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quarta-feira, junho 25, 2014

Romanos 1:1-17: Introduzindo o Evangelho




ROMANOS 1:1-17: Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus, 1.2   o qual antes havia prometido pelos seus profetas nas Santas Escrituras, 1.3   acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, 1.4   declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, — Jesus Cristo, nosso Senhor, 1.5   pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, 6   entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo. 7   A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.  8   Primeiramente, dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.  9   Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de vós, 10   pedindo sempre em minhas orações que, nalgum tempo, pela vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião de ir ter convosco. 11   Porque desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confortados, 12   isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, tanto vossa como minha. 13   Não quero, porém, irmãos, que ignoreis que muitas vezes propus ir ter convosco (mas até agora tenho sido impedido) para também ter entre vós algum fruto, como também entre os demais gentios. 14   Eu sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes. 15   E assim, quanto está em mim, estou pronto para também vos anunciar o evangelho, a vós que estais em Roma. 16   Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego. 17   Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé.



Esta carta e verdadeiramente a mais importante peça do Novo Testamento. É o evangelho mais puro. É de grande valor para um Cristão não somente para memorizar palavra por palavra, mas também para o ocupar com isso diariamente, como se fosse o pão diário da alma. É impossível ler ou meditar nesta carta {tão pouco}. Quanto mais alguém lida com ela, mais preciosa ela se torna e melhor ela saboreia. Por esta razão, eu quero completar meu serviço e, com este prefácio, prover uma introdução para a carta, a medida que Deus me dá habilidade, de maneira que qualquer um possa obter o mais profundo entendimento dela. Até agora ela tem sido escurecida{colocada em trevas} pelas interpretações [notas de explicação e comentários que acompanham o texto] e por muitos um comentário sem uso, mas está dentro dela própria uma luz resplandecente, quase resplandecente o suficiente para iluminar toda a Escritura. ( MARTINHO LUTERO, Prefácio à Carta de Romanos)



Romanos é uma carta sobre o Evangelho, foi escrita por um homem que teve a vida e a obra envolvida pelo Evangelho, mostrando a diferença que traz e faz o evangelho.Sem surpresa, o começo desta carta já fala do Evangelho.


SEPARADO PELO EVANGELHO (Rm 1:1).


Paulo se coloca como servo (escravo) de Jesus Cristo. Ele está sob a autoridade do seu Mestre. 


Ele também é um apóstolo, um enviado por Jesus para pregar o Evangelho para os gentios.  Em Atos 9:1-15, lemos sobre esta chamada de Jesus.


Na igreja primeva, alguns discordavam do apostolado de Paulo. Por que?


Paulo era um perseguidor dos cristãos, então para alguns que não aceitavam sua mensagem, ele não poderia ser considerado como um dos apóstolos.


Outra razão é que para ser considerado um apóstolo, teria de ser alguém que fosse uma testemunha ocular da vida de Jesus 



Atos 1:21-26 É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição. Então, propuseram dois: José, chamado Barsabás, cognominado Justo, e Matias. E, orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces o coração de todos, revela-nos qual destes dois tens escolhido para preencher a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se transviou, indo para o seu próprio lugar. E os lançaram em sortes, vindo a sorte recair sobre Matias, sendo-lhe, então, votado lugar com os onze apóstolos.

Mas, Paulo recebeu seu testemunho acerca de Jesus do próprio Senhor. Como vemos em Gálatas:

Gl 1.18-24:  Depois, passados três anos, fui a Jerusalém para ver a Pedro e fiquei com ele quinze dias. 1.19   E não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor. 1.20   Ora, acerca do que vos escrevo, eis que diante de Deus testifico que não minto. 1.21 Depois, fui para as partes da Síria e da Cilícia. 1.22   E não era conhecido de vista das igrejas da Judeia, que estavam em Cristo; 1.23   mas somente tinham ouvido dizer: Aquele que já nos perseguiu anuncia, agora, a fé que, antes, destruía. 1.24   E glorificavam a Deus a respeito de mim.

O EVANGELHO DE DEUS (Rm 1:2-4).

"O recado que Paulo tem para entregar é o “Evangelho de Deus”; é transmitir aos homens a inaudita, boa e alegre verdade de Deus! Justamente de Deus! Não se trata de mensagem religiosa, ou de notícia ou instrução sobre a divindade ou a divinização do homem, mas da mensagem de um Deus totalmente diferente do qual o homem, como tal, nunca virá a ter conhecimento, ou ter parte, mas de quem, por isso mesmo, vem a salvação; não é algo a ser entendido diretamente, uma coisa a ser compreendida, de uma vez, entre as demais coisas, mas é a Palavra sempre nova que precisa ser percebida sempre de novo, com temor e tremor; é a Palavra sempre reiterada, da origem de todas as coisas." (KARL BARTH, COMENTÁRIO DE ROMANOS,p. 28)

O Evangelho não é uma construção do apóstolo Paulo, mas é algo que ele recebeu de Deus. O Evangelho também não são bons avisos, mas são as boas novas daquilo que Deus fez por nós em Jesus Cristo.

O versículo 2 fala que foi prometido pelos seus profetas nas Sagradas Escrituras. Toda a Bíblia fala a respeito de Jesus.  O Evangelho não é um conceito, mas é uma pessoa.



Jesus é o verdadeiro Adão, que passou no teste do Jardim.


Jesus é o verdadeiro Abel, cujo sangue verteu para a salvação.
Jesus é o verdadeiro Abraão, que respondeu ao chamado de Deus, deixando seu lar, para fazer um novo povo.
Jesus é o verdadeiro Isaque, que foi sacrificado por seu Pai, e agora sabemos que Deus nos ama.
Jesus é o verdadeiro Jacó, que foi ferido por Deus para que possamos ser abençoados.
Jesus é o verdadeiro José, que está à direita do Rei e intercede por nós que o lançamos a morte


O conteúdo do Evangelho é o Filho de Deus.

Totalmente homem (nascido da descendência de Davi (vs.3))

Aquele que cumpre as promessas das Escrituras. 

2Sm 7:11-16:   desde o dia em que mandei que houvesse juízes sobre o meu povo Israel. A ti, porém, te dei descanso de todos os teus inimigos; também o SENHOR te faz saber que o SENHOR te fará casa. 12   Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então, farei levantar depois de ti a tua semente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. 13   Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. 14   Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens e com açoites de filhos de homens. 15   Mas a minha benignidade se não apartará dele, como a tirei de Saul, a quem tirei de diante de ti. 16   Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será firme para sempre.

Totalmente Deus ( "declarado com poder para ser Filho de Deus pela ressurreição da morte" (vs.4)

Paulo aqui não está dizendo que Jesus apenas se fez Deus após levantar da tumba. Ao invés disso, Ele está dizendo que a tumba vazia é uma grande declaração de quem Jesus é. Sua ressurreição remove toda a dúvida sobre que Ele é o Filho de Deus.  E sua ascensão demonstra que agora Ele está junto ao Pai (Ef 1:19-22) com poder.


Por isto, Ele é o nosso Senhor, que governa sobre tudo.

A OBEDIÊNCIA PELA FÉ. (Rm 1:5)


Paulo diz que recebeu o apostolado e a graça através de Jesus, para a obediência da fé. Na versão NVI, o texto está mais claro:

Por meio dele e por causa do seu nome, recebemos graça e apostolado para chamar dentre todas as nações um povo para a obediência que vem pela fé (Rm 1:5).

A obediência a Deus vem da fé, é uma consequência da fé salvífica e não uma segunda condição para a salvação. 

 A verdadeira fé em nossos corações leva a uma obediência verdadeira em nossas vidas. Por que? Porque o evangelho é uma declaração que Jesus é o rei prometido, o Filho de Deus ressuscitado e cheio de poder, que agora nos convida a desfrutar das bênçãos do seu reinado.  

A fé verdadeira é uma fé no rei divino para quem nós devemos nossa obediência e de quem somos servos agora. Uma obediência alegre flui de uma confiança verdadeira neste rei. 

PORQUE PAULO ENVIOU A ROMA ESTA CARTA? (1: 6-13)

Há quatro características que Paulo fala a respeito da igreja de Roma que servem para qualquer igreja:

1. Chamados para pertencer a Jesus Cristo.
2. Amados por Deus.
3. Chamados para ser santos.
4. Desfrutar da graça e da paz.

Nos versos 8 a 13, vemos que Paulo nunca esteve com esta igreja.  Mas, ele quer encorajar esta igreja e ser encorajado por ela. 

Os versículos 11 e 12 mostram que a obediência pela fé leva a humildade para servir e ser servido pelas pessoas. No verso 11, vemos que os dons servem para fortalecer as outras pessoas na fé. E no verso 12, devemos permitir que os outros a usarem seus dons para nos ajudar.

"Nunca devemos deixar nossos encontros na igreja, gastando um tempo cercado por pessoas amadas, pessoas diferenciadas pela fé, sem que sejamos encorajados" (Keller, p. 16)
A COLHEITA (Rm 1:13-15)

 Paulo fala de sua dívida em pregar o Evangelho que recebeu de Deus, que deve ser falado tanto para os que estão dentro ou fora da igreja.


Existem duas maneiras de alguém se endividar. A primeira é emprestando dinheiro de alguém; a segunda é quando alguém nos dá dinheiro para uma terceira pessoa. Por exemplo, se eu pegasse R$ 1.000,00 emprestados de você, eu seria seu devedor até que lhe restituísse o dinheiro. Da mesma forma, se um amigo seu me desse R$1.000,00 para lhe entregar, eu estaria em dívida com você até que entregasse o dinheiro ao destinatário. No primeiro caso, eu estaria endividado por tomar emprestado; no segundo, seria o seu amigo que, ao confiar-me os R$ 1.000,00, me poria em dívida com você.
É no segundo sentido que Paulo está endividado. Ele não emprestou nada dos romanos que tenha de devolver. Mas Jesus Cristo lhe confiou o evangelho para ser passado a eles. Várias vezes em suas cartas ele fala de como o evangelho "lhe foi confiado", de como foi "encarregado" de anunciá-lo.2 É verdade que essa metáfora tem mais a ver com mordomia (ou administração) do que com dívida, mas a idéia é a mesma. Foi Jesus Cristo quem fez de Paulo um devedor ao confiar-lhe o evangelho. Agora Paulo tinha uma dívida para com os romanos. Como apóstolo dos gentios, ele tinha uma dívida particular para com o mundo gentílico, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes . Não se sabe ao certo como se deveria entender essa classificação. Pode ser que os dois pares de palavras indiquem contraste dentro de um mesmo grupo, ou então que o primeiro aponte para diferenças de nacionalidade, cultura e linguagem, enquanto o segundo seria uma alusão a diferenças de inteligência e educação. De qualquer maneira, essas duas expressões, juntas, cobrem a totalidade do mundo dos gentios. Foi movido por esse senso de dívida para com eles que Paulo escreveu: Por isso estou disposto a pregar o evangelho também a vocês que estão em Roma (JOHN STOTT, A MENSAGEM DE ROMANOS,p. 28)
A OFENSA DO EVANGELHO (Rm 1:16)

A palavra traduzida por vergonha por também significar no original ofensa. Seria o Evangelho ofensivo?

1. O evangelho por nos falar que a nossa salvação é livre e imerecida, é realmente um insulto. Ele nos fala que nós estamos tão falidos espiritualmente que a única forma de sermos salvos é pela graça. Isto ofende pessoas moralistas e religiosas que pensam que sua decência dá a eles uma vantagem em relação a pessoas imorais.

2. O evangelho também é um insulto quando nos fala que Jesus morreu por nós. Nós diz que estávamos tão perdidos que apenas a morte do Filho de Deus poderia nos salvar. Isto ofende a crença moderna da auto-estima que acredita que as pessoas têm uma bondade inata.

3. O evangelho, ao dizer para nós que tentar ser espiritual ou bonzinho não será o suficiente. Ele insiste que nenhuma pessoa boa será salva, a não ser que aqueles que venham a Deus através de Jesus. Isto ofende a crença moderna que a pessoa pode encontrar Deus em qualquer lugar do seu próprio jeito. Não gostamos de perder nossa autonomia.

4. O evangelho nos diz que a nossa salvação foi conquistada pelo sofrimento e serviço de Jesus, não por conquista ou destruição. E que seguir a Ele significa que vamos sofrer e servir com Ele. Isto ofende as pessoas que querem salvação para ter uma vida fácil, isto também ofende as pessoas que querem que suas vidas estejam seguras e confortáveis.

Ainda assim, Paulo não tem vergonha deste evangelho que nos envergonha. 

Porque Ele é o poder de Deus:  o evangelho não são só palavras, mas palavras com poder. A mensagem do evangelho é sobre o que Deus fez e fará por nós. É o poder que pode transformar e mudar as coisas em nossas vidas.

O poder de Deus é visto na sua habilidade de transformar completamente as mentes e os corações. É poderoso porque nenhum outro poder na terra pode nos salvar, nos reconciliar com Deus e garantir um lugar no reino de Deus para sempre.

O que é requerido é crer, este poder está oferecido para todos que crerem. Apenas a fé é o verdadeiro canal para o poder de Deus. Esta oferecido para todos, mas só pode ser experimentado para quem crer.

A JUSTIÇA REVELADA (Rm 1:17)

O que faz o Evangelho tão poderoso? É porque nele está revelada a justiça de Deus, aquilo que Jesus conquistou para a humanidade. 


A justiça de Deus pode ser referida para o caráter justo de Deus que nos é revelado pelo Evangelho, por aquilo que Jesus fez e faz por nós. 


"a justiça de Deus" é a iniciativa justa tomada por Deus ao justificar os pecadores consigo mesmo, concedendo-lhes uma justiça que não lhes pertence, mas que vem do próprio Deus. "A justiça de Deus" é a justificação justa do injusto, sua maneira justa de declarar justo o injusto, através da qual ele demonstra sua  justiça e, ao mesmo tempo, nos confere justiça. Ele o fez através de Cristo, o justo, que morreu pelos injustos, como Paulo explica mais adiante. E ele o faz pela fé quando confiamos nele, clamando a ele por misericórdia" (JOHN STOTT, A Mensagem de Romanos, p. 31)
Esta justiça vem para nós através da fé, e uma fé do começo até o fim.  A justiça, a retidão é apenas recebida através da fé.  

Algumas pessoas pensam que Jesus morreu para nos perdoar apenas. Isto é verdade, mas não é tudo. Agora, que fomos perdoados temos que sair da cadeia e viver uma vida digna por nós mesmos. Contudo, no Evangelho nós descobrimos que Jesus tomou sobre si toda a nossa vida, dependemos dele para viver ela.

Como não viver pela fé? 
Quando tentamos viver sendo o nosso próprio salvador.

1. Quando pessoas licenciosas rejeitam a religião e Deus, sua rebelião é realmente uma recusa em acreditar no evangelho - a mensagem que nós somos tão pecadores, que apenas Jesus pode ser o nosso salvador.

2. Quando pessoas moralistas tomam a religião e o moralismo e  se tomar ou ansiosas (porque não conseguem viver de acordo com as regras que estabeleceram ) ou orgulhosas (porque acham que conseguem).  A ansiedade ou o orgulho é uma amostra que recusam o evangelho.

3. Quando o crente peca, isto sempre envolve um esquecimento de que não podem salvar a si mesmos. Busca em outra coisa aquilo que apenas Deus pode dar.



O evangelho sempre nos causa ofensa, porque ele nos revela que temos uma necessidade que não podemos completar. Nós precisamos lembrar que ele é o poder de Deus. Nós precisamos lembrar que ele revela a justiça de Deus. Isto é o que fundamentalmente reverte nossa atitude em compartilhar o evangelho. O oposto de ser envergonhado é disposição e vontade. Nos tornamos dispostos quando nós sabemos a verdade, o poder e a maravilha do evangelho tão profundamente que nós anunciamos isto não porque nós devemos fazer, ou porque nós nos sentimos que teríamos que fazer, mas porque nós queremos e amamos fazer para a glória do nome Dele. (KELLER, p. 23)



BIBLIOGRAFIA

ROMANS 1-7 FOR YOU de TIMOTHY KELLER

A MENSAGEM DE ROMANOS de JOHN STOTT





segunda-feira, maio 20, 2013

John Frame:Apologética para a Glória de Deus - uma introdução







FRAME, John APOLOGÉTICA PARA A GLÓRIA DE DEUS: UMA INTRODUÇÃO  Tradução de Wadislau Gomes, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

Capítulo 1 - Apologética: as bases.


No primeiro capítulo, John Frame lança as bases de sua apologética. Existem três  tipos de apologética: como prova, como defesa ou como ataque. 

Frame é um pressuposicionalista, para ele o apologeta tem de ser crente comprometido com Deus.  Temos uma apologética pressuposicionalista de um lado e a evidencialista, tradicional, clássica de outro lado.

":Esse tipo de apologética é, algumas vezes, chamado de método clássico ou tradicional, dado que reivindica que muitos o defenderam por intermédio da história da igreja, particularmente os apologetas do século 2o. (Justino Mártir, Atenagoras, Teófilo e Aristides), o grande pensador do século 13, Tomás de Aquino, e muitos dos seus seguidores até o presente, como Joseph Butler e seus seguidores," (p. 15)  

Esta defende uma neutralidade da razão,  procurando desenvolver um argumento neutro, que não tenha pressuposições distintamente bíblicas.


"O ponto não é se os descrentes são simplesmente ignorantes da verdade. Antes, Deus se revelou a cada pessoa com evidente claridade, tanto na criação - Sl 19, Rm 1:18-21- quanto na natureza do homem - Gn 1:26ss-. Em certo sentido, o incrédulo conhece a Deus (Rm 1:21). Em algum nível de sua consciência ou inconsciência permanece tal conhecimento.  A despeito desse conhecimento, o incrédulo intencionalmente distorce a verdade, substituindo-a pela mentira (Rm 1:18-32, 1Co 1:18-2:16- observe especialmente 2:14-,2Co 4:4). Portanto, o descrente é enganado (Tt 3:3). Ele conhece a Deus (Rm 1:21)e, ao mesmo tempo, não conhece a Deus (1Co 1:21, 2:14). Evidentemente, esses fatos suportam o ponto de que a revelação de Deus tem de governar  a nossa aproximação apologética. O descrente não pode ( e não quer) chegar à fé  à parte do evangelho da salvação revelado na Bíblia. Nós também não saberíamos a respeito da condição do incrédulo à parte da Escritura. E não poderemos alcançá-lo apologeticamente a menos que estejamos dipostos a ouvir os princípios apologéticos da própria Escritura" (p.17)

O argumento apologético tem que pressupor a verdade da Palavra de Deus. Isto seria um argumento circular? Todos precisam de um critério último, então, todos seriam culpados desta circularidade. Qual seria, então, as bases da conversa com um descrente?

1. A Escritura diz que Deus se revelou ao incrédulo - Rm 1:21
2. Nosso testemunho está acompanhado pelo Espírito Santo - Rm 15:18-19
3. Está assegurada pelo senso comum de busca pela verdade.
4. Ela pode assumir diversas formas.
5. Há uma distinção entre circular estreito e circular abrangente - o abrangente aceita evidências.

A soberania de Deus requer a responsabilidade humana, dando um papel significativo na história. A apologética é vista como uma obra soberana de Deus que transforma os corações com lugar para o homem nela.  Neste sentido, a pregação é a apologética porque busca a persuasão e a apologética é pregação porque apresenta o evangelho para a conversão e santificação.

O Sola Scriptura requer que se dê a mais alta autoridade para as Escrituras. Ela é o conselho de Deus. 

"Relacionar a Escritura aos seus contextos é relacioná-la à revelação natural. Revelação natural é a revelação de Deus em todas as coisas que ele fez (Sl 19.1ss, Rm 1:18ss), inclusive seres humanos, feitos à sua  imagem (Gn.1:27, 9:6, Tg 3:9). Todo ser humano está cercado pela revelação de Deus, tendo-a, até mesmo, dentro dele. Isso inclui, é claro, o incrédulo. Como já declarado, o incrédulo conhece claramente a Deus (Rm 1:21), mas, de diversas maneiras, procura reprimir tal conhecimento" (p. 25)

A revelação natural mostra o poder e a natureza de Deus, seus padrões morais e sua ira contra o pecado. Não é uma revelação para salvação. A revelação natural não é inferior a especial, ela é apenas corrigida pela especial que nos permite enxergar quem está por trás da natural.

Aquino não fazia distinção entre a revelação natural e especial, mas sim entre raciocínio com e sem a assistência da revelação (p.27)


Capítulo 2 - A mensagem do apologeta.


Para Frame, a mensagem e´a totalidade das Escrituras aplicada às necessidades de seus leitores. 

No que diz respeito à cosmovisão, ele coloca quatro coisas: 

1. a absoluta personalidade de Deus: deve-se evitar uma aproximação impessoal como pressuposição.

2. a distinção de Criador e criatura: deve-se lembrar da transcendência e da imanência de Deus. Evitar o liberalismo e a neo-ortodoxia em que Deus é o totalmente-outro "Todo pensamento não cristão eleva o homem ao nível de Deus ou rebaixa Deus ao nível do homem. Em qualquer dos casos, considera Deus, se é que o reconhece, como sendo igual ao homem, como outra parte da matéria do universo" (p.41)

3. a soberania de Deus: aqui há uma crítica ao arminianismo que hoje move-se em direção a teologia do processo. 

4. a Trindade:  O Deus cristão é três em um. Pai, Filho e o Espírito Santo.  Frame retoma o argumento de Lewis, de que Deus é amor apenas porque é Trindade, seu amor é inicialmente em si mesmo dentro das Pessoas da Trindade, é como seu ser.

Como Epistemologia, Deus é o supremo critério para a verdade e a falsidade. E como Ética, Ele também é o padrão para o bem ou para o mal.

Capítulo 3- Apologética como Prova- métodos.


A fé não é a crença com ausência de evidências, mas a fé honra a Palavra de Deus como evidência suficiente (p. 51)

O conceito de prova é de Van Til, "há provas absolutamente certas para a existência de Deus e para a verdade do teísmo cristão". As provas aqui são axiomas - "são pressuposições consideradas autoevidentes ou, pelo menos, são assumidas para o propósito de discussão". (p.54)

Na página 60, Frame coloca como argumentar:

1. seja intelectualmente apreensível ao inquiridor.
2. desperte e mantenha seu interesse
3. interaja com alguma area que ela admita fraqueza ou insegurança.
4. contenha alguns elementos de surpresa
5. coloque a verdade sem concessões
6. comunique o amor de Cristo.

Van Til colocou que o argumento pressuposicional requer o uso de um argumento em particular e a rejeição de outros.  Seus seguidores, chamam de transcendental, no sentido kantiano de condições para o pensamento. Então, o único argumento em favor de Deus como prova legítima se reduz a prova da possiblidade da predicação, sem a existência de Deus não há raciocínio.


Frame tem algumas objeções a Van Til (p.61):

O argumento transcendental precisa da ajuda de argumentos subsidiários de um tipo mais tradicional/evidencialista. Se sem Deus não há significado, para provar esta premissa precisamos de um validador, que leva ao argumento tradicional de valores. Os argumentos tradicionais de um projetista terminam com um Deus não bíblico.  Os argumentos tradicionais pressupõem uma cosmovisão cristã.

"Mas certamente o alvo geral da apologética é transcendental. Isto é, o deus a quem buscamos provar é, com efeito, a fonte de todo o significado, de toda a possibilidade, de atualidade e de predicação. O Deus bíblico é mais do que isso e certamente não menos. Com tal certeza, sequer deveríamos dizer alguma coisa ao inquiridor que sugira que é possível raciocinar, atribuir, tributar probabilidades, etc...à parte de Deus" p. 63

Van Til via a necessidade constante de repreender o orgulho espiritual, rejeitar o espírito de autonomia e sempre se apegar ao senhorio constante de Cristo sobre toda a estrutura de significados.

"O conhecimento regenerador de Deus é aquele que como já vimos pressupõe a Palavra de Deus. Uma pressuposição é mantida com certeza por definição, uma vez que ela é o próprio critério da certeza" p.66

 Quanto ao ponto de contato. Os arminiamos não acreditam que a depravação total tenha afetado a razão humana e o livre arbítrio. "Na visão de Barth, a graça de Deus cria o próprio ponto de contato. Essa posição é coerente com a noção de Barth, de que a recepção da graça não possui elemento intelectual. A graça não nos traz nenhuma revelação proposicional com a qual o descente, pela graça, venha a entender e confiar. Antes, é um raio vindo do nada e que não faz nenhum contato com o pensamento ou a vontade do incrédulo" (p. 69) 

Contudo, o homem foi criado à imagem de Deus. Há o conhecimento reprimido de Deus segundo Van Til,  não se busca o intelecto ou sua vontade que agora são escravas do pecado.

"As intenções do apologeta quanto ao ponto de contato, portanto, não são relevantes à descrição externa de sua apologética. Entretanto, tais intenções são relevantes às suas descrições e avaliações internas. Assim, a questão  do ponto de contato se resume a isso: estamos aceitando e nos dirigindo à cosmovisão distorcida do incrédulo ou à revelação que não sofre distorção e que ele mantém a despeito de sua visão distorcida?  (...) A questão do ponto de contato, portanto, é espiritual, é aquela por meio da qual examinamos nossos motivos, não aquela por meio da qual podemos facilmente avaliar as intenções de nossos companheiros apologetas"  (p.71)

Frame termina o capítulo defendendo o que ele chama de pressuposicionalismo do coração:

"O pressuposicionalismo de que falamos é :1. um entendimento claro sobre onde repousam nossas lealdades e de como nossas lealdades afetam nossa epistemologia; 2. uma determinação de, acima de tudo, apresentar o pleno ensino da Escritura em nossa apologética, sem comprometimento outros, com toda a simplicidade e com todo o poder ofensivo. 3. especialmente uma determinação de apresentar Deus como plenamente soberano, fonte de todo significado, inteligibilidade e racionalidade, e autoridade final para todo pensamento humano; e 4. um entendimento do conhecimento que o incrédulo tem de Deus e sua rebelião contra Deus, particularmente (ainda que não exaustivamente) a maneira como issso afeta seu pensamento" (p. 73)



Capítulo 4 - A Apologética como prova - existência de Deus.


Toda predicação dependem de Deus, sua existência é pressuposto para qualquer coisa.

Sobre argumentos morais, Frame diz que eles têm sido focalizados na causalidade ou no propósito. Mais recentemente, nos valores morais que é por onde ele argumenta. O valor mais elevado será objetivo como absoluto, assume a precedência e serve de critério para todos os outros, para os cristãos, este absoluto é a vontade de Deus expressa na Escritura.

"a fonte da autoridade moral absoluta é pessoal ou impessoal. Considere em primeiro lugar a última possibilidade. Isso significaria a existência de alguma estrutura impessoal ou lei no universo que coloca e requer justa fidelidade aos seus preceitos éticos. Entretanto, que espécie de ser impessoal poderia fazer isso? Certamente, se as leis do universo forem reduzidas ao acaso, nenhuma significância ética poderia simplesmente surgir. O que poderíamos aprender, de significância ética, de colisões de partículas subatômicas totalmente ao acaso? A que lealdade seríamos devedores se tudo fosse puro acaso?" (p.81)

Frame chega a conclusão de seu argumento dizendo que "se obrigações surgem de relacionamentos pessoais, então obrigações absolutas têm de surgir de relacionamentos com uma pessoa absoluta" (p.82). O argumento é transcendental. 

"A escolha é entre Deus e o caos, Deus e nada. Deus e a insanidade. Para muito de nós, essas sequer são escolhas. Crer em um universo irracional é mesmo que absolutamente não crer" (p.84)

Para Frame, o argumento cosmológico é epistemológico, a busca de causas e razões será autodestrutiva a menos que repouse ultimamente em Deus.

Quanto ao argumento ontológico,  provará o Deus bíblico somente se pressupuser valores cristãos e uma visão cristã de existência. Frame lembra Anselmo, "não que eu entenda para que possa crer, mas que eu creia para que possa entender".


Capítulo 5- Apologética como prova - Evangelho.


Provar a verdade de uma  narrativa da  história (1Co 15:1-11) é diferente de provar uma cosmovisão geral. 

É necessário um pregador para pregar o evangelho - Rm 10:14-15.

A própria Escritura argumenta suas afirmações, ela dá evidência da verdade de sua mensagem. Como testemunho de Deus acerca dele mesmo. Ela tem autoridade central, não é um produto humano ou histórico meramente, mas é a Palavra de Deus.


Capítulo 6 - O problema do mal.


Frame coloca seu pressuposto ao tratar esta questão:

"Se aquilo que queremos é achar encorajamento para continuar crendo no meio do sofrimento, a Escritura providencia isso, com abundância. Se você quiser ajuda para continuar confiando em Deus a despeito da falta de explicação para o mal, sim, podemos ajudar" (p. 119). A resposta a questão é bíblica, é teodicéia.

O que a Bíblia não diz:

  • 1. a defesa da não realidade do mal:  Alguns pensadores cristãos, até Agostinho, tratam o mal como um não-ser, ou uma privação do ser. Mesmo o mal faz parte do plano divino.

  • 2. a defesa da fraqueza divina: Harold Kushner, Deus não se sobrepõe porque é incapaz de fazer. Deus é onisciente, onipotente e soberano.

  • 3. defesa do melhor mundo possível: Leibniz diz que mesmo com o mal é melhor dos mundos possiveis que Deus poderia ter criado. "Deus necessariamente, nessa visão, torna o melhor mundo possível, incluindo quaisquer males necessários para obter o melhor resultado final. Por causa da própria excelência dos seus padrões, ele não poderia fazer nada menos que isso" (p.123)

  • 4. defesa do livre-arbítrio: O mal surgiu da livre escolha das criaturas, não foi causada ou pré-ordenada por Deus, então a existência do mal não compromete a bondade de Deus.  A Escritura concorda que a culpa deve recair sobre os homens pelo mau (Gn. 50:20, At. 2:23).   Contudo, essa visão de liberdade não condiz com a Escritura, Deus pode determinar nossas escolhas - Gn 50:20, 2Sm 24-. As livres escolhas do homem estão em Rm 11:36 e Ef. 1:11. Em Romanos 9, Paulo não usa esta defesa. Mesmo o arminianismo libertário que coloca a livre escolha causada pelo caráter e desejo, introduz fatores sem causa, substitui um determinismo impessoal por pessoal.

  • 5 defesa da construção do caráter: Outra defesa não bíblica é que o homem foi criado imaturo, que para crescer ele precisava de dor e sofrimento. A santificação não é aperfeiçoada pelo purgatório de sofrimento, mas pela própria ação de Deus em nossa vida.

  • 6. defesa do ambiente estável:  um ambiente estável abre a possibildiade para o mal é que o diz Lewis em Problema do Sofrimento, isto coloca a origem do problema na criação o que é antibíblico.

  • 7. defesa da causa indireta: Deus se relaciona com o mal de forma indireta, é a solução de Van Til. Contudo, a Bíblia diz que induzir alguém ao pecado é por si mesmo pecado - Dt 13:6, Rm 14.
  • 8. defesa da Ex Lex:  Gordon Clark é citado por Frame nesta teoria, a idéia é que Deus está acima do bem e do mal, da própria Lei divina. Contudo, a lei reflete o caráter do próprio Deus e obedecer a Deus é imitar a Deus, é refletir sua imagem - Mt 5:45. Deus honra a Lei que ele nos ordenou.


Capítulo 7 - O problema do mal 2



A escritura fornece uma nova perspectiva histórica, no passado está a promessa e a espera. No presente, está a defesa de um bem maior, sendo que este é a própria glória de Deus e não a felicidade do homem. Deus usa males  para o progresso de seu propósito (p.144-145):

1 - demonstração da sua justiça e graça - Rm 5:20-21.
2- o julgamento do mal - Mt 23:35
3- redenção - 1Pe 3:18
4- confronta os valores dos incrédulos para promover mudança de coração - Zc 13:7-9
5- Disciplina paterna nos crentes  Hb 12
6 - Vindicação de Deus - Rm 3:26

"Os crentes, mesmo tendo corações novos, continuarão a perguntar sobre o problema do mal. Mas há tantas razões para dar graças a Deus que jamais poderemos olhar para o mal com a mesma paixão que a do incrédulo. O crente simplesmente olha para o mundo com seus valores de maneira diferente da do incrédulo. E a mudança de valores talvez seja o mais perto que podermos chegar, neste ponto da história, de uma teodicéia" p. 146


Capítulo 8- Apologética como ofensiva 


Há um aspecto duplo do incrédulo: a incredulidade (ateísmo) e a idolatria. 

"Os seguidores de Schaeffer tendem a minimizar a idolatria moderna, pois se inclinam a um compromisso com o modelo histórico em que o antigo otimismo quanto à razão e a ordem se degenerou no irracionalismo moderno (relativismo ateu)" 
(....)
"Entretanto, os dooyeweedianos são menos adequados com respeito ao irracionalismo e ao ateísmo do que com a idolatria, O próprio Dooyeweerd foi um pouco obscuro sobre o  papel da razão no pensamento humano. Ele insistiu que Deus não seria racional, pois dizer que Deus seria racional seria limitá-lo a uma das quinze esferas da criação. Eu duvido que seria assim, parece-me que , se reconhecermos as diferenças que Van Til faz entre a mente divina e a mente humana, poderemos atribuir a Deus uma inteligência análoga, mas não idêntica à racionalidade humana. O fato de que os dooyeweerdianos consideram Van Til um racionalista indica, para mim, que eles têm um desentendimento fundamental nessa área" p. 152

Frame termina dizendo que precisamos nos posicionar contra o relativismo ateu, o relativismo idólatra e a idolatria atéia.

......

Há dois apêndices no livro: um sobre um diálogo com um agnóstico e outro sobre a relação da apologéticas de  Van Til  e de  Sproul.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Martin Barcala: Cristianismo Arreligioso




Terminei o livro CRISTIANISMO ARRELIGIOSO escrito pelo Pr. Martin Barcala, - agora retomo o resumo até o final do livro... recolando partes do post original.




O livro tem dois subtítulos que explicam seu propósito, o primeiro, guia para entender o contexto histórico e a produção literária, bem como a recepção e interpretação do pensamento do teólogo alemão, e o outro, uma introdução à cristologia de Dietrich Bonhoeffer.

O livro em português é filho único, não há por aqui nenhum outro título que analise e pense a obra de Bonhoeffer. E é um bom livro. O autor a partir das obras de Bonhoeffer vai analisando a cristologia e sua evolução -ou não- histórica no pensamento do autor alemão.

É bem diferente do livro de Eric Metaxas, que analisa mais a vida mesma de Bonhoeffer, aqui a preocupação é mais com a obra teológica. Se Metaxas escreveu um roteiro de cinema, pintando o alemão como um autor quase envangelical, Barcala traz um autor inovador da teologia radical.

Quantos Bonhoeffers cabe nele mesmo? Acho que isto acontece pela própria diversidade dos escritos do próprio autor, e sua vida e obra inacabada. 


Vale muito a leitura deste livro, é uma contraposição científica a história de Metaxas.


O livro está dividido em três partes, a 1a. - DE CRISTO EXISTINDO EM COMUNIDADE AO CRISTO SENHOR DO MUNDO, a 2a. CRISTIANISMO ARRELIGIOSO NAS CARTAS E ESCRITOS DA PRISÃO e 3a.  DO CRISTIANISMO ARRELIGIOSO À TEOLOGIA DA MORTE DE DEUS.


No primeiro capítulo, De Cristo existindo em comunidade ao Cristo, Senhor do mundo, o autor analisa as primeiras obras acadêmicas de Bonhoeffer e conceito de cristologia apresentado nelas. 


No primeiro, SANCTORUM COMMUNIO, está o conceito de cristologia como Cristo existindo em comunidade, o pecado original se fundamenta e expande sempre desde uma ação egocêntrica  que não aceita afirmar o outro como valor. Há oito princípios que são apresentados por Barcala que são sustentados por Bonhoeffer a respeito da igreja (p. 27-28):


1. a igreja é concebida como ecclesia, que é a plenitude de qahal- termo pelo qual era designada a reunião do povo de Israel no AT-. 


2. existe pela ação de Cristo.


3. existe uma identificação de Cristo com a comunidade, ser em Cristo equivale a ser em comunidade.


4. pessoa coletiva de Cristo,sem que isso seja uma plena identificação com Cristo




5. é Cristo existente como comunidade, a presença de Cristo no mundo


6. é o corpo de Cristo, como anúncio escatológico da nova comunidade de pessoas.


7. visível pelo coletivo no culto e na ação de uns para os outros.


8. ao invés de imposição (totalitarismo), há um serviço mútuo (organicidade paulina).


"a importância dada a igreja como comunidade que representa concretamente a presença de Cristo no mundo; a transcendência  no interior da imanência possibilitada pelo encontro com o semelhante na comunidade da fé e condensada no conceito de ser-para-os-outros como modo de existir de Jesus Cristo e dos cristãos; e a critica à religião como tentativa humana de recuperar seu estado original por meio de rituais e práticas  individualizantes e especulações metafísicas" (p. 41)
A causa do desespero humano e a principal característica de sua existência é a transitoriedade, não é o ser humano que prepara a glória de Deus, ela já está lá na criação e, portanto, não desaparece totalmente com a queda humana. Bonhoeffer ao contrário de Barth, preserva o conceito de ordem de preservação mesmo após a queda, mas como o mestre suiço, nega a ordem da criação. A única continuidade entre Deus e sua criação é sua Palavra, há a transcendência a partir do encontro com o outro, há uma analogia relationis, e não analogia entis entre Deus e o ser humano, ou seja, apenas na relação com o seu semelhante o ser humano se descobre como imagem de Deus e, portanto, conhece a Deus na presença de seu próximo. (p. 46)


A teologia natural seria pretender ir além da palavra dada por Deus, a religião é o produto do ser humano que deixou de ser a imago dei e tornou-se sicut deus, ser religioso é tentar encontrar uma nova forma de ser para Deus que vá além da palavra de Deus, que se origina do conhecimento humano sobre Deus e sobre o bem e o mal. Para Bonhoeffer, o ser humano perde a noção de sua criaturalidade tornando-se seu próprio deus, assim sendo, "a consciência leva o ser humano de Deus para o seu lugar escondido, para que, sentindo-se seguro em seu próprio saber do bem e do mal, o ser humano se erija como juiz e anule, assim, o juízo de Deus. A consciência é esta vergonha diante de Deus, na qual se oculta a própria maldade, na qual o ser humano justifica-se a si mesmo... A consciência não é a voz de Deus no ser humano pecador, senão que é precisamente a defesa contra esta voz" (p.49)


Para Bonhoeffer, o sacramento não é um ritual praticado pela igreja, nem um símbolo da presença de Jesus, como entendia Lutero, mas é a presença existencial de Cristo no meio da comunidade. A linguagem aqui assemelhasse ao existencialismo de Kierkegaard, já que Cristo está presente no mundo em forma de comunidade, não como ideal ético ou princípio religioso. Não é o ato religioso que faz o cristão, mas a participação nos sofrimentos de Deus na vida secular.


Quanto a Tillich e o método da correlação, Bonhoeffer diz que o pecado é uma realidade antropológica do ser humano, nada pode se saber do ser humano antes que Deus se torne ser humano em Jesus Cristo. Cristo não aparece como o portador de uma nova religião, mas o portador de Deus mesmo.


"A morte e ressurreição de Cristo privaram a igreja primitiva do convívio com a presença física de Jesus. Portanto, a missão da igreja passou a ser conquistar o espaço no mundo para o corpo de Cristo que, desde a encarnação até a morte na cruz, foi rejeitado pela humanidade. À semelhança do que disse anteriormente em outras obras, novamente aqui a igreja é concebida por Bonhoeffer como presença física de Jesus Cristo no mundo. A igreja é o corpo de Cristo buscando ocasião para se encarnar no mundo" p. 71
Para Bonhoeffer, a única coisa que devia diferenciar o cristão do mundo, o elemento extraordinário, era a cruz, concebida como amor aos inimigos e participação nos sofrimentos de Cristo pelo mundo. Nenhum privilégio, nenhuma doutrina ou ritual, mas a cruz era o sinal visível dos cristãos no mundo. A pergunta é a mesma de Kierkegaard, o que faz um cristão um cristão? Neste aspecto, a ética cristã vai além de uma modelagem dogmática, somente o agir livre e responsável aliado apenas à vontade de Deus seria capaz de expressar a conformação com Cristo. 


Devido a participação de Dietrich nos planos de assassinato de Hitler, sua própria concepção do lugar de Jesus no mundo transformou-se.  O sofrimento humano além daquele em nome de Cristo deve ser valorizado, a igreja não pode esconder-se sobre a idéia de que os judeus não tinham nada a ver com ela. 


Para Bonhoeffer, a primeira tarefa da ética cristã é suspender o saber do bem e do mal,  a possibilidade do julgamento de bem e de mal está na origem da queda e rompimento com Deus. A vontade de Deus é sempre única, e está na concretização de Jesus no ser humano e no mundo. "Somente o agir livre e responsável, aliado apenas à vontade de Deus seria capaz de expressar a conformação com Cristo, modelo para a ética cristã" p. 83


Cristo como Senhor do mundo.


Chegamos a conclusão do capítulo - que começou com as reflexões de Cristo como existindo em comunidade ao Cristo como Senhor do mundo. Para Bonhoeffer, na visão de Barcala, precisamos entender a diferença entre as coisas últimas e as penúltimas como estão no Discipulado.


"Esforçar-se pela causa justa é tomar a sério a realidade do mundo como criação preservada de Deus e reconciliada em Jesus Cristo. É respeitar a legitimidade das coisas penúltimas.......As coisas últimas não estão ao alcance da humanidade. É a palavra misericordiosa de Deus àqueles que perseveram e caem pelo caminho da justiça. É a graça obtida como resultado do seguimento a Jesus Cristo. Nada que se faça no mundo pode garantir a salvação. Portanto, a última palavra de Deus ao ser humano e ao mundo continua sendo sua misericordia. As coisas penúltimas se referem ao que fazer humano em seu cotidiano no mundo. É o caminho  que deve ser trilhado por aqueles que desejam participar do sofrimento de Cristo. Tudo aquilo que, apesar de não garantir o alcance às coisas últimas deve ser assumido seriamente como preparação para o que é ultimo. Resumidamente, é a relação dos cristãos com o mundo no qual estão inseridos" p. 85
 Bonhoeffer começa a emancipar sua teologia da instituição, a participação no corpo de Cristo não incluia apenas a participação na comunidade eclesiástica, mas também os sofrimentos de Cristo no e pelo mundo todo.


Há um certo desencanto com a situação do germanismo cristão e, em especial, o luteranismo alemão e seu distanciamento da questão nazista ou/e judaica e sua (ausência de) participação na vida  alemã.


2. O Cristianismo arreligioso nas cartas e escritos da prisão.


A segunda parte do livro chega ao momento mais angustiante da vida de Bonhoeffer, seu encarceramento por participar de atividades conspiratórias, a SS não sabia na época de sua prisão de sua participação em planos para assassinar Hitler, coisa que só foi saber com o fracasso da operação  Valquíria.


Barcala acredita em evolução e não ruptura no pensamento de Bonhoeffer, o ponto de partida do teólogo alemão foi velho testamento, num momento em que teólogos liberais a serviço do Reich relativizavam a importância dos escritos do primeiro testamento. Em ruptura a isto, Bonhoeffer passou a dedicar-se ao estudo vetero-testamentário.


Bonhoeffer foi além do conceito prenunciatório de Seeberg ou do conceito preparatório de Troeltsch, para Bonhoeffer o Antigo Testamento era o paradigma hermenêutico mais apropriado para se entender o novo.


Quanto a questão da religião, Bonhoeffer parte da distinção barthiana entre religião e revelação.  Sua posição é mais flexível que a de Karl Barth, mas também luta contra o positivismo da religião. O relacionamento do homem com Deus não deveria estar pautado na necessidade barthiana, mas que  em Jesus Cristo, Deus se revela e nos revela o centro da existência. 


Assim,  a linguagem na pregação cristão não é resultado de um esforço para se encontrar o lugar e a revelância de Deus, antes, é a decorrência de uma compreensão mais adequada de Deus. "A autonomia humana é a condição para a qual Deus conduz o ser humano que aceitou a viver como Jesus Cristo, ou seja, existir para-os-outros" p. 121


Então, é no Deus que se identifica conosco que está baseada a nossa fé, não como os deuses gregos que são expressão de força e vontade, o Deus cristão revelado em Jesus é aquele que sofre e se humilha por amor ao humano.


"Nossa relação com Deus não é uma relação religiosa com o ser mais elevado, mais poderoso, melhor que possa imaginar-isto não é transcendência genuína- mas nossa relação com Deus é uma nova vida na existência para os outros, na participação do ser de Jesus. O transcendente não são as tarefas infinitas, inatingíveis, mas é o respectivo próximo que está ao alcance. Deus em figura humana! Não o monstruoso, o caótico, distante, terrível; mas tampouco nas figuras conceptuais do absoluto, metafísico, infinito, etc; tampouco na figura grega do homem-Deus, do ser humano em si, mas do ser humano para os outros! Por isso o crucificado" (na pág. 126)
Há uma concretude no relacionamento com Deus, ele passa pelo nosso relacionamento com  o outro. A negação de um discurso religioso,metafísico deve ser entendida dentro do contexto histórico de Bonhoeffer, da falência do discurso eclesiástico de sua época, ser religioso é insistir numa concepção errônea de Deus.


3. Do Cristianismo Arreligioso à Teologia da Morte de Deus.


No capítulo 3, Barcala analisa a recepção da teologia de Bonhoeffer, a leitura que muitos fizeram de seu cristianismo arreligioso como uma teologia da morte de Deus após sua morte em 9 de abril de 1945, pouco tempo depois de completar 39 anos.


Bethge, amigo e divulgador póstumo da obra de Bonhoeffer, esforçava para demonstrar que não há uma ruptura na obra, há um amadurecimento de conceitos que já estavam presentes em sua teologia antes da prisão. Para tanto, ele parte da análise da cristologia de Bonhoeffer.  Barcala coloca isto claros nas páginas 136-139.


A cristologia de Bonhoeffer deve ser entendida como anti-especulativa, ou seja, Jesus Cristo é tratado como uma pessoa, a pergunta sobre Ele não deve ser o como se deu a encarnação ou que Ele fez, mas antes, quem Ele é.  Por isto, sua teologia se mistura com eclesiologia, no sentido, da presença física de Jesus no mundo.


Outro aspecto é o relacional, em Cristo, os cristãos recebem sua identidade, e assim estão livres para identificarem com a realidade do mundo em se confundir com ela. 


Outro caráter é o universal, Cristo não é a fronteira da existência humana, mas sim seu sustentador, ele é o próprio  centro da existência. Há em Cristo, uma redenção histórica e universal.


Por fim, ela é aberta, admite a inclusão de novos símbolos, significados e títulos.


Em sua crítica à religião, Bonhoeffer seria completamente incompreendido se a realização de sua interpretação mundana fosse concebida como significando o fim de qualquer reunião comunitária para o culto ou de forma que a palavra, o sacramento e a comunidade pudessem ser simplesmente substituídos por cartas. (p. 147)


Segundo Godsey, citado pelo autor, "em Bonhoeffer nós temos um teólogo cujo pensamento é tão cristocêntrico quanto aquele de Karl Bart, que levanta a questão sobre a comunicação do evangelho tão precisamente como Rudolf Bultmann, que abordou os problemas de nosso mundo pragmático, auto-suficiente e tecnológico tão seriamente quanto Reinhold Niebuhr, mas que, mais do que qualquer um destes homens, refletiu a partir da perspectiva da igreja concreta" (p. 149).


Em sua conclusão, "a dimensão comunitária da fé cristã, entendida por ele como anúncio escatológico da nova humanidade revelada em Jesus Cristo, sempre foi o nascedouro de suas intuições e reflexões teológicas mais profundas" (p. 191)


"Ao confundir seu fundamento com suas doutrinas, ritos ou estruturas, a igreja deixa imediatamente de ser igreja, tornando-se mais uma comunidade religiosa, com um grave risco para sua missão, o esquecimento de que ela não existe para si mesma e, portanto, não deve esgotar seus esforços na tentativa  de preservar um lugar no mundo em que possa existir à parte dos dilemas e das lutas humanas" p. 193














sábado, setembro 17, 2011

Ricardo Quadros Gouveia: Paixão pelo Paradoxo


Pensar em teologia, sem passar pelo pensamento, ou por aquilo que se pensa que é Kierkegaard é um paradoxo hoje.  Ricardo Quadros Gouveia oferece neste livro um trabalho magistral de introdução a obra kieerkegaardiana, busca um pensador além dos seus rótulos e  usos. Sobre Marx, diz-se que os marxitas eram mais marxistas que o próprio Marx, sobre o filósofo dinamarquês a sentença também é verdade.
Kierkegaard, que nunca foi ordenado, e que dizia que seus sermões eram discursos:
"...discursos, não sermões, porque o amor não tem a autoridade para pregar, discursos edificantes, não discursos para a edificação, porque o orador não alega de modo algum ser um professor... Ele também disse, minha tarefa é uludir as pesoas- dentro do sentido de verdade- para o compromisso religioso, que eles lançaram fora, mas eu não tenho autoridade, emlugar de autoridade eu uso o oposto, eu digo, a tarefa toda é para minha própria disciplina e educação. Isto novamente é um modo genuinamente socrático. Exatamente como ele era o ignorante, assim aqui, em vez de ser o professor, sou eu o que deve ser educado" p.22  

 Sobre si mesmo, Kierkegaard fez a seguinte profecia: 

"As condições estão longe de serem confusas o suficiente para que se faça uso correto de mim. Mas isto tudo terminará, como eles verão, com as condições  tornando-se tão desesperadas que eles terão que fazer uso de pessoas desesperadas como eu e meus semelhantes" p. 30

"Kierkegaard é um homem cuja vida do início ao fim desconhece tudo que é chamado deleite...iniciado no que e chamado sofrimento...um homem que na pobreza testemunha a verdade- na pobreza, na humildade, no rebaixamento, e assim não é apreciado, é desprezado e então ridicularizado, insultado, zombado,..um homem que é escorraçado, maltratado, arrastado de uma prisão para outra.... então por fim crucificado, ou decapitado, ou queimado, ou calcinado sobre uma grade, seu corpo sem vida jogado pelo carrasco num lugar ermo... ou queimado até as cinzas e jogado aos quatro ventos, para que qualquer traço do impuro seja obliterado" p. 54
Sobre a semelhança entre Barth e Kierkegaard, Ricardo Quadros Gouveia diz:

" Tanto Kierkegaard quanto Barth tentaram antepor uma theologia crucis contra a predominância de uma theologia gloriae. Outros importantes pontos em comum são o desvelamento da auto-revelação de Deus, uma ênfase na humilhação de Cristo e na possibilidade de Cristo e na possibilidade da ofensa -ainda que Barth estenda e modifique o uso da idéia de Kierkegaard, dizendo que todas as pessoas ofendem-se com Cristo e não apenas os incrédulos, e dizendo que esta ofensa é experimentada também pela própria igreja-" (p.79)

"a renúncia de Barth de tudo que fosse humano, incluindo a assim chamada humanidade renascida, é muito mais radical do que foi a de Soreen Kierkegaard. Isto, por sua vez, significa que a tendência para o ascetismo que aparece gradualmente em Soreen Kierkegaard nunca encontrou eco na mente de Barth... Hans Urs von Balthasar... mostra as atitudes completamente diferentes dos dois teologos em relação a Mozart ... Nos anos 1921, ele Barth podia imprecar contra nossa existência esquecida por Deus em termos tão violentos que não é díficil entender por que ele pode ser acusado de Marcionismo. Mas precisamente a abrangente violência de duas expressões impedem qualquer tendência a escapar para um tipo de ascetismo.  Na prática, o NÃO, totalmente radical tornou-se um SIM. O ponteiro do mostrador da negação girou 360 graus - e parou no ponto de partida.   (,,,)  Na teologia de Hegel há apenas um movimento abstrato de lógica, mas não há necessidade de uma ação ou decisão do indivíduo ou de Deus para reestabelecer um elo, uma relação rompida pelo pecado. Para Kierkegaard, nossa relação para com Deus requer ação divina como ação humana"p. 85


 Para o autor seria exagero dizer que o dinamarques foi precurssor de Barth, como também a afirmação de uma paternidade em relação ao existencialismo, que para o autor seria mais o resultado de uma má leitura do texto de Kierkegaard. 

A nova leitura de Kierkegaard como autor cristão, parte de Gowens, que lê um desenvolvimento religioso em três estágios, primeiro, há fé, que é uma feliz paixão, depois, a esperança, que está relacionada ao sofrimento, e por último, o amor, significaria imitar a Cristo em obras que são frutos de gratidão.

No capítulo 7, Ricardo Quadros Gouveia entra no caráter essencial da obra kierkegaardiana do ponto de vista cristã, um corretivo.  Para o autor,  muitos cristãos de todas as denominações não têm idéia do que seja o cristianismo, pois a verdadeira resolução e transformação interna  raramente é conhecida. Estes precisam ouvir Kierkegaard (p. 122)

Sobre o liberalismo teológico:

"É uma cosmovisão, uma Weltanschauung para a qual uma igreja se move na qual se funde sem perceber, quando ela se rende às tendências culturais de seu tempo (no caso concreto de nosso tempo a mercadologia da sociedade de consumo) e mancha o evangelho com comprometimentos que, ao contrário do que se imagina,. tem mais a haver com orgulho e interesses pessoais (e nacionais) do que com teorias teológicas, filosóficas e científicas" (p.122)
Para Kierkegaard, os dogmas não o problema da igreja, os cristãos é que são. Ele dizia que "A doutrina na Igreja estabelecida e sua organização são muito boas. Mas as vidas, as nossas vidas - acredite-me, estas é que são mediocres" p. 126

A grande questão era saber da existencialidade do tornar-se cristão,  esclarecer o que está envolvido em ser um cristão. Para ele, não é posse garantida de ninguém ser cristão, pois não se é cristão por ter nascido em um país cristão, ou numa família cristã. Nem por ter sido batizado, ou confessado sua fé alguma vez.  O crente não pode se colocar frente a sua fé como mero expectador, deve estar dinamicamente ativo em sua fé, participante da edificação pessoal e espiritual, autor de obras de amor com um empenho nascido da gratidão.

"Sob uma ótica cristã, a ênfase não é sobre a que ponto ou quão longe uma pessoa chegou para alcançar ou preencher os requisitos, se ele realmente se empenha... de modo q1ue ele aprenda mesmo a ser humilhado e a confiar na graça. Reduzir os requisitos de forma a estar apto a melhor preenche-los ...a isto o cristianismo em sua mais profunda essência se opõe. Não... humilhação infinita e graça, e então um empenho nascido da gratidão - isto é cristianismo" p. 130
A Fé em Kierkegaard

"Parece-me que a fé é também o conceito teológico em referência ao qual a teologia cristã se sustenta ou cai. Portanto, sob uma ótica cristã. só há uma única fé que pode ser depositada em Deus ou idolatricamente e rebeldemente em algo que não é Deus. A fé é sempre e unicamente um posicionamento em relação ao Criador e nunca, como sugerem alguns compêndios de teologia, uma realidade psicológica ou antropológica pré-religiosa ou pré-confessional" p. 147
A fé tem uma concepção relacional, de fidelidade ou lealdade a uma pessoa,  como relação pessoal direta.  Significa um ato pessoal e subjetivo de acreditar - fides qua creditur. Também designa a religião cristã, fides quae creditur. 

"No cristianismo, a fé envolve não apenas entendimento doutrinal - notitia-, confiança ou confidência (fiducia) e submissão obediente (assensus),mas também outras noções paralelas como crença (credulitatis), fidelidade (fidelitas), esperança (spes), e firme convicção (persuasio), todas as quais têm seu lugar sob a palavra valise fé" p. 148
A fé não é somente sobre Cristo, ou meramente em direção a Cristo, mas em Cristo. É uma atividade que vive de Cristo, do saber de Cristo e querer Cristo, uma vida de união com Cristo.  Não é algo que acontece num evento isolado da vida, mas uma ação contínua, que representa um modo de ser no mundo. Seria a alegre  e consensual afirmação da mente, coração e vontade à verdade daquilo que não visto empiricamente, que é a auto-revelação de Deus. Seria uma visão espiritual, a contemplação do invisível. Sendo um presente de Deus, enquanto é totalmente desejada pela vontade humana. "A tensão desta dialética entre receptividade e atividade é vista na prece "Senhor, ajuda-me na minha falta de fé - Mc. 9,24-e repetidamente aparece nas epístolas paulinas, cf. Cl 2,6 Fp. 3, 7-9" (p 151).


A justificação pela fé, tendo em vista, a fé como recepção da graça, pode levar a um engano já que sugere que a nossa fé salva, e não a graça de Deus. a salvação depende da fé dada pela graça, e não da absoluta claridade das definições da fé.

A fé e subjetividade.

"O caminho da reflexão objetiva torna o indíviduo subjetivo em algo acidental e com isto torna a existência  em algo diferente, desvanescente. O caminho para a verdade objetiva afasta-se do sujeito, e enquanto o sujeito e a subjetividade se tornam indiferentes,  a verdade também 

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