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terça-feira, junho 04, 2013

Lendo Gênesis a partir de Como Ler Gênesis de Tremper Longman III





Como ler Gênesis,  Tremper Longman III, Edições Vida Nova, 2009.


O livro é uma introdução ao livro de Genesis  e está dividido em cinco partes, Lendo Gênesis: como uma estratégia, como literatura, em seu próprio mundo, como relato de Deus e como cristãos.

1.      Lendo como estratégia.

A primeira parte se concentra em descobrir a intenção do autor humano, nunca esquecendo que o livro de Gênesis faz parte do canon bíblico. Então, a primeira parte apresentará os princípios de interpretação, buscando entender o livro das origens: reconhecendo a natureza literária do livro de Genesis, seu contexto histórico, seu ensino teológico e sua situação social e global. No final deste primeiro capitulo, o autor coloca uma serie de questões que analisam os princípios de interpretação do livro bíblico.

2.      Lendo como literatura.

A segunda parte vai pensar o livro como literatura, em especial, vai buscar sua autoria (capitulo 2) e sua formatação (capitulo 3). Em relação ao autor do livro, a questão é se Moisés o escreveu ou não. Apesar de a própria Escritura se referir a autoria mosaica, como vemos em 2Cr 25:4, Ne 13:1, esta passou a ser confrontada pela metodologia histórico-critica.

Para Airton Barboza e para grande parte da academia, o primeiro a questionar a autoria mosaica foi o filósofo Baruch de Spinoza (1632-1677 d.C.), no seu Tratado Teológico Político de 1670.

“Para Spinoza, a autoridade da Bíblia não poderia residir em afirmações a priori. Estabelece-la cpomo verdade e divina em base confessionais não provam suas prerrogativas. Assim, a Bíblia passou a ser olhada de uma maneira nova, não mais como um texto divino estabelecido, mas como um texto recebido e que deve, pelo estudo manifestar se é ou não, Escritura Sagrada”
(BARBOZA, Airton Williams Vasconcelos – O MITO E A HISTÓRIA NA CRIAÇÃO: Uma analise literária de Genesis 1:1-2:3 São Paulo: Fonte Editoral,2010, p. 46)

Michael Della Rocca em seu livro sobre Spinoza, explica que o filosofo judeu foi influenciado pelo estudioso judeu, o rabi Ibn Ezra (1089-1164 d.C.) que é citado expressamente no capítulo 8 do Tratactus Theologico-politicus:

“In order to treat the subject methodically, I will begin with the received opinions concerning the true authors of the sacred books, and in the first place, speak of the author of the Pentateuch, who is almost universally supposed to have been Moses. The Pharisees are so firmly convinced of his identity, that they account as a heretic anyone who differs from them on the subject. Wherefore, Aben Ezra, a man of enlightened intelligence, and no small learning, who was the first, so far as I know, to treat of this opinion, dared not express his meaning openly, but confined himself to dark hints which I shall not scruple to elucidate, thus throwing full light on the subject.”
(CHAPTER VIII.: of the authorship of the pentateuch and the other historical books of the old testament. - Benedict de Spinoza, The Chief Works of Benedict de Spinoza, vol 1 (Tractatus-Theologico-Politicus, Tractatus Politicus) [1670] (capturado em 4.6.2013 em http://oll.libertyfund.org/?option=com_staticxt&staticfile=show.php%3Ftitle=1710&chapter=202641&layout=html&Itemid=27)


Outros que tiveram grande impacto no pensamento spinozano são: o calvinista francês Isaac La Peyere (1594-1676 d.C.) e o quacker inglês Samuel Fisher (1605-1665 d.C.), estes dois questionavam já inerrância do texto bíblico e ensinavam em Armsterdã. (DELLA ROCCA, Michael SPINOZA New York, Routlegde,2008, p. 244)

Entre os textos que não poderiam ter sido escritos por Moisés, estão o registro de sua morte em Dt 34, há outros exemplos de fatos posteriores, como os caldeus em Gn 11:28, o registro de Laís como Dã em Gn 14:14. Há indícios de uma atividade editorial após a vida de Moisés.

Há a hipótese de uma autoria múltipla, tanto como editores posteriores como fontes múltiplas para a composição.  Ai, se soma o uso de diferentes nomes divinos, o emprego de dois ou mais nomes distintos para designar as mesmas pessoas, tribos ou lugares. A existência de duplos e de teologias diferentes. Nisto, está baseada a hipótese documental de Joannes Astruc, Julius Welhausen e Karl Heirinch Graf, se identifica quatro fontes para o texto:

·         J (Javista): escrita no Reino de Judá entre 950-850 a.C.
·         E (Eloísta): escrita entre 750-700 a.C. no Reino do Norte.
·         D (deuteronomista): confeccionada  no início do séc. VII a.C. durante o reinado de Josias.
·         P (priest/ sacerdotal): realizada em 550 a.C.


Em resposta a esta hipótese, Temper Longman III diz que devemos ter três princípios para a leitura, conforme pagina 65: 1. Moisés teve uma ligação basilar com a produção do livro de Genesis e o Pentateuco. 2. Ele empregou fontes, orais e escritas, que vinham de uma época anterior e 3. Não é possível separar materiais pré-mosaicos, mosaicos ou posteriores.

Airton Barboza coloca outras questões em favor da autoria mosaica como a familiaridade com o contexto egípcio mais do que com os monarcas palestinos, o texto inicial ser feito em oposição aos mitos egípcios.

“É a um povo misto em sua composição, mas essencialmente ligado à história formativa das 12 tribos oriundas de Jacó, eleitas e formadas pela promessa e pelo pacto firmado entre Deus e Abraão (Gn 12:1-3, 17:1-8), que a narrativa de Gn 1:1-2:3 se destina dentro do desenvolvimento conceitual e teológico da identidade desta nação à luz do seu mundo e de sua relação com o Deus libertador, Yahweh” (BARBOZA, p. 142).


A estrutura do livro de Gênesis é identificada a partir do modelo dos toledot (gerações), sendo a palavra um substantivo feminino, plural, construto que aparece dez vezes no livro (2:4, 5:1,6:9, 10:1,11:10, 11:27, 25:12, 25:19, 36:1(36:9) e 37:2).  Este recurso proporciona ao livro uma unidade e uma progressão geracional.
“Uma toledot expõe primordialmente aquilo que procede da(s) personagem(ens) da(s) qual(ais) ela recebe o nome. A estrutura da toledot de Gênesis começa universalmente com a criação geral, afunila para toda a humanidade e se estreita ainda mais para uma única família e nação: Abraão, Jacó e Israel. Genesis, com a sua estrutura em toledot, destaca o numero dez, o da plenitude, e numero sete, o da perfeição ou completude”  (GREIDANUS, Sidney  Pregando Cristo a Partir de Gênesis São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009, p.34)

Outra classificação, seria a divisão em duas seções: a história primeva (até 11:26) e o restante do livro, cobriria a história de Abraão e sua descendência, sendo esta dividida em narrativas patriarcais (12-36) e a história de José (37-50).

O estilo literário de Gênesis é o da prosa, com trechos poéticos, paralelismo, quiasma e paranomásia.

3.      Lendo em seu próprio mundo.
A terceira parte do livro vai estudar o contexto cultural-histórico de Genesis.
Começa no capitulo quatro com uma comparação entre o Gênesis e o Enuma Elish, especialmente o texto dos dois primeiros capítulos sobre a cosmogênese.
“O Enuma Elish descreve como Marduque criou o cosmo a partir do corpo de Tiamat (o mar). O mito de Baal presumivelmente seguiu esse modelo com Baal criando o mundo a partir de Yam (que também é o mar), ao passo que nos mitos egípcios a elevação ou montículo primevo emana de Nun, que são as aguas primevas” (LONGMAN III, p. 89)
O relato bíblico da criação em relação ao Enuma elish, apresenta a distinção do monoteísmo, do único Deus criador sem oposição, o conflito que acontece no mundo não advém das divindades, mas da própria escolha humana (Gn 3).
Sobre a influência dos vizinhos no texto bíblico, Airton Barboza responde que:
Se Israel não produziu literatura mítica por causa do caráter monoteísta de sua fé, este mesmo caráter teria influído no sentido de não permitir que se tomasse alguma coisa da cultura pagã em sua volta que fosse ofensiva ao caráter do seu Deus. De forma geral, é inconcebível que os profetas e poetas de Israel tencionassem buscar apoio para sua visão nas obras mitológicas pagãs, as quais eles indubitavelmente detestavam e abominavam” (BARBOZA, p. 128)
Aqui, também há a questão do dialogismo e da interdiscursividade. Para os liberais, trata-se da apropriação e descolamento dos escritos babilônicos no exilio realizado pela fontes documentais, para a ala conservadora, que atribui a autoria mosaica, o ambiente (Sitz in Lebem) é o Egito.
“Por Sitz im Lebem, portanto, não se entende o ambiente histórico, politico, social ou econômico no qual o texto foi composto, e sim uma situação padrão ou regular que motiva o surgimento dos gêneros literários. Não se trata de um evento histórico isolado, e sim de uma atividade generalizada e exercida em circunstancias típicas, uma experiência partilhada e, a principio, repetível” (Cassio Murilo Dias da Silva in BARBOZA, p.135)
Há uma interdiscursividade em Genesis, na contraposição do relato hebreu aos seus vizinhos em relação a cosmogonia, funcionalidade, soberania divina e antropologia que refletem na distinção de Deus e do próprio homem em relação às culturas circunvizinhas.
Um bom argumento a favor da diferenciação são os três eixos da estrutura ética no Antigo Testamento elaborado por Christopher J.H.Wright que diz:
“A mensagem de redenção de Deus por intermédio de Israel não foi simplesmente verbal, foi visível e tangível. Os próprios israelitas, como agentes, eram parte da mensagem”. (WRIGHT, Christopher J.H. O Povo, Terra E Deus, São Paulo: Abu Editora,1991, p.41)
No capítulo 5, Tremper Longman III faz uma comparação entre a historia dos sobreviventes Noé e o Utnapishtim. Este é contado nos três relatos sobre o diluvio deixados na Mesopotâmia: o Eridu, o Gilgamesh e Atrahasis.
No capítulo 6, há outra comparação entre Abraão e Nuzi. A primeira coisa que ele busca é datar a vida de Abraão e dos patriarcas, chega ao período de 2100- 1500 a.C. A partir de 1Reis 6:1:  E sucedeu que, no ano quatrocentos e oitenta, depois de saírem os filhos de Israel do Egito, no ano quarto do reinado de Salomão sobre Israel, no mês de zive (este é o mês segundo), Salomão começou a edificar a Casa do SENHOR. Tremper Longman III chega a data de 2166 a.C. para o nascimento de Abraão, em 2091 a.C. sua chegada à Palestina.
A datação é importante devido ao achamento no outeiro de Nuzi,nordeste do Iraque, de uma historia que apresenta semelhanças com o patriarca judeu tais como a adoção de um escravo para ser o herdeiro, o casamento com sua “irmã”, o direito de vender os direitos de primogenitura (LONGMAN III, p. 109). Nuzi fornece um paralelo a um costume patriarcal, não pode ser lido como fonte assim como os outros mitos já citados, contudo:
“Aqui estamos examinando a vida dos patriarcas em contraste com o pano de fundo de material cronologicamente relevante. Nosso objetivo é aferir se tais descrições dão a impressão de serem autenticas. A pressuposição é que, se os patriarcas foram pessoas de carne e osso, então, agiram como seus contemporâneos. Nossa conclusão é afirmativa. Embora, no passado, tenha havido exagero na identificação de semelhanças, o que na atualidade sabemos estimula a ideia de que os patriarcas são descritos de modo a estarem em consonância com os que viveram naquele tempo” (LONGMAN III, p. 115)

4.      Lendo como relato de Deus.
Em sua penúltima parte, vai ler Gênesis como um relato divino, a historia do relacionamento entre Deus e sua criação, em especial, os homens. Ele volta à divisão entre história primeva, dos patriarcas e de José.
Uma curiosidade é que o período coberto pela história primeva até Abraão é mais longo que o pai da fé até os dias de hoje.
“A narrativa bíblica apresenta o Deus verdadeiro, santo e onipotente. O Criador existe antes da criação e é independente do mundo. Deus fala e os elementos passam a existir. A obra divina é boa, justa e completa. Depois que a família humana se rebela, Deus tempera seu julgamento com misericórdia. Mesmo quando um relato possui elementos em comum com formas  de pensamento de culturas circunvizinhas, a natureza distintiva do Criador brilha através da narrativa”
(LASOR, William S.,HUBBARD, David A. e BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento Sao Paulo: Edições Vida Nova, 2009, p.23)
Genesis 1-2: a criação.
Há tradicionalmente a divisão do trecho em duas pericopes, a primeira vai de Gn 1-2:4a e a segunda do 2:4b até final do capítulo segundo.
Há uma controversa sobre final da primeira pericope, para Airton Barboza, seria mais consistente que ela terminasse em 2:3: porque a parte b se constitui o objeto da parte a do verso 4 do capítulo 2. Outra razão é por causa da estrutura do toledot que aparece no verso 2:4, que abre uma nova seção ali passando a falar das descendências citadas anteriormente (BARBOZA, p. 171)
Qual é a natureza literária do texto de Gn1:1-2:3?
A interpretação mitológica surgiu com Robert Lowth, em sua obra De Sacra Poesi Hebraeorum (1753) Seguido de C.G. Heyne, J.G. Eichorn,  J.P. Glaber e G. Bauer.
Porque o texto não é um mito? Porque, segundo Barboza, Israel nunca produziu uma literatura mítica, os textos bíblicos não se parecem aos mitos em sua estrutura formal, há uma fusão de prosa e poesia, mas o texto não apresenta nem as características principais da poesia hebraica (parallelismus membrorum, métrica e linguagem figurada).
“A historiografia israelita é um querigma ideológico, fruto da sua  experiência religiosa, que se transmite por meio de narrativas descritivas dos eventos fundantes de sua fé monoteísta e pactual. Todavia, como historia ideológica, portadora de uma proclamação salvifica, é equivocado concluir que tais narrativas não se fundamentem em historias verdadeiras, uma vez que por trás dos eventos descritos existiu todo um trabalho seletivo na composição orgânica do relato” (BARBOZA,p.123)
A tradição tende a ler o texto como uma criação ex nihilo, como os textos de Hb 11:3 e Ap. 4:11. Tremper Longman III diz que o texto de Gênesis 1:1 não é definitivo a respeito. A primeira coisa a ser criada seria a própria matéria que era sem forma e vazia.
Existe um paralelismo narrativo:
“Os três primeiros dias descrevem a criação das esferas de habitações. Os três seguintes narram a criação dos moradores dessas esferas, de modo que as esferas criadas no dia um (luz, trevas) são preenchidas no dia quatro (sol, lua, estrelas), as do dia dois (céu, agua) são preenchidas no dia cinco (aves, peixes), e as do dia três (terra) são preenchidas no dia seis (animais terrestres, seres humanos)” (LONGMAN III, p. 127)


Genesis 3: a tragédia da queda.
A melhor interpretação para o ato de comer do fruto proibido é o da afirmação da autonomia moral. “O padrão narra (1) um pecado, seguindo de (2) uma fala de juízo vinda da parte de Deus. No entanto, antes de (4) Deus executar o juízo, ele (3) lhes dá um sinal de sua graça” (LONGMAN III,p.139)
Na Introdução ao Antigo Testamento,  Longman III e Dillard, colocam uma tabela sistemática deste padrão:
Pecado: 3:6, 4:8, 6:2. 6:5, 11ss e 11:4
Sentença: 3:14-19, 4:11-12, 6:3, 6:7,13-21 e 11:6ss
Mitigação: 3:21, 4:15, 6:8,18ss, 6:8.18ss e 10:1-32
Castigo: 3:22-24, 4:16, 7:6-24, 7:6-24 e 11:8
(DIILARD, Raymond B. e LONGMAN III, Introdução ao Antigo Testamento, Sao Paulo: Edições Vida Nova, p. 53)
Aqui está a base da cosmovisão cristã: a criação, a queda, a rendenção e a consumação. Todo o texto bíblico está conectado a este começo na progressão histórico-redentora.
A seguir, há uma interpretação da historia de Caim e Abel, Noé e o diluvio e a torre de Babel.
“Em Gênesis 1-11 somos apresentados ao tema central do livro e, alias, um que permeia todas as Escrituras: a bênção de Deus sobre suas criaturas humanas. Não é a mera existência, mas uma vida abundante que se leva na própria presença de Deus. Essa condição abençoada é caracterizada pela vida de Adao e Eva no jardim. Entretanto, a rebelião humana perturbou o relacionamento da humanidade com Deus. Assim mesmo, desde lá no início (Gn 3:15), com sua graça, Deus busca os seres humanos. Ele deseja restaurar o relacionamento com eles e voltar a abençoá-los plenamente” (LONGMAN III, p.152)
O capítulo 8 irá tratar das narrativas patriarcais, sendo os três homens Abraão, Isaque e Jacó que Deus usa para renovar a visão de Genesis 1 e 2 e estabelecer um povo dedicado ao seu serviço.
Seguindo a linha dos toledot, chega-se ao ultimo de Genesis, o de Jacó (37:2), os capítulos 37 a 50 contarão a história dos filhos de Jacó, em especial, José. Lembre-se a narrativa mosaica é para o povo que saiu cativo do Egito, por isto, tantos capítulos dedicados a José.

5.      Lendo Gênesis como cristão.
A ultima parte do livro está colocada na diferença cristológica. Tremper Longman III faz um relato das aparições do evangelho no livro de Gênesis, a partir da historia rendentora:
1.      3:15: o protoevangelho.
2.      12:1-3: a semente de Abraão
3.      14:17-20: Melquisedeque
4.      37-50: José e Jesus.
Há um uso de Gênesis no novo testamento, de forma literal e histórica, como podemos ver o apostolo Paulo em Romanos 5.
Para Greidanus, há algumas maneiras de se pregar a Cristo no texto mosaico: a progressão histórico-redentora, promessa-cumprimento, tipologia, analogia, temas longitudinais, referências no Novo Testamento e contraste.
A unidade da historia redentora implica a natureza cristocêntrica de cada texto histórico. A historia redentora é a historia de Cristo. Ele permanece no seu centro, e não menos no seu inicio e seu fim...A Escritura desvenda o tema e a amplitude de sua historiografia logo no começo, Gn 3.15 Van´t Veer diz,`coloca todos os eventos subseqüentes sob a luz da tremenda batalha entre Cristo nascido no mundo e Satanas, o príncipe deste mundo, e isso situa todos os acontecimentos à luz da vitória completa que a semente da mulher alcançará. À vista disso, torna-se imperativo que nem uma única pessoa fique isolada desta historia e se mantenha a parte dessa grande batalha. O lugar de ambos oponentes e colaboradores só pode ser determinado cristo logicamente. Apenas no que concerne aos que receberam seu lugar e tarefa no desenvolvimento desta história é que aparecem na historiografia da Escritura. Desse ponto de vista, os fatos são selecionados e registrados
(CHAPEL, Brian Pregação Cristocentrica São Paulo: Editora Cultura Cristã, p. 317.)


Jesus é o verdadeiro e melhor Adão, que passou pelo teste no jardim e cuja obediência é imputada a nós. Jesus é o verdadeiro e melhor Abel que, apesar de inocentemente morto, possui o sangue que clama, não para nossa condenação, mas pela absolvição.Jesus é o verdadeiro e melhor Abraão que respondeu ao chamado de Deus para deixar todo o conforto ea família e saiu para o vazio sem saber para onde ia, para criar um novo povo de Deus.Jesus é o verdadeiro e melhor Isaque, que foi não somente oferecido pelo Seu Pai no monte, mas foi verdadeiramente sacrificado por nós. E quando Deus disse a Abraão: "Agora eu sei que você me ama, porque você não poupou o seu filho, teu único filho a quem você ama de mim," agora podemos olhar para Deus levando Seu Filho até a montanha e sacrificá-lo e dizer: "Agora sabemos que nos ama, porque você não poupou o seu filho, teu único filho, a quem você ama de nós."Jesus é o verdadeiro e melhor Jacó que lutou e sofreu o golpe de justiça que merecemos, por isso, como Jacó, só recebêssemos as feridas da graça para nos despertar e disciplinar.Jesus é o verdadeiro e melhor José que, na mão direita do rei, perdoa àqueles que o venderam e traíram e usa seu novo poder para salvá-los.Jesus é o verdadeiro e melhor Moisés que se põe na brecha entre o povo e Deus e que é mediador de uma nova aliança.Jesus é a verdadeira e melhor Rocha de Moisés que, golpeada com a vara da justiça de Deus, agora nos dá água no deserto.Jesus é o verdadeiro e melhor Jó, sofredor verdadeiramente inocente, que então intercede e salva os seus tolos amigos.Jesus é o verdadeiro e melhor Davi, cuja vitória torna-se a vitória do Seu povo, apesar deles nunca terem movido uma única pedra para conquistá-la.Jesus é a verdadeira e melhor Ester que não apenas arriscou deixar um palácio terreno, mas perdeu o definitivo e divino, que não apenas arriscou sua vida, mas deu sua vida para salvar seu povo.Jesus é o verdadeiro e melhor Jonas que foi expulso na tempestade, para que nós pudéssemos ser trazidos para dentroJesus é a verdadeira Rocha de Moisés, o verdadeiro Cordeiro pascal, inocente, perfeito, desamparado, sacrificado para que o anjo da morte vai passar sobre nós. Ele é o verdadeiro templo, o verdadeiro profeta, o verdadeiro sacerdote, o verdadeiro rei, o verdadeiro sacrifício, o verdadeiro cordeiro, a verdadeira luz, o verdadeiro pão.A Bíblia não é realmente sobre você - é sobre ele.

Roy Zuck: Interpretação Bíblica


Interpretação Bíblica – Roy Zuck – Edições Vida Nova, 1994.



Após ter realizado a leitura do livro, eis algumas considerações.

Para Zuck, a hermenêutica é a ciência e a arte de apurar o sentido do texto bíblico. Não pode ser confundida com a exegese ou com a exposição.

Para o autor, somente uma pessoa regenerada pode interpretar a Escritura em sua inteireza de significado, incluindo o espiritual (1Co 2:14). Dado o ministério do Espírito, a hermenêutica é uma tarefa para qualquer cristão.

No primeiro capitulo, o autor faz um histórico da interpretação bíblica desde de Esdras, passando pela tradição judaica, patrística, a reforma, iluminismo, neo-ortodoxia. Zuck tem um axioma duplo: a bíblia é um livro humano como também divino.

Nos capítulos de quatro a seis, o autor tenta transpor três abismos: cultural, gramatico e literário. A partir do capítulo sete até o décimo, o autor começa a analisar os elementos técnicos do texto: as figuras de linguagem, tipologia e simbologia, parábolas e alegorias, profecias.  Nos dois últimos capítulos, ele analisa o emprego do Antigo Testamento no Novo e a aplicação da Palavra para os dias atuais.

O aspecto mais forte do livro é a descrição sistemática que Roy Zuck faz de cada elemento da estrutura de interpretação. Principalmente, a abordagem em relação aos abismos, que são o cronológico, geográfico, cultural, linguístico, literário e sobrenatural.

A transposição dos abismos significa a compreensão do significado original do texto bíblico e a aplicação da mensagem para os ouvintes contemporâneos. Transpor da cultura bíblica para a cultura hodierna, a linguagem da Escritura para a linguagem moderna, o estilo literário bíblico para as formas de comunicação atuais como também as figuras das Sagradas Letras para o significado de hoje, ver como a profecia na Bíblia se realiza como realização do plano divino, o uso da Escritura no Texto Sagrado e o modo como se deve usar hoje em dia.

Seguidor do método histórico-gramatical, há uma recusa de alegoria como também do método histórico-critico.

O aspecto mais fraco do livro é que o autor, por vezes, faz uma abordagem mais pessoal do que geral de certos temas, por exemplo, sua leitura é sempre pautada por sua visão dispensacionalista ou quando ele analisa tipologia, ele concentra seu estudo na tipologia explicita, restringindo o uso do tipo à dezessete ocorrências (p. 209), porque para o autor o tipo deve conter cinco elementos: “uma semelhança ou correspondência visível com o antítipo, realismo histórico tanto da parte do tipo quanto do antítipo, o aspecto da prefiguração ou predição do antítipo, o aspecto de prefiguração ou predição do antítipo, a elevação, que confere superioridade ao antítipo, e o planejamento divino” (p.204) 

O livro é bem fundamentado, há uma amplidão de bibliografia para cada tema. O embasamento bíblico de Zuck sempre segue uma linha histórico-gramatical, há sempre exemplos e aplicações bíblicas para cada tópico estudado como também questões para melhor aprendizado do tema. 

Há uma postura positiva em relação à inerrância bíblica: “a autoridade da Bíblia para determinar o que cremos e nossa forma de viver deriva do fato de ser inerrante. A inerrância, por sua vez, decorre da verdade da inspiração pelo Espírito Santo. Visto que a Bíblia é obra de Deus, possui autoridade intrínseca” (p. 82).

O autor indica outros livros para serem estudados, por exemplo, na pagina 103, há uma lista valiosa de livros para ajudar a entender os costumes bíblicos.

Os pontos mais relevantes para minha vida foi a preocupação com uma sistematização do estudo hermenêutico em etapas, para a busca de um significado do texto bíblico que ultrapasse os abismos culturais, linguísticos, geográficos etc.

Uma nova ideia que aprendi com o texto foi a analise estrutural, a analise estrutural das relações existentes nos elementos contidos no texto bíblico e os modelos estruturais: paralelismo, paralelismo circular, alternação, quiasmo, trilogia e construção acrostica etc. Outro aprendizado foi os cinco passos:  observação, interpretação, aplicação, pratica e avaliação.

Quanto a minha discordância com o autor do livro, acredito que já a apontei na minha opinião a respeito do aspecto mais fraco do livro que achei, que foi sua classificação de tipologia e a influencia do dispensacionalismo em sua construção argumentativa.

Em resposta a isto, acredito que, em se tratando de um livro de introdução, poderia ser apresentados os aspectos hermenêuticos gerais sem uma tomada de decisão sobre qual seguir ou uma tomada em que esteja explicitada a decisão do autor sem que isto deixe de lado a apresentação de outros temas ou posições na questão.  Por exemplo, falta uma apresentação de outros conceitos de tipologia, como a implícita, não há uma apresentação do método histórico-redentivo ou do “sensus plenior”.


quarta-feira, março 27, 2013

Tim Keller: Contextualização Bíblica.

 
Keller utiliza 3 textos para falar sobre a relação entre a bíblia e a cultura, primeiro Romanos 1 e 2 que provê a base da contextualização, embora alguns aspectos da cultura podem ser aceitos, devemos examiná-los a luz das Escrituras. A segunda passagem, 1 Coríntios 9, fala da motivação da contextualização, nos lembrando da flexibilidade e sermos aptos a adaptarmos a mensagem do evangelho. Terceiro, em 1 Coríntios 1, a bíblia nos dá uma formula para a contextualização que equilibra a afirmação e o confronto da cultura.

ROMANOS 1 E 2 E A NATURZA MISTA DA CULTURA.
Toda cultura é um conjunto de bons e maus elementos. Procura responder a certas questões sobre porque estamos aqui? Quais são as coisas mais importantes na vida? O que está errado com o mundo?  Nenhuma cultura é neutra,mesmo que certas posturas não sejam conscientes. Romanos 1 e 2 mostra que todos pecamos e caímos da glória de Deus, tanto judeus como gentios estão perdidos. Os pagãos fizeram da sensualidade, um ídolo,enquanto os judeus fizeram de sua justiça moral, como cada cultura, eles olham para algo além de Deus para justificar e salvar a eles. O texto bíblico coloca que todos os seres humanos possuem um conhecimento primdordial de Deus, como está 2:14-15, há uma revelação geral ou graça comum, um conhecimento não-salvífico de Deus, presente de alguma forma em toda cultura. Este é um conhecimento geral de que existe Deus.
Romanos 1:18-25 nos dá uma visão dinâmica e balanceada de como a revelação geral (ou graça comum) acontece na vida das pessoas. Vemos que a verdade foi suprimida, mas ela continua em nós, a realidade da natureza de Deus e nossa obrigação para com ele continua presente em nós. A revelação geral não são apenas princípios estáticos,  é a insistente pressão da verdade de Deus em nossa consciência.
Cada cultura humana é uma complexa mistura de verdades brilhantes, meia verdades e resistências à verdade. Cada cultura terá um discurso de idolatria com ela. E, ainda assim, cada cultura terá um testemunho da verdade de Deus nela. Deus dá bons dons de sabedoria, talento, beleza, habilidade sem olhar para o mérito, Ele deixa como sementes para enriquecer, abrilhantar e preservar o mundo, sem este entendimento de cultura, cristãos tenderão a pensasr que eles podem viver auto-suficientes, isolados das contribuições daqueles que estão no mundo. Sem uma apreciação da graça de Deus disposta na cultura, cristão poderão lutar para entender porque não-cristãos, por vezes, excedem cristãos em sua prática moral, sabedoria e habilidade. A doutrina do pecado significa que como crentes nunca seremos tão bons como a nossa cosmovisão nos mostra que deveríamos. E ao mesmo tempo, a doutrina da nossa criação como imagem de Deus,  e um entendimento da graça comum, nos lembra que não crentes nunca são tão ruins quanto sua falsa visão de mundo gostaria que fossem.
O relacionamento com a cultura deve ser de um desfrutar crítico e um cuidado apropriado, devemos desfrutar dos insights e a criatividade das pessoas e culturas, reconhecer e celebrar as expressões de justiça, sabedoria, verdade e beleza em cada cultura, contudo, com cuidado, porque aquilo foi distorcido pelo pecado, em particular, o pecado da idolatria.  Todas as culturas contém elementos de luz e trevas.  Tanto culturas tradicionais como liberais.
Um entendimento coerente do evangelho, cristãos são salvos mas pecadores, da imagem de Deus, pessoas estão perdidas mas elas refletem a natureza de Deus, e da graça comum, todas as pessoas suprimiram a verdade sobre Deus, mas elas ainda ouvem ou sabem isto, nos provê um entendimento da cultura, nos dá base para a contextualização
PRIMEIRO CORINTIOS 9 E A FLEXIBLIDADE DIANTE DA CULTURA.
Paulo fala sobre o escândalo, a pedra de tropeço, e providencia como um caso de estudo um  conflito na igreja de Corinto. Os cristãos judeus, por vezes, compravam carne depois dela ter sido usada em um cerimônia para ídolos, os judeus sabiam que os ídolos não eram nada, e então, acreditavam que não havia nada de errado em comer essa carne. Os cristãos gentios, contudo, ficaram apavorados com isto, como antigos pagãos, eles não poderiam comer esta carne sem sentirem espiritualmente afetados- 1Co 8.7-, e ao ver os irmãos judeus fazendo isto livremente.
Paulo responde que os judeus estavam certos teologicamente, a carne não tinha problemas, e os cristãos gentios tinham uma consciência fraca controlada por tabus culturais – 1Co 8:4-5.  Ainda assim, Paulo fala os crentes judeus, que chama de fortes, não devem usar sua liberdade cultural nesta situação, eles devem se refrear de comer a carne, para remover a pedra de tropeço – 1 Co 8.9-12 dos irmãos gentios. Adaptação cultural é vista aqui como uma expressão de amor. Mais tarde, em 1 Co 10:32 – 11:1, Paulo explica isto em uma forma de princípio, em áreas que a Bíblia nos deixa livres, quando nos estamos no ministério cristão, devemos constantemente engajar numa adaptação cultural- refreando de certas atitudes e comportamentos para remover pedras de tropeço desnecessárias do caminho das pessoas com uma percepção cultural distinta. Por exemplo, talvez nós tenhamos que nos abster de alguma música particular, roupa, comida e práticas não essenciais e conceitos que podem destratar ou repulsar as pessoas de uma clara percepção do evangelho. Semelhantemente, quando a bíblia não fala, não devemos elevar as normas relativas humanas para absolutos.
Toda cultura tem bons e maus elementos nela, se numa nova cultura, algum aspecto não compromete o evangelho em si, e deixa mais acessível para os outros, não há razão para adaptar-se a este elemento por cortesia e amor, mesmo se não é sua preferência.
Uma contextualização apropriada significa causar o escandâlo correto – aquele que o evangelho impõe aos pecadores. e remover todos os desnecessários. Este é o motivo para a contextualização.
PRIMEIRO CORINTIOS 1 E O EQUILÍBRIO BIBLICO.

O texto em análise é 1Co 1:22-25, os judeus queriam sinais miraculosos e os gregos, sabedoria.  Aqui Paulo assume a natureza mista da cultura, ele fala com os gregos confrontando-os sobre seu ídolo cultural, a sabedoria. A cultura grega colocava alto valor na filosofia, para os gregos a salvação não viria através do ensino, mas do crucificado. Para a cultura judaica, os maiores valores eram outros, Paulo os coloca como sinais miraculosos, poder e força, a cultura judaica é bem prática, valoriza ações e resultados,  para eles, a salvação que vem da crucificação é fraca e ineficaz. Um messias deveria sobrepujar os romanos, um salvador fraco e sofredor não fazia sentido algum para os judeus.
Enquanto o cristianismo ofende cada cultura de maneiras distintas, também leva as pessoas à Cristo e sua obra de modos diferentes. Os gregos viram na cruz a sabedoria perfeita, sendo possível para Deus sendo tanto o justo como justificador daqueles que creram nele. E os judeus, viram na cruz o verdadeiro poder, significa que nossos mais poderosos inimigos foram derrotados, o pecado, a culpa e a morte.
Paulo aplioca o evangelho para confrontar e completar cada sociedade e sua base cultural narrativa.  Ele confronta cada cultura sobre seus ídolos, e ainda assim, positivamente aponta suas aspirações e seus valores supremos, ele usa a cruz para desafiar a corrida por inteligência dos gregos e a justiça dos judeus. Mostrando que Cristo é a verdadeira sabedoria que os gregos procuravam, e a verdadeira retidão que os judeus queriam.  O argumentação de Paulo não é completamente confrontadora e nem toda afirmativa.  Ele revela as contradições fatais e a idolatria escondida nas culturas e aponta para a resolução que só pode ser encontrada em Cristo. Esta é a básica fórmula para a contextualização.
O DISCURSO DE PAULO EM ATOS.
Keller retoma que já vimos que há uma natureza mista na cultura e uma necessidade de adaptar a mensagem da Bíblia para um contexto cultural específico. No livro de Atos, vemos Paulo contextualizando, comunicando o evangelho para grupos de pessoas diferentes.
Em Atos 13:13-43, em Antioquia, Paulo fala para crentes – judeus, prosélitos e tementes a Deus – gentios que ainda não tinham sido circuncidados-.  Em Listra, Atos 14:6-16, ele fala com camponeses politeístas. Em Atenas, Atos 17:16-34, ele fala com pagãos sofisticados que abandonaram sua crença em deuses literais e agora buscam visões filosóficas – Estoicismo ou Epicurismo-. Em Atos 20:16-38, ele fala com anciões cristãos em Mileto. Em Atos 21:27- 22:22, em Jerusalém, ele fala judeus hostis. E, finalmente, em Atos 24-25, em Cesaréia, ele fala com Felix, Festus e Herodes Agripa, elites governamentais.
Em cada caso, Paulo faz uma apresentação distinta do evangelho, devemos lembrar que os relatos bíblicos dos discursos são fragmentos, em Atos 17, ele é interrompido antes de terminar sua mensagem.  Com este cuidado em mente, podemos ver certos padrões em sua comunicação pública. Com os crentes na bíblia, ele cita as escrituras e João Batista, com os pagãos, ele fala da revelação geral e da grandeza da criação.
Quando fala sobre o pecado, Paulo é claro em sua mensagem para os judeus que a Lei não pode justificá-los – Atos 13.39. Com os pagãos, ele se volta contra os ídolos para mostrar que Deus é a verdadeira fonte de alegria – Atos 14.15-17.  Paulo varia o uso da emoção e da razão, seu vocabulário, suas ilustrações, suas figuras de discurso conforme a sua audîência.
Há muitas formas de apresentação do evangelho em Atos, mas elas têm algo em comum. A existência de um desafio epistemológico, as pessoas estão ouvindo que seu entedimento de Deus e de sua realidade estão errados. Os judeus não estão compreendendo as Escrituras e os gentios não estão entendendo a criação e seus instintos. Há apenas um Deus verdadeiro que criou todas as coisas, que é poderoso e bom – Atos 13.16-22; 14.17)
Existe também um desafio pessoal em relação ao pecado e engano dos ouvintes, os judeus estão tentando observar a lei e os pagãos estão criando idolos. Um grupo está preso na auto-justiça e outro na idolatria convencional. Mas, ambas as audiências estão tentando salvar a si mesmas e fracassam. Com os pagãos, Paulo enfatiza a ressurreição para provar que Jesus é o divino Salvador que veio a este mundo e com os judeus, Paulo demonstra que as promessas da aliança foram cumpridas no Messias sofredor.

OS APELOS DA BÍBLIA.
Pessoas conservadores tendem a colocar o julgamento mais forte que a Bíblia e pessoas mais liberais, tendem a pintar um Deus mais amoroso que está revelado. Pessoas de diferentes culturas e diferentes temperamentos raciocionam de forma distinta.  Carson coloca oito motivações para usarmos quando falamos com não crentes, Keller simplificou em seis categorias no livro:
1. algumas vezes o apelo vem do medo do julgamento e da morte.
2. algumas vezes, o apelo vem de Deus para um desejo de se livrar do peso da culpa e da vergonha – Gl 3.10-12
3. Algumas vezes, o apelo vem de Deus para apreciarmos sua verdade atraente.
4. Algumas vezes, o aplo vem de Deus para satisfazermos nossos anseios existenciais. – João 4
5. Algumas vezes, o aplo vem de Deus para nos ajudar com alguma problema – Mt. 9.20-21
6. Alguma vezes, o apelo para Deus vem de um desejo de amado -

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Tim Keller: Contextualização Balanceada



Continuando a segunda seção sobre CIDADE, o capítulo 8 fala sobre Contextualização Balanceada, dentro da terceira parte sobre a Contextualização do Evangelho.
 
Keller começa citando John Stott, Between Two Words, que coloca que alguns sermões são como uma ponte para lugar nenhum, eles possuem uma base bíblica para nunca chegam a terra. Outros sermões são como uma ponte de lugar nenhum, eles falam de problemas da vida comum mas falham em colocar a resposta bíblica para eles.
Devemos ter em  mente sempre estes dois lados da ponte: o texto bíblico e o contexto cultural do leitor/ouvinte.  A escritura tem autoridade suprema, não pode estar errada e nem precisa ser corrigida.  Mas, o entendimento de um comunicador cristão pode estar equivocado. Muitos enxergam que a comunicação do evangelho é levar a mensagem bíblica até a nova cultura, é uma ponte de uma mão só, eles não gostam da idéia que informações podem vir da outra mão. Esta visão não consegue ver que somos pecadores e finitos, então, não podemos ter um conhecimento claro de nada, nossa cultura molda nosso entendimento das coisas.
Como podemos conciliar isto?   Quando nos aproximamos de um texto bíblico, vamos com um pré-entendimento, um cojunto de crenças pré estabelecidas sobre os assuntos apresentados na Bíblia. Estas crenças são fortes e profundas, e muitas são tácitas, difíceis de serem reconhecidas.  Elas vêm da nossa cultura. Isto não significa que não podemos ter um suficiente e verdadeiro conhecimento do ensino bíblico. Contudo, não é um processo simples, nossas crenças tornam difícil para nós lermos as escrituras corretamente,  deixar que ela corrija nosso pensamento e leve fielmente sobre a ponte para alguém que precisa disto.
Por causa de nossa cegueira cultural, precisamos não só falar, como também ouvir.  Precisamos ouvir o que estão dizendo, suas questões, objeções, esperanças e aspirações. Esta interação nos mostra muitas coisas importantes na Bíblia. Nossa interação com culturas diferentes nos leva a pergunta questões ao texto que nunca tínhamos feito e ver coisas mais claras que nunca vimos antes.
Uma das formas que nosso entendimento continua distorcido é o chamado “cânon dentro do cânon”, nós tratamos algumas partes da Escritura como mais importante que outras e ignoramos ou descartamos as outras. Todos os cristãos são vítimas disto dependendo de seu temperamento, experiência e cultura. Keller cita D.A. Carson, que diz, por exemplo, a bíblia fala que Deus ama a todos no mundo com seu amor providencial e também nos ensina que ele ama o salvo com seu amor gracioso e odeia o perverso.  Culturas diferentes vão responder diferentemente aos aspectos bíblicos do amor divino. Membros da cultura ocidental gostam do conceito do amor de Deus para todos e se ressabiam diante da ira de Deus. Membros de uma cultura mais tradicional, tribal entendem a o julgamento de Deus, mas tem problemas com o fato de amar as pessoas igualmente. Cada cultura tende a sublimar certos ensinos bíblicos e ignorar outros, criando um mini-cânon das Escrituras.
Outros exemplos disto são a visão sobre a propriedade privada, algumas culturas têm um visão positiva, outras não. O que há é reducionismo, nossa localização socio-cultural nos leva a ressaltar ou menosprezar alguns ensinos das Escrituras.  A ponte deve correr nas duas direções, enquanto que a Bíblia não pode ser corrigida por culturas não-cristãs, o entendimento cultural da bíblia pode e deve ser corrigido.
A ponte e a a espiral.
Assumir que o cristianismo ocidental é verdadeiro, sem distorção e uma expressão universal da fé, que transportá-lo pela ponte somente precisa de algumas poucas adaptações, este modelo, segundo Harvie Conn, está baseado numa visão funcionalista da cultura, que vê a cultura como algo sem práticas relacionadas que ajudam a um grupo de pessoas se adaptar ao ambiente, você pode alterar a religião sem mudar nada no resto da cultura da pessoa.
Na visão de Keller, evangelical, a Bíblia continua suprema, os dois lados da ponte não são iguais.  A interação com a cultura ajuda a nos adaptar e mudar nosso entendimento da Bíblia para melhor, mas em última análise,a  Bíblia deve ser vista como a grande autoridade sobre a cultura e sobre a nossa consciência. Não é um produto falível.
Se buscamos uma relação relativa, de igualdade, no fundo, estamos considerando nossa cultura como autoridade sobre a Bíblia. Ou Ela determina o que na cultura é aceitável ou não, ou a cultura irá ter uma autoridade final sobre a Bíblia e determinar no texto o que é pode ser aceito ou não. Então, a imagem de um círculo não funciona, por isto, alguns defendem a idéia de uma espiral.  Usando este método, os evangelicals buscam evitar os exageros,  seja de um culturalismo fundamentalista,  que crê que podemos ler a Bíblia de modo culturalmente livre e universal, e o relativismo cultural, que o texto bíblico somente pode ter o sentido permitido por uma cultura que o lê.

sexta-feira, maio 18, 2012

Como ler a Bíblia lendo Jesus.

Este texto busca ser uma ajuda para ler a bíblia como uma escritura cristã, há mais livros e autores que aprofundam este assunto, você pode e deve consultá-los:

Pregação Cristocêntrica - Brian Chappel.
Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento - Sidney Greiadnus
Preaching Christ in All Scripture- Edmund Clowney
Deuses Falsos - Timothy Keller

Antes de entender como funciona esta leitura, deve-se ter uma clareza da noção do evangelho versus religião (ou moralismo). O Evangelho é Deus em busca do homem para salva-lo e redimi-lo. A religião é o homem que busca Deus através de seus esforços. Então, podemos que existem dois modos de como podemos encarar a leitura da Bíblia.

Estas simples idéias já definem os nossos pressupostos de como leremos a Bíblia, se entendemos a vida cristã como a religião define, estamos em busca de princípios para viver e assim, alcançar a Deus. Agora, se temos uma clara noção do evangelho, notamos que a Bíblia não fala de nós, mas de como Deus nos buscou e encontrou, então, o personagem principal é Jesus Cristo.

Por isto também, o evangelho é um evento histórico de boa nova, algo que já aconteceu em nosso favor pela obra perfeita e redentora de Cristo e não é uma coisa que precisamos construir com nossos esforços. 

Assim, se lemos a bíblia como o famoso manual do fabricante com as regras que Deus deu para alcançar a Ele perdemos toda a obra de Cristo em nosso favor. Jesus é seu modelo, seu mestre, seu chefe mas nunca será seu salvador, seu redentor, enfim, seu amor e vida.



1. Evitando uma leitura moralista.

O grande erro que podemos cometer ao ler e interpretar um texto bíblico é não enxergar a presença de Jesus Cristo nele, isto fica claro como ensina Bryan Chapell de quatro modos dos fatais SEJA, FAÇA, MUDE e DISCIPLINE-SE:

“Mensagens que exortam a ser como, que concentram a atenção dos ouvintes sobre um personagem bíblico, à medida que o pregador os exorta a serem como aquela pessoa ou como alguém aspecto da sua personalidade (...) Simplesmente dizer às pessoas que imitem a piedade de outros sem lembra-luz que qualquer coisa mais que conformidade exterior precisa vir de Deus, leva-as ou a desesperar-se da transformação espiritual ou a negar sua necessidade” p. 306
A carne nunca melhora, mensagens que começam com esforço próprio começam na nossa natureza carnal do eu. A culpa cancelada por esforço ou mudança de comportamento gera somente legalismo e orgulho.




2. Lendo  toda a Escritura sob a luz do Evangelho.


Devemos buscar uma leitura da bíblia sagrada, seja do primeiro e do segundo testamento a luz da obra e vida de Jesus Cristo. 


Como ensina Greidanus:



"A igreja do Novo Testamento pregava o nascimento, o ministério, a morte e a ressureição e a exaltação de Jesus de Nazaré como cumprimento das antigas promessas de aliança com Deus, sua presença hoje no Espírito e seu iminente retorno. Em suma, pregar Cristo significava pregar Cristo encarnado dentro do contexto do pleno escopo da história da salvação" Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento,  p. 18

Citando Calvino, que ensina que:

"Devemos ler as escrituras com o propósito expresso de encontrar Cristo nelas. Aquele que se desviar desse objetivo, embora possa se afadigar a vida inteira no aprendizado, jamais alcançará o conhecimento da verdade, pois que sabedoria podemos encontrar sem a sabedoria de Deus? p. 259

Encontrar Cristo é ir além do método moralista, é buscar a boa nova no texto e revelar Cristo em todo texto.

O método moralista/religioso se concentra assim:

1. História.
2. Princípio Moral
3. SEJA: faça, seja, mude ou discipline-se

Uma aproximação cristocêntrica leva o texto até Cristo, e promove a boa nova, começa-se também com uma exegese gramatical histórica do texto, ou seja, entende-se o seu contexto histórico da escrita e sua  interpretação para os ouvintes atuais.

1. história
2. princípio moral.
3. incapacidade humana.
4. história de Jesus diante daquele princípio
5. vitória em Jesus para aquele princípio.

Ou como ensina Greidanus:

um sermão cristão sobre um texto do Antigo testamento necessariamente irá na direção do Novo Testamento. Isso é óbvio quando o texto contém uma promessa que é cumprida em Cristo: o pregador não pode parar na promessa, mas, naturalmente, irá prosseguir com o sermão até o seu cumprimento. O mesmo ocorre quando o texto contém um tipo que é cumprido em Cristo: o sermão vai do tipo para o antítipo. Isso também acontece quando o texto relata um tema que é mais desenvolvido no Novo Testamento, no sermão, o pregador vai do tema do AT para seu desenvolvimento mais completo no NT p.263



Jesus é o grande herói da Bíblia e não eu ou você, como Timothy Keller coloca:

Jesus é o verdadeiro e melhor Adão, que passou pelo teste no jardim e cuja obediência é imputada a nós.Jesus é o verdadeiro e melhor Abel que, apesar de inocentemente morto, possui o sangue que clama, não para nossa condenação, mas pela absolvição.Jesus é o verdadeiro e melhor Abraão que respondeu ao chamado de Deus para deixar todo o conforto ea família e saiu para o vazio sem saber para onde ia, para criar um novo povo de Deus.Jesus é o verdadeiro e melhor Isaque, que foi não somente oferecido pelo Seu Pai no monte, mas foi verdadeiramente sacrificado por nós. E quando Deus disse a Abraão: "Agora eu sei que você me ama, porque você não poupou o seu filho, teu único filho a quem você ama de mim," agora podemos olhar para Deus levando Seu Filho até a montanha e sacrificá-lo e dizer: "Agora sabemos que nos ama, porque você não poupou o seu filho, teu único filho, a quem você ama de nós."Jesus é o verdadeiro e melhor Jacó que lutou e sofreu o golpe de justiça que merecemos, por isso, como Jacó, só recebêssemos as feridas da graça para nos despertar e disciplinar.Jesus é o verdadeiro e melhor José que, na mão direita do rei, perdoa àqueles que o venderam e traíram e usa seu novo poder para salvá-los.Jesus é o verdadeiro e melhor Moisés que se põe na brecha entre o povo e Deus e que é mediador de uma nova aliança.Jesus é a verdadeira e melhor Rocha de Moisés que, golpeada com a vara da justiça de Deus, agora nos dá água no deserto.Jesus é o verdadeiro e melhor Jó, sofredor verdadeiramente inocente, que então intercede e salva os seus tolos amigos.Jesus é o verdadeiro e melhor Davi, cuja vitória torna-se a vitória do Seu povo, apesar deles nunca terem movido uma única pedra para conquistá-la.Jesus é a verdadeira e melhor Ester que não apenas arriscou deixar um palácio terreno, mas perdeu o definitivo e divino, que não apenas arriscou sua vida, mas deu sua vida para salvar seu povo.Jesus é o verdadeiro e melhor Jonas que foi expulso na tempestade, para que nós pudéssemos ser trazidos para dentroJesus é a verdadeira Rocha de Moisés, o verdadeiro Cordeiro pascal, inocente, perfeito, desamparado, sacrificado para que o anjo da morte vai passar sobre nós. Ele é o verdadeiro templo, o verdadeiro profeta, o verdadeiro sacerdote, o verdadeiro rei, o verdadeiro sacrifício, o verdadeiro cordeiro, a verdadeira luz, o verdadeiro pão.A Bíblia não é realmente sobre você - é sobre ele.

domingo, agosto 08, 2010

Grant R. Osborne: A Espiral Hermenêutica

 

O autor começa estabelecendo que a hermenêutica tem três estágios –

“Começamos com uma abordagem baseada na terceira pessoa, fazendo a seguinte pergunta a respeito do texto: o que ele significa- exegese-. Em seguida, passamos para uma abordagem na primeira pessoa e indagamos: o que ele signifca para mim (devocional). Por fim, vamos ao texto para abordá-lo na segunda pessoa e procuramos descobrir como compartilhar com você o que ele significa para mim (homilética)” p. 26

A premissa do autor é que a interpretação bíblica gera uma espiral que vai do texto ao contexto, do significado original à contextualização uo significação para a igreja de hoje. A espiral é a metáfora mais adequada porque segundo o autor o movimento não e círculo fechado, mas de um movimentar-se por uma espiral, aproximando-se cada vez mais do verdadeiro significado original pretendido pelo texto, no aprimoramento da interpretação.

O autor adota a perspectiva de significado e significação, conceito baseado em Hirsch, na distinção entre o significado  pretendido pelo autor de um texto, que seria um núcleo invariável e a significação ou implicações multiformes de umtexto para cada leitor, que é a aplicação do significado original  que varia de acordo com as circunstâncias diversas.

“As verdades do evangelho são simples, mas a tarefa de desvendar o significado original de textos específicos é complexa e exige trabalho árduo” p. 29

A inspiração e autoridade das Escrituras.

“o nível de autoridade diminui à medida que passamos do texto para a interpretação e depois para a contextualização; porntanto, precisamos fazer o caminho inverso e garantir que nossa contextualização se aproxime o tanto quanto possível de nossa interpretação, e garantir que a interpretação, por sua vez, esteja em harmonia com a essência do texto” p. 31

Estudo indutivo e dedutivo.

“O estudo indutivo da Bíblia acontece basicamente na organização do livro e dos parágrafos para determinar o desenvolvimento estrutural da mensagem do escritor tanto no nível macro-livro- quanto no nível micro-parágrafo-. Disso resulta, uma idéia preliminar acerca do significado e do desenvolvimento do pensamento do texto (…) O estudo dedutivo lida com os estágios  como aspectos separados, mas, interdependentes, da pesquisa exégitica. Nessa fase todas as ferramentas devem ser consultadas- gramáticas, léxicos, dicionários, estudos vocabulares, atlas, estudos de contexto histórico,m artigos em periodicos, comentarios.” p. 37

Parte 1- Hermenêutica Geral

 

1. Contexto.

O autor fala na observação de duas áreas – o contexto histórico e o contexto lógico, que fornecem o alicerce sobre o qual construímos o significado mais profundo da passagem.

O contexto histórico- pano de fundo histórico de um livro-  neste aspecto devemos levar em conta: a autoria, a data, a quem é dirigido e o propósito e temas do livro.

O contexto lógico é o fator mais básico da interpretação, segundo o autor. Aqui está o mapeamento do livro e o diagrama do parágrafo, que caracterizam o método indutivo.

Estudo do todo: mapa de um livro.

“primeiro, traçamos o mapa de um livro como um todo e analisamos o fluxo de pensamento nessa apresentação preliminar, em segundo, fazemos um estudo intensivo de cada uma das partes para detectar os detalhes da argumentação, por fim, retrabalhamos a sequência de pensamentos do todo em sua relação com as partes. Começamos com o livro inteiro, passamos para as divisões principais, depois para os parágrafos e, por fim, para frases específicas.” p. 47-48

O autor cita Walter Kaiser, que relaciona 8 pistas para descobrir as costuras entre as unidades de pensamento (p. 52):

  1. Termos, frases, orações ou periodos que podem servir de título para introução de cada parte ou como colofão que encerra uma seção específica.
  2. muitas vezes há pistas gramaticais cmo conjunções de transição ou advérbios, por exemplo, então, portanto, todavia, enquanto isso e palavras gregas como oun, de, kai, tote, dio.
  3. Perguntas retóricas podem sinalizar a passagem para um novo tema e outra seção. também é possível haver uma série dessas perguntas conduzindo o argumento ou plano de toda a seção.
  4. Mudanças de tempo, lugar ou ambiente são um recurso comum, principalmente em contextos de narrativa, e indicam um novo tema e uma nova seção.
  5. o uso deliberado do vocativo revela mudança de atenção.
  6. mudanças no tempo, modo ou aspecto do verbo, talvez incluindo uma mudança no sujeito ou no objeto.
  7. repetição de palavras chave, proposições  ou conceitos.
  8. em pouco, o tema de cada seção será anunciado como título.

 

 

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Eugene Peterson: Salvação


Tanto em Êxodo quanto no evangelho de Marcos, fica claro que não contribuímos em nada para nossa salvação. No entanto, somos convidados a participar. Na primeira metade do evangelho, pessoas de todo tipo são atraídas para junto de Jesus, experimentando sua compaixão, as curas, o livramento, o chamado, a paz. Vemo-nos implicitamente incluídos. Na segunda metade do evangelho, essa experiência de participação pessoal se torna explícita.

No centro do evangelho de Marcos há uma ponte entre os anos na Galiléia em que se narra a vida de Jesus e as últimas semanas em Jerusalém, concentradas em sua morte. Na verdade, essa ponte é estratégica para nos guiar a uma participação na salvação coerente com a vida e a morte de Jesus descritas por Marcos com tanto cuidado. Creio ser evidente que Marcos não era um jornalista escrevendo boletins diários das atividades de Jesus no século I. Também não era um publicitário tentando nos envolver numa causa com ambições históricas. Seu evangelho é a teologia espiritual em ação, uma forma de escrever que nos leva a participar do texto.



Marcos 8:27—9:9 é a passagem que serve de ponte, no centro do relato, entre as várias evocações de vida na Galiléia, ocupando simetricamente um lado, e a viagem resoluta a Jerusalém e a morte, ocupando o outro.

A passagem de transição é constituída de duas histórias. A primeira, o chamado de Jesus à renúncia enquanto ele e seus discípulos se dirigem a Jerusalém, fornece a dimensão ascética da salvação (8:27—9:1). A segunda, a transfiguração de Jesus no monte Tabor, fornece a dimensão estética (9:2-9).


As histórias começam e terminam com declarações acerca da identidade de Jesus como Deus em nosso meio: primeiro Pedro afirmando: "Tu és o Cristo" (8:29); depois, a voz do céu dizendo: "Este é o meu Filho amado" (9:7). Numa extremidade, o testemunho humano e, na outra, a atestação divina.

Antes de considerarmos essas duas histórias, desejo enfatizar a necessidade de mantê-las no contexto e ligadas entre si. O contexto é a vida e a morte de Jesus, aquele que revela Deus. Jesus é o tema do evangelho de Marcos. Fora de contexto, essas duas histórias dão espaço para inúmeras interpretações equivocadas. Não podem ser consideradas isoladamente. Não oferecem uma teologia espiritual pronta para ser explorada em nossos próprios termos.

Além disso, elas são organicamente ligadas. Não devem ser separadas uma do outra. São um ritmo de duas batidas numa única vida de salvação, e não duas formas alternativas de existir na história, de participar da obra salvadora de Deus na história. As histórias reúnem os movimentos ascéticos e estéticos, o "não" e o "sim" que trabalham juntos no cerne da vida de salvação. A participação na salvação, conforme esta é revelada em Jesus, exige o emprego apropriado e diferenciado dessas duas palavras: "não" e "sim".

sábado, janeiro 23, 2010

N.T. Wright: Supreendidos pela Esperança



Qual é a esperança suprema do cristão? Há esperança demudança, de resgate, de transformação, de novas possibilidades no presente? A resposta a essas perguntas precisa levar em conta o seguin-te: enquanto entendermos que a “esperança cristã” é “ir para o céu”, eque a “salvação” é algo essencialmente distante deste mundo, as duasperguntas parecerão inevitavelmente inconciliáveis. De fato, alguns insistem que responder à segunda pergunta é ignorar a primeira, que é o que realmente importa. Outros, por sua vez, ficam irados quandoas pessoas falam de ressurreição, como se isso estivesse desviando a atenção dos assuntos realmente importantes e urgentes no mundopresente. No entanto, se a “esperança cristã” é para a nova criação de Deus, para “novos céus e nova terra” — e se essa esperança já se manifestou na vida de Jesus de Nazaré — então estamos certos ao uniras duas perguntas. E se de fato é assim, constatamos que as respostas estão também relacionadas. Muitas pessoas — inclusive muitos cristãos— se surpreendem ao perceber que a esperança cristã é diferente doque imaginam, e que essa mesma esperança oferece uma base firme eestimulante para desempenharmos nosso papel no mundo atual.

p.15-16

quinta-feira, outubro 29, 2009

O. PALMER ROBERTSON: O Cristo dos Pactos

A aliança é um pacto de sangue, é uma aliança de sangue soberanamente administrada. preeminência de juramentos e sinais nas alianças divinas realça o fato de que a aliança, em sua essência é um pacto. A aliança estabelece compromisso de pessoa com outra. "No ato de estabelecimento da aliança, as partes se comprometem mutuamente, por meio de um processo formal de derramamento de sangue. Este derramamento de sangue representa a intensidade do comprometimento da aliança. Por meio da aliança elas se ligam para a vida e para a morte" p. 20
.
"No caso de uma aliança, a morte está, no princípio da relação entre duas partes, simbolizando o fator maldição potencial na aliança. No caso de um "testamento", a morte está no fim da relação entre as duas partes, efetivando-se uma herança" p. 17
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"Jesus introduziu as estipulações da refeição da nova aliança. Sua intenção era claramente proclamar-se como o Cordeiro Pascal que estava tomando sobre si mesmo as maldições da aliança. Sua morte foi vicária, seu sangue foi derramado pelo seu povo. Suas palavras não eram as de uma disposição testamentária, mas de firmamento e estabelecimento de uma aliança" p. 18
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"A graça de Deus na salvação não é contrária à ordem da criação; é contrária ao pecado. O cristão deve evitar deixar-se ludibriar pela dicotomia natureza/graça quando considera a obra de Deus na criação. A redenção tem o efeito de restaurar a ordem da criação e a solidariedade da família é uma das maiores ordenanças da criação. O caráter genealógico da atividade da redenção sublinha a intenção de Deus em operar de acordo, antes que em desacordo, com a ordenança da criação" p. 43
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Sobre a unidade das alianças: "Jesus, o Filho de Deus e mediador da aliança, não pode ser dividido, também as alianças não podem ser divididas. Ele mesmo garante a unidade delas porque é, ele mesmo, o coração de cada uma das várias ministrações da aliança" p.54
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Capítulo 4: Diversidade das Alianças
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Há alianças pré criação e pós criação, as anteriores tem sido designadas como aliança da redenção, aliança eterna, conselho de paz ou conselho da redenção. Trata-se da intenção de Deus de redimir desde a eternidade, um povo para si mesmo, deve ser certamente afirmada. Antes da fundação do mundo, Deus estabeleceu com seu povo uma aliança de amor. (p. 56)
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Outra distinção é entre aliança das obras e aliança da graça. Trata-se de uma divisão pré queda, e pós queda de Adão. A necessidade absoluta de reconhecer um relacionamento pré-queda entre Deus e o homem que requereria obediência perfeita como base meritória de bênçãos.
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Há problemas com a terminologia, pois esta sugere ainda mais que as obras não teriam lugar na aliança da graça. Mas, da perspectiva bíblica, as obras desempenham papel altamente essencial na aliança da graça. Cristo opera a favor da salvação do seu povo. Sua satisfação da justiça em favor dos pecadores representa aspecto essencial da redenção. Mais ainda, os redimidos em Cristo devem certamente praticar obras. Eles são criados em Cristo Jesus para as boas obras (Ef. 2:10). As escrituras insistem consistentemente em que o julgamento final do homem será de acordo com as obras. Ainda que a salvação seja pela fé, o julgamento é pelas obras. p. 58
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velha aliança e nova aliança
a velha aliança pode ser caracteriza como promessa, sombra, profecia; a nova aliança poder ser chamada de cumprimento, realidade, realização.
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Capítulo 5: A aliança da Criação
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O aspecto geral da aliança da criação relaciona-se com as responsabilidades mais amplas do homem para com o seu Criador. O aspecto focal da aliança da criação relaciona-se com a responsabilidade mais específica do homem decorrente do momento especial de prova ou teste instituído por Deus p. 65
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sábado
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Falar da abolição do sábado sob a nova aliança não envolve meramente a negação da contínua significação do decálogo mosaico. Envolve a ruptura das próprias ordens da criação, da história e da consumação, tais como se acham reveladas nas Escrituras. Ao invés de negar o papel do Sábado na redenção, o participante da nova aliança deve regozijar-se nos privilégios associados com a aliança sabática final de Deus p.69
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é apropriado que nova aliança altere radicalmente a perspectiva sabática. O crente comum em Cristo não segue o modelo sabático do povo da velha aliança. Não trabalha primeiro seis dias, olhando com esperança em direção ao descanso. Ao contrário, começa a semana regozijando-se no descando já cumprido pelo evento cósmico da ressurreição de Cristo. E então entra alegremente nos seis dias de trabalho, confiante no sucesso por meio da vitória que Cristo já alcançou" p. 71
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