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quinta-feira, agosto 20, 2009

WILLIAM FAULKNER: Enquanto Agonizo

"É por isso que ele está lá fora embaixo da janela, martelando e serrando aquele maldito caixão. Onde ela pode vê-lo. Onde todo ar que ela aspira está impregnado das marteladas e serradas onde ela pode vê-lo dizendo Veja. Veja que beleza estou fazendo para a senhora" p. 17


Em "Enquanto agonizo", Faulkner costura dezenas de monólogos de 15 pessoas para mostrar o perfil psicológico de uma família que conduz o corpo da matriarca ao cemitério. A partir de "O lugarejo", o destino dos personagens de Faulkner não é mais tão trágico. Ao menos surge alguma esperança para a condição humana como uma promessa de liberação.



Eleito uns dos cem melhores romances do século XX, Enquanto agonizo é um grandioso exemplar da linguagem e do estilo praticados pelo escritor norte-americano William Faulkner. Neste romance publicado em 1930, o autor distancia-se da aristocracia sulista americana para falar sobre a gente comum e humilde da região.


O livro acompanha o cortejo da família Bruden, reunida para cumprir o último desejo da matriarca: ser enterrada na cidade de Jefferson, condado de Yoknapatawpha, longe da miserável cidade de. Sem saber que essa viagem mudaria suas vidas, o marido e os cinco filhos partem com o caixão determinados a cumprir seu objetivo.


Durante o percurso, Faulkner apresenta ao leitor os dramas pessoais familiares, mas também a miséria do sul dos Estados Unidos. A aparente tranqüilidade da vida rural esconde as relações complexas entre os membros da família, reveladas pelo escritor de forma cativante e inovadora: cada capítulo é narrado em primeira pessoa e de forma não-linear pelos personagens, com flashbacks que vão se entrelaçando e formando um espelho da condição humana.


Enquanto Leio

do site odisséia 2005


Quem nunca comprou um produto exclusivamente por causa da marca? Inconscientemente, há a certeza de que aquele produto satisfará nossos anseios, que aquela marca representa qualidade. Para quem conhece um pouco da obra de William Faulkner, o inicio da leitura de um livro do autor se dá mais ou menos da mesma maneira: uma sensação de qualidade, de um autor que domina plenamente a capacidade de narrar. Às vezes isso pode ser até um pouco prejudicial, uma sensação de que não é preciso ficar atento às qualidades da obra, pois elas são evidentes. De fato, livros como "O Som e a Fúria", "Absalão, Absalão", "Luz em Agosto" e "Enquanto Agonizo" são constantemente citados como verdadeiras obras-primas. Mas ao prestar atenção à medida que lemos tais obras, serve para descobrir qualidades literárias que podem passar por alto.


Quando Faulkner escreveu "Enquanto Agonizo" o mundo já conhecia autores que usavam o 'stream-of-consciousness', um recurso literário bastante interessante (algo como descrever exatamente o pensamento dos personagens, com a desordem típica de um pensamento em formação). De fato, Virginia Woolf e James Joyce são autores exemplares neste tipo de escrita e são lidos e estudados até hoje. No entanto, para o leitor que não está acostumado com a atividade de 'ler' pensamentos, o recurso pode causar estranhamento. Muitos enfadados por descrições nada ordenadas - onde tempo, espaço e formas se misturam -, acabam simplesmente abandonando tais obras em busca de algo mais linear. No entanto, Faulkner em "Enquanto Agonizo" consegue oferecer o mesmo recurso literário complexo de um jeito altamente atraente, irresistível, que nos faz avançar a cada página quase que com voracidade.



"Enquanto Agonizo" tem um enredo aparentemente comum: Addie Bundren, a matriarca da família, está gravemente enferma e todos se preparam para seu funeral. Um pedido feito em seu leito de morte, faz com que os outros membros da família se preparem para viajar até Jefferson, uma cidade vizinha, onde a personagem será enterrada. A aparente simplicidade do roteiro esconde relações complexas entre todos os membros da família e a obra procura refletir isso dum modo poderoso e inovador para a época: cada capítulo da história é narrado em primeira pessoa por algum personagem. São, portanto, várias primeiras pessoas nos informando sobre o que acontece ao seu redor e (claro) em seu interior. O recurso põe em evidência assim o 'stream-of-consciousness' de maneira a enriquecer a narrativa, com um domínio que somente um mestre da literatura mundial poderia exercer.


O eixo da roda
do artigo de Silviano Santiago para folha

O eixo da roda narrativa dramatiza a agonia e morte de Addie Bundren, mulher e mãe, responsável por um único e solitário capítulo no meio do romance. Do eixo central saem e a ele retornam os raios da roda, ou seja, os 59 curtos capítulos do romance. Cada capítulo é um monólogo. Os monólogos são de responsabilidade do marido e dos cinco filhos de Addie, bem como dos vizinhos com quem mantêm laços de amizade. O todo da narrativa constitui o aro externo da roda. Eis o resumo do romance que Faulkner escreveu com a ajuda da água e do fogo. Da água que desce dos céus em chuva, fazendo transbordar o rio, derrubando pontes, isolando ainda mais o grupo social. Do incêndio com que o mais ardiloso dos filhos pretende dar por encerrado o périplo tragicômico, às vezes grotesco, do caixão até o cemitério de uma cidade vizinha. Os raios da roda se articulam ao eixo fixo central no tempo do enquanto -para se valer de palavra tomada de empréstimo ao título da obra.
Tentemos descrever essa forma do tempo mítico, circular, com a ajuda da mecânica da roda. Enquanto a mulher e mãe agoniza, morre e é enterrada, cada um dos membros da família repassa experiências que foram definitivas na sua configuração de seres humanos e por elas se deixa obsedar. No tempo do enquanto, o que é tido como superficial no calendário das pequenas ações e conversas do cotidiano passa a calar fundo graças às reminiscências. O monólogo que constitui um personagem leva água para o monjolo do outro. Na família, cada um é diferente do outro e são todos iguais. Como montar o quebra-cabeça da esquizofrenia familiar faulkneriana? Não há progresso nos 59 micromonólogos que compõem "Enquanto Agonizo". O tempo da narrativa gira sobre si mesmo como a roda na areia. Com a ajuda de Nathalie Sarraute, digamos que a mulher e mãe, semelhante ao sol, afeta a todos da família e da comunidade pelo efeito de tropismo. Tal qual plantas numa paisagem inóspita, todos os personagens reagem a ela. Dela se aproximam em busca de vida, dela se afastam em busca de autonomia e a ela retornam reconciliados com o destino. A mulher e mãe irradia uma luz feiticeira. Ao atrair, sua claridade espetaculariza vontades, desejos e devaneios. Ao refluir, revela a sordidez, a imundície e a miséria em que vivem esses camponeses do Mississippi. Addie é a força amorosa e traiçoeira que deixa à vista essa família de "white trash" (lixo branco), para usar a expressão que os negros usam para designar os brancos que se igualam a eles na pobreza. Como na novela "A Morte de Ivan Ilitch", de Tolstói, o romance exala o cheiro (catinga e perfume) da morte. Um cheiro forte, como teria dito o camponês Guerasim, alçado à condição de ajudante de mordomo, diante do urinol usado pelo patrão. Faulkner, é sabido, teve primeiro sucesso junto aos intelectuais franceses. Anos depois será reconhecido pelos compatriotas e ingleses. Tenho uma hipótese. A literatura francesa, na sua forma mais tradicional, que é a do "récit", sempre se interessou pelo monólogo longo, que no fundo nada mais é do que suporte para a prosa introspectiva (observações sobre a vida íntima pelo próprio sujeito).

Intimidade caipira

De Madame de la Fayette, no século 17, a André Gide, Albert Camus e Patrick Modiano, nos nossos dias, criou-se a tradição do monólogo ficcional francês. Na literatura francesa, cartesiana por definição, o narrador/ personagem da prosa introspectiva tem de ser inteligente, capaz de destrinchar sentimentos e emoções que constituem o sujeito no mundo, ao lado de pares cujo maior prazer é se exercitarem na perversidade e sutileza dos jogos sociais aristocratizantes.

Faulkner não tem medo de usar o monólogo quando o personagem é destituído de raciocínio lógico. Seus colegas de ofício, como Hemingway ou Steinbeck, preferem imitar a técnica do romance policial. Ambos se valem dos recursos da psicologia comportamental (behaviorista) que lhes é proposta por William James e seus seguidores. Nada de vida íntima nos romances dos expoentes da geração perdida europeizada, tudo é ação e gesto. Faulkner trata a brutalidade de outra forma. Ele é o detetive da intimidade caipira. Devassa-a para descobrir (e mostrar) seres tão complexos na sua fúria de viver quanto os citadinos.Calculem a bomba que explode nos arraiais artísticos franceses quando figuras como Valery Larbaud, tradutor de James Joyce, são levadas a defrontar com um, com vários narradores/personagens de Faulkner. Estão diante de seres ignorantes, violentos e brutos, mas ao mesmo tempo extremamente sensíveis, capazes duma fala profética e poética modelar, como é o caso, respectivamente, de Darl e Vardaman. Uma baforada de ar do campo abre as janelas e varre os salões cosmopolitas.

Como não admirar Faulkner por ter dado ao caçula dos Bundren, Vardaman, um capítulo com uma única e curta frase que, na sua verdade poética, exprime a riqueza simbólica tanto do romance imerso na chuva quanto do caixão submerso nas águas furiosas do rio. Pensa Vardaman: "Minha mãe é um peixe". É o mesmo Vardaman que faz furos no caixão para que a mãe defunta possa respirar. Como não admirar Faulkner por ter emprestado a Cash, o mestre carapina da família, uma lógica construtiva que faria inveja a muitos arquitetos diplomados. Ele idealiza e fabrica o caixão da mãe, imaginando que ele teria de ser feito "de esguelha": "O magnetismo animal de um corpo morto faz com que a pressão funcione obliquamente, de forma que as junturas e as ligações de um caixão devem ser feitas de esguelha".

Faca de dois gumes

A ignorância no universo dos personagens faulknerianos é uma faca de dois gumes. Tanto aponta para a iluminação poética de raiz mítico-religiosa como pode ainda apontar para formas inaceitáveis de violência contra o indivíduo e a sociedade.Ao tentar salvar o caixão da mãe das águas revoltosas do rio, Cash quebra uma vez mais a perna. Não recorre a médico ou farmacêutico. Deseja acompanhar o féretro da mãe até a cidade vizinha. Custe o que custar. O pai não titubeia. Compra um saco de cimento. Mistura o pó com água. Encana a perna do filho com a mistura, sem antes untá-la com gordura. Lá vai ele montado no caixão da mãe. No dia seguinte a perna de Cash parece a de um crioulo, como diz o texto. Na profundidade do equívoco assassino do pai não está a evidência da barbárie humana. Antes a vontade de curar pelos meios que estão a bordo da navegação pobre pela vida. Na vítima filial, no seu rosto e palavras resplandece a dor sem sofrimento, tema de que será arauto entre nós o cristão Mário de Andrade. À pergunta do médico: "Está doendo?", Cash responde: "Nada que não seja suportável".

segunda-feira, junho 08, 2009

JOSÉ SARAMAGO: A Viagem do Elefante

"Não se pode descrever. Realmente, o maior desrespeito à realidade, seja ela, a realidade, o que for, que se poderá cometer quando nos dedicamos ao inútil trabalho de descrever uma paisagem, é ter de fazê-lo com palavras que não são nossas, que nunca foram nossas, repare-se, palavras que já correram milhões de páginas e de bocas antes que a nossa vez chegasse de utiliza-las, palavras cansadas, exaustas de tanto passarem de mão em mão e deixarem em cada uma parte da sua substância vital" p. 241
“A Viagem do Elefante” de José Saramago
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Viegas Fernandes da Costa
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Há quem diga que a carícia da morte devolve-nos uma leveza e um certo humor que perdemos com o transcorrer dos anos. Há quem diga, claro, ser isto pura bobagem. Bobagem ou verdade, no final de 2007 o escritor português José Saramago (Prêmio Nobel de Literatura em 1998) enfrentou problemas respiratórios gravíssimos que por pouco não o levaram a óbito. Recuperado, tratou de concluir seu mais novo livro, “A Viagem do Elefante” (Ed. Companhia das Letras, 2008), uma novela teimosamente referenciada de conto pelo próprio autor.
“A Viagem do Elefante” ambienta-se em meados do século XVI, e conta a história do elefante Solimão (ou Salomão, como é chamado depois de passar à propriedade austríaca) e seu cornaca Subhro (ou Fritz, cujo nome também é modificado, pois, enquanto tratador e guia, acompanha o elefante e os desígnios aos quais este é submetido). Solimão era propriedade do império português, e vivia um tanto quanto esquecido em Lisboa, sob os cuidados de Subhro. De pouca ou nenhuma serventia aos interesses do rei D. João III, o elefante é presenteado ao arquiduque austríaco Maximiliano II, recém casado com a filha do imperador Carlos V, que aceita o presente e imediatamente procede a mudança dos nomes de Solimão e Subhro para Salomão e Fritz. A partir de então, o narrador passará a contar a história da longa viagem empreendida por Salomão e Fritz, primeiramente de Portugal a Espanha, onde se detinha a comitiva de Maximiliano II, e de Espanha a Áustria, incluindo-se aí uma perigosa viagem marítima pelo Mediterrâneo e uma quase suicida travessia dos Alpes.
Para quem se acostumara à densidade de livros como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Memorial do Convento” entre outros, este “A Viagem do Elefante” aparenta uma simplicidade e uma linearidade que parecem destoar da obra do autor; entretanto, é nas tergiversações dos personagens e do narrador que reside a maior qualidade da obra. A história serve apenas como pano de fundo para que José Saramago exercite seu mais fino humor e sua mordaz ironia à burocracia de Estado e à corrupção intrínseca dos indivíduos. Assim, não foi casual a escolha de um elefante como personagem central do livro. É Solimão (ou Salomão) que move a burocracia de um Estado inoperante, muito mais preocupado com sua perpetuação e imagem, do que com sua eficiência junto às necessidades de seu povo, e é em torno e em função dele que se destacará toda uma comitiva e para qual se contratarão funcionários que possam surprir suas necessidades particulares e tornar possível e segura sua viagem. Solimão é, desta feita, o próprio Estado, cuja ineficácia burocrática José Saramago discutiu em livros como “Todos os Nomes” e “Ensaio sobre a Lucidez”, dentre outros. Subhro (ou Fritz), o cornaca, por sua vez, constitui-se como personagem complexo: indiano de origem, emigrou para Portugal acompanhando Solimão, a quem trata, treina e guia. Apesar de servir a seu soberano, seja este o rei português ou o arquiduque austríaco, é dado a arroubos de autonomia, e chega a contestar e ironizar seus superiores hierárquicos. Sabendo-se fundamental aos interesses do seu governo, considerando ser o único a conhecer as manhas e artimanhas de Solimão, Subhro emite suas opiniões próprias e, em nome do bem-estar do elefante (e, consecutivamente, dos interesses de Estado), chega a impor condições para a viagem.
Entretanto, como todo ser humano, deixa-se levar também por seus interesses próprios e, sempre que pode, usa do Estado (no caso, Solimão) para obter lucros e benefícios pessoais, como no episódio em que passa a vender pelos do animal a uma população crédula depois de ter usado o paquiderme para forjar um milagre – uma clara referência ao momento em que a história é ambientada, quando na Europa eclodiram os movimentos da Reforma Protestante e da Contra-Reforma Católica.Como já dissemos aqui, há quem diga que a carícia da morte devolve-nos uma leveza e um certo humor que perdemos com o transcorrer dos anos. Fato é que em “A Viagem do Elefante” encontramos um Saramago mais leve, consciente da importância da sua literatura, porém ciente, também, de que talvez já tenha dito o que havia para se dizer, e que a esta altura de sua vida e carreira importa mesmo o prazer de escrever uma boa história.Por isso, talvez, a impressão de um Saramago sorridente que nos acomete quando fechamos o livro.*
Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor de "Sob a luz do farol" (2005) e "De espantalhos e pedras também se faz um poema" (2008).**
Texto originalmente publicado no site www.bc.furb.br/saraueletronico

terça-feira, abril 21, 2009

O Castelo Branco

Primeiro romance de Orhan Pamuk, 'O castelo branco' conta a história de um acadêmico veneziano aprisionado pelos turcos no século XVII. Graças aos seus conhecimentos, o italiano escapa do chicote e dos remos da esquadra, mas acaba vendido em uma feira de escravos e, depois de ser comprado por um paxá, é dado de presente a Hoja, um estudioso turco. Quando amo e escravo se encontram, um choque - os dois homens são tão parecidos entre si que chegam a se confundir. Sem nunca abandonar a esperança de voltar à terra natal, o veneziano ensina a Hoja tudo o que aprendera em seu país, e os dois ainda investigam alguns fenômenos naturais. Até que o mestre fica obcecado por uma pergunta; o que faz de nós o que somos? Sem ter uma resposta exata, o escravo procura as pistas, e os dois concluem que a chave dessa questão de identidade está nos sonhos e nos pecados de ambos. Eles então se dedicam a uma longa expiação, na qual narram em pormenores todos os acontecimentos de suas vidas. A intrincada tapeçaria da trajetória dos dois, de obscuros curiosos de província a conselheiros diretos do sultão da Turquia, encobre um estudo delicado e complexo das relações entre a Europa e a Turquia. Mas a principal investigação de Pamuk nesta narrativa fluida e criativa é sobre a questão ancestral que perturba o Hoja e ecoa em todos nós - o que, afinal, forma a nossa identidade e define quem somos?

Trecho:

Ele concordou que é preciso buscar o estranho e o inesperado,como na minha história. Sim, talvez isso fosse a única coisa que pudéssemos fazer para combater o tédio cansativo deste mundo, pois ele sabia disso desde os monótonos dias da infância e da escola, e jamais considerara a possibilidade de fechar-se entre quatro paredes; por isso mesmo, passara a vida inteira viajando, procurando histórias em caminhos que pareciam não ter fim. Mas há que buscar o bizarro e o extraordinário no mundo externo e não dentro de nós mesmos!Investigar para dentro, pensar tão longamente,tão minuciosamente sobre nós mesmos, apenas nos faria infelizes. Fora isso o que acontecera com as personagens da minha história. Por essa razão os heróis jamais toleraram ser eles mesmos, por essa razão eles sempre quiseram ser outras pessoas. Suponhamos que o que relatei na minha história tivesse de fato acontecido. Poderia eu acreditar que aqueles dois homens que tomaram o lugar um do outro pudessem ser felizes nas suas novas vidas? Não respondi. Depois, por este ou aquele motivo, ele me recordou um pormenor da história: não nos podemos deixar seduzire induzir em erro pelas esperanças de um escravo espanhol de um braço só! Se o fizermos, a pouco e pouco, escrevendo esse tipo de contos, procurando o que há de estranho em nós mesmos, nós também nos tornaríamos outras pessoas e, Deus não o permita, o mesmo poderia acontecer com os leitores! Ele não queria nem pensar no que seria do mundo se os homens falassem sempre deles mesmos, das suas peculiaridades, se seus livros e histórias tivessem sempre isso como tema.



Entrevista The Paris Review

INTERVIEWER

Let’s go back to before The Black Book. What inspired you to write The White Castle? It’s the first book where you employ a theme that recurs throughout the rest of your novels—impersonation. Why do you think this idea of becoming somebody else crops up so often in your fiction?

PAMUK

It’s a very personal thing. I have a very competitive brother who is only eighteen months older than me. In a way, he was my father—my Freudian father, so to speak. It was he who became my alter ego, the representation of authority. On the other hand, we also had a competitive and brotherly comradeship. A very complicated relationship. I wrote extensively about this in Istanbul. I was a typical Turkish boy, good at soccer and enthusiastic about all sorts of games and competitions. He was very successful in school, better than me. I felt jealousy towards him, and he was jealous of me too. He was the reasonable and responsible person, the one our superiors addressed. While I was paying attention to games, he paid attention to rules. We were competing all the time. And I fancied being him, that kind of thing. It set a model. Envy, jealousy—these are heartfelt themes for me. I always worry about how much my brother’s strength or his success might have influenced me. This is an essential part of my spirit. I am aware of that, so I put some distance between me and those feelings. I know they are bad, so I have a civilized person’s determination to fight them. I’m not saying I’m a victim of jealousy. But this is the galaxy of nerve points that I try to deal with all the time. And of course, in the end, it becomes the subject matter of all my stories. In The White Castle, for instance, the almost sadomasochistic relationship between the two main characters is based on my relationship with my brother. On the other hand, this theme of impersonation is reflected in the fragility Turkey feels when faced with Western culture. After writing The White Castle, I realized that this jealousy—the anxiety about being influenced by someone else—resembles Turkey’s position when it looks west. You know, aspiring to become Westernized and then being accused of not being authentic enough. Trying to grab the spirit of Europe and then feeling guilty about the imitative drive. The ups and downs of this mood are reminiscent of the relationship between competitive brothers.


O Castelo Branco, Orhan Pamuk, p. 156

sexta-feira, novembro 30, 2007

Neve de Orhan Pamuk

Acabei de ler Neve de Pamuk- um ano após o Nobel de 2006, meses após sua compra. Neve é mais um dos livros orientais que baixaram em nosso mercado literário.


A historia trata de Ka, poeta turco exilado em Frankfurt, que volta a sua terra natal de infância, um lugar chamado Kars ( kar em turco quer dizer neve). Impedido de voltar a Istambul, por causa de uma nevasca, Ka se vê envolvido em sentimentos que não tinha mais: poesia- volta a escrever, romance- se envolve com Ipek e politica- se envolve numa pequena e prosaica revolução militar para impedir a ascensao de um governo religioso na eleição local.

A historia mostra as contradições de uma Turquia que pretende e não pretende ser Europa, do amor e da paixão, da poesia como arte ou não presente hoje, e da tensão interna entre secularismo e islamismo mesmo nas sociedades ocidentais- um exemplo é que todos os mais ferrenhos revolucionários puristas islâmicos do livro fumam e bebem- uma ofensa ao padrão puritano cristão.

Ka, um poeta ateu, que escreve poesia graças a epifanias com a neve, se vê na tensão de acreditar em Deus ou não, mas qual Deus? O Europeu, o Turco ou do Islã?

John Upidke em um artigo para a New Yorker:

Pamuk’s conscience-ridden and carefully wrought novel, tonic in its scope, candor, and humor, does not incite us, even in our imaginations, to overthrow existing conditions in Turkey. When the Kars coup occurs, the enthusiasm among unemployed youths leads to the dry authorial comment “They seemed to think that last night’s events marked the beginning of a new age, in which immorality and unemployment would no longer be tolerated; it was as if they thought the army had stepped in expressly to find them jobs.” Such realistic fatalism, and the poet’s duty “to hear the hidden music that is the source of all art” and to believe that “life had a secret geometry,” drains “Snow” ’s ideological contests of blood.


Outra grande resenha que encontrei sobre Neve é do NY Review of Books, chamada de TheSchizophrenic Sufi de Chirstian Caryl

Human beliefs are not just rich with multiplicity; in Pamuk's world they are also in constant flux. Some of the novel's Islamists, like Ipek's former husband, began as Marxists; the same applies to a few of the right-wingers as well. By the end of the novel several of the Islamic radicals have abandoned political activity altogether, joining earlier generations' utopians among the ranks of the resigned. Moreover, ideological labels that initially seem so clear turn fuzzy under scrutiny. The more that Pamuk's characters obsess over the binary opposition of East and West, for example, the more they undermine the very notion. The Westernizers are by no means all "atheists." Blue has been weaned not only on the Koran and the twentieth-century radical Islamist theorist Sayid Qutb, but also on somewhat dated Western traditions of third-world liberation ideology and Hollywood movies. During the "secret meeting" he turns out to be the only one who's been to Europe.

For his part, Ka says, "I wanted to be a Westerner and a believer." It never works, of course, for Ka can't really commit himself to either. Nor does love offer much of a panacea; it is yet another brand of belief, predicated on trust between two people who can never know everything about each other. When Sunay's henchmen try to enlist Ka as an ally in their hunt for Blue, they reveal, along the way, that Ipek once had an affair with the alleged terrorist mastermind. Ka will betray Blue in turn—and lose Ipek forever as a result. Ejected from Kars by the coup plotters, he returns to Germany and lives there in solitude for another few years until he is killed by an assassin—apparently in retaliation for informing on the Islamist leader. We will never know the precise circumstances of the matter, of course. But one thing is eminently clear. Here, too, Ka has failed to become a believer.

But perhaps Ka can find posthumous redemption, of a sort, in art—through the mystical unity, without religion, he has found in his own work called Snow. Toward the end of the novel Pamuk arrives in Kars on a quest of his own: to recover at least something of his dead friend's work, and to write a book memorializing it. Pamuk has already searched Ka's belongings in Frankfurt and found no trace of the little green notebook of poems, which appears to have been lost forever—probably stolen by the killer. In Kars Pamuk hopes to reconstruct the genesis of the poems, and possibly even find a recording of Ka's reading of one of the poems in the local TV archives. He ends up retracing Ka's steps, visiting the scenes of the events we know so well from what has gone before.

Along the way he encounters many of the same talismanic details that once affected Ka: the black dog, a poster warning that suicide is an offense against Islam, little wheels of "famous Kars cheese." Pamuk writes, "That morning, as I walked the streets of Kars, talking to the same people Ka had talked to, sitting in the same teahouses, there had been many moments when I almost felt I was Ka." And just like Ka, he comes together with Ipek for the first time over walnut pastries in the New Life Café—where Pamuk is similarly "undone by her beauty" and falls in love, to the same futile end. He leaves by train, just as his predecessor has done—but not before the locals have had a chance to warn us readers not to trust the author's portrayal of them.

As we find ourselves retracing Ka's steps, in more or less reverse order, we realize that we are in a palindrome, a crystalline mirroring. The symmetry may be only half-hidden, but it is all the more singular for that. We may not know what axis of the snowflake we now find ourselves on. But the sense remains that somehow the mystical unity sought by Ka and traced and evoked by Pamuk has survived the murder of the poet, and the loss of his poems; while, along the way, Pamuk the novelist illuminates his country's quandaries of identity, and the crisis of confidence between Islam and the West, with an imaginative depth we had not known before.