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segunda-feira, junho 27, 2011

Dietrich Bonhoeffer: Confissão e santa ceia

O PRÓXIMO, MEIO DA GRAÇA

Apesar das reuniões comunitárias, os cristãos têm ficado sozinhos, sem serem verdadeiramente parte de uma comunidade. A razão é porque mesmo eles estando prontos para serem partes de uma comunidade piedosa, a comunidade não permite nenhum pecador, assim são obrigados a esconder seu pecado de si mesmos e da comunidade. Muitos crentes ficam horrorizados quando descobrem em sua comunidade um pecador real. Por isto, optam por estarem a sós com o pecado, ao custo de vidas em mentiras e hipocrisia.

No entanto, a graça do evangelho -  embora, seja difícil de ser entendido pelo piedoso, que se coloca antes da verdade, ela lhe diz que você é um pecador, incurável, contudo, você pode chegar a Deus que te ama. Que quer você como é, sem necessidade que faça nada ou dê nada, quer a você pessoalmente, somente a você - Pv. 23,26-. 


Deus veio até você para te salvar, afirmando em você a verdade dele, que te liberta. Ante a Ele, não dá para ocultar-se, não serve para nada a máscara que usa diante dos homens. Ele quer nos ver como somos, para nos salvar. Já não temos necessidade de mentir a si mesmo e aos outros como se estivessemos sem pecado.  E dê graças a Deus que ele permitiu que você seja um pecador, porque Deus, ainda que se aborreça do pecado, ele ama o pecador.

Jesus Cristo se fez nosso irmão na carne para que nos uníssemos a Ele pela fé. Nele, chegou o amor divino pelo pecador. Diante dele, tem podido se manifestar os pecadores e assim receber ajuda. Ele quer derrubar todas as aparências, o evangelho coloca a miséria do pecador e a misericórdia de Deus.  Desta verdade, deveria viver a sua igreja, o Senhor concedeu poder de confessar e perdoar os pecados em seu nome. (Jo 20,23)

Por esta promessa, Cristo nos tem dado a comunidade e com elas, os irmãos, como meios da graça. O irmão ocupa, então, o lugar de Cristo. Já não necessito fingir diante dele, posso ser um pecador que efetivamente sou porque aqui reinam a verdade e a misericórdia de Jesus Cristo. Cristo se fez nosso irmão para nos socorrer, e desde então, através dele, nosso irmão se converte para nós em Cristo, com toda a autoridade do seu encargo, o irmão está diante de nós como um sinal da verdade e da graça de Deus. Nos é dado como ajuda, escuta nossa confissão em lugar de Cristo e guarda, como Deus esmo, o segredo de nossa confissão.

O convite à confissão com o irmão e receber perdão fraternal no seio da comunidade cristã é um convite para aceitarmos a graça de Deus na igreja.


A CONFISSÃO

A confissão faz possível o acesso a comunidade, o pecado quer estar sozinho com o homem, o separa da comunidade. Quanto mais sozinho, tanto mais destruidor é o poder do pecado, tanto mais sufocantes são suas redes, tanto mais desesperadora é a solidão. O pecado quer passar desapercebido, foge da luz. Gosta das penumbras das coisas secretas, onde envenena todo o ser. Na confissão, a luz do evangelho irrompe sobre as trevas e o fechamento do coração - Sl 107, 16-.

Se pode dizer que na confissão, o pecado perde definitivamente todo resto de auto-justificação. O pecador  se liberta, abandona todo o que há nele de mal. Permanecendo oculto o pecado separa da comunidade, confessado, o ajuda a encontrar a verdadeira comunhão fraterna em Jesus.

O que Bonhoeffer vem tratando até aqui é a respeito da confissão individual, o irmão serve não por si mesmo, mas por meio de Cristo, como válido para comunidade, em virtude da sua vocação. Assim, o crente se integra na comunidade pela confissão fraterna, não conhecendo mais a maldição do isolamento.

O ACESSO À CRUZ.

O autor continua dizendo que a confissão faz possível o acesso para a cruz, a raiz de todo pecado é o orgulho, a soberba. Querer viver apenas para si, que inflama todo o ser, espírito e carne.  A raiz do mal é querer ser como Deus, a confissão diante do irmão é uma terrível humilhação, dói e abate nosso orgulho. 


A cruz de Cristo, segundo Bonhoeffer, aniquila todo o orgulho, embora tenhamos medo de morrer publicamente como no Gólgota, na vergonha da confissão, a confissão nos introduz na verdadeira comunhão da cruz de Jesus e nos faz aceitar a nossa própria cruz, quebrantando a nossa carne  e nosso espírito, assim podemos reconhecer a cruz como signo da nossa salvação e paz. 


 A RUPTURA COM O PECADO.


Vimos que a confissão faz possível o acesso a nova vida, uma vez confessado e perdoado o pecado, a ruptura com o passado está consumada. Esta ruptura significa a conversão - 2Co 5,17.  Cristo tem realizado em nós, o novo nascimento. 


A confissão implica imitação.  O acontecimento do nosso batismo volta a produzir-se na confissão, passamos da escravidão das trevas ao reino de Cristo, esta é a boa nova, a mensagem feliz (Sl 30, 5).


O PERDÃO DE DEUS


A confissão se faz possível o acesso a certeza, unicamente a palavra de de Deus que julga e perdoa na cruz, podem faze-lo. Deus atua através do nosso irmão, há um rompimento do auto-engano e a certeza do perdão, pois aquele que confessa sabe que não está sozinho consigo mesmo, reconhece na presença do outro a presença mesma de Deus. 


A graça de poder confessar nossos pecados ao irmão evita os terrores do juízo final, pelo irmão, posso estar seguro já neste mundo da realidade de Deus, de seu juízo e seu perdão e assim como a presença garante a autenticidade da confissão dos meus pecado. Deus nos concedeu a graça de poder confessarmos uns aos outros para que estivessemos seguros de seu perdão.





CONFISSÃO DE PECADOS CONCRETOS


Bonhoeffer fala da necessidade de uma concretude na confissão, uma confissão generalizada não serve para nada mais que tornar os homens justificados por si mesmos. Ele sugere que uma confrontação com os dez mandamentos será a melhor preparação para a confissão, sem isto, há o perigo da hipocrisia. 


A confissão é um meio de que Deus se vale par oferecer sua ajuda ao pecador, Lutero dizia que é impossível imaginar um cristão sem a confissão fraterna, no Catecismo Maior, ele diz : "por isto, quando exorto os crentes a que se confessem seus pecados uns com os outros, os exorto simplesmente a serem cristãos". 


COM QUEM CONFESSAR-SE


Bonhoeffer fala de aspectos práticos, segundo a promessa de Jesus, todo cristão pode converter-se em um confessor de seus irmãos. Para o crente que vive debaixo da cruz e que tem reconhecido nela o abismo de impiedade do coração humano e do próprio coração, nenhum pecado pode ser-lhe já estranho, quem se mortificou com o próprio pecado na cruz, não pode se espantar ante os pecados dos outros por mais graves que sejam.


Através da cruz, conhecemos o coração humano, a imensidade da sua perdição, seu veneno e extravio, também conhecemos o preço da graça e da misericórdia que nos devolveu a Deus, e também sabemos que apenas o crente que permanece debaixo da cruz pode receber nossa confissão.



Bonhoeffer faz uma comparação com a psicologia, ante a eles, sou um enfermo, mas diante dos irmãos, me está permitido ser um pecador.

O contato diário e profundo com a cruz despoja o cristão tanto do espírito humano de juízo como da indulgência, dando-lhe em troca uma atitude de severidade e de amor conforme o Espírito de Deus. Diariamente o crente passa pela experiência da morte e ressurreição do pecado, justificado pela graça. Somos empurrados a amar nossos irmãos com o amor e a misericórdia de Deus, que através da morte, conduz o pecador a uma nova vida.


Quem vive debaixo dessa cruz é que pode ouvir nossa confissão, ela surge por si mesma da pregação da cruz.


O PERDÃO DOS PECADOS


A comunidade cristã  que pratica a confissão deve guardar-se dos perigos, o primeiro é designar um confessor para toda a comunidade, o segundo é que se guarde de fazer da confissão uma obra piedosa no sentido religioso barthiano, isso seria uma maneira impúdica, estéril e abominável de entregar seu coração, é a confissão considerada como obra meritória, 




A COMUNIDADE EUCARÍSTICA



A confissão embora em si mesmo seja uma ação completa, tem como objetivo especial preparar a igreja para participar da santa ceia, reconciliados com Deus e com os homens, os crentes  estão prontos para receber o corpo e sangue de Jesus.

Ele exige que nos cheguemos ao altar sem estar reconciliado com os irmãos, para recebermos juntos a graça de Deus por meio do sacramento é necessário que os crentes tenham se destituído de todo fermento de cólera, maledicência e hostilidade que haja entre eles.

O convite para a confissão fraterna é dirigida para todos que o pecado tem submergido e que buscam a certeza do perdão, o perdão do perdão dele agora se manifesta na comunidade cristã pela presença decisiva de seu Senhor.

Bonhoeffer defende um tempo de preparação para a santa ceia, um período de  exortação, consolação e oração e assim o dia da santa ceia será uma festa para a comunidade cristã, reconciliados plenamente com Deus e com os irmãos, os crentes recebem o presente do corpo e do sangue de Jesus, o perdão, a vida nova e a bem-aventurança eterna. A comunidade eucarística é o vínculo que une os fiéis que permanece na eternidade, a vida comunitária dos cristãos que vivem debaixo da autoridade das Escrituras encontra no sacramento sua plenitude.

quinta-feira, junho 23, 2011

Dietrich Bonhoeffer: O Serviço

AS TAREFAS DA COMUNIDADE

Começando por Lc. 9,46- Bonhoeffer começa a discutir o serviço cristão, nem bem se reunem os homens, eles já começam a observar-se, a julgar-se, classificar-se. Isto pode destruir a comunidade, por isto, é vital para toda comunidade cristã que se desmascare o inimigo que a ameaça, e acabe com ele. Desde do primeiro encontro, o homem busca uma posição vantajosa frente ao outro, se necessita não ser homem para não buscar instintivamente uma posição segura frente aos outros, por ela se luta com todas as forças e a ela não se renunciará a nenhum preço. É a luta do homem natural por auto-justificação, a que vem por si mesmo e o ato de julgar os demais são inseparáveis, como são a justificação pela graça e o serviço ao próximo que dela se desprende.

NÃO JULGAR 

Uma regra essencial da vida cristã comunitária é que não se deixa permitir pronunciar uma palavra secreta sobre o outro( Sl. 50, 20-21 ; Ef. 4,29). Em uma comunidade onde se observa desde do princípio a disciplina da lingua, cada um em particular poderá fazer um descobrimento incomparável, não poderá deixar de observar continuamente a seu próximo, de julga-lo, de condena-lo, de colocar em seu lugar e pressiona-lo, contudo também, poderá deixa-lo completamente livre na situação em que Deus tem posto a respeito dele, assim verá o propósito do próximo, a riqueza e o esplendor do dom do Deus criador. 

Deus não criou meu proximo como eu o houvera criado, não me deu como um irmão a quem devo dominar, senão alguém através de quem eu possa encontrar o Senhor que o criou. Em sua liberdade de criatura de Deus, o próximo se converte para mim em fonte de alegria, ainda que não era mais que motivo de fadiga e pesadelo, Deus não quer que eu forme o próximo segundo a imagem que me pareça conveniente, ou seja, segundo a minha própria, mas ele o criou a sua imagem, sem mim, e nunca posso saber de antemão como me aparecerá a imagem de Deus no próximo, adotará sem cessar formas completamente novas, determinadas unicamente pela liberdade criadora de Deus, que o criou a imagem de seu Filho, o Crucificado, e também esta imagem me parecia muito estranha e pouco divina, antes de eu chegar a compreende-la. 

A FUNÇÃO DO CRENTE

As diferenças entre os crentes serão motivo de alegria e serviço mútuo, cada membro da comnidade receberá o outro em seu lugar determinado, não querendo aquele mais exitoso, mas aquele para o qual pode servir melhor aos demais, na comunidade cristã tudo depende que cada um chegue a ser aproveitado, os fortes precisam dos fracos e os fracos precisam dos fortes.

Não é a auto-justição, um espírito de violência, que deve prevalecer na comunidade, mas a justificação pela graça, a misericórdia de Deus, serviço mútuo. O que nos atrai não é o papel de juiz, mas de nos encontrarmos entre os pobres e humildes - Rm 12,16, 12,3 e

Somente aquele que vive do perdão de seus pecados em Jesus, adquire a verdadeira humildade, pois sabe que este perdão marcou o fim de sua própria sabedoria, recorda que a própria sabedoria perdeu os primeiros homens que quiseram conhecer o bem e o mal, e que Caim, o primeiro homem nascido sobre a terra depois da queda, foi um homicida. Este é o fruto da sabedoria humana. Devido ao fato que o cristão já não pode ser crer sábio, terá em pouca estima seus planos e projetos pessoais, e compreenderá que é bom que sua vontade seja dominada em confronto com o próximo, estará mais disposto a considerar mais importante e urgente a vontade do próximo que sua própria.

NÃO SER ALTIVOS.

Também a honra do próximo é mais importante que minha própria glória. (Jo 5,44). O apetite da própria glória impede a fé, o que busca isto esquece-se de Deus e do próximo( Ecl. 7,8) O que vive da justificação pela graça está disposto a aceitar também ofensas e vexações sem protesto como provenientes da mão severa e misericordiosa de Deus.
O pecado da sucetibilidade demonstra continuamente quanta ambição ou que é o memso, quanta incredulidade há em nossas igrejas de forma latente.

Sobre a passagem de 1Tm 1,15, Bonhoeffer diz que não posso conhecer verdadeiramente meu pecado se não desço a esta profundidade. Se meu pecado, ao compara-lo com o dos outros, me segue parecendo de algum modo menos grave e menos condenável, é que meu desconhecimento dele é absoluto. Meu pecado é necessariamente o maior, o mais grave e mais condenável porque para o pecado dos demais o amor fraterno me faz encontrar desculpas, contudo para o meu não há desculpa.

ESCUTAR OS OUTROS.

O primeiro serviço que um deve ao outro dentro da comunidade é escutar. Assim, o começo de nosso amor por Deus consiste em escutar sua palavra, assim também o começo do amor ao próximo consiste em escutá-lo.  O amor de Deus não tem sido manifesto não apenas na sua palavra, mas também por que Ele nos escuta, portanto, faça com ele aquilo que Deus tem feito conosco.

Certos crentes e, em especial, os pregadores crêem  que cada vez que se encontram com outros homens, seu único serviço consiste em oferecer-lhes algo, se esquecem de que o saber escutar pode ser mais útil que falar. Muita gente busca alguém que os escute e não o encontra entre os cristãos, porque este se põe a falar mesmo quando deveriam escutar.

Aquele que não sabe escutar a seus próprios irmãos, de pronto, será incapaz de escutar a Deus porque também diante de Deus não fará outra coisa que falar. Introduz-se, assim, um germe de morte em sua vida espiritual e termina que aquilo que ele diz é nada mais palavrório religioso. Fica sempre a margem dos problemas e não se dá conta deles, pensa que seu tempo é muito valioso para perde-lo escutando os demais, jamais encontrará tempo para Deus e para o próximo. Somente encontra tempo para si mesmo, para sua verborragia e seus projetos pessoais

Temos falhado naquilo que é mais importante escutar a confissão de nossos irmãos, o mundo secular tem consciência de que frequentemente só é possível ajudar a um ser humano se o escutamos com seriedade, sobre este convencimento tem edificado sua própria cura de almas secular, que goza de afluência sobre os homens, entre os quais, cristãos.

Devemos escutar com os ouvidos de Deus para poder falar com as palavras de Deus.


AJUDAR-SE

O segundo serviço que devemos prestar-nos mutuamente na comunidade cristã é o de ajudarmos diariamente, pensamos em primeiro lugar na ajuda material, devemos estar dispostos a aceitar que Deus venha interromper nossa jornada pra ajudar os outros. Absortos em nossas próprias preocupações, podemos passar distante como fez o sacerdote na parábola do bom samaritano. Deste modo, nos distanciamos do sinal que Deus erigiu ao longo de nosso caminho. Aqui, Bonhoeffer critica a classe sacerdotal, dizendo que são precisamente os cristãos e teólogos que não estão dispostos a deixar-se interromper por nada, não querem saber nada daquele que cruza em seu caminho.

Não devemos negar nossa ajuda aqueles que necessitam, nem administrar nosso tempo por nossa conta, senão deixar que seja Deus quem nos leve, isto faz parte da escola da humildade. Na vida evangelica de comunidade, há o livre serviço para os irmãos.

ACEITAR O PRÓXIMO

O terceiro serviço é o de suportar os outros (Gl. 6,2). A lei de Cristo é uma lei de carregar, suportar. Para o cristão, o próximo é uma carga, somente deste modo ele se converte um irmão e não um objeto que se possua.

A carga dos homens foi tão pesada para Deus, que ele caminhou até a cruz debaixo do seu peso, Deus nos levou e suportou no corpo de Jesus Cristo (Is. 53,45). Por esta razão, a vida inteira do cristão é também uma vida debaixo da cruz, assim se realiza a comunidade do corpo de Cristo, aquela em que nós aceitamos e levamos as cargas uns dos outros, do contrário, não somos uma comunidade cristã e renegamos a lei de Cristo.

Em primeiro lugar, a carga do cristão é a liberdade do próximo, esta liberdade vai contra a tendência de dominar sobre os outros. Poderíamos desfazermos desta carga e atentar contra a liberdade do próximo intentando formar-lhe a nossa imagem, contudo, devemos deixar que seja Deus quem crie sua imagem nele, respeitaremos assim a liberdade de suas criaturas enquanto levamos a carga que esta liberdade coloca sobre a gente. Entendemos por liberdade do próximo, todo o que constitui sua natureza, suas qualidades, seus talentos, como também suas debilidades e fraquezas que tanto põe a prova nossa paciência.

Carregar a carga do próximo significa suportar a realidade do outro como criatura, aceita-la e alegrarmos de faze-lo. Isto será especialmente difícil numa comunidade que agrupe forte e debéis na fé, que um não se julgue forte e que outro não despreze o fraco, o débil se cuide do orgulho e o forte da indiferença. Que ninguém busque seu próprio direito(Cl 3, 13 e Ef 4,2).

O PECADO DO PRÓXIMO

O pecado do próximo também se converte em carga para o cristão, é mais difícil de suportar que sua liberdade, porque destrói a comunhão que temos com Deus e com os irmãos. Há de manifestar o poder da graça para saber suportar isto, não menosprezar o pecador, não o dar por perdido. ( Gl 6,1)

Cristo nos aceitou e nos suportou como pecadores, a igreja está fundada sobre o perdão dos pecados, não necessitamos julgar os pecados dos outros, senão pedir graça para suporta-los. Todo pecado pessoal é uma carga que pesa sobre toda a comunidade, a igreja deve alegrar-se por assim descobre que é dignar de carregar e perdoar os pecados. O ministério do perdão de pecados é um serviço diário, se exerce silenciosamente nos rogos que cada um faz pelos outros, pode estar seguro que seus irmãos também rogam por você. Aquele que suporta os outros, sabe que os outros também o suportam.

Quando estas três tarefas do serviço cristão - escutar, ajudar e suportar- são cumpridas fielmente se faz possível cumprir igualmente a última e mais importante, o serviço da palavra de Deus.



A PALAVRA DE DEUS.

Bonhoeffer se refere a palavra livre, não vinculada ao ofício,lugar ou tempo determinados, se trata daquela situação única no mundo, em que um homem com palavras humanas testifica ao seu semelhante a realidade de Deus, seu conselho e seus caminhos, sua bondade e sua severidade.

A comunidade cristã exige de seus membros que se dêem testemunho pessoal a respeito da palavra e da vontade divina, é totalmente impensável que os irmãos se abstenham de falar entre ele precisamente daquilo que lhes é mais vital. Seria anticristão negar deliberadamente a um irmão este serviço fundamental.

Se a palavra não quer aflorar em nossos lábios, deveríamos nos perguntar se não consideramos  nosso irmão unicamente  em sua dignidade humana que não queremos coagir, esquecmos assim do mais importante, que nosso irmão é um homem como a gente, um pecador necessitado da palavra de Deus e que tem  as suas tribulações parecidas com as nossas, precisam de ajuda, conselho e perdão

A base é saber que meu irmão é um pecador abandonado e perdido em toda sua dignidade humana se não recebe ajuda, é faze-lo saber que ainda que pecador, ele está destinado a tomar parte da misericórdia e glória de Deus, ser filho dele. O conhecimento da verdadeira situação do próximo dá a nossa palavra a liberdade e franqueza necessárias, nosso propósito se orienta a ajuda que precisamos uns dos outros, nós mostramos  o caminho que Cristo nos manda seguir. Nós nos colocamos mutuamente em guarda contra a desobediência e suas consequências mortais.

SERVIR A DEUS

Não exite verdadeira  autoridade espiritual sem o serviço de escutar, ajudar e suportar os outros e anunciar a palavra de Deus. Na comunidade não existe lugar para o culto de personalidades, é totalmente profano e envenena a comunidade. Isto contradiz o novo testamento -1Tm 3,15-, toda autoridade de uma pessoa reside no serviço, nada há de extraordinário em qualquer homem. Buscar outro gênero de autoridade na igreja é querer reestabelescer de forma uma forma de relação direta entre os crente, um laço puramente humano.

A verdadeira autoridade sabe que não pode subsistir mais que estando ao serviço do único que a possui- Mt 23,8-. A comunidade não necessita de pessoas brilhantes senão de fiéis servidores de Cristo e de seus irmãos.
Autoridade pastoral somente poderá vir daquele servidor de Jesus, que não busca sua própria autoridade, aquele que submetido a autoridade da palavra de Deus é um irmão entre os irmãos.

quinta-feira, junho 16, 2011

Dietrich Bonhoeffer: O dia em solidão

No terceiro capítulo do Vida em Comunhão, Bonhoeffer vai comentar a respeito da solidão do cristão. O primeiro tema a ser estudado será

SABER ESTAR SOZINHO.

O autor começa a descrever a experiência de muitos que não conseguindo lidar consigo mesmos sozinhos buscam a comunidade, e na maioria das vezes se sentem decepcionados com a comunidade, e a reprovam quando deveriam reprovarem a si mesmos. 

A comunidade cristã não é um sanatório espiritual, refugiar-se nela escondendo de si mesmo é converte-la num lugar de distração, por baixo de uma aparente alta espiritualidade.  Se busca uma embriaguez para esquecer por um tempo a própria solidão e que acaba levando a uma solidão cada vez mais mortal.

Aquele que não sabe estar sozinho deve ter cuidado com a vida em comunidade porque não fará dano apenas a ela, se também ela lhe fará dano. Sozinho estava diante de Deus quando ele te chamou e sozinho respondeste a chamada, sozinho teve carregar a tua cruz, lutar e orar, e sozinho morrerás e darás conta a Deus por tua vida. Recusar estar sozinho, rechaça a chamada que Cristo fez pessoalmente, não podendo ter parte na comunidade dos chamados.

"Todos estamos chamados para a morte e ninguém morrerá por outro, senão cada um deve medir-se pessoalmente com a morte --eu não poderei estar contigo, nem tu comigo" Lutero


SABER VIVER EM COMUNIDADE

Também é verdade que a chamada não é apenas para uma pessoa, mas uma comunidade. No dia do juízo, não estarás sozinho, mas com toda a comunidade dos chamados. A conclusão de Bonhoeffer é um paradoxo- somente dentro da comunidade podemos estar sozinhos, e somente aquele que sabe estar sozinho pode viver em comunidade-. Somente na comunidade aprendemos a verdadeira solidão, e unicamente na solidão aprendemos o sentido da comunidade, não se trata de experiencias sucessivas, começam ao mesmo instante com o chamado de Jesus.

Querer viver em comunidade sem estar sozinho é cair no vazio de palavras e sentimentos e querer estar sozinho sem a presença de comunidade é cair num abismo de vaidade, narcisismo e desespero. O sinal distintivo da solidão é o silencio, como a palavra é o da comunidade, elas guardam a mesma relação, uma palavra oportuna nasce do silencio e o silencio nasce da palavra. (Ec 3, 7).

ESCUTAR A DEUS

Existe uma atitude de indiferença aos momentos de silêncio para com a palavra de Deus que quer se revelar. Isto acontece porque interpretamos o silêncio como uma atitude falsa ou como um intento mistico para elevar-se além da palavra. Não o vê mais como uma exigência de reconhecimento.

Calamos depois de ouvir a palavra de Deus, porque ela ressoa, vive e quer permanecer em nós. Calamos ao amanhecer e ao anoitecer porque a Deus pertence a primeira e ultima palavra do dia. A necessidade de calar-se numa era de tantos ruídos é algo que somente pode ser um ato espiritual. Nos ensina a medir as nossas palavras. O silencio do cristão é um silencio expectante, humilde e que aceita ser interrompido. Existe no silêncio, um poder de clarificação, purificação e compreensão do essencial.

Existem três coisas para as quais os cristãos necessitam de um tempo separado ao longo da jornada: a reflexão bíblica, a oração e a intercessão. As três constituem o que se conhece como meditação diária. Esta expressão  não deve nos assustar pois é um termo antigo tomado da linguagem da igreja e da reforma.

A MEDITAÇÃO DIÁRIA.


O tempo da meditação diária deve estar dedicado exclusivamente para a reflexão biblica pessoal, oração pessoal e nossa intercessão pessoal. Este tempo de meditação pessoal não é um salto no vazio sem fundo da solidão, senão uma ocasião de encontrarmos sozinhos com a palavra de Deus.

Enquanto que no culto comunitário lemos de forma continuada um texto lardo, aqui nos contentamos com um texto breve, selecionado eque pode ser o mesmo ao longo da semana. Se na leitura em comum nos leva para conhecer a sagrada escritura em toda sua totalidade e amplitude, aqui descemos a profundidade insondável de cada frase. (Ef. 3.18). Nos colocamos diante de uma frase ou palavra que lemos até que nos chega ao coração.

Não perguntamos ao texto o que ele pode dizer para outras pessoas ou que uso podemos fazer dele numa pregação, senão que nos diz pessoalmente a nós. É certo que antes devemos compreender o texto, mas não se trata de um estudo bíblico ou de uma exegese, é conhecer o que a palavra de Deus quer nos dizer. Este intento não é uma esperança vazia, se funda numa promessa clara de Deus. Devemos começar nossa meditação diária pedindo a Deus que nos envie seu Santo Espírito para que nos revele a Escritura e nos ilumine.

Não é necessário que na meditação nos esforcemos em pensar e orar com palavras, as vezes, são preferíveis a reflexão e oração silenciosa, frutos de uma atitude receptiva. Não busque pensamentos originais, não fique distraído com vaidades. Basta que a palavra de Deus penetre e faça morada em nós.

Terminando sua explicação, Bonhoeffer diz que não é necessário que nossa meditação seja para nós, uma ocasião de experiências inesperadas e extraordinárias. Certamente, elas podem acontecer, mas sua ausência não significa que a meditação tem sido inútil. Frequentemente, experimentaremos uma grande sequidão interior, falta de alegria, também incapacidade para meditar. Nosso antigo orgulho e nossa pretensão sacrilegia de colocar Deus a nosso serviço estão sempre presentes, nos persuadem de que temos direito a toda uma série de experiências sempre benéficas e entusiastas e que nossa pobreza espiritual é indigna de nós. Com este piedoso pretexto se infiltram em nós, impedindo-nos de avançar.

Somente a palavra deve reter nossa atenção, é possível que Deus mesmo nos envie essas horas de vazio e aridez espiritual para que aprendamos a espera-lo a partir de sua palavra. Buscar a Deus com alegria é a regra fundamental da meditação pessoal, e sua promessa é esta: é buscando unicamente a Deus como tu encontrarás a alegria.


A ORAÇÃO PESSOAL.

A reflexão bíblica nos conduz a oração, para o autor, devemos aprender a nos guiarmos pela palavra bíblica e orar com base no texto. Evitando assim cair no vazio de nossos pensamentos. Orar não significa outra coisa
que preparar-me para receber a palavra como uma mensagem pessoal em minhas próprias tarefas, em minhas decisões, pecados e tentações.

Uma das  tribulações de nossa meditação é a tendência dos nossos pensamentos a se dispersarem, e seguir sua tendência natural para outras pessoas ou acontecimentos da vida, por mais, que isto nos entristeça, não devemos desalentarmos nem inquietarmos, e muito menos chegar a conclusão de que a meditação não é para nós. As vezes, no lugar de buscar espantar desesperadamente estes pensamentos, pode dar bom resultado acolher em nossa oração estes pensamentos, estas pessoas e fatos que nos vem sem cessar, voltando a partir daí para o ponto de partida de nossa meditação.


A INTERCESSÃO.

Cada cristão tem seu próprio círculo de conhecidos, que  está presente em suas orações. Uma comunidade cristã vive graças aos rogos que fazem seus membros uns pelos outros, quando peço por um irmão não posso odia-lo ou condena-lo, por maiores que sejam as tribulações que ele me cause porque Cristo morreu por ele, ele é o rosto do pecador reconciliado.A intercessão é um purificador onde o indivíduo e a comunidade deve passar todo dia. Interceder pelo outro não significa outra coisa que apresentar o irmão ante Deus, ve-lo abaixo da cruz de Jesus como um homem pobre e pecador que necessita da graça. Então, desaparece todo quanto me resultava odioso nele, todo seu pecado parecem os meus, então, não posso fazer outra coisa a não ser orar.

PRESENÇA DA COMUNIDADE CRISTÃ


Sem a meditação pessoal o cristão é conduzido a mundo irreal, e não ao verdadeiro mundo de Deus, que lhe permite ser purificado e fortalecido pelos trabalhos da jornada.
O crente deve saber que aquilo que ele faz durante quando está sozinho influirá na vida comunitária, em sua solidão poderá encontrar força e santidade, toda auto-disciplina do crente é um serviço que presta a comunidade,  por outro lado, não existe pecado -pessoal ou secreto que seja- de pensamento, palavra ou obra, que não danifica a comunidade. Ditoso é aquele capaz de estar sozinho graças a força que recebe da comunidade e aquele que é capaz de manter a união com a comunidade a partir da força da solidão, esta força não é outra senão a palavra de Deus dirigida ao indivíduo integrado na comunidade.



terça-feira, junho 07, 2011

Dietrich Bonhoeffer: O dia em Comum


No Antigo Testamento, o dia começa ao anoitecer e termina com por do sol. É tempo da espera. Para a comunidade do Novo Testamento, o dia começa ao raiar o sol e termina com a aurora do dia seguinte. É tempo do cumprimento, da ressurreição do Senhor. Cristo nasceu numa noite, uma luz entre as trevas, e no momento de sua morte, o sol se escureceu, sem demorar, com o amanhecer do dia de páscoa, ele surgiu vitorioso da tumba.

Se aprendessemos algo desta adoração matutina que devemos dar ao Deus trino, ao Deus Pai e Criador que nos tem protegido durante a noite para nos dar um novo dia, ao Deus Filho, salvador do mundo que, por nós, triunfou da morte e do inferno e, vencedor, vive entre nós; ao Deus Espírito Santo que, desde do amanhecer, ilumina nossos corações com a palavra divina, afasta as trevas e o pecado e nos ensina a orar corretamente, então, também vislumbraríamos o gozo dos irmãos que unidos em harmonia, se encontravam cada manhã para adorar a Deus, escutar sua palavra e orar em comunidade.

Bonhoeffer continua a localizar a manhã como um sinal da misericórdia e graça de Deus em oposição a noite, Salmos 5.4, 88.14, 57.8, 119.147, 63.2, 46.6. Para o crente, começo do dia deve ser debutado ao Senhor, com sua claridade dissipou as trevas - Ef. 5.14

O autor coloca os exemplos bíblicos de personagens que acordavam com Deus, e diz sobre a oração comum matutina, devendo ela ser composta de leitura da escritura, canto e pregação.

 A LEITURA DE SALMOS.

Jesus ora os salmos em sua igreja, também, ela como o cristão individual, ora, mas porque é Cristo que ora em suas orações, não ora em nome próprio, sim, em nome de Jesus Cristo. O crente não ora seguindo o impulso natural de seu próprio coração, mas com base na humanidade assumida por Cristo, ora a oração do homem Jesus Cristo. É o único que lhe dá segurança de que sua oração será escutada. Devido a Cristo que ora os salmos conosco diante do trono de Deus ou melhor dito, porque os que oram são assumidos na oração de Jesus, sua oração é escutada por Deus. Cristo, assim, se converte em um intercessor.


Os salmos nos ensina a orar sobre o fundamento da oração de Cristo. São a escola de oração por excelência. Nela aprendemos, em primeiro lugar, o que significa orar, orar com base na palavra de Deus e de suas promessas. A oração cristã se assenta sobre a palavra revelada, e não tem nada a ver com a vagueza e o egoísmo dos nossos desejos, oramos fundamentados na oração do verdadeiro homem Jesus Cristo. Isto é o que quer expressar a escritura quando diz que o Espírito Santo ora em nós e por nós, e não podemos orar verdadeiramente senão em nome de Cristo.

Em segundo lugar, a oração dos salmos nos ensina que devemos expressar em nossas orações, se é verdade que o alcance da oração dos salmos sobrepassa em muito a medida da experiência pessoal, também é verdade que, pela fé, o crente pode dizer que as oração que Cristo pronuncia em salmos, as orações dele podem conter em plenitude toda a medida das experiências contidas nestas orações.

Bonhoeffer coloca que as orações agora pertencem ao corpo de Cristo estendido na terra, desde da crucificação, seria uma transcendência da oração de Cristo.

Em terceiro lugar,  a recitação dos salmos nos ensina a orar em comunidade, compreendendo que a oração particular é uma pequena fração da oração coletiva da igreja, se aprende a orar com o corpo de Cristo, assim somos levados acima de nossas circunstâncias particulares e oremos prescindindo de nós mesmos. O autor coloca que  muitos dos salmos do antigo testamento deveriam ser orações alternadas, chamado de paralelismus membrorum,  que seria o costume de repetir uma mesma coisa com outras palavras na segunda parte do verso, não é apenas uma forma literária, explica o teologo, mas possui um sentido eclesial e teológico. Sobre este aspecto de leitura coletiva e dialógica, Bonhoeffer cita o salmo 5 ou 119 em seu final, para ele a palavra divina luta para penetrar com profundidade no coração que somente pode ser alcançado com uma repetição...

A seguir, Bonhoeffer cita Otinger que ordenou os salmos segundo as sete petições do Pai nosso, há uma identificação entre os salmos e o conteúdo da oração dominical.


A LEITURA BÍBLICA.


Conforme Eric Metaxas, Bonhoeffer estava preocupado com um culto em que os corpos também participassem, não apenas como algo mental- assim, o autor diz que após a oração dos salmos, intercalado de um canto, segue a leitura da palavra de Deus.

Há alguns preconceitos que devem ser abandonados segundo o autor,  a leitura de versículos esparsos das escrituras, como o texto do dia, pode ser auxiliadora, mas não pode substituir uma leitura contínua e mais profunda. O texto diário, devocional não é a sagrada escritura que permanece através dos tempos, até o último dia, a sagrada escritura é mais do que um texto bíblico, é a palavra com que Deus se revela a todos os homens de todos os tempos, não consiste em versículos isolados senão em um todo que exige manifestar-se como tal. É em sua totalidade como a escritura é a palavra  revelada, somente na infinitude de suas relações interiores, na conexão entre o antigo e novo testamento, a promessa e cumprimento, sacrifício e lei, lei e evangelho, cruz e ressurreição, fé e obediência, dom e espera, que se faz inteligível o testemunho de Jesus Cristo, o senhor.

Assim, neste culto comunitário deve haver além da recitação de salmos, uma extensa leitura do antigo testamento e novo testamento. Bonhoeffer diz que cristãos adultos que não são capazes de ler completamente um capítulo do antigo testamento, deveria ser motivo de vergonha. Há um certo descaso da própria teologia com essa ausência de conhecimento e também do culto comunitário em ter por objeto o conhecimento das escrituras. Assim, ele conclui que há um desconhecimento completo sobre a natureza mesma do culto, onde a palavra de Deus deve ser ouvida e compreendida de acordo com a situação e compreensão de cada um.  O culto familiar é a ocasião para a criança de ouvir e aprender pela primeira vez a história bíblica. Para os adultos, seria uma oportunidade de compreende-la melhor. A escritura é um todo e cada palavra, cada frase, se relacionam em conjunto, isto nos ensina, que a Bíblia em seu conjunto e em cada uma de suas palavras ultrapassa em muito nosso entendimento, e é proveitoso que diariamente nos recorde que isto nos remete constantemente a Jesus- Cl 2.3.

As escrituras por serem um corpus, um todo vivente, é conveniente que a comunidade cristã pratique a leitura contínua, todos os livros das escrituras devem estar relacionados como palavra de Deus. Estes textos introduzem a comunidade que os escuta com o coração ao mundo maravilhoso da revelação de Deus ao povo de Israel - profetas, juízes, reis, sacerdotes, guerras, festas, sacrifícios,sofrimentos. A comunidade cristã é introduzida também na história do nascimento, batismo, milagres, pregação, sofrimentos, morte e ressurreição de Jesus, toma parte no acontecimento único realizado sobre a terra para a salvação do mundo e recebe ela mesma a salvação em Cristo.

Assim, a leitura contínua da Bíblia obriga a todos os que querem entender, a aproximar-se onde Deus tem atuado de uma vez por todas em favor da salvação dos homens, e deixar-se encontrar ali por Ele. Assim, a leitura dos livros históricos podem adquirir um aspecto absolutamente novo, ali tomamos parte de acontecimentos que precedem a nossa salvação, nos esquecemos de nós mesmos e entramos com o povo na terra prometida, atravessando o mar vermelho, o deserto, o jordão, com Israel caímos na dúvida e na incredulidade, pelo castigo e penitência recebemos de novo o socorro e a fidelidade de Deus, e isto tudo, é uma realidade divina.Somos arrancados de nossa própria existência e introduzidos no coração da história que Deus escreve na terra.

Devemos, então, estar atentos a atuação de Deus  na terra, na história sagrada, na história de Cristo sobre a terra. Compreendemos, que não é em nossa vida que tem que revelar-se a ajuda e a presença de Deus, mas que ele já se revelou definitivamente em nosso favor na vida de Jesus Cristo. Para Bonhoeffer, mais importante que descobrirmos o que Deus quer de nós hoje é descobrirmos o que ele já realizou, porque a morte de Jesus é mais importante que a minha própria morte, e sua ressurreição e o único fundamento da esperança  no último dia.

Nossa salvação está fora de nós mesmos. Somente aquele que se deixa encontrar em Jesus, em sua encarnação, em sua cruz e sua ressureição, está em Deus, e Deus nele. Nesta perspectiva bonhoefiana, a leitura da bíblia na oração matinal fará cada dia mais significativo e saudável porque entendemos que nossos problemas, nossas tribulações, nossas culpas não constituem de modo algum a realidade, porque é na Escritura, onde está a nossa vida, nossa tribulações, nossas culpas e nossa salvação. Somente por meio da escritura sagrada aprendemos a conhecer a nossa própria história, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó é o Deus Pai de Jesus Cristo e nosso Pai.

Bonhoeffer fala dos deveres que daí seguem, em primeiro lugar, ele fala de uma recuperação do conhecimento que os nossos antepassados e os reformadores tinham das Escrituras. Não pode ser o nosso coração que decide o nosso futuro, mas sim a palavra de Deus. Hoje, como naquele tempo, as pessoas procuram pautar suas decisões em argumentos tomados da vida ou na experiência, sem se preocupar com as indicações dadas pelas Escrituras. De tal modo, que não podemos estranhar que uma pessoa que não se toma o trabalho de ler, conhecer e estudar a Bíblia, trate de desacreditar a prova bíblica. Contudo, quem não deseja conhecer pessoalmente a Escritura não é um cristão evangélico.

Bonhoeffer a seguir expõe sobre a prática da leitura da sagrada escritura. Devemos começar na comunidade doméstica,  a leitura não será fácil, portanto, quanto mais sóbria, mais objetiva e humilde seja a atitude interior frente ao texto, tanto mais adequada será a leitura. No modo de ler, há uma diferença entre um cristão experiente e um novo, para um leitura correta, aquele que lê não deve identificar-se jamais com o eu que fala a escritura, não sou eu quem se irrita ou consola, mas somente Deus. Isso não significa monotonia ou indiferença, mas deve-se ler sentindo-a interiormente, comprometido, contudo, toda a diferença entre uma boa e uma má leitura reside em que eu não me coloque no lugar de Deus, ao contrário, que o sirva com toda sinceridade. Do contrário, corro o perigo de me tornar apenas um retórico, patético, sentimental ou impulsivo, querendo chamar a atenção dos ouvintes para mim e não para a palavra.

"Explicando com um exemplo profando poderíaos dizer que a situação do leitor da escritura é como uma pessoa que lê para outra a carta do amigo. Não lerá a carta como se ele mesmo a tivesse escrito, senão que respeitará  e fará sentir a distância, sem contudo, tampouco lerá a carta como se não me conhecesse, sentão que em minha entonação se perceberá uma implicação pessoal. A leitura correta da Escritura não é uma técnica que pode ser aprendida, senão que depende de minha própria disposição interior" (p. 49)

CANTAR EM COMUM.

A leitura de salmos e a leitura bíblica se completam com o canto em comum, a igreja adora e agradece ao Senhor. O cantico novo cantado a cada manhã em honra a Cristo, pela comunidade familiar. e que chamamos a cantar com toda a igreja na terra e no céu. O canto vitorioso dos filhos de Israel depois de passar o mar vermelho, o magnificat de Maria desde a anunciação.

Cada manhã, a igreja aqui na terra une sua voz a este canto universal, e no entardecer, volta para ele para sinalizar o fim da jornada. A finalidade é adorar ao Deus trino e sua obra. Na terra, é o cântico dos crêem, no céu, daqueles que contemplam. O cantico novo começa no nosso coração, que está cheio da presença de Cristo, assim é um ato espiritual da igreja que pressupõe uma submissão a palavra e a comunidade, muita humildade e uma grande disciplina.

O canto manifesta a unidade da igreja mediante uma palavra comum, o canto, ademais, tem um poder de expressão mais rico da sua poesia. A musica consegue traduzir o incomunicável.

Bonhoeffer defende o canto unissono como verdadeiramente espiritual, por que assim se canta ao Senhor e sua palavra em um mesmo espírito. Segundo ele, há alguns inimigos do canto unissono, que chegam através dos elementos musicais, introduzindo no culto o mau gosto e a frivolidade. Ai, ele diz sobre a segunda voz improvisada, que mata a melodia e a palavra cantada. Ou, a voz baixa ou alta ou solistas perfomáticos. Outro inimigo seria as pessoas sem ouvido, que não sabem cantar, assim também não querem.

Enfim, Bonhoeffer argumenta que a questão do canto uníssono é mais que musical, é espiritual pois somente em uma comunidade onde cada um aceita interiormente uma atitude de reconhecimento e disciplina, o canto pode levar ao gozo da inclusão.

O canto comum deve servir para ampliar nosso horizonte espiritual, para chegarmos a reconhecer nossa comunidade como uma pequena porção da grande comunidade cristã espalhada por toda a terra, e assim unir o nosso canto-debil ou potente- ao canto de toda a igreja.

ORAR EM COMUM.

Partindo de Mt. 18.19, o autor começa a falar da oração comunitária, aquela que oferece maiores dificuldades porque nela nós mesmos somos quem devemos falar. Temos escutado a palavra de Deus e podido unir-mos ao canto da igreja, agora, se trata de orar a Deus em comunidade e esta oração deve ser a nossa palavra.

A oração em comum é efetivamente o ato mais natural da vida cristã comunitária e é boa e proveitosa para nós esforçarmos em conserva-la em toda a sua pureza e em seu caráter bíblico,


A COMUNIDADE DA MESA

A comunidade cristã se reune para receber de Deus o pão da vida corporal, dando graças e implorando a benção de Deus, a comunidade doméstica recebe o pão diário das mãos do Senhor, que a partir do momento em que se sentou a mesa para comer com seus discipulos, estará sempre presente para abençoar os seus sempre que se reunirem para comer.(Lc 24, 30-31).

Para Bonhoeffer, a escritura menciona tres classes de comida- a diária, a santa ceia e o banquete final no reino de Deus. Contudo, nos tres casos, o importante é que sejam abertos os olhos, e reconheçamos a Cristo como dispensador de todos os dons que recebemos. Em segundo lugar, isto quer dizer que os nossos bens temporais nos são dados unicamente por Cristo, pela sua palavra. Ele é o verdadeiro pão da vida, que não é o doador, mas que é dom mesmo que faz possivel todos os dons terrestres.

Cada vez que os crentes compartilham a mesa, confessam que Jesus está presente no meio deles. Assim, os crentes reconhecem que Jesus é o autor e doador dos dons, e ele mesmo é o dom supremo, o verdadeiro pão da vida, que nos convida alegremente para o baquete do reino de Deus. Reconhecemos que é Jesus que parte o pão, assim Deus nos abre os olhos da fé. Nós trabalhamos, mas Deus nos alimenta e nos sustenta, a nossa vida não é apenas fadiga, mas também refrigério e gozo pela bondade de Deus. (Ec. 9,7). A comida de cada dia é um remanso gozoso que o Senhor nos convida como a uma festa.

Compartilhar a mesa compromete os cristãos, pois o que comemos é o pão nosso de cada dia, isto nos mantém unidos, por isto, nenhum de nos deve passar fome se temos o pão, quem destrói a comunhão material também destrói a espiritual, elas estão unidas.(Mt 25, 37). Hoje comemos o pão dos peregrinos, mas um dia iremos comer aquele pão incorruptível da casa do Pai (Lv. 14,15).


O TRABALHO

Partindo de Sl, 104, 33, para Bonhoeffer orar e trabalhar são atividades distintas, mas uma não pode impedir a outra, a vontade de Deus exige que o homem trabalhe seis dias por semana e descanse para alegrar-se em sua presença, também exige que cada dia cristão seja marcado pelo sinal duplo de trabalho e oração. A oração exige um certo tempo, mas as horas do dia são de trabalho, somente dando valor a cada uma dessas etapas é possível descobrir o caráter do crente. Sem esforço e trabalho, a oração não é oração, e o trabalho não é trabalho.  O trabalho coloco o homem no mundo das coisas que esperam sua atuação, Deus nos libera até lá para cumprir sua obra no mundo das coisas. De tal modo que no trabalho, o homem aprende a deixar-se limitar pelo objeto de seu trabalho, assim se converte no melhor remédio contra a preguiça e a indolência da natureza humana. O contato com as coisas mata as exigências da nossa carne, isto só será possível se descobrirmos através delas, a presença de Deus.

Assim, o cristão consegue descobrir a unidade entre oração e trabalho, a unidade do dia, compreende o que significa orar sem cessar- 1Ts 5,17. Sua oração se prolonga durante toda a jornada, penetra no trabalho, que não a interrompe, mas a afirma e potencializa, dando a ele seriedade e alegria. Desta feita, todo trabalho, toda palavra, toda a ação do cristão se converte em oração, descobrindo sem cessar a realidade de Deus através da severa imperssonalidade das coisas. - Cl. 3,7.

Na oração da manhã, se decide a sorte do dia, pois nela se busca esta unidade. A oração nos ensina a ordenar e distribuir melhor o nosso tempo, de tal modo, que quando descobrimos Deus através das coisas, adquirimos força suficiente para vencer as tentações que cada jornada de trabalho traz consigo.


COMIDA DO MEIO-DIA

Para Bonhoeffer, o pão está relacionado ao trabalho, 2 Ts 3,10- não que o trabalho leva a algum direito ante a Deus, porque o trabalho é um mandamento e o pão é um dom livre e misericordioso de Deus. É a hora em que o céu se escureceu sobre a cruz de Jesus,a hora para que a obra da reconciliação fosse cumprida.

ORAÇÃO DA NOITE

Um dia é grande o bastante pra colocar em prova a nossa fé, depois da jornada de trabalho, imploramos a Deus sua bênção, sua paz e sua proteção sobre toda a cristandade, sobre nossa comunidade, sobre nossos vizinhos, pastores, solitários, enfermos, moribundos, nossa família.  É também o momento que pedimos perdão por tudo temos feito contra Deus e nossos irmãos (Ef, 4,26).

A seguir, Bonhoeffer conta uma história curiosa sobre a igreja primitiva, elas oravam para que de noite o Senhor as preservassem dos ataques do inimigo, nossos antepassados sabiam do parentesco do sono com a morte, da astúcia do inimigo empenhado em derrubar o homem quando não tem defesa. Assim, uma petição singular da igreja primitiva, era aquela que rogava a Deus que mantenha nosso coração desperto enquanto nossos olhos dormem, de tal feita, que mantenha puro o nosso coração de todos os pesares e tentações da noite, que nos prepare para escutar sua chamada a todo momento, e possamos responder como Samuel - 1Sm 3,10.



sábado, junho 04, 2011

Dietrich Bonhoeffer: Vida em Comunhão






1. sobre a vida em comum.



Bonhoeffer começa com uma citação de Lutero, "O reino de Jesus Cristo deve ser edificado em meio de teus inimigos. Quem nega esta renúncia para tomar parte deste reino, e prefere viver rodeado de amigos, entre rosas e lírios, longe dos malvados,em um círculo de gente piedosa. Não veem que assim blasfemam e traem a Cristo? Se Jesus tivesse atuado como nós, quem haveria de se salvar-se?"







Em meio as dores e tribulações, a presença do próximo, do irmão e companheiro é fundamental. "O crente não ser envergonha e nem se considera muito carnal por desejar ver o rosto de outros crentes. O homem foi criado com um corpo, em um corpo apareceu para nós o Filho de Deus na terra, em um corpo foi ressuscitado; com o corpo o crente recebe a Cristo no sacramento, e a ressurreição dos mortos dará lugar a uma plena comunidade de filhos de Deus, formados de corpo e espírito" (p.11)







É através da presença do irmão de fé, que o crente pode adorar a Deus, segundo o autor, o prisioneiro, o enfermo ou crente afastado reconhecem no irmão um sinal visível  e misericordioso da presença de Deus trino. Assim, Bonhoeffer se pergunta: "se o mero encontro é um encontro de alegria, que inefável felicidade não sentirá aqueles a quem Deus permite viver em comunidade com outros crentes!" 







A comunidade cristã







A comunidade cristã significa  a comunhão em Jesus Cristo, nenhuma comunidade cristã pode algo a mais ou a menos que isto. Se podemos ser irmãos é unicamente em e por Jesus Cristo. Isto significa duas coisas, primeiro, Ele é o fundamento da necessidade que os crente tem uns dos outros e, em segundo, torna possível a comunhão, e, por fim, nos tem elegido desde a eternidade para nos aproximarmos nesta vida e nos mantermos unidos por toda a eternidade.







"O cristão é um homem que já não busca sua salvação, sua liberdade e sua justiça em si mesmo, mas apenas unicamente em Jesus Cristo"  O autor prossegue no tema reformado da  justiça externa - extra nos -, a vida ou morte do crente dependem da palavra de Deus sobre ele, sua salvação e bendição provém exclusivamente da Palavra de Deus em Jesus Cristo. "Em si mesmo não encontra nada, senão pobreza e morte, e se há socorro para ele, apenas poderá vir de fora. Pois bem, esta é a boa notícia: o socorro foi enviado e está nos ofertado a cada dia na Palavra de Deus que, em Jesus Cristo, nos traz libertação, inocência e felicidade"






Bonhoeffer faz um paralelo entre a justiça passiva (de fora) e a comunidade cristã, "aqui está clara a meta de toda comunidade cristã: permitir nosso encontro para nos revelemos mutuamente a boa notícia da salvação. Esta é a intenção de Deus ao nos reunir. Em uma palavra, a comunidade cristã é obra apenas de Jesus Cristo e sua justiça estrangeira. Portanto, a comunidade dos crentes é fruto da justificação do homem apenas pela Graça de Deus, tal e como se anuncia na Bíblia e ensinam os reformadores. Essa é a boa notícia que fundamenta a necessidade que tem os crentes uns dos outros".

Cristo mediador.

A seguir, o autor coloca a necessidade de Cristo como mediador do relacionamento do homem com Deus e tanto do homem com homem na comunhão, os crente somente podem se amar e ajudar-se mutuamente a chegar a um só corpo por meio de Jesus Cristo, somente nele é possível esta união.

A comunidade de Jesus Cristo.

Pela encarnação dEle, na sua cruz e sua ressurreição, ele nos toma com Ele. Fazemos parte dele porque estamos com ele, por esta razão a escritura nos chama de corpo de Cristo. (...) Nossa comunidade cristã se constroi unicamente pelo ato redentor de que somos objeto. E isto não é somente verdadeiro para seus começos,  de tal maneira que se pudesse acrescentar algum outro elemento com o passar do tempo, senão que se segue sendo assim em todo o tempo e para toda a eternidade. Somente  Jesus Cristo fundamenta a comunidade que nasce ou nascerá um dia, entre os crentes. Quanto mais autêntica e profunda chegue a ser, tanto mais retrocederam nossas diferenças pessoais e com maior claridade será patente para nós que a unica e sozinha realidade: Jesus Cristo e o que ele fez por nós. Unicamente por ele nós pertencemos uns aos outros real e totalmente, agora e por toda a eternidade. (p. 17-18)

A fraternidade cristã

Aqui Bonhoeffer adverte para os perigos da religiosidade, ou, o que ele chama de intoxicação interna provocada pela confusão entre fraternidade cristã e um sonho de comunidade piedosa. Contra isto, ele nos adverte a ter consciência de que, em primeiro lugar, a fraternidade cristã não é um ideal humano, mas uma realidade dada por Deus e, em segundo lugar, é uma realidade de ordem espiritual e não psíquica.

Ele exemplifica dizendo que quando entramos numa comunidade, levamos nossos ideais ou idéias de como ela deve ser, mas o próprio Deus nos  destrói constantemente esta classe de sonhos, ficamos assim, decepcionados com os outros e conosco mesmos e assim, Deus nos vai levando ao conhecimento da autêntica comunidade cristã.
Não nos deixa viver estes sonhos, porque Deus não é um deus de emoções sentimentais, é um Deus da realidade. Então, somente a comunidade, que consciente de suas tarefas, não sucumbe a esta grande decepção, começa a ser aquilo que Deus quer, e alcança pela fé a promessa bíblica pela qual foi feita.

Deus se aborrece dos nossos sonhos piedosos porque nos fazem duros e pretensiosos, não nos deixam exigir o impossível para Deus, dos outros e nós mesmos. Nos erguem como juízes dos irmãos e de Deus mesmo. Nossa presença é para os outros uma reprovação viva e constante, vivemos a vida como se nós estivessemos construindo uma comunidade cristã que não existia, adaptada a imagem de cada um de nós, e quando as coisas não saem como queremos, falamos em falta de colaboração, convencidos que a comunidade se acaba quando vemos nossos sonhos sendo derribados. Deste modo, começamos a acusar os irmãos, depois a Deus, e finalmente, desesperados, direcionamos nossa amargura contra nós mesmos.


Tudo ao contrário acontece quando estamos convencidos que Deus mesmo colocou o fundamento único sobre qual devemos edificar nossa comunidade e que, antes de qualquer iniciativa por nossa parte, nos tem unido em um só corpo por Jesus Cristo, pois então não entramos na vida em comum com exigências, senão somos agradecidos de coração e aceitamos receber. Damos graças a Deus por aquilo que ele em feito em nós.


A gratidão

Bonhoeffer parte da premissa que Deus concede muitas coisas para quem agradece pelas poucas coisas. ele nos adverte do perigo mais uma vez de querermos construir a comunidade a parte de Deus.

Um pastor não deve queixar-se jamais de sua comunidade, nem sequer diante de Deus. Não foi confiada a comunidade para que ele se converte em um acusador diante de Deus e dos homens. Qualquer membro que comete o erro de acusar a sua comunidade deveria perguntar-se primeiro se não é precisamente Deus quem destruiu a quimera que ele havia fabricado para si mesmo. Se é assim, que ele dê graças a Deus por esta tribulação e não o que é, que se guarde de acusar a comunidade de Deus, que acuse mais bem a si mesmo por falta de fé, que peça a Deus, que lhe deixe compreender no que tem desobedecido, o pecado e se livre de ser escândalo para os outros membros da comunidade, que lute por isso, ademais por si mesmo, e que, também de cumprir aquilo que Deus lhe proporciono, e lhe dê graças"  (p.22)
A espiritualidade  da comunidade cristã 

Mais uma vez, Bonhoeffer retoma o tema da fundação da comunidade, dizendo que ela não é um ideal humano, mas sim uma realidade criada por Deus em Cristo unicamente, não é uma realidade de ordem psíquica, nisto ela se distingue de todas as outras comunidades. As escrituras entendem por espiritual, o dom do Espírito Santo que nos faz reconhecer  Cristo como senhor e salvador; por psíquico, seria aquilo que expressa nossos desejos, de nossas forças e nossas possibilidades naturais em nossa alma.

O autor faz esta distinção de fundamentos, coloca uma comunidade espiritual baseada unicamente em Jesus Cristo e outra psíquica - carnal- baseada na vontade dos homens, ele coloca que a primeira é luz e não há trevas- 1 Jo 1,5- e a segunda, trevas, Me 7, 21.

A influencia de Karl Barth é clara aqui neste ponto, a revelação de Deus exclusivamente através de Jesus Cristo, "comunidade espiritual é  a comunhão de todos os chamados por Cristo, a comunidade psíquica é a comunhão das almas piedosas. Uma é no ambito da transparência, caridade fraterna, do agápe; a outra, de eros, do amor mais ou menos desinteressado, do equívoco perpétuo".

Entre meu próximo e eu está Cristo, por isto não me é permitido desejar uma comunidade diretamente com meu próximo, apenas unicamente Cristo pode ajudar-me, isto significa, que devo renunciar aos meus intentos apaixonados de manipular, forçar dominar a meu próximo. Meu próximo quer ser amado tal e como é, independentemente de mim, isto é dizer, como aquele por quem Cristo se fez homem, morreu e ressuscitou; a quem Cristo perdoou e destinou a vida eterna. Em vista disso, antes de toda intervenção por minha parte, Cristo tem atuado decisivamente nele, devo deixar livre meu próximo para o Senhor, a quem pertence, e cuja vontade é o que eu reconheço assim. Isto é o que queremos dizer quando afirmamos que não podemos encontrar nosso próximo a não ser em Cristo

A vida de Jesus Cristo nao apenas revela Deus para nós, mas também a própria comunidade cristã, o Outro e o outro.


A comunidade forma parte da igreja cristã

Aqui o autor fala do perigo de cairmos no erro de sendo uma comunidade espiritual deixar de sê-la, e tornar-se uma comunidade psíquica, isto acontece quando trocamos a realidade divina pelo ideal humano.

A união com Jesus Cristo

Para Bonhoeffer, a comunidade cristã assim como o pão diário é um presente de Deus, uma graça concedida por Deus para os homens através de Jesus, não é obra ou ideal humano ou dependem dele. O que Deus deseja é aceitemos pela fé este presente, que nos chega cheia de alegria e gozo, que nos permite poder renunciar a todas as experiências as quais ele quer que renunciemos; a graça de podermos viver unidos debaixo da autoridade da palavra, é doce para os irmãos viver juntos por Cristo, porque unicamente Jesus é o vínculo que nos une, Ele é a nossa paz e somente por ele temos acesso uns aos outros e nos regozijamos unidos no gozo da comunidade reencontrada.