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domingo, novembro 29, 2009

ADÉLIA PRADO: O poeta ficou cansado


O poeta ficou cansado


Pois não quero mais ser Teu arauto.

Já que todos têm voz,

por que só eu devo tomar navios

de rota que não escolhi?

Por que não gritas, Tu mesmo,a

miraculosa trama dos teares,

já que Tua voz reboa

nos quatro cantos do mundo?

Tudo progrediu na Terra

e insistes em caixeiros-viajantes

de porta em porta, a cavalo!

Olha aqui, cidadão,

repara, minha senhora,

neste canivete mágico:

corta, saca e fura,

é um faqueiro completo!

Ó Deus,

me deixa trabalhar na cozinha,

nem vendedor nem escrivão,

me deixa fazer Teu pão.

Filha, diz-me o Senhor,

eu só como palavras.


(Adélia Prado, Oráculos de maio)

sexta-feira, novembro 20, 2009

GRACILIANO RAMOS: Angústia











A realidade, nos romances de Graciliano Ramos, não é deste mundo. É uma realidade diferente. Após ter lido Angústia até o fim, é preciso reler as primeiras páginas, para compreendê-las. É um mundo fechado em si mesmo. Que mundo é?
"Há nas minhas recordações estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes. Depois um esquecimento quase completo" — confessa Luís da Silva em Angústia. E depois: "Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento." E acrescenta: "Não sei se com os outros se dá o mesmo. Comigo é assim." É assim com todos nós outros, quando entramos no mundo empastado e nevoento, noturno, onde os romances de Graciliano Ramos se passam: no sonho. Os hiatos nas recordações, a carga de acontecimentos insignificantes com fortes afetos inexplicáveis, eis a própria "técnica do sonho", no dizer de Freud. Álvaro Lins, no melhor artigo que se escreveu sobre Graciliano Ramos, observou agudamente a abstração do tempo — "Mas no tempo não havia horas", cita o crítico —, e acrescenta: "Os outros personagens são projeções do personagem principal. Julião Tavares e Marina só existem para que Luís da Silva se atormente e cometa o seu crime. Tudo vem ao encontro do personagem principal — inclusive o instrumento do crime". Estas palavras do crítico constituem a chave da obra do romancista: descrevem perfeitamente a nossa situação no sonho, em que tudo é criação do nosso próprio espírito. Explica-se assim o extremo egoísmo dos heróis de Graciliano Ramos: é o egoísmo daquele que sonha e para o qual, prisioneiro dum mundo irreal, só ele mesmo existe realmente. A mentalidade inteiramente amoral do sonho exclui, decerto, toda "generosidade"; mas a substitui por um sentimento mais vasto de identificação quase mística com as criaturas da própria imaginação, até a cachorrinha Baleia: "Tat twam asi."
O extremo egoísmo do sonho engendra o motivo principal do romancista: cobiça de propriedade. Propriedade de terra, de mulher, em São Bernardo; aqui e em Angústia, a forma extrema desta cobiça, o ciúme. Por isso, nos romances de Graciliano Ramos, esses afetos ultrapassam toda medida; sugerem, ao lado dos afetos análogos na vida real, a impressão de sentimentos patológicos. E quando o autor considera os monstros da sua angústia de sonho, lança o seu grito mais elementar: "Dinheiro e propriedade dão-me sempre desejos violentos de mortandade e outras destruições."
"Ai quando virá o anjo da destruiçãop’ra acabar com a minha memória..."
(Murilo Mendes).
Todos os romances de Graciliano Ramos — e este é o sentido do seu experimentar — são tentativas de destruição; tentativas de "acabar com a minha memória", tentativas de dissolver as recordações pelos "estranhos hiatos" dum sonho angustiado. Trata-se de saber que mundo de recordações se dissolve assim.
A resposta é bastante difícil. Surge, ainda uma vez, o clichê do "sertanejo culto" e sugere aos críticos a idéia de que o romancista está furioso contra o ambiente selvagem do seu passado. Mas não é assim. Não é o sertão o culpado; Vidas secas é o seu romance relativamente mais sereno, relativamente mais otimista. O culpado é — superficialmente visto, numa primeira aproximação — a cidade. O herói de Graciliano Ramos é o sertanejo desarraigado, levado do mundo primitivo, imóvel, para o mundo do movimento. É o vagabundo ("um pobre nordestino..."); e explica-se o seu ódio balzaquiano ao mundo burguês, que conseguiu a estabilidade relativa do comércio de secos e molhados. Esta vagabundagem é o aspecto sociológico do egoísmo do sonho quando se choca com a realidade. É o desejo violento do vagabundo de restabelecer-se na terra: "Como a cidade me afastara de meus avós!" Mas é apenas uma explicação em primeira aproximação: pois Paulo Honório consegue o seu fim, e, contudo, é uma vida malograda. Por quê? Porque o seu criador quer mais do que terra, casa, dinheiro, mulher. Quer realmente voltar aos avós. Voltar à imobilidade, à estabilidade do mundo primitivo. E para atingir este fim, deve antes destruir o mundo da agitação angustiada, à qual está preso.
Os romances de Graciliano Ramos são experimentos para acabar com o sonho de angústia que é a nossa vida. Uma lenda budista conta dum homem que correu, ao sol do meio-dia, para fugir à sua sombra, que o angustiava; correu, correu, sempre perseguido pelo companheiro sinistro, até que encontrou o grande Sábio, que lhe disse: — "Não continues a fugir! Assenta-te sob esta árvore!" E como ele parou, a sombra desapareceu. A sombra sobre o mundo de Graciliano Ramos não é a sombra da árvore da salvação, mas a do edifício da nossa civilização artificial — cultura e analfabetismo letrados, sociedade, cidade, Estado, todas as autoridades temporais e espirituais, que ele convida ironicamente — no começo de São Bernardo — a colaborar na sua obra de destruição. Mas eles mostram-se incapazes de cometer o suicídio proposto. Entrincheiram-se na "dura realidade", imposta a todas as criaturas do Demiurgo, e que se arroga todos os atributos da eternidade. O romancista, porém, não se conforma. Transforma esta vida real em sonho — pois do sonho, afinal, se acorda. Então, as disposições funestas do Demiurgo seriam revogadas, e o destruidor poderia dizer, com o Gide das Nouvelles Nourritures: "Table rase. J’ai tout balayé. C’en est fait. Je me dresse nu sur la terre vierge, derrière le ciel à repeupler."6
O fim é o estado primitivo do mundo — o céu repovoado. Então, a angústia já não assusta.
"Black is night’s cope;But death will not appalOne who, past doubting all,Waits in unhope."
Foi a última sabedoria poética do romancista Thomas Hardy, versos duros, populares e clássicos ao mesmo tempo, rimados em sinal da concordância resignada com o mundo. É possível que o romancista Graciliano Ramos escreva também, um dia, tais versos, duros, populares e clássicos ao mesmo tempo, versos tradicionais, como o velho Hardy. Mas não serão rimados. Serão versos brancos. Pois a primeira rima de Graciliano Ramos já anunciaria o Fim do Mundo.

quarta-feira, outubro 28, 2009

RONALDO CORREIA DE BRITO: Galiléia


"Somos aves de arribação. Mesmo quando partimos sem olhar para trás, retornamos; quando imaginamos firmar os pés numa nova paragem, estamos de volta." p. 69





Reproduzo o texto de Tiago Corrêa


As vísceras do Sertão mítico
Um livro sobre o Sertão. Galiléia, romance de Ronaldo Correia de Brito, é um ensaio ficcional sobre essa região que se instalou com tons míticos em nosso imaginário. Nele, o autor usa como pretexto a viagem de três homens (Adonias, Ismael e Davi) ao Sertão dos Inhamuns, no Ceará, para desconstruir essa imagem de um lugar isolado do mundo, preso a um tempo onde os homens adquiriam a aparência rústica da luta pela sobrevivência diária, sob a sombra da vocação para a tragédia.
Autor da peça Baile do Menino Deus e dos livros de contos Faca e Livro dos Homens, Brito estréia no romance, desfrutando a vastidão espacial do gênero como se estivesse vagando no vazio do Sertão. Uma transição textual que se revela num trabalho meticuloso, de construção em cima de longos diálogos, no emaranhado de tramas e em experimentações na linguagem, como o recurso visual de simular a desatenção de Adonias com espaços em branco isolando palavras e em cortes não-lineares.
Dessa forma, Brito explora a travessia à Galiléia - fazenda onde os três primos cresceram e o avô Raimundo Caetano agoniza seus últimos suspiros - como a linha condutora da narrativa. A dubiedade do caráter das personagens e dos sentimentos de reencontro/despedida serve de metáfora à crise de identidade dos sertanejos. À medida que a caminhonete de Ismael avança pela estrada, o escritor promove o encontro de um Sertão conectado à internet, de mulheres emancipas pelo trabalho na confecção de redes e de motocicletas substituindo cavalos; com os cadáveres da memória, desenterrando a origem da região, baseada em teorias migratórias e de miscigenação presentes em nossa formação cultural.
Uma ligação que se dá em sutilezas. Nas primeiras páginas, citações à banda inglesa Radiohead e ao cantor Damien Rice. Referências a laptops, ao Google, bandas de forró estilizado, que logo são substituídas pelo peso da mitologia grega (Minotauro, Elektra, Édipo), das teorias de Freud e do existencialismo, corrente filosófica que tem importância particular no livro. Se o filósofo romeno Emil Cioran é citado, O Estrangeiro, de Albert Camus, aparece disfarçado no sentimento de inadequação dos viajantes e numa cena de violência de Galiléia, que remete ao assassinato da obra camusiana.
Aos poucos, lembranças que levaram os primos a abandonarem a Galiléia são desencavadas na poeira do abandono em que se encontra a região, sugerido na imagem que ilustra a capa do livro. O romance é um diálogo com os mortos, um reencontro com os fantasmas, personificados em Raimundo Caetano, último guardião das angústias sertanejas adormecidas na memória da família Rego Castro.
Thiago Corrêalido em Nov. de 2008escrito em 18.11.2008
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entrevista prosa on line
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Depois de três livros de contos - "As noites e os dias", "Faca" e "Livro dos Homens", o escritor Ronaldo Correia de Brito (ao lado, em foto de Hans von Manteuffel) está lançando o seu primeiro romance, "Galiléia". É um livro que passou oito anos sendo produzido, em uma elaboração lenta e ao mesmo tempo dolorosa e que, quando concluído, deixou o autor em "depressão pós-parto". Não é para menos. A obra parida é um mergulho entre dois mundos: o arcaico, famélico e primevo do sertão e o globalizado. Um universo que é percorrido por três primos que retornam à terra, a Fazenda Galiléia - no sertão do Ceará - para a festa de aniversário do patriarca. Mas o encontram moribundo, com as carnes à beira do apodrecimento. Durante a viagem, os personagens vão se revelando aos poucos, e todas as mazelas da família vão se revelando, desde o estupro do menino David dos quais todos são suspeitos - até o avô - aos fantasmas do passado. Permeiam ainda a obra, as mortes, a vida, o silêncio da caatinga, os barulhos da modernidade, as mazelas da sociedade moderna, a prostituição, o homoerotismo, a discriminação, os laços que se agregam e desagregam nas famílias. Você afirma que está sofrendo uma depressão pós-parto, depois de concluído o livro. Isso se deve à expectativa por parte da reação do mercado e da crítica, ou pela dor de parir um livro como "Galiléia"? A resposta é a segunda pergunta. Na verdade, fiquei com esse livro desde 12 de janeiro de 2000. Naquela data minha mulher, Avelina, colocou em minhas mãos uma reportagem que é um dos temas, um dos motes do livro. E nesse dia decidi que ia escrever um romance. Até então, só tinha publicado um livro de contos, em 1987 – “As noites e os dias” – e achava que eles não tinham muito prestígio. Achava que eu tinha que escrever um romance. Ao longo de oito anos, fiquei com esses personagens, alguns vivos, alguns mortos, muitos mortos, fantasmas mesmo. Esse livro tem um lado extremamente realista, ao tratar de um mundo de hoje, contemporâneo, um Brasil nas suas veias mais finas, nos vasos capilares. Entro em questões bem pequenas, buscando dar uma grandeza trágica a esse cotidiano tão bárbaro, quase brutal, quase miserável. Ao mesmo tempo que tenho personagens tão realistas, tão contemporâneos, esses estão em contato com um mundo mítico, profundamente arcaico, um mundo patriarcal, de um patriarcalismo tão bárbaro, quanto o árabe judaico antigo, da Bíblia. E um mundo habitado de mortos, de fantasmas. Na construção do romance, de repente tem um personagem que é o mais realista possível, mas ele entra em uma casa, pede para ter acesso a um cômodo dela e nesse cômodo está um fantasma de 300 anos. E ele mantém um dos diálogos mais absurdos, talvez o mais provocante desse livro. Do mesmo jeito, outros fantasmas estão sempre movendo os vivos e estão inventando dramas. E sem qualquer clima de realismo mágico como o de Gabriel García Márquez. Não é isso. É quase como se esses fantasmas tivessem realidade. Qual a ligação entre a Galiléia bíblica e a sertaneja, que os três primos foram visitar? Eu não deixo de ter sido um assombrado por esse mundo. Na verdade, tem uma coisa importante no título. Esse seria o "Livro dos Homens", porque à exceção de apenas um capítulo, todos falam de homens. Mas não tinha título para o meu último livro de contos, e achei uma pena usar esse título. Isso porque na Bíblia tem o livro de Jó, o de Davi, de Esaú, são livros batizados com o nome do livro. Só que tirei o nome deste e botei naquele. Mas ao longo da construção do romance, ele foi virando "Galiléia". E quem me deu a sugestão para esse nome foi a mesma pessoa que me deu o mote para ele, minha mulher Avelina. Ela deu o nome sem ter lido o livro. Até hoje minha mulher não teve a coragem de ler o romance. Ela me via tão fantasmagórico andando dentro de casa que ficou com medo de chegar no livro. Com relação aos mortos, eles sempre permeiam a sua obra e a sua vida. De novo em "Galiléia". Por quê? Falar de morte para mim é falar de vida. Não no sentido religioso, no sentido de que a morte é transcendente. Não nesse sentido. Falar de morte porque ela é presente, ela é real. A sociedade contemporânea nega a morte. Hoje as pessoas levam seus pacientes para morrerem nos hospitais, em UTIs, ou aos cuidados de médicos e elas não velam seus mortos dentro de casa, mas em lugares externos, próprios para isso. Ao meu ver, essa circunstância é uma negação da morte. É a reafirmação desse mundo muito hedonista, que nega a morte. Eu vivi em um mundo arcaico, em que a morte era tratada como um hábito. Os mortos estavam todos retratados e colocados na parede. O meu avô morto no caixão era o quadro mais importante da sala de visitas da casa de minha avó. A morte está presente. É um livro com mortes, histórias de assassinato, mas o que há de fundamental nisso é a afirmação da vida. Um romance inteiramente aberto,que não termina, não tem fim, termina como se continuasse. Tirando o seu teatro, que é festa, queria saber se você sofreu muito na vida porque todos os seus livros têm muito sofrimento. Curiosamente minha vida sempre foi muito boa, tem sido feliz. Os meus sofrimentos são talvez decorrentes não de minha vida, mas sim dos mortos que eu trouxe por herança. E "Galiléia" trata disso. Dessa herança. Você sabe que o personagem Adonias assassina não porque ele quisesse assassinar, mas porque ele tinha que repetir um mesmo assassinato que havia sido cometido. Ele assassina um primo, Ismael, no mesmo lugar em que o tio havia assassinado a esposa Donana há 300 anos. Essa carga hoje inclusive é muito trabalhada na psicanálise, esses ciclos familiares que se repetem. Adonias mata porque tinha que matar, até para alterar uma certa ordem que tenderia para a mediocridade. Ele mata – e nesse sentido é existencialista feito "O estrangeiro", de Camus – para cortar uma ordem de existência, que é medíocre demais. Quer dizer que o assassinato de Ismael foi uma tentativa de Adonias reverter a mediocridade de própria biografia? Em parte sim. A ação trágica de Adonias, esse fato de matar, em parte é para que ele e a família entrem em uma nova ordem. Porque a família vem de um estupro no qual todos eram condenados. Um estupro que não se esclarece, mas é de enorme violência. Cometido contra um menino adolescente, e que marca toda a família. Todos são suspeitos. Até o próprio avô do menino. Esse estupro de certa forma prende muito o leitor, que fica curioso, querendo descobrir quem cometeu a violência. Essa tática foi intencional? Diria que o livro tem muitos caminhos de leitura. Ele pode ser lido na investigação desse estupro, ou dentro dos cacos de modernidade desse mundo arcaico, ou tentando ver como cada personagem fala. Eu criei um ritmo de fala para cada um deles. As pessoas velhas falam com um acento e as mais novas de forma diferente. Você pode ler, ainda, investigando o que ele tem de mais forte: um epifania do feminino. O livro só tem personagens masculinos, em um mundo cheio de hierarquia, a hierarquia da masculinidade, do patriarcalismo, do poder dos machos. No entanto, há um feminismo que caminha subterraneamente, no qual tudo mina. E, no fim, a grande epifania, a grande revelação. Espera-se, por exemplo, a grande revelação de Tobias, que quando nasceu falou imediatamente. E essa fala foi a revelação do futuro da família. E quando Adonias tem em mãos o livro onde estaria isso, ele na verdade, em vez de se encantar com a profecia, se encanta muito mais com o retrato da avó de pés descalços. E, para mim, o momento mais lindo, a grande epifania do livro é quando Adonias tem o encontro com o mundo feminino, tão marcada e austeramente masculino. Por falar nisso, rola um clima meio homoerótico entre Adonias e Ismael.Na sociedade masculina sertaneja, essas amizades são muito fortes. Os amigos se abraçam, se acariciam, nadam nus juntos, montam nas costas dos outros. Isso não pode ser lido como homossexualismo, no viés de uma revista do tipo "G Magazine". Mas é um forte componente homoerótico, como é nas sagas heróicas, como a própria Bíblia sugere, entre Jonathas e Davi. Na "Odisséia", entre Pátropo e Aquiles. Ou seja, nessas grandes amizades masculinas. Sem dúvida nenhuma passa essa emoção. Você tem sido criticado por contestar Guimarães Rosa ao dizer que Diadorim não é uma mulher, mas um homem que deveria permanecer como tal até o final. Mas no seu livro o estupro é um tabu, os personagens têm dificuldades para abordar o assunto. E o homoerotismo ou homossexualismo – se for esse o caso – é tratado de forma bastante delicada, sem a crueza do restante do livro. Isso é um assunto doloroso, um tabu para você? Absolutamente. Sou um psicanalisado em quatro sessões semanais, durante uma década. Apenas quis dar conotação que de fato existe. Como autor não poderia colocar o meu ponto de vista e a forma como encaro isso. Tinha que colocar como a sociedade encara. Nem o fantasma da avó, que tudo via de cima da beira do açude, que seria a única que teria visto mesmo. Quando Donana é assassinada pelo marido, ela fica de pé sobre os artelhos, séculos ali, vigiando os homens para que assassinatos contra as mulheres não se perpetuem, não aconteçam. E Adonias pede a ela. "Você que tudo viu, quem estuprou Davi?" E isso é um mistério dentro do livro. Todos são suspeitos. O menos suspeito é Ismael. No entanto, é sobre ele que recaem todas as suspeitas, porque ele é muito odiado por outros motivos que depois se revelarão. Há muitos incestos nessa família. Por que a pesquisadora da USP, com tanta sapiência, se apaixonou por um homem tão rude quanto Natan, que cheira a poeira e a caatinga? Houve muitos brasilianistas que estudaram famílias do sertão. Houve um antropólogo que veio para um desses estudos e falava para o orientador das experiências sexuais que ele presenciava. O orientador o aconselhou que também as tivesse. Como forma até de ter mais conteúdo para a tese dele. O que está colocado com sutileza dentro do livro é o próprio terror com que a família Rego Castro lida com esse universo, com essas histórias familiares, e como a família tenta esconder. O livro é de ficção, mas os espaços são muito reais. O sertão do Inhamuns, Recife, Ceará. Onde começa a ficção e onde termina a realidade? Quando se lê o livro, praticamente se vê a paisagem do sertão, a descrição é muito cinematográfica.Você questiona uma coisa que é o fundamento do livro. Para criar minha ficção, sempre tenho que estabelecer uma paisagem inteiramente real, que eu conheça, que tenha as referências dela. E que eu situe dentro daquele mundo totalmente real, aquelas ruas são rigorosamente daquele jeito. Tenho que mesclar toda essa realidade, a mais real possível, com o totalmente imaginário. Meu maior diálogo é com o cinema. Aquele começo é muito o "Profissão repórter", de Antonioni. A caminhada de Adonias até o quarto onde está João Domício é "Funny e Alexander", de Ingmar Bergman. Adonias, com aquele santo no braço, rodando na festa completamente perdido, é uma cena de "Ran", de Kurosawa.Com relação aos três personagens principais, foi uma viagem de encontros, desencontros, descobertas? O livro é labiríntico, com muitas possibilidades. Eu tinha um projeto ambicioso. Publiquei muito tarde, porque temia escrever apenas mais um livro. Tinha um projeto ambicioso para esse romance. Queria escrever um que fosse uma paulada. Queria causar um transtorno. Acho que alcancei. Até a metade, ele vai ameno, com discussões psicológicas, personagens vão se apresentando de leve. Há discussão sobre música, mas a intenção do livro era sobretudo quase como uma vingança contra a minha formação. Como eu, um cara da modernidade, que mora em cidade grande como Recife desde os 17 anos, que viu tudo de cinema, participou do movimento de contracultura, foi da geração hypie, ouviu os roqueiros, no entanto, o que aconteceu? Eu era de esquerda, a esquerda cobrou muito da gente, patrulhou para que se fizesse escrita engajada, nacionalista, voltada para as raízes... Parte de minha literatura inicial deixou de fora esse cara contemporâneo, psicanalizado, mais intoxicado, mas envenenado. Acredito que sua formação psicanalítica deve ter lhe ajudado a expor a alma dos personagens como você expõe. Nesse livro finalmente me dou o direito de contrapor a esse mundo arcaico do qual eu vim, sem tomar partido – nem pelo arcaico nem contemporâneo –, colocar os dois para se digladiarem, para destruir mesmo toda essa contemporaneidade, todo esse mundo globalizado em confronto com esse arcaico. Até os nomes das pessoas são diferentes nos tempos em que elas vivem. Sempre estou contaminado com vozes de TV, com barulhos dos laptops, com celulares que não funcionam. O romance me custou um pedaço da alma e os olhos da cara, pelo tempo que olhei o computador. É como se a partir desse livro estivesse apto a começar a escrever. Mas não sei se terei tempo e idade para isso. E os outros livros e peças? "O Baile do Menino Deus" é um dos espetáculos mais encenados do Brasil. A Objetiva fez uma edição para o Programa Nacional de Biblioteca Escolar, que vendeu mais de 500 mil exemplares, e isso divulgou demais o livro no país todo. A música da peça continua com CD em catálogo há 25 anos pela Eldorado. E o "Baile" é só júbilo. O mais alto júbilo. É verdade que além da depressão pós-parto você ficou ao desalento, sem chão, quando acabou de escrever o livro? O editor me disse "a partir de agora você não pode trabalhar no livro. Ronaldo, essa é sua última chance. Está aí a última revisão, a última prova, acrescente o que tiver de acrescentar, tire o que tiver de tirar e depois acabou-se. O livro será impresso." Foi um terror para mim. Como eu ia viver sem aquele manto de Penélope, que eu fiz e desfiz ao longo de oito anos? Na verdade Marcelo Ferroni (editor da Alfaguara) foi extremamente firme em tomar o livro de mim. Ele tomou, disse que ia editar e editou. Se não fosse isso, eu ia continuar não sei até quando com esse livro. Quando ele me faltou foi como se me tivesse faltado terra nos pés. Fiquei em suspenso. Sou médico, tenho propriedade que administro, tenho o espetáculo grandioso que enceno anualmente, escrevo semanalmente para uma revista, tenho muitos projetos. Mas o livro, esses fantasmas, esses personagens – sobretudo Adonias, Ismael e Davi – me acompanharam por oito anos. Dialoguei com eles. Porque o diálogo, na verdade, foi o meu próprio processo de diálogo com esse mundo que tento compreender e que é muito incompreensível. Isso eu queria que você registrasse. Há uma pergunta clássica de Santo Agostinho sobre o tempo. O que é tempo? Ele diz: "se não me perguntam, eu sei. Se me perguntam, desconheço". A mesma coisa digo em relação ao sertão. O que é o sertão? Se não me perguntam, eu sei. Se me perguntam, desconheço. Ao longo desse tempo, trabalhei com essa tentativa de compreender esse mundo de onde eu vim, ao qual estou sempre retornando na minha criação. E a trajetória desses personagens nada mais é do que a minha própria trajetória, uma trajetória interior e nesse mundo. Andando em um bairro negro de Paris encontrei as mesmas dúvidas e perguntas que fiz andando por aqui pelo sertão do Ceará. A minha família foi se desfazendo de todas as grandes propriedades. A última foi uma que era a herança de meu avô materno. Minha avó vendeu as terras. E havia uma casa que era a do meu avô, com uma árvore imensa ao fundo. Eu sempre dizia: vou ser enterrado aqui, debaixo dessa árvore. As terras foram vendidas, passou uma estrada, derrubou a casa, derrubou a árvore. E eu fiquei sem meu lugar de ser fixado, sem meu chão. Então passei a ter quase diariamente o mesmo pesadelo. Chegava lá nesse lugar, o Boqueirão, ninguém me reconhecia. Ninguém sabia quem eu era. E eu de repente começava a chorar e a gritar. Era um pesadelo tão recorrente que minha mulher não tinha nem paciência. Quando achei essas terras em Taquaritinga do Norte comprei uma fazenda. Ela tem uma floresta, um brejo e quando vi um conjunto de cinco pés de pau d´arco seculares, eu disse "eis aqui meu cemitério, é aqui que vou ser enterrado". A partir do instante em que achei o lugar para ser enterrado quando morrer, me acalmei totalmente. E vai escrever na fazenda? No dia em que escrever um livro que me deixará satisfeito, eu não escrevo mais. Vou morar em Taquaritinga. E esse livro ainda não é "Galiléia".

segunda-feira, junho 08, 2009

MILTON HATOUM: Os órfãos do Eldorado

Numa cidade à beira do rio Amazonas, um passante vem procurar abrigo à sombra de um jatobá e, incauto ou curioso, dispõe-se a ouvir um velho com fama de louco. É o que basta para Arminto Cordovil começar a contar a história de 'Órfãos do Eldorado' - a história de seu próprio amor desesperado por Dinaura, mas também a crônica de uma família, de uma região e de toda uma época que, à base da seiva da seringueira, quis encarnar os sonhos seculares de um Eldorado amazônico.

Leia a crítica de Sérgio Rodrigues
fonte: http://colunistas.ig.com.br/sergiorodrigues/2008/03/14/milton-hatoum-%E2%80%98orfaos-do-eldorado%E2%80%99/

Um novo livro do amazonense Milton Hatoum é sempre uma notícia a ser festejada. Foram poucos desde que ele estreou em 1990 com “Relato de um certo Oriente”: até este “Órfãos do Eldorado” (Companhia das Letras, 112 páginas, R$ 29) eram apenas três romances, todos de alguma forma substanciais, carnudos no vocabulário e na simbologia, com algo de amazônico e transbordante em sua fé na arte de narrar – “como os romances de antigamente”, ouvi certa vez de um leitor, e era elogio. Aliada ao talento de Hatoum, a falta de pressa se traduziu num padrão de qualidade elevado que o transformou em bicho-papão de prêmios literários. Com justiça.
No novo livro, lançado apenas três anos depois de “Cinzas do Norte”, os temas habituais de Hatoum – o território conflagrado das relações familiares, a paisagem amazônica como pano de fundo e metáfora de um profundo desencanto, o acerto de contas com um passado perigoso que a memória busca mas teme empreender – são retomados em chave diferente. Novela curta, escrita por encomenda para uma série internacional sobre temas mitológicos, “Órfãos do Eldorado” se deixa ler velozmente e com prazer. Só no fim é que me vi às voltas com uma suspeita incômoda: a de que, embora sejam bem-vindos os momentos em que a busca de concisão levou Hatoum a comprimir sua prosa até aproximá-la da (boa) poesia, todo esse enxugamento pode atrapalhar mais do que ajudar seu projeto ficcional.
O problema não é técnico e sim, digamos, de temperamento. Mesmo que a oralidade do narrador, um contador de histórias, funcione mais em tese que na prática, o descarnamento necessário a uma novela é conduzido com habilidade pelo autor. Historinha de fundo mítico, entre o sonho e a vigília, sobre um amor infeliz que engole a vida inteira do protagonista, a narrativa acelerada e cheia de elipses de “Órfãos do Eldorado” tem um travo de irrealidade e vertigem que lhe cai bem. Ao mesmo tempo deixa a sensação de que Hatoum, depois do passeio por esse afluente estreito, vai se sentir mais feliz e confortável quando conduzir seu barco de volta ao leito mais caudaloso e lento do romance-romance, com suas camadas de subtramas e caracterizações detalhadas, no qual navega como poucos.
Leia abaixo um trecho do meio do livro, o único momento em que o narrador, Arminto Cordovil, chega perto de satisfazer seu desejo pela misteriosa Dinaura.
Acordei de boca aberta, respirando como um asmático. Apalpei a camisa molhada e vi o rosto de Florita.
Ouvi uns gritos de afogado e vim te socorrer.
Quando ela falava assim, parecia adivinhar meus sonhos. Fiquei assustado com as palavras de Florita. Medo de alguém que nos conhece. Para disfarçar, pedi a ela que perfumasse a banheira com essência de canela. Quando me viu na pinta e perfumado, disse que eu não devia sair de casa.
Por quê?
Não respondeu. E eu confiei na minha intuição. Antes das cinco, fui até a Ribanceira e fiquei encostado no tronco da cuiarana, o lugar onde vi Amando morrer. No chão, flores arrancadas pela ventania. Um céu que nem o desta tarde: nuvens grandes e grossas. A rua do Matadouro, deserta. Estava tão ansioso que tremi ao ouvir as cinco batidas do sino. Então ela apareceu sozinha, usando um vestido branco, os braços nus. Sentamos sob a árvore, o tronco cheio de flores. Acariciei os braços e os ombros de Dinaura, e admirei o rosto dela. O desejo no olhar cresceu. Não fiz pergunta, nem disse nada. Qualquer palavra era inútil para o amor urgente. Ventava com força. Ela não se assustou com as trovoadas, nem se esquivou do meu abraço. Eu guardava as palavras no meu pensamento. Um dia viajaríamos juntos, conheceríamos outras cidades. Ela olhava a outra margem do Amazonas, como num sonho. Íamos casar e depois viver em Manaus ou em Belém, quem sabe no Rio. A chuva se aproximou com uma zoada de cachoeira. parecia que estávamos sozinhos na cidade e no mundo. Ela deitou na terra molhada, o pano do vestido colado na pele morena; se despiu sem pressa, a anágua, o corpete e o sutiã, ficou de pé, nua, e tirou minha roupa e me lambeu e chupou com gana; depois rolamos na terra até a mureta da Ribanceira, e voltamos para perto da árvore, amando como dois famintos. Não sei quanto tempo ficamos ali, acasalados, sentindo a quentura nas entranhas da carne. mal pude ver a beleza do corpo, abismado com o jeito dela, de amar. Dançarina. O ciúme me queimou. Quis esquecer isso e olhei o céu, a árvore, a torre da igreja. As flores caíam molhadas e cobriam meus olhos. Acordei com os estalos da chuva no rosto, e cometi a imprudência de beijar Dinaura com um desejo quase violento. Queria tocar a pele, beijar o corpo dela. Queria mais. os olhos diziam não. Encostei o ouvido nos lábios de Dinaura, mas a chuva me ensurdecia. E o que pude nos nos lábios: uma história. Qual? Ela se vestiu e fez um gesto: que a esperasse, voltava logo. Saiu correndo, como se fugisse de uma ameaça. Fui atrás dela e parei no meio da praça. Voltei, me vesti, esperei por ela no mesmo lugar. Ainda chovia quando alguém apareceu na entrada do colégio. Chamei por Dinaura, me aproximei e vi um homem caído. De joelhos. O mendigo recadeiro segurava um guarda-chuva preto. Estropiado. Iro soltou uns gemidos, ele esperava restos de comida do refeitório do colégio. Tirei do bolso uma nota molhada e joguei na barriga do homem