sexta-feira, maio 01, 2020

Nelson Rodrigues para Figueiredo (mas, a lição serve para o contexto atual)

Sim. O recado é para o presidente da República, que eu chamarei de você — porque ele é um homem simples, carioca como eu, mais moço do que eu, pai como eu. Escuta aqui, Figueiredo. Muitos presidentes realizaram obras maravilhosas, faraônicas. Construíram estradas, acabaram com a inflação — o diabo. Mas nenhum deles teve a chance que você tem. A bondade está acima das leis. A generosidade, a clemência, a misericórdia são os mais belos sentimentos que um ser humano pode ter. Deixe o petróleo para lá. A inflação que se dane. Um país não pode viver dividido. Você estendeu a mão. Como podem apertá-la os brasileiros que estão detidos? Solte esses rapazes, Figueiredo. Meia dúzia de obras gigantescas não colocam um presidente na História. Você é o único brasileiro que tem essa oportunidade na mão. Solte esses moços, Figueiredo. Por favor, Figueiredo, solte meu filho.

Cunha, Martim Vasques da. A poeira da glória: Uma (inesperada) história da literatura brasileira . Record. Edição do Kindle. 


Essa declaração é prova de que ainda é possível uma resistência verdadeira ao ódio que contamina a vida atual do brasileiro. É a resistência do sujeito que sabe que, antes de qualquer coisa, o verdadeiro estadista é aquele que pratica o Bem e sabe que nada adianta realizar feitos superficiais, que podem até ajudar a vida econômica de uma nação, mas não alimentam sua vida moral. Ao dirigir-se de maneira tão sincera a um presidente da República, a um homem que, supostamente, está ungido pelo poder de mandar e desmandar, Nelson é mais subversivo do que qualquer guerrilheiro de esquerda. Ele evita ser contaminado pelo mundo infernal que invadiu a própria família e evita que o poder comande seus sentimentos. Pouco se importa com o que os poderosos vão pensar do seu gesto. A única coisa importante naquele momento é apelar para a bondade de um homem que, espera-se, ainda não se esqueceu de que é também um ser humano.

Cunha, Martim Vasques da. A poeira da glória: Uma (inesperada) história da literatura brasileira . Record. Edição do Kindle. 

quarta-feira, abril 29, 2020

Martin Vasques sobre Macunaína e Amar, verbo intransitivo...

São dois livros que em nenhum lugar do mundo seriam minimamente publicáveis, mas que aqui no Brasil, por algum motivo misterioso, são objeto de teses e mais teses. Como romances, são mal escritos e mal desenvolvidos; como estilo, não têm substância nenhuma; e como estopim para algum debate de ideias revelam-se de uma esterilidade ímpar para quem procura algum sentido nesta marmita em que nos encontramos. Contudo, como amostras de uma psique conturbada, são estudos sublimes para notarmos que, muitas vezes, o estudo literário neste país também pode ser um estudo de psicopatologia.

Cunha, Martim Vasques da. A poeira da glória: Uma (inesperada) história da literatura brasileira . Record. Edição do Kindle.

Poeira da Glória



A preocupação com o destino da inteligência e com a impotência do Bem na vida e na obra de Lima Barreto mostra que o ideal estetizante na vida brasileira é a única constante em nosso comportamento — e isto acarretou consequências desastrosas para o nosso futuro. Queremos saber apenas da nossa inteligência e da dos outros, jamais das nossas qualidades morais. Todos perguntam “quem é o homem mais inteligente” do país, mas nunca “quem é o homem mais íntegro”. Mário Vieira de Mello observa que, ao ouvir falar em “integridade”, o brasileiro pensa em algo próximo do moralismo, quando a inteligência é apenas uma qualidade que depende da aparência. Para a inteligência realmente ter algum efeito no indivíduo que deseja tê-la, e na sociedade que quer educar-se nela, é necessário que ela viva em função de algo maior — e o mesmo pode se dizer de sentimentos nobres, como a honra, a coragem e a honestidade em relação aos assuntos públicos. Sem a busca por uma integridade moral, que transforme o sujeito que vive em um mundo que faz de tudo para transformá-lo em pedaços desconexos, ele jamais encontrará sua unidade interior e poderá enfim conversar com “o fundo insubornável do ser”. Não seria um exagero dizer que, se o homem inteligente quer fazer um serviço a seu país, a primeira coisa que deveria fazer seria, justamente, despir-se de toda inteligência e desistir da inútil busca por ela.

Cunha, Martim Vasques da. A poeira da glória: Uma (inesperada) história da literatura brasileira . Record. Edição do Kindle.

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

E. STANLEY JONES: O QUE ELES SÃO EM SI MESMOS (1)


CRISTO NO MONTE

PARTE DOIS 
O NOVO TIPO DE HUMANIDADE.

capítulo 3 - O que eles são em si mesmos -1 



Num primeiro pensamento, perfeição como o alvo da vida parece muito individualista e coisa de outro mundo- os dois pecados teológicos mortais, de acordo com o homem moderno. Tomado fora de contexto, isto é verdade, mas em seu contexto, isto não é verdadeiro.

Jesus estava se dirigindo a um grupo. Enquanto, o "vós" no "seja vós perfeitos" refere-se a eles como indivíduos mas também se refere a eles como um grupo - um grupo que representava a nova humanidade. Tanto o novo homem como a nova sociedade deviam ser perfeitos. Se Jesus tinha apresentado este ideal de perfeição nos versos iniciais do Sermão, isto teria surgido diante dos homens de modo abrupto, como elevado, tão grande como o Monte Evereste- e seria pouco convincente. Ao invés disto, ele gradualmente abriu um tipo de vida tão belo e tão atraente que quando ele chegou no clímax, não haveria nada mais a dizer que:"Seja vós perfeitos, como o Pai nos céus é perfeito" . Qualquer coisa a menos seria um anti-clímax. 

Nos quarenta e cinco versos vivos (Mt 5:3-47), ele despeja dentro do alvo da perfeição tal cuidado, humanidade, e este conteúdo terreno que o alvo, quando colocado, não está além dos limites desta vida, mas sim, firmemente fundado nesta vida e era aquilo que devemos lavrar nas relações humanas. A chave para este verso, "Então, seja vós perfeitos" é a palavra "então". Ela aponta para trás, não meramente para o versículos precedentes como alguns pensam, mas para o todo daquilo que Ele estava dizendo. Isto reúne e coloca no versículo quarenta e oito, todo o conteúdo  dos quarenta e cinco versículos anteriores e faz destes o conteúdo da perfeição. Destes versos, encontramos aqui vinte e sete marcas da vida perfeita, e estas marcas mostram quão profundamente social e, ainda assim, quão profundamente individual é este ideal.

A vida perfeita consiste em ser pobre de espírito, em chorar, em ser manso, em ter forme e sede pela justiça, em ser misericordioso, puro de coração, em ser pacificador, perseguido pelo bem da justiça e ainda se alegrar e ser excessivamente feliz, em ser sal da terra e luz do mundo, ter uma justiça que excede, em ser desprovido de raiva com o irmão, usar nenhuma palavra insolente, permitindo que ninguém tenha algo contra alguém, ter um espírito para a concórdia rápida, sem armazenar pensamentos luxuriosos, ser incansável contra aquilo que ofenda o maior, ter relações corretas na vida do lar, ser verdadeiro em palavra e atitude, virar a outra face , dar o capa também, andar a segunda milha, dar a quem pede e não desviar daqueles que te emprestam,amar mesmo seus inimigos, orar por aqueles que perseguem - então vocês serão filhos do seu Pai e você será perfeito como o Pai no céu é perfeito.

Não há nenhuma destas vinte e sete marcas da vida perfeita que é irrelevante ou insignificante e nenhuma que não seja completamente essencial  para a vida perfeita. Jesus não é apenas maravilhoso no que coloca aqui, mas também naquilo que deixou de fora. Alguém tem sugerido que praticamente tudo que que Jesus ensinou poderia ser encontrado no Talmude. "Sim", é a resposta, "e muito mais além disso". O Talmude contém tesouros em meio a desperdícios. Mas, Jesus acerta o essencial e sempre o essencial. A mente dele era um filtro. Nunca se perdia para um assunto acessório, nem tomou atalhos ou perdeu o ponto. Isto vai vir a luz, eu acredito, quando olhamos mais especificamente para estas vinte e sete marcas.

A apresentação da vida perfeita por Jesus se divide em cinco porções maiores:

1. O QUE OS CRENTES SÃO EM SI MESMOS (AS BEM-AVENTURANÇAS) (vs 2-12)
2. O QUE ELES SÃO PARA O MUNDO (SAL, LUZ) (vs. 13-16)
3. O QUE ELES SÃO PARA O PASSADO( AO INVÉS DE DESTRUIR, ELES CUMPREM) (vs. 17-20)
4. O QUE ELES SÃO EM SEUS RELACIONAMENTOS ÍNTIMOS COM OS OUTROS (vs. 21-47)
5. QUE ELES DEVEM SER PERFEITOS COMO PAI É PERFEITO (vs. 48)

Jesus começa com aquilo que eles devem ser neles mesmos. Ele começa no centro. Ele insiste que o homem não pode viver na circunferência a menos que eles estejam vivos no centro. A tentativa moderna é ter quantidade de vida na circunferência apesar da qualidade de vida no centro. Jesus sabia que isto terminaria em futilidade, cinismo e total futilidade.  Quando ele faz novas todas as coisas, antes de tudo, ele coloca suas mãos sob o coração humano. Ele sabia que "vocês não podem criar a idade de ouro a partir dos instintos de chumbo" . Ele falou sobre o que eles deveriam ser (vs 2-13), antes dele falar sobre o que eles fazem ou não fazem (resto do Sermão). Ele começa dizendo: "Bem-aventurados" são vocês que em si mesmos determinam a vida para vocês. Vocês são seu próprio paraíso e vocês são seu próprio inferno.  Ele sabia que o " inferno, por vezes, irrompe no homem como se fosse uma combustão espontânea" e que o céu é um estado da mente antes que isso pode ser um lugar. Ele veio, então, não para colocar o homem no céu, mas, para colocar o céu dentro do homem; não para tirar o homem do inferno, mas, para colocar o inferno fora do homem. Se "conduta são três quartos de uma vida", então o caráter é o todo, pois o "caráter é destino". 

Para descrever o estado daqueles que estão bem alinhados por dentro, ele usa uma palavra que está cheia de significado "bem-aventurado". Esta palavra é "makarios", uma palavra que Aristóteles usou para bênção divina em contraste com a felicidade humana. A palavra ordinária para a felicidade humana era eudamoni, mas, ela passou  a ter um significado como de fraco. Já que nós participantes da perfeição que Deus tem, então somos partícipes da alegria que é divina. A primeira nota do ensino de Buda é Sofrimento, a primeira nota que Jesus coloca é Alegria. Mas, esta alegria não é dependente dos acontecimentos. Suas fontes estão dentro. "Bem-aventurados são". Então,  esta nota de alegria não é uma nota barata de jazz, fácil e superficial. Ela soa as profundezas antes de atingir as alturas. Mas, a palavra bem aventurado é mais do que feliz, ela literalmente significad, não sujeito aos fatos, imortal. Ela apresenta um tipo de vida que se levanta acima do mecanismo fatídico da vida terrena para uma liberdade moral e espiritual. Então, os dois significados são tomados juntos que poderiam dar o significado de abençoado, que é, "ser imortal e feliz".

As Beatitudes são nove em número e elas estão separadas em três grupos de três cada um. O primeiro grupo começa com "Bem-aventurados são os pobres de espírito pois deles é o reino dos céus". Muitos acham que o significado de pobre de espírito foi  tirada do Antigo Testametno  como o pobre remanescente em busca da redenção de Israel, alguns tomam a frase como sinônima de humildade e alguns, como Tertuliano, criam o termo como "pedintes em espírito".  Nenhum destes, me parece, soar sua profundidade. Eles me parecem superficiais. Esperaríamos Jesus soar uma nota mais radical desde o começo. Ele faz. Uma palavra que Lucas usa para pobre é "ani"- um pobre por circunstâncias, mas a palavra usada aqui é, na verdade, um pobre por escolha. A palavra, então, mais próxima de seu sentido original seria um "renunciante em espírito".

Há apenas duas grandes filosofias de vida. Nietzsche resumiu uma delas quando disse:" Afirme-se a si mesmo. Cuide de nada exceto a si mesmo. O único vício é a fraqueza, e a única virtude é a força. Seja forte, seja um super-homem. O mundo vai te pertencer se você puder ter ele". Aqui é o culto da auto-expressão. Aqui é o Darwinismo como uma filosofia de vida. O método de sobrevivência em uma natureza inferior é transformado no método da sobrevivência entre os homens. Em Nietzsche, este culto da auto-expressão é cruel. Em outros, ele é refinado, mas eles sempre apontam para um sentido final que o que importar é buscar os próprios interesses, seja isso uma auto-afirmação insensível ou uma auto-cultura refinada. Jesus permanece como extremo oposto a isto, e diz que o caminho para encontrar a vida é perder a vida, que o caminho da auto-realização é pelo caminho da auto-renúncia.  Ele diz: se qualquer um quiser vir após mim, deve negar a si mesmo (literalmente, se rejeitar a si mesmo) e tomar sua cruz e o seguir. Não há dois caminhos que poderiam ser mais opostos. Nietzsche morreu num hospício e o mundo o seguiu até a beira do inferno na última guerra como uma consequência natural desta atitude de auto-afirmação. Sua gênese é o egoísmo, seu êxodo é o suicídio. 

Jesus dá um golpe na atitude de auto-afirmação  desde o começo. Ele diz que este "self" deve ser renunciado. Em Marcos 9:43, ele diz" que melhor entrar na vida eterna, mutilado e no versículo 47 " que é melhor para nós entrar no reino de Deus com apenas um olho". Aqui a vida  e o reino de Deus são usados de maneira sinônimas. Esta primeira beatitude poderia, então, ser lida da seguinte maneira: "Imortais e felizes são aqueles que renunciaram em espírito para eles é vida". Eles encontraram vida em deixando isso seguir. Esta é outra forma  de colocar este verso que, para mim, é central no ensino de Cristo. Aquele que buscar salvar sua vida a perderá, mas aquele que perder sua vida a encontrará. 

É muito interessante notar que Walter Lippmann, em seu "Preface to Morals", depois de deixar Deus ir, com uma pontada, girando melacolicamente para um humanismo, nos dá o que ele chama de alta religião. Sua alta religião é esta: aprender não a querer nada da vida que a vida  não contém, mas limitar o desejo de alguém até que ele se harmonize com a realidade; encarar a vida num espírito de desinteresse". Nós buscamos por conforto, por sucesso, por vida eterna. A alta religião  é a regeneração destes desejos". É muito notável que Hinduísmo e Budismo, Lippmann e Jesus todos convergem para uma coisa, a dizer, a renúncia do desejo. Lippmann diz:  "limitar desejos", Hinduísmo diz: Abrir mão dos desejos para separar a existência, Budismo diz: "Cortar na raiz do desejo mesmo pela vida", Jesus diz: "abençoados os que renunciam em espírito". Lippmann  poderia limitar os desejos, então num mundo que é claro desapontar-se, você não estaria desapontado se você não buscasse por muito; hinduísmo poderia te livrar do desejo em separar a personalidade  ao adentrar para o sem desejo Brahma; o budismo livraria os homens da tristeza cortando a raiz do sofrimento, a saber, o desejo pela vida em si, alcançando o nirvana, que é um estado de apagar a vela. Jesus libertaria do desejo no nível do self ao trocar isto por um desejo maior que o amor a si mesmo, nos trazendo dentro de um reino de valores maiores.

Lippmann termina numa desilusão para o mundo, o hinduísmo termina em uma perda do mundo e da personalidade num impessoal Brahma, budismo acaba em na extinção do mundo e da personalidade, Jesus termina num reino de valores positivos que encontra a vida de um e de um novo mundo, o reino de Deus na terra. Com a exceção de Jesus, que termina numa completude final, cada um desses termina num vazio final. 

Jesus pede a única possessão que temos: nós mesmos. Auto-renúncia é mais profunda que uma renúncia do mundo, porque um poderia abrir mão do mundo mas não de si mesmo. Eu tenho visto muitos sadhu que são pobres em coisas materiais, mas não pobres em espírito, pois se você cruzar com eles, eles poderia voltar até você em raiva. Nenhum homem é livre até ele  ser livre no centro. Quando ele anda aqui, ele é livre de vez. Quando o self é renunciado, então alguém permanece totalmente desiludido, à parte, procurando por nada. Ele antecipa os sofrimentos, as bofetadas, as rasteiras, as separações, os desapontamentos da vida por sua aceitação nesta grande renúncia. Esta é a estratégia suprema do retiro.  Você pode então dizer para a vida: "O que você pode fazer comigo? Eu não quero nada!" Você pode dizer para a morte: "O que você pode fazer para mim? Eu já estou morto". Então é um homem verdadeiramente livre. No banho da renúncia , ele lavou sua alma de diversos clamores, desejos conflituosos.  Pedindo por nada,  se nada vier até ele, é tudo puro ganho. Então a vida se torna uma constante surpresa. 

A filosofia grega tenetou fazer um homem invulnerável, mas aqui sempre havia um tendão de Aquiles exposo quando a vida se machucava. O evangelho começa na cruz, então um homem escolhe ser completamente vulnerável, ele fere a si mesmo até a morte. Então, ele é imune às feridas. Não se pode derrotar um homem que já aceitou a derrota; não se pode quebrar o quebrantado, não pode matar um homem que escolheu morrer, ele agora é imortal. Buda viu que o fim da vida era morte e isto pararia ali, Jesus viu que o começo da vida era morte, e não parou mas foi para uma manhã de páscoa.

Eu vi um muito infeliz e raivoso pássaro batendo por horas contra uma janela, lutando com o seu reflexo. Então, ele, de repente, parou, ouviu e pareceu ouvir um chamado das portasm deixando de lutar com si mesmo e voou longe. Depois de um tempo, eu o ouvi cantando num jardim. Jesus vem ao homem que está lutando consigo e com os outros, cheio de choques e confusão, e em palavras, "Imortal e feliz é o homem que renunciou em espírito" dá a eles o chamado para a vida completa. Eles ouvem, deixam a si mesmos para entrar numa vida mais ampla e então, no jardim do paraíso restaurado, eu escuto eles cantarem. 

Deissmann diz do costume em voga que no tempo de São Paulo, a manumissão de um escravo através do rito solene de sua compra  por um e depois contra todo o mundo para sair...templo livre, vender ele para o deus, e recebido do templo, o dinheiro da compra que o escravo tinha depositado previamente ali a partir de suas economias. O escravo então se tornava propriedade do deus, mas contra o mundo ele era um homem livre ( Saint Paul, p. 141). Isto é algo que Jesus quis dizer quando perguntou aos homens, que escravizaram a si mesmos, para venderem-se a Deus, então contra todo o mundo, ficarem como homens livres. 

O empreendimento do homem moderno é encontrar um ajuste. Mas, normalmente ajustam a si mesmo completamente para o universo material que  se tornam mais uma peça, e no fim se tornam um pedaço de um mero mecanismo. As primeiras palavras de Jesus, foi para sairmos deste ajuste num  nível, encontrar um ajuste maior num nível maior. Ali encontrará a vida real. O fim da renúncia em espírito não é renúncia, mas receptividade: Deles é o reino dos céus ou deles é a vida. A auto-renúncia termina na auto-realização.

Tudo pertence  ao homem que busca nada. Tendo nada, ele possui todas as coisas na vida, incluindo a vida em si. Nada vai ser negado para o homem que nega a si mesmo. Tenho escolher ser totalmente sollitário, ele agora toma posse do fato social do universo, o reino de Deus. Religião é o que o homem faz em sua solidão, diz Whitehead. Eu poderia dizer, ao invés, que a real religião começa quando um homem decide ser mais solitário, decide se retirar completamente, não quer nada do mundo do homem ou da matéria.  Ele tem Deus. Isto é suficiente. Agora, ele está pronto para voltar para o mundo. Ele é limpo dos desejos, e com um novo motivo. Este desapego é necessário para um novo anexo. Asceticismo é aqui afim de um asceticismo e ambos em busca de uma nova aceitação do mundo. A vida mais completa e plena vem de uma vida completamente vazia, uma manhã de páscoa vem do Calvário.

"Out of the deep a shadow,
Then a spark;
Out of the cloud a silence,
Then a lark;
Out of the heart a rapture,
Then a pain;
Out of the dead cold ashes
Life again!"
But this attitude of renunciation needs correction.
The fact is that every virtue needs
correction by its opposite virtue. In the tropical
forests of the East Indies is a flower which if
taken by itself smells putrid, but mingled with
the other scents of the forest smells pleasant.
Many a virtue taken by itself smells bad! We
have seen good people who were anything but
attractive, for their virtues were uncorrected
by opposite virtues. Eenunciation in spirit ends
in barren asceticism unless it is corrected and
supplemented by world-participation. Jesus, in
his amazing balance, provided that each of the
virtues laid down in the Beatitudes was to be
corrected by its opposite virtue. But lie went
further than that, for virtues may thus cancel
each other instead of combining in a higher
third. He saw that they combined into a higher
virtue which, summed up the best in each. Hence
the Beatitudes go together, not in pairs, but in
groups of three. This reminds us of Hegel's dictum
that thought moves through three stages:

thesis, antithesis, and synthesis. We find these

quarta-feira, fevereiro 19, 2020

E. STANLEY JONES: O ALVO DA VIDA HUMANA


Capítulo 2



O ALVO DA VIDA HUMANA.



A maioria de nós olha para o Sermão do Monte como uma série de exortações éticas desconectas ou, no melhor dos casos, pobremente conectadas. Isto, parece para mim, perder seu ponto e seu propósito. Ele tem um centro, e o Sermão todo gira em torno deste centro, então, ele é todo coordenado. O centro é a afirmação surpreendente: “Sede perfeitos, como o vosso Pai Celestial é perfeito”. Em torno disto como ideia central, o Sermão gira como um pivô.



O Sermão naturalmente desagua em seis grandes divisões:



I.                    O ALVO DA VIDA: Ser perfeito ou completo como o Pai nos Céus é perfeito e completo ( 5:48)

a.      As vinte e sete marcas desta vida perfeita (5:1-47)



II.                  Um diagnostico da razão pela qual o homem não alcança ou não se move em direção a este objetivo: Personalidade Dividida (6:1-6)



III.               A oferta divina de uma moral adequada e reforço espiritual para que os homens prossigam neste objetivo: o Espírito Santo para eles quando o pedem (7:7-11) ]



IV.               Depois fazer a oferta divina, ele reúne e enfatiza em duas sentenças nossa parte para alcançarmos este alvo.  Para os outros, devemos fazer como gostaríamos que fizessem para nós (7:12); para nós mesmos, devemos perder a nós mesmos quando entramos pela porta estreita (7:13).



V.                 O teste para saber se estamos nos movendo em direção ao alvo? Ou, se esta Vida Divina está operando em nós: pelos seus frutos (7:15-23).



VI.               O valor de sobrevivência desta nova vida e falta de valor de sobrevivência de uma vida vivida de qualquer outra forma: a casa fundada na rocha e a casa fundada na areia (7:24-27).





Precisamos, e precisamos desesperadamente, de uma redefinição do que é o objetivo da vida. Se estivermos aptos par ter uma adequada filosofia de vida, devemos estar certos sobre o que desejamos acima de tudo. Devemos ver o alvo se quisermos trilhar o caminho para ele com algum grau de confiança. Mas, o alvo da vida na Cristandade é muito nebuloso e incerto. É geralmente é dado como certo que o alvo é chegar no céu. Nossos hinos expressam nossos anseios mais profundos.  Dirija através deles e note a proporção deles que terminam no ultimo verso com alguma menção sobre o céu. Um hindu, funcionário do governo de alta reputação, certa vez, observou diante de um público muito inteligente: “Agora, os hindus depois de elaborar seu destino através de muitos renascimentos tem como seu primeiro alvo a união com o Divino. Vocês, cristãos, depois desta vida tem o céu concedido a você como recompensa por seguir a Cristo.  Por favor, amplie suas medidas”. Eu me achei contorcendo internamente sobre sua declaração do que se toma por certo como o alvo cristão. Isto me parece barato e moralmente mau colocar como nosso alvo de vida, o céu dado em recompensa por um serviço fiel, juntamente com o majestoso sistema de karma em que o homem trabalha seu destino através de incontáveis renascimentos como resultado do que ele fez e é.

Contudo, contorcidos como podemos, explicado como podemos, não deixa de ser verdade que o céu concedido e o inferno imposto estão no campo da mente da Cristandade como o objetivo final. Eu não quero pretender afirmar que toda a Cristandade afirma esta visão, mas eu acredito que nas mentes da maioria, esta visão tem lugar. Eu digo “na mente da Cristandade”, para quando eu volto para o Novo Testamento para encontrar o que é seu objetivo, e vejo algo distinto. Seu objetivo é que o homem seja perfeito como o Pai nos céus é perfeito. Esta não é uma declaração isolada contida no Sermão do Monte. Ela é o tema do Novo Testamento.

A não ser pelo livro das Revelações, que deixamos de lado por um instante, o Novo Testamento fala trinta e três vezes sobre a perfeição como alvo. Ele menciona o céu, doze vezes como um lugar que o homem vai depois daqui. Não estou incluindo nesta conta, o reino dos céus, que, claramente, não deve ser identificado com céu como um lugar, já que em uma de suas frases, ao menos, se diz que o reino dos céus está entre vós. Mas, em nenhuma das doze vezes é dita que o paraíso é o alvo da vida. O céu é estabelecido como a estrutura para algo mais importante em seu centro, que a coisa central é a perfeição de caráter como o Pai dos céus é perfeito. O céu é um subproduto do ser aperfeiçoado. Volte aos trinta e três lugares onde a perfeição é mencionada e encontrará que isto não é marginal e incidental, mas central e enfático. Veja alguns exemplos: “E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo”.(Ef. 4:11-13). Aqui, o fim do trabalho do apostolo, do profeta, do evangelista, do pastor  e do ensinador é produzir um homem perfeito- perfeito,  não sem qualquer padrão, mas na medida  da estatura da plenitude de Cristo. No Sermão do Monte, sermos perfeitos como o Pai é perfeito  e aqui sermos perfeitos de acordo com a estatura de Cristo, mas como são um, o alvo é o mesmo. Jesus em outro lugar colocou o alvo nestas palavras: “O discípulo não é superior a seu mestre, mas todo o que for perfeito será como o seu mestre”. (Lucas 6:40)

Paulo diz novamente: “Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus”. (Fp 3:12-14). Qual seria este prêmio? O prêmio evidentemente era que ele seja perfeito e por nada menos que sito que ele estava correndo ou  confiando em Cristo. De novo: “A quem anunciamos, admoestando a todo o homem, e ensinando a todo o homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo o homem perfeito em Jesus Cristo; E para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente”(Colossenses 1:28,29). O fim do trabalho de Paulo  não era que seus convertidos obtivessem o céu, mas que cada homem pudesse ser perfeito. Quando Jesus diz para o jovem rico, Jesus respondeu: "Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me". (Mateus 19:21)  Ele não quis dizer que a venda de tudo o faria perfeito, mas  que isso eliminaria os obstáculos  e o colocaria seus pés no caminho da perfeição.

O ideal da perfeição da personalidade humana disposto no Novo Testamento até o livro de Apocalipse foi escrito. Ele foi descrito num período de perseguição e cristãos viam o céu como uma libertação.  Desde então, a ênfase tem sido mudada e céu e inferno agora tomam conta do campo. É mais barato e mais fácil. Não quero dizer que no Livro do Apocalipse não há uma nota de redenção de um caráter moral. Existe sim. Mas, os homens acharam mais fácil tomar a estrutura de um céu lá fora que é retratado do que o fato de uma perfeição interna de caráter que é o centro deste céu. A ênfase do Novo Testamento deve ser restaurada.  Porque se o alvo do cristão é nada menos que a perfeição moral e espiritual individual do caráter então eu posso endireitar meus ombros  e olhar para o mundo cheio de pessoas pensativas diretamente nos ohos, pois meu objetivo não é moralmente barato e nem ruim. Ele é um alvo que posso moralmente respeitar  com todo o meu coração.  Não sei nada melhor.

 Além disso, este objetivo na vida esta alinhado com o desenvolvimento que acontece  na natureza, que parece, nas palavras de Tagore, "levanta as mãos  fortemente  rumo à  perfeição ".

Entretanto, a palavra  perfeição nos deixa um pouco envergonhados. Parecendo  ser algo muito fechado e terminado.  Talvez a concepção de uma vida completa deveria nos fazer menos hesitante que a vida perfeita.  Mas, para ter a concepção do Novo Testamento devemos saber o que é  a vida completa.

O objetivo  final de cada sistemas poderia ser os colocados aqui:

Judaísmo : permanecer  na Casa do Senhor para sempre, assim Jeová o recompensara.


Hinduismo: deve se emergir no Impessoal, mesmo em Brahma, o impessoal. 

budismo:  deve estar na fronteira  entre o Ser e o Nao-Ser mesmo o Nirvana  é  um Ser e Não-Ser.


Islã : deve ter o paraíso de prazer que o próprio  Allah, o todo poderoso  deseja.

Gregos: deve estar entre  os deuses e ser feliz, mesmo porque os deuses são brilhantes e sensualmente felizes.

Humanismo: deve deixar de existir, mesmo porque  todas as coisas devem findar em dissolução.

Cristo: deve ser perfeita como o pai no Deus é perfeito.

Este alvo que Cristo coloca diante de nós é  o  único que não precisamos  nossa desculpar.  Ele diz para o humanista que ele deve ir além do humanismo em sua afirmação dos valores humanos.  Ele afirma que o homem busca perfeição . Isso faz do humanismo com sua pequena  visão do destino final do homem parecer não-humanismo. Isso coloca valor e dignidade e sentido dentro da personalidade  humana.  Um Deus completo e um homem completo devem estar no mesmo universo. Seu alvo não é  uma negação mas uma poderosa afirmação.  O essencial deve ser perfeito. O  Oriente não é  apenas um cinismo do mundo, é  uma personalidade  cínica.  Seu comportamento não é  apenas ficar livre do mundo mas também ficar livre da personalidade seja no Nirvana ou seja no Brahma.  Assim, o mundo é  nada e os valores morais não tem um significado final para qual eles possam pertencer e isso será descartado  na versão final. Por outro lado, o evangelho afirma o mundo e afirma a moralidade porque ele afirma a personalidade.  Jesus disse: "quem quiser salvar sua própria vida  perder-la-à mas quem perder por amor do meu nome, salva-la-à". A personalidade  é  finalmente afirmada, ela salva viva. Budismo  salva se estiver morta. Hinduismo salva ela na perda de sua identidade em Deus.  Somente o evangelho a salva quando viva.

Mais do que isso,  se somos para sermos perfeitos como o Pai nos céus é perfeito, então as mesmas leis morais que governam o agir de Deus deve governar o nosso. Em outras palavras, as leis morais não estão enraizadas na mudança de costumes dos homens, mas elas estão fincadas na própria natureza do Divino.  Isto nos dá um universo moral estável e isto significa que as distinções morais tem um significado último.  Elas não são lunáticas, para Deus não são lunáticas. Elas são confiáveis e ordenadas. Eu posso ter um respeito moral por um Deus que vai agir em tudo que ele requer do homem. O universo é, então, todo uma peça disto é um universo e não um multiverso.

"Tudo que Deus requer de mim, 
Eu sei que Ele em si mesmo é"

Aqui está a diferença essencial entre o evangelho e os outros modos de vida; Hinduísmo e Budismo baseiam suas éticas na lei do karma, que é independente de Deus; o Islã baseia sua moralidade na vontade de Deus, Cristo baseia isto na natureza e essência de Deus. Estas leis morais são a própria expressão de seu ser e pede ao homem nada que ele mesmo não praticou. Emerson coloca nestas palavras: 

"Não seja meu olhar onde os querubins e os serafins não podem ver,
Mas, nada pode ser bom nele que seja mal em mim"

Um pensativo editor hindu resumiu isto  para mim desta maneira: "Hinduismo é Deus sem moralidade. Budismo é moralidade sem Deus. Cristianismo é Deus com moralidade". 

Isto tem sido sugerido que o Sermão do Monte veio de fontes budistas, mas isto negligencia a essencial diferença entre dois conceitos de moralidade, um que está baseado numa lei impessoal do karma, que não tem qualquer conhecimento de qualquer Deus,  e outro que baseia na natureza e essência própria de Deus. Além disso, em um, a personalidade é finalmente perdida e noutro, a personalidade é afirmada e aperfeiçoada como Deus é perfeito.  As diferenças são muito maiores que as concordâncias.
Muitos que pensaram sobre a perfeição cristã como Wesley, em busca de trazer a perfeição para dentro das fronteiras desta vida, ensinaram que a perfeição falada no Sermão do Monte diz respeito a perfeição em amor e não no caráter ou na conduta. Certamente, a perfeição falada aqui inclui perfeição no amor como seu começo e base e isto pode ser encontrado com as fronteiras desta vida, mas se isto é tudo, então a perfeição não é perfeita o suficiente. Para haver a perfeição no amor, por vezes, é reivindicado junto uma grande imperfeição no caráter e na conduta. Não, a perfeição mencionada mencionada aqui é muito mais abrangente pois devemos ser perfeitos como o Pai nos céus é perfeito, não, claro, na infinitude e quantidade, mas certamente na qualidade. Isto visualiza algo que, enquanto isto começa nesta vida, não pode ser confinada ou pode ser completada com as fronteiras desta vida, mas deixa aberto a possibilidade de eras de crescimento e desenvolvimento.  Um céu em que  de eras de crescimento em perfeição deve  ser um céu que vale a pena. 

Se a perfeição e não o prazer é objetivo, então este universo tem de ser um universo de disciplina, de dor, mesmo de dureza. Eu preciso deste tipo de escola se minha graduação signifca que "Genius é desenvolvido na solitude, mas o caráter é feito na corrente da vida" em meio a bufês e bençãos. Eu aceito o curriculum desta escola, porque acredito que sairá um caráter. Uma das grandes necessidades da vida religiosa moderna na Cristandade é disciplina.  Ela tem sido, de todo, muito barata e fácil. O alvo da perfeição deveria ser colocar esta muito necessária disciplina dentro da vida cristã. 

Seja vós, então, perfeitos como o Pai nos céus é perfeito, que alvo para a vida humana! que profundidade e dignidade e sentido que isto coloca dentro da vida! "Eu sou um girino  de um arcanjo" clamou alguém. Mas, eu sou mais: eu sou o embrião  do homem que é para ser perfeito como o Pai é perfeito. Logo, nada vai me parar. Não posso demorar pelo esquecimento. Ó, pequenez, não ponha cãibra, as mãos em mim, porque fui feito para a grandeza; carne, não me prenda, pois estou indo para um alto destino. Ó mundo, me ensina, mas não me enreda, pois o perfeito me chama. E eu devo ir.