (lembrança) no pensamento bíblico não significa trazer a mente, Relembrar é presente e ativo. Por esta razão é que se diz que não foram nossos ancestrais trazidos por Deus da escravidão para liberdade, mas nós mesmos. A ceia da pascoa não é um memorial do ato de salvação de Deus no passado, mas uma apropriação do mesmo poder salvífico no presente.
A historia do êxodo começa dizendo:
Muito tempo depois, morreu o rei do Egito. Os israelitas gemiam e clamavam debaixo da escravidão; e o seu clamor subiu até Deus. Ouviu Deus o lamento deles e lembrou-se da aliança que fizera com Abraão, Isaque e Jacó. Deus olhou para os israelitas e viu qual era a situação deles.  Êxodo 2:23-25

A primeira vista, pode parecer que Deus se esqueceu e agora se lembrou. Semelhantemente, orações pedindo que Deus se lembre tem sido mal interpretadas- como se Deus precisasse de nós para o lembrarmos de algo que de outra forma ele se esqueceria! Isto nunca foi o sentido de lembrar-se nas orações na igreja. Lembrar-se nas Escrituras se refere a uma ação presente. Se uma mulher pede para Deus lembrar-se de sua mãe, isto não significa “por favor, pense a respeito da minha mãe de tempos em tempos”. Isto significa, “tome uma ação em favor da minha mãe”’. Da mesma forma, se dizemos que a Ceia do Senhor é um memorial, não quer dizer que estamos simplesmente pensando sobre Jesus e sua ultima ceia. Quando repetimos as palavras de Jesus, “faça isto em memória de mim” no culto de comunhão, não estamos apenas trazendo Jesus para mente. Jesus é ativamente presente com poder na comunhão do seu povo.
A pascoa e o êxodo estão refletidos na ceia do Senhor de diversas maneiras.  A morte de Jesus foi construída desde seus primeiros momentos da igreja primitiva como uma nova pascoa e sua ressurreição como o novo êxodo, Paulo cerca de vinte e cinco anos após a ressurreição, escreve:
Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade.  1 Coríntios 5:7,8
A ênfase vai em dois temas:
1.       RESGATE DA MORTE, como na noite quando o anjo da morte passou sobre os lares dos israelitas.
2.       LIBERTAÇÃO DA ESCRAVIDÃO, como na passagem sob o Mar Vermelho.
O sangue do cordeiro pascoal não foi, neste contexto, uma oferta pelo pecado, mas uma própria ordenação de Deus para preservar seu povo da morte. A morte fática de Jesus coincide com o sacrifício dos cordeiros pascoais. 
Apesar que em  João 1:29 : Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Já Pedro tem uma leitura baseada no Servo Sofredor de Isaias 53: 
Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça. Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados. 1 Pedro 2:23,24
O EXODO DE UMA PERSPECTIVA ESCATOLOGICA
Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que com mão forte, e com braço estendido, e com indignação derramada, hei de reinar sobre vós. E vos tirarei dentre os povos, e vos congregarei das terras nas quais andais espalhados, com mão forte, e com braço estendido, e com indignação derramada. E vos levarei ao deserto dos povos; e ali face a face entrarei em juízo convosco; Como entrei em juízo com vossos pais, no deserto da terra do Egito, assim entrarei em juízo convosco, diz o Senhor DEUS. Ezequiel 20:33-36


terça-feira, setembro 04, 2018

CRUCIFICAÇÃO: a gravidade do pecado


A gravidade do pecado



O conhecimento do pecado como uma boa noticia

Não há modo de ajudar as pessoas para o conhecimento do pecado exceto oferecendo as noticias do proposito preveniente em superar o pecado através da cruz de Cristo. A luz de Cristo revela o pecado pelo brilho da redenção que Ele já alcançou.

Apenas aqueles que tiveram seus olhos abertos para a luz de Cristo se alegram ao ter seus feitos expostos.

Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, Judas 1:24



A ação da graça de Deus precede  nossa consciência do pecado, assim quando percebemos a profundidade de nossa própria participação na escravidão do pecado simultaneamente reconhecemos o amor incondicional de Cristo, que é a perfeita liberdade. Reconhecemos este amor não das profundezas do inferno que estamos nos afundando, mas da perspectiva do paraiso que Deus está preparando para nós. Confissão e Celebração andam juntas.



Antes da culpa, graça.

Temos a tendência de recolocar  a historia cristã em termos de culpa e falta individuais que podem ser vencidas através de uma decisão para o arrependimento. Isto enfraquece o evangelho em seu coração. O germe da proclamação cristã é apresentação que o arrependimento humano sozinho é incapaz , apenas a incursão da graça de Deus nos previne da auto-destruição.



Não o homem que está perdido, mas aquele que é salvo é capaz de entender que era pecador. Assim, o conhecimento do próprio pecado vem como um bom conhecimento pois vem da graça de Deus.



Não é possível uma adequação representação do significado da crucificação sem uma profunda resposta pessoal para o problema do pecado. A resposta humana para a preveniente graça de Deus é o reconhecimento de sua condição pecaminosa e a confiança na graça infalível de Deus.

Salmo 51:2,4-9

O senso do pecado surge não de uma culpa sozinha, mas de uma busca por Deus e sua bondade. Deus está movendo o coração da pessoa antes mesmo dela notar esta operação. Ao apresentar o evangelho, não começamos tentando convencer as pessoas do pecado. O movimento da misericórdia preveniente vem primeiro, na abertura  da presença de Deus que desperta o senso do pecado ao expor o abismo entre nós e a santidade de Deus.  Quando temos este reconhecimento, nós já estamos diante da graça de Deus – Rm 5:2-.

O pecado é um conceito exclusivamente bíblico.  Fora do contexto bíblico, significa apenas algum tipo de mal feito.  Estar no pecado, biblicamente falando, significa algo muito mais consequente que o malfeito, significa estar catastroficamente separado do amor eterno de Deus.  Estar do outro lado da barreira da exclusão do banquete eterno de Deus. Significa a continuação do reino da avareza, crueldade, rapacidade e violência através do mundo.



 Uma proclamação central: Cristo morreu pelo pecado.



Para Paulo, pecado e morte são colocados como poderes, não é tanto uma coleção de maus atos, mas é uma agencia ativa, malevolente. Os maus feitos são sinais desta agencia no trabalho, eles não são a coisa em si.



O novo testamento insiste numa formula que ficou até familiar para muitos cristãos, que Cristo morreu pelos pecados.

Pois o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras,  1 Coríntios 15:3,4



A conexão entre a crucificação e o pecado é permanentemente e enfaticamente  fixada no texto bíblico.



Pecado: individual ou corporativo?

Se o reconhecimento do pecado é difícil para indivíduos- talvez, especialmente para os homens, que foram condicionados a não mostrarem fraquezas- quanto mais dificultoso será para grupos. Uma nação, tribo, corporação ou outro grupo coletivo humano  é muito difícil admitir que fez algo errado.

Na bíblia, encontramos tanto historias de transgressões individuais como sobre de sociedades como um todo-.

Por isso, ainda que te laves com salitre, e amontoes sabão, a tua iniqüidade está gravada diante de mim, diz o Senhor DEUS. Jeremias 2:22

Amos fala claramente destes pecados corporativos,

Ouvi esta palavra vós, vacas de Basã, que estais no monte de Samaria, que oprimis aos pobres, que esmagais os necessitados, que dizeis a vossos senhores: Dai cá, e bebamos. Amós 4:1

Am 3:15 Derrubarei a casa de inverno junto com a casa de verão; as casas enfeitadas de marfim serão destruídas, e as mansões desaparecerão", declara o Senhor.

Numa situação de intrincada conexão entre indivíduos e suas sociedades, vemos a ubiquidade e inevitabilidade do pecado.

Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram. Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei. No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos. E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação. Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos. Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça; Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.  Romanos 5:12-21

Há um laço comum no pecado como vemos em Rm 5:12-21, Paulo dá a toda a humanidade o nome de Adão. A fraternidade de Adão é a mais compreensiva comunidade de todas, por isto é universal (Rm 5:12).  Esta concepção universal de Adão é usada também em 1Co 15:22. A solidariedade humana aprisionada ao poder do pecado é um do mais importantes conceitos para os cristãos.



Como resultado desta escravidão nos tornamos agentes ativos do pecado. De modo que a condição humana não é apenas de cativeiro, mas também de ativa complicidade.

DOIS ASPECTOS DO PECADO

A historia de Adao e Eva nos mostra muito além do bem como ausência do mal ou perder o alvo. Diante de Deus, não podemos entrar na ladainha que  ninguém é perfeito ou todos nós cometemos equívocos. C.S. Lewis dizia que o homem caído não é simplesmente uma criatura imperfeita que precisa de aprimoramento, mas é um rebelde que precisa abaixar suas armas.



Ainda assim, definimos pecado comparando-nos mais favoravelmente com os outros (Lc 18:11) O fariseu não consegue entender que o pecado não é definido pela comparação de uma pessoa com a outra, mas no entendimento de quão profundamente  ele como um individuo está  enredado em um mundo atolado em impiedade. Pecado é a condição humana universal, mas não é tão claro a nós a não ser que estejamos sendo direcionados por Deus. O conceito do pecado não é antropológico, mas teológico. Como Deus fez a si mesmo conhecido para nós, reconhecemos  que não somos apenas vitimas passivas num mundo de pecados, mas cidadãos ativos e habituados com suas maneiras e sujeitos que estão a serviço de seus falsos deuses.



TODOS PELO PECADO, NÃO PODERIAM EXPIAR: Como Anselmo de Cantuária explica apenas Deus pode prover o remédio para o pecado, nenhum montante de esforço religioso por nossa parte pode efetuar uma mudança significativa. Libertação e reparação deve vir de fora de nossa esfera de influência, somos impotentes para salvar a nós mesmos da esfera de poder do pecado.

SEJA DO PECADO, A DUPLA CURA, SALVE ME DE SUA CULPA E DE SEU PODER: Pecado tem dois componentes de igual gravidade, culpa e poder.

O pecado é uma CULPA RESPONSÁVEL, pelo qual uma reparação deve ser realizada. Assim, a crucificação é entendida como um sacrifício pelo pecado.

O pecado é um PODER ESTRANHO que deve ser levado para longe. Todos os seres humanos são escravos deste poder (Rm 3:9, Jo 8:34) e devem ser libertos por um grande poder. A crucificação é então entendida como a vitória de Cristo sobre os poderes do pecado e da morte, comumente chamado de CHRISTUS VICTOR.



O TESTEMUNHO DO SALMO 51

Este salmo tem sido atribuído a Davi na ocasião de seu adultério com Beteseba, uma situação em que alguém é forçado a encarar seu pecado.

Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga as minhas transgressões. Salmos 51:1

Repare como o apelo do salmista para a misericórdia está baseado no conhecimento de Deus, as palavras grande compaixão, teu amor, misericórdia não são projeções do escritor, mas revelações de Deus de si mesmo na historia de Israel. A experiencia de Israel com Deus no deserto e na Terra Prometida provou que Deus é fiel e digno de confiança. Então, mesmo que o salmista esteja esmagado pelo conhecimento  de seu pecado, ainda é forte sua confiança em Deus, em especial, em duas coisas sobre Deus: primeiro, que Deus é capaz de limpa-lo do pecado e também, que Deus prove uma forma de se libertar do pecado.        

Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado. Salmos 51:2

Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas, de modo que justa é a tua sentença e tens razão em condenar-me. Salmos 51:4

Aqui está uma ilustração de como o pecado pode ser entendido apenas do ponto de vista provido por Deus. Claro que o pecado fere outras pessoas, mas o salmista nos diz que apenas feriu a Deus, isto tem a ver com o profundo entendimento que ele tem da retidão de Deus diante de suas falhas.

quinta-feira, agosto 30, 2018

CRUCIFICAÇÃO: Anselmo Reconsiderado


ANSELMO RECONSIDERAD
O PARA O NOSSO TEMPO

Entre os capítulos 3 e 4, há um capitulo ponte que vai tratar da obra de Anselmo de Cantuária, a ideia é fazer uma ponte entre a questão da justiça e a gravidade do pecado. A importância de Anselmo está em duas coisas, segundo Rutledge:

1.       A obra CUR DEUS HOMO? tem sido tão influente que é impossível estudar  a historia da doutrina cristã sem ela.

2.       A fama e a influência desta obra tem sido marcada com um quê de escarnio, Anselmo tem sido culpado das Cruzadas até a Guerra do Iraque. Sua teoria da satisfação tem sido considerada como jurídica, feudal, rígida, absolutista, vingativa, sádica, imoral e violenta.

Para Anselmo, teologia não era primariamente um exercício intelectual, a fé precede o entendimento, e a fé está alicerçada na historia de Cristo.

JUSTIÇA DEVE SER VISTA PARA SER COMPLETADA

Algo é terrivelmente errado e precisa ser endireitado. Se existe uma ordem moral, a justiça deve ser realizada e devemos ver ela sendo feita. Na cruz de Cristo, a justiça é, de fato, vista para ser feita, mas ela é uma justiça tão estranha que sua interpretação acaba se amarrando em como ela opera.

Na crucificação, Deus não declarou uma anistia geral. A ênfase cristã no perdão e na redenção deve ser entendida em seu contexto próprio, porque Deus não é a favor  da impunidade. Mesmo sem uma referencia a justiça de Deus, nosso próprio senso humano de justiça requer que reparações sejam realizadas, que sentenças sejam cumpridas, que a restituição seja oferecida quando há uma grande ofensa.

Muitas das tentativas para explicar a cruz surgiram da intuição que na cruz, vemos o mesmo tipo de justiça sendo feito. Se você ou eu fossemos Deus, teríamos arranjado para que os perpetuadores de injustiça sofressem esta sentença, alguém  que achamos que merece a condenação, mas Deus não  faz o que eu ou você teria feito.  Deus arranjou para o seu próprio ser se colocar neste lugar. Jesus, a única pessoa que não merece condenação, se colocou sob uma sentença injusta e se submeteu a uma pena injusta (1Pe 3:18).



Na cruz, vemos a reposta de Deus para as injustiças do mundo.  Na crucificação, vemos alguém não somente pagando uma penalidade mas também sofrendo uma punição? Recentemente, muito se levantaram contra a ideia de uma interpretação punitiva para a cruz. Ainda assim, se aceitamos a ideia de algumas coisas não podem ficar sem ser punidas.



PREDICAMENTO HUMANO UNIVERSAL

Primeiro, Anselmo nos introduz para as dimensões do predicamento humano e a necessidade de um ato de resgate por Deus além de nossa esfera de comando e controle.



Como esta relação totalmente arruinada com Deus é restaurada em Cristo? Esta é a questão que Anselmo discute com Boso. Anselmo coloca dois pontos: primeiro, se um homem deseja restaurar o que deve a Deus a respeito do pecado mas é incapaz de fazer, então está em necessidade.  E segundo, se ele não deseja fazer isto, ele é injusto.

Mas, seja ele incapaz ou injusto, ele não estará feliz. A felicidade para Anselmo é desfrutar o supremo bem, que é Deus (2.1)

A compaixão sozinha não faria certo aquilo que é errado. É necessário satisfazer aquele que foi ofendido e retificar o que está errado.

A verdadeira punição para o pecado é como Paulo descreve em Romanos 1:24-28:

Por isso Deus os entregou à impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos dos seus corações, para a degradação dos seus corpos entre si. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém. Por causa disso Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão. Além do mais, visto que desprezaram o conhecimento de Deus, ele os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam.  Romanos 1:24-28



A punição é o pecado em si mesmo. A consequência da queda tem sido a escravidão da raça humana ao pecado e seu aliados a morte e a lei, e assim, a separação de Deus sem nenhuma esperança de restituição vinda do lado humano.

A retidão de Deus é uma retidão de amor que deve resistir e finalmente eliminar tudo que é destrutivo do seu proposito divino de redencao do mundo. É uma destruição que estabelece, nega e afirma. 

Anselmo coloca a punição eterna como uma necessidade inconsolável. A grande punição é o exilio do desfrutar das bênçãos de Deus.

Nada é mais valioso que a capacidade humana criada por Deus para desfrutar do próprio Deus, então, para que o homem possa desfrutar novamente dessa relação é necessário que haja uma completa expiação do pecado, que nenhum pecador pode fazer por si mesmo.

Assim, uma objeção que o próprio Anselmo levanta através de Boso é que a salvação seria uma necessidade para Deus e não graça, já que estaria compelido a fazer ela por si mesmo, se assim for, porque deveríamos agradecer a Ele já que o fez por si mesmo?

A primeira vista, poderia parecer que Deus está preocupado apenas com sua honra e que tudo é apresentado como se fosse uma necessidade racional sem os elementos de amor e graciosidade presentes.

Anselmo responde dizendo que se alguém é beneficiado sendo tirado de uma necessidade sem sua participação deveria ser menos grato? Mas quando Deus livremente se coloca a si mesmo debaixo da necessidade de beneficiar outro, e sustenta esta necessidade sem relutância, certamente merece graças pelo seu favor. Por isto, não devemos falar em necessidade, mas em graça.

Devemos entender que tanto a culpa precisa de remissão como o cativeiro precisa de libertação.

A ressurreição é a validação de Deus da morte redentora de seu filho, não um rearranjo dela.  

quinta-feira, agosto 23, 2018

CRUCIFICAÇÃO: Justiça e Misericórdia


The Crucifixion – Cap. 3- The Question of Justice

A condenação de Jesus significa redenção para o mundo, e por extensão a condenação do pecado de seu povo é parte de seu proposito redentor – cf. Is. 10:22

 A cruz é o lugar onde podemos ver claramente  o relacionamento entre julgamento (condenação, destruição) e  retidão de Deus (experimentada tanto como julgamento como redenção).



Justiça no Antigo Testamento

Uma coisa que devemos lembrar que a mente e o coração de Jesus foram formados pelo Antigo Testamento, há uma interação continua com as Escrituras. A mente de Cristo (1Co 2:16) está no Antigo Testamento.

Quando procuramos uma descrição de Deus entre as pessoas, normalmente elas dizem que Deus é compassivo, misericordioso, inclusivo e receptivo. Dificilmente, alguém dirá que Deus é justo. Ainda assim, a revelação de Deus como justo ou reto forma uma grande parte do Antigo Testamento, que o povo de Israel tinha como fundamento para sua fé.  Mesmo quando a palavra justiça não é usada literalmente ou explicitamente, a ideia está lá.



'Vocês já caminharam bastante tempo ao redor destas montanhas; agora vão para o norte. E diga ao povo: Vocês estão passando pelo território de seus irmãos, os descendentes de Esaú, que vivem em Seir. Eles terão medo de vocês, mas tenham muito cuidado.  Não os provoquem, pois não darei a vocês parte alguma da terra deles, nem mesmo o espaço de um pé. Já dei a Esaú a posse dos montes de Seir.  Vocês lhes pagarão com prata a comida que comerem e a água que beberem'. (Dt 2:3-6)

Aqui não há uma menção clara para a justiça de Deus, mas ela mostra isto mesmo em seus detalhes que Deus está olhando não apenas para as pessoas corretas ou para os filhos escolhidos de Israel, mas também vela pelos interesses dos ímpios e rejeitados filhos de Esaú.

Uma das expressões favoritas do Antigo Testamento, é O Santo de Israel:

Mas o Senhor dos Exércitos
será exaltado em sua justiça;
o Deus santo se mostrará santo
em sua retidão. (Is 5:16)



Qual seria o conteúdo da justiça de Deus?

"Para que me oferecem tantos sacrifícios?", pergunta o Senhor. "Para mim, chega de holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos gordos. Não tenho nenhum prazer no sangue de novilhos, de cordeiros e de bodes! Quando vocês vêm à minha presença, quem pediu que pusessem os pés em meus átrios?  Parem de trazer ofertas inúteis! O incenso de vocês é repugnante para mim. Luas novas, sábados e reuniões! Não consigo suportar suas assembleias cheias de iniquidade.  Suas festas da lua nova e suas festas fixas, eu as odeio. Tornaram-se um fardo para mim; não as suporto mais!  Quando vocês estenderem as mãos em oração, esconderei de vocês os meus olhos; mesmo que multipliquem as suas orações, não as escutarei! As suas mãos estão cheias de sangue! Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal,  aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva.  "Venham, vamos refletir juntos", diz o Senhor. "Embora os seus pecados sejam vermelhos como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; embora sejam rubros como púrpura, como a lã se tornarão.  Se vocês estiverem dispostos a obedecer, comerão os melhores frutos desta terra;  mas, se resistirem e se rebelarem, serão devorados pela espada." Pois o Senhor é quem fala! Vejam como a cidade fiel se tornou prostituta! Antes cheia de justiça e habitada pela retidão, agora está cheia de assassinos!  Sua prata tornou-se escória, seu licor ficou aguado.  Seus líderes são rebeldes, amigos de ladrões; todos eles amam o suborno e andam atrás de presentes. Eles não defendem os direitos do órfão, e não tomam conhecimento da causa da viúva.  Por isso o Soberano, o Senhor dos Exércitos, o Poderoso de Israel, anuncia: "Ah! Derramarei minha ira sobre os meus adversários e me vingarei dos meus inimigos.  Voltarei minha mão contra você; tirarei toda a sua escória e removerei todas as suas impurezas.  Restaurarei os seus juízes como no passado; os seus conselheiros, como no princípio. Depois disso você será chamada cidade de retidão, cidade fiel".  Sião será redimida com justiça, com retidão os que se arrependerem.  (Is 1:11-27)

O Senhor falando através de seu profeta declara em termos muito fortes que Ele não é mais agradado com a observância religiosa  do povo, mesmo através de coisas meticulosas (vs 11-13).

Como em muitas comunidades hoje, os frequentadores de igreja são em si mesmos assassinos, e não  tem sangue em suas mãos numa maneira literal, mas indiretamente e o chamado para o arrependimento é unívoco  (vs 16-17).

A justiça de Deus não é algo vago ou amórfico, não é geral ou indeterminada. Ela é especifica e particular, mostrando que Deus está atento aos detalhes materiais das necessidades humanas (Ex 23:6, Dt 24:17, Ez 45:9)



A perversão da justiça é odiada por Deus. A justiça dos indefesos é a própria obra de Deus (Dt 10:17-19).  O cuidado dado pela comunidade para seus membros mais fracos, e mesmo aqueles que são membros é um espelho do próprio cuidado de Deus pelos israelitas quando eles eram escravos. As atividades da comunidade não eram tomadas em princípios gerais, mas elas surgiram da vivida rememoração da iniciativa justa e misericordiosa para com eles (Dt 26:5)

Porque a justiça é uma parte central da natureza de Deus, ele declarou inimizade contra toda a forma de injustiça. Sua ira vira sobre aqueles que exploram o pobre e o fraco, ele não permitirá que seu proposito seja subvertido (Mq 2:1-3, 3:9-12 e Jr 5:27-29)

Como vimos em Isaias 1, a adoração é odiosa para Deus quando ela está desligada de justiça (Am 5:21-24) Quando a justiça fluir como um rio, este é um sinal que Deus está em movimento. Além disso, as vitórias provisionais da justiça neste mundo presente, sejam grandes ou pequenas, são um antegosto do Dia de Yahweh. O advento do Dia do Senhor quando toda a injustiça será retificada para sempre é um tema central da literatura profética e apocalíptica do Antigo Testamento. A promessa de um reinado de perfeita justiça que trará alegria mesmo agora como uma antecipação dele, como está evidenciado no salmo 146:5,7,9-10.



O MESSIAS VEM TRAZENDO JUSTIÇA

Quando Jesus vem anunciando o reino de Deus, o Antigo Testamento forma o plano de fundo desta proclamação.  A expectativa deste reino no contexto  da sua pregação (Mc 1:15, Jr 23:5, Is 9:6-7)

Jesus tomou este papel messiânico sobre  si mesmo de maneira deliberada na ocasião de seu sermão inaugural  que esta em Lc 4:16-21.

Quando fala deste modo sobre o cumprimento da profecia. Os sinais do reino estão presente no seu ministério com especial ênfase na intervenção de Deus em favor daqueles que não podem ajudar a si mesmos. Esta é o desenho da justiça de Deus que reconhecemos nos profetas.

Outro lugar, onde a mensagem profética do Antigo Testamento mais claramente penetra a historia de Jesus é na canção de Maria, no Magnificat. Quando entendemos ele, devemos lembrar que Maria está na parte mais baixa da sociedade (Lc 1:46-48a, 51b-53).

Quando vemos em comparação com a canção de Ana (1Sm 2:1-10), seu protótipo, o tema da justiça para aqueles que estão na base da escala social salta aos olhos. A justiça de Deus envolvera uma reversão dramática.

Quando vemos as canções, podemos ver que a vinda do Senhor não foi projetada como um evento apenas confortável. Aqueles que pensam que estarão seguros, se enganam. Aqueles que confiam em suas conquistas irão se surpreender. Aqueles que foram religiosos, descobrirão que Deus esta buscando outras coisas. A vinda do Messias não trará paz, mas espada (Mt 10:34).



PERDÃO OU ESQUECIMENTO?

Ele mostrou a você, ó homem,

o que é bom

e o que o Senhor exige:

pratique a justiça, ame a fidelidade

e ande humildemente com o seu Deus.

Mq 6:8

 Esta passagem declara que a justiça e a misericórdia são dois aspectos fundamentais do caráter de Deus. Trabalhar a relação entre os dois é uma tarefa essencial da teologia cristã, da pregação e do cuidado pastoral. Em nosso próprio tempo, isto se tornou uma questão importante. Há uma impressão comum que o perdão cristão pode ser construído separado da questão da justiça – que, de fato, o perdão pode ser ofertado sem referência a justiça-. Contudo, perdão é uma questão complexa. A questão do perdão e da compensação realmente não deve ser discutida longe da questão da justiça. Quando um mau terrível foi cometido e uma desculpa é oferecida, as pessoas erradas talvez sejam justificadas sentindo que muito tem sido pedidas para elas. As coisas não podem apenas ser esquecidas e perdoadas.



Perdao não é essência do Cristianismo. Perdao deve ser entendido em seu relacionamento com a justiça se o evangelho cristão for visto em todo seu escopo.



A injustiça demonstra que há algo errado em nosso mundo e que pede para ser corrigido.  Apesar  de toda esta evidencia, há uma crença moderna tentando nos convencer que a felicidade é um estado natural das nossas espécies.

A mensagem da cruz de Jesus Cristo é que apenas o criador do universo pode fazer perfeita justiça vir sobre o mundo que ele criou, que ele fez isto no corpo do seu próprio Filho e ele fara mais no futuro no Dia do Senhor:

Não agirá com justiça o Juiz de toda a terra? Gn 18:25

 A RELAÇÃO ENTRE JUSTIÇA E MISERICÓRDIA

Este é o mal que há em tudo o que acontece debaixo do sol: o destino de todos é o mesmo. O coração dos homens, além do mais, está cheio de maldade e de loucura durante toda a vida; e por fim eles se juntarão aos mortos.  (Ec 9:3)

Fleming Rutledge coloca dois desafios: primeiro, numa sociedade da auto estima com a natureza caída humana? Segundo, é ajudar os cristãos entenderem  que mesmo a justiça secular deve ser e pode ser administrada vindo de um senso profundo de solidariedade entre todos os seres humanos, então nunca devemos cessar de lembrar que apenas pela graça de Deus prosseguimos. Isto é paradoxal, mas se nós pensamos que todos os seres humanos como igualmente necessitados tanto de justiça como de misericórdia, seremos mais capazes  de apoiar um sistema legal que poderá ser severo sem sentimentalidade, ainda assim oposto a degradação de qualquer tipo.

ALÉM DO PERDÃO

Segundo Reginald Fuller, o perdão é uma palavra muito fraca para abraçar o escopo pleno daquilo que Cristo fez e o que nos chama a fazer.  Perdão não é o suficiente, deve haver justiça também.

Existe algo de errado no mundo e deve ser retificado. A cruz não é puro e simples perdão, mas Deus endireitando o mundo da injustiça e decepção.  Esta correção é chama de retificação (DIKAIOSIS em grego) pelo apostolo Paulo.



A encarnação do Filho de Deus não deve ser entendida como uma divina bendição sobre tudo que há. Mas como uma encarnação debaixo da cruz,  e então se coloca como uma questão contra as coisas como estão.

O Messias não veio para purificar e iluminar o mundo espiritualmente preparado para sua chegada, mas ao invés disso, para uma humanidade longe da bondade original que foi criada. A barbaridade da crucificação revela precisamente este diagnóstico. Do inicio ao fim, as Escrituras testificam que a condição da humanidade caída é tão séria, tão grave, tão irremediável que nada senão a divina intervenção poderia retificar ela.



E Caifás, um deles que era sumo sacerdote naquele ano, lhes disse: Vós nada sabeis, Nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação. Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. E não somente pela nação, mas também para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos. (João 11:49-52)

Há duas ideias aqui neste trecho.  A primeira é que uma pessoa seria responsável por muitas e  a segunda é que a grandeza da ofensa requer algo de igual valor indicando a magnitude da transgressão.

A mensagem bíblica é que o ultraje está antes de tudo no coração de Deus. Se estamos resistentes a ideia da ira de Deus, devemos pausar para refletir na próxima vez que ficarmos ultrajados com algo. A ira de Deus é pura. Ela não é para a manutenção de privilegio como seu objetivo, mas vai em favor daqueles que não tem privilégios. A ira de Deus não é uma emoção que surge de tempos em tempos, como se fosse um temperamento. É um modo para explicar a sua absoluta inimizade contra todo o mau.

A nova criação de Deus deve ser justa, ou as promessas de Deus para correção do mundo seriam ignoradas (Is 10:1-2)

A ira de Deus se coloca contra tudo aquilo que se põe contra seu proposito redentor. Não é uma emoção, é a retidão de Deus ativa em corrigir aquilo que está errado. É a intervenção de Deus em favor daqueles que não podem salvar a si mesmos.

Ao se tornar um dos pobres que tiveram seus direitos privados, ao morrer como um que foi injustiçado pela justiça, o filho de Deus se submeteu a mais extrema humilhação, entrando em total solidariedade com aqueles que não tem ajuda. (Mc 15:31).

Ele se submeteu a esta humilhação e vulnerabilidade não apenas por aqueles que foram vitimizados mas também pelos perpetuadores. Na cruz, Deus colocou a si mesmo debaixo de sua própria sentença. Então, nem vitima nem aquele vitimiza podem alegar exceção do julgamento por seus próprios méritos, mas penas nos méritos do Filho.



DIKAIOSYNE: Justiça e a Retidão de Deus



Os sistemas humanos de justiça  são cruciais para o funcionamento da sociedade,  mas ela não pode endireitar o que está errado.  

Uma coisa que precisamos entender é que dikaiosyne é traduzido na bíblia tanto por retidão, justificação, justo, reto. Então, precisamos entender que a justiça de Deus e a retidão de Deus são a mesma ideia dentro do contexto bíblico.



A ideia de retidão na cultura hebraica não esta ligada a nossa ideia de legalismo ou moralismo, é mais uma ideia de verbo do que substantivo, porque se refere ao poder de Deus para endireitar aquilo que está errado.

A ideia é de retificação



DIKAIOSYNE como meta, como agressão.

O movimento de Deus em nossa direção quando deixamos Ele de lado é descrito de muitas formas biblicamente. Oseas coloca em termos de paternidade e filhos, a retidão seria um aspecto do amor parental (Os 11:1-9)

A retidão de Deus o leva a buscar redimir, assim ela se opõe aquilo que procura destruir o que ele ama, declarando inimizade contra tudo que se resiste ao seu proposito redentor.  A retidão divina não é estática, não é retributiva, mas restauradora.

Nesse sentido, Is 1:24-27,  a retidão não se refere a uma virtude humana ou a um comportamento correto, mas a ação de Deus em restaurar a justiça e a retidão para Israel. Não é tanto que Deus seja retidão, mas que Ele pratica retidão.  O objetivo é restauração e renovação. Na plenitude dos tempos, o povo da aliança se tornará um espelho da própria fidelidade de Deus com sua aliança, isto não vai acontecer por causa da competência humana, mas somente a partir de Deus.


Os escritos do Novo Testamento pressupõe a queda da raça humana e a ordem da criação decaida estão doente ate a morte além dos recursos humanos. O fator crucial aqui é precisamente identificado na parábola Jesus lhes contou outra parábola, dizendo:

"O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente em seu campo.
Mas enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo e semeou o joio no meio do trigo e se foi.
Quando o trigo brotou e formou espigas, o joio também apareceu.
"Os servos do dono do campo dirigiram-se a ele e disseram: ‘O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então, de onde veio o joio? ’
" ‘Um inimigo fez isso’, respondeu ele. "Os servos lhe perguntaram: ‘O senhor quer que vamos tirá-lo? ’
"Ele respondeu: ‘Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderão arrancar com ele o trigo.
Deixem que cresçam juntos até à colheita. Então direi aos encarregados da colheita: Juntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado; depois juntem o trigo e guardem-no no meu celeiro’ ". Mateus 13:24-30

O reino do pecado e da morte sobre o cosmos é inseparável da questão sobre por que as três pessoas da trindade concordaram com essa maneira tão cruel para a morte da segunda pessoa? O que o método nos fala sobre o significado desta morte?

A cruz mostra que não somente as vitimas da opressão e da justiça precisam de Deus como também os malfeitores.

A perversidade e monstruosidade da natureza da injustiça no mundo nos força a compreender que o perdao somente não dá um desenho claro do proposito de Deus.