quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Trecho da História do Amor

AS ÚLTIMAS PALAVRAS SOBRE A TERRA

Quando escreverem meu obituário. Amanhã. Ou no dia seguinte. Vai estar escrito: LEO GURSKY DEIXOU UM APARTAMENTO CHEIO DE MERDA. Fico surpreso de não ter sido enterrado vivo. O lugar não é grande. Tenho de me esforçar para manter uma passagem livre entre a cama e o banheiro, o banheiro e a mesa da cozinha, a mesa da cozinha e a porta da frente. Se quero ir do banheiro para a porta da frente, impossível, tenho de passar pela mesa da cozinha. Gosto de imaginar a cama como a base principal, o banheiro como a primeira, a mesa da cozinha como a segunda, a porta da frente como a terceira: se a campainha toca quando estou deitado, sou obrigado a passar pelo banheiro e pela mesa da cozinha para chegar à porta. Quando acontece de ser Bruno, eu o deixo entrar sem dizer uma palavra e, em seguida, corro de volta para a cama, os brados da multidão invisível ecoando nos ouvidos.
Muitas vezes me pergunto quem vai ser a última pessoa a me ver com vida. Se tivesse de apostar, eu apostaria no entregador de comida chinesa. Eu a peço em quatro de cada sete noites. Sempre que ele vem, faço da busca pela minha carteira uma grande cena. Ele fica na porta com o saco engordurado enquanto eu imagino se vai ser essa a noite em que vou acabar com o rolinho primavera, me enfiar na cama e ter um ataque do coração durante o sono.
Faço de tudo para ser visto. Às vezes, quando estou na rua, compro um suco mesmo sem estar com sede. Se a loja estiver cheia, sou capaz de derramar meus trocados no chão, espalhando os centavos por todo lado. E me ponho de joelhos. Ajoelhar é para mim um grande esforço, e me erguer, um esforço ainda maior. E no entanto. Talvez eu pareça um idiota. Entro no Pé de Atleta e digo: Que tipos de tênis vocês têm? O balconista identifica em mim o pobre schmuck que eu sou e me leva até o par de Rockports que eles têm em estoque, alguma coisa branquíssima. Não, eu digo, esses eu já tenho, e em seguida vou até os Reeboks e escolho um que nem parece um sapato, uma botinha à prova d'água quem sabe, e peço uma número 9. O rapaz olha de novo para mim, com mais cuidado. Ele me examina para valer. Número 9, repito, enquanto agarro o calçado trançado. Ele meneia a cabeça e vai buscá-lo no fundo, e, quando volta, eu já estou desenrolando as meias. Dobro a perna da calça e encaro aquela coisa decrépita, meus pés, e passa um minuto embaraçoso até ficar evidente a minha expectativa de que ele calce as botinhas neles. Eu nunca compro de verdade. Tudo o que quero é não morrer num dia em que passei despercebido.
Alguns meses atrás, vi um anúncio no jornal. Dizia: PRECISA-SE: MODELO NU PARA AULAS DE DESENHO. $15/HORA. Parecia bom demais para ser verdade. Ser tão olhado. Por tanta gente. Liguei para o número. Uma mulher me disse para aparecer na terça seguinte. Tentei me descrever, mas ela não estava interessada. Qualquer coisa serve, disse.
Os dias custaram a passar. Contei ao Bruno, mas ele entendeu mal e pensou que eu tinha me inscrito numa aula de desenho para ver garotas nuas. Ele não queria ser corrigido. Elas mostram os peitos?, perguntou. Dei de ombros. E a parte de baixo?
Depois que a sra. Freid do quarto andar morreu, e passaram três dias até que alguém a encontrasse, Bruno e eu criamos o hábito de nos controlar um ao outro. Inventávamos pequenas desculpas - Meu papel higiênico acabou, eu dizia, quando Bruno abria a porta. Passava um dia. Havia uma batida na minha porta. Perdi o guia de programação da TV, ele explicava, e eu procurava o meu, embora soubesse que o dele estava no lugar de sempre, no sofá. Uma vez ele desceu num domingo à tarde. Preciso de uma xícara de farinha, disse. Fui grosseiro, mas não resisti. Você não sabe cozinhar. Houve um instante de silêncio. Bruno me olhou nos olhos. Você não sabe de nada, disse, estou assando um bolo.
Quando cheguei na América, eu não conhecia quase ninguém, a não ser um primo de segundo grau, que era chaveiro, e, assim, trabalhei para ele. Se ele fosse sapateiro, eu teria me tornado sapateiro; se ele varresse merda, eu também teria varrido. Porém. Ele era chaveiro. Ensinou-me o ofício, e foi isso que eu me tornei. Possuíamos um pequeno negócio, e num determinado ano ele pegou TB, tiveram de extrair seu fígado, e ele fez uma febre de quarenta e morreu, de modo que assumi tudo sozinho. Mandava metade do lucro para a esposa dele, mesmo depois que ela se casou com um médico e se mudou para Bay Side. Fiquei com o negócio durante mais de cinqüenta anos. Não era o que eu teria imaginado para mim. E no entanto. A verdade é que acabei gostando. Eu ajudava alguns que haviam sido deixados do lado de fora, e outros eu ajudava a manter do lado de fora o que não se devia deixar entrar, para que pudessem dormir sem pesadelos.
E um dia eu estava olhando pela janela. Talvez contemplasse o céu. Ponha um imbecil diante da janela, e você terá um Spinoza. A tarde passou, a escuridão me envolveu. Procurei a corrente da lâmpada, e de súbito parecia que um elefante havia pisado no meu coração. Caí de joelhos. Pensei: não vivi para sempre. Passou um minuto. Um minuto mais. Mais um. Grudei no chão e me arrastei até o telefone.
Vinte e cinco por cento do meu músculo cardíaco morreu. A recuperação foi demorada, e eu nunca voltei a trabalhar. Passou um ano. Eu tinha consciência da passagem do tempo pelo próprio tempo em si. Eu olhava pela janela. Vi o outono virar inverno. O inverno virar primavera. Em alguns dias, Bruno descia para ficar comigo. Nós nos conhecíamos desde meninos; fomos colegas de escola. Ele era um dos meus amigos mais próximos, com óculos de aro grosso, cabelo avermelhado que ele odiava e uma voz entrecortada quando se emocionava. Eu não sabia que ele ainda estava vivo quando um dia descia a East Broadway e ouvi sua voz. Eu me virei. Ele estava de costas para mim, diante de uma mercearia, e perguntava o preço de umas frutas. Pensei: Você está ouvindo coisas, você é um sonhador, qual é a chance... seu amigo de infância? Fiquei paralisado na calçada. Ele está em terra firme, disse para mim mesmo. Aqui está você nos Estados Unidos da América, ali está o McDonald's, acorde. Esperei só para ter certeza. Não teria reconhecido seu rosto. Porém. O modo de andar era inconfundível. Ele ia passar por mim, estendi o braço. Não tinha consciência do que fazia, talvez estivesse vendo coisas, agarrei a manga da camisa dele. Bruno, disse. Ele se deteve e se virou. Primeiro pareceu assustado e, depois, confuso. Bruno. Ele olhou para mim, seus olhos começaram a se encher de lágrimas. Agarrei sua outra mão, eu agora tinha uma das mangas e uma das mãos. Bruno. Ele começou a tremer. Encostou a mão na minha bochecha. Estávamos no meio da calçada, pessoas passavam apressadas, era um dia quente de junho. O cabelo dele era fino e branco. Ele deixou as frutas caírem. Bruno.
Alguns anos depois a mulher dele morreu. Ficar no apartamento sem ela era demais, tudo remetia a ela, e, assim, quando um apartamento vagou no andar acima do meu, ele se mudou. É comum ficarmos sentados à mesa da minha cozinha. Pode passar uma tarde inteira sem que troquemos uma palavra. Quando conversamos, nunca falamos em iídiche. As palavras da infância se tornaram estranhas para nós - não podíamos usá-las da mesma forma e, portanto, escolhemos não usá-las nunca. A vida exigia uma língua nova.
Bruno, meu velho companheiro. Não o descrevi o suficiente. Basta dizer que ele não pode ser descrito? Não. É melhor tentar e não conseguir do que nem tentar. O contorno suave do cabelo branco envolvia seu crânio com delicadeza como um dente-de-leão meio aberto. Muitas vezes, Bruno, tive vontade de soprar sua cabeça e fazer um pedido. Somente um resto de decoro me impede de fazê-lo. Ou quem sabe eu deveria começar pela sua estatura, que é muito pequena. Num dia bom você mal chega à altura do meu peito. Ou deveria começar pelos óculos que você pescou numa caixa e afirmou serem seus, umas coisas redondas enormes que aumentam os olhos de modo que sua reação permanente parece ser de quatro e meio na escala Richter? São óculos de mulher, Bruno! Nunca tive coragem de lhe dizer. Tentei muitas vezes. E mais uma coisa. Quando éramos meninos, você era o melhor escritor. Na época eu me orgulhava muito de dizê-lo a você. Porém. Eu sabia. Acredite em mim se o digo, eu sabia então como sei hoje. Dói pensar que eu nunca lhe disse, e também dói pensar em tudo o que você poderia ter sido. Perdoe-me, Bruno. Meu amigo mais antigo. O melhor. Não fui justo com você. Você me fez tão boa companhia no final da minha vida. Você, especialmente você, que teria encontrado as palavras para tudo aquilo.
Uma vez, há muito tempo, encontrei Bruno deitado no meio da sala junto de um vidro de comprimidos vazio. Ele não agüentava mais. Tudo o que queria era dormir para sempre. Preso em seu peito havia um bilhete com três palavras: ADEUS, MEUS AMORES. Eu gritei. NÃO, BRUNO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO! Bati no seu rosto. Por fim, os olhos dele se abriram, trêmulos. O olhar parecia vazio e amortecido. ACORDE, SEU DUMKOP!, gritei. OUÇA-ME AGORA: VOCÊ PRECISA ACORDAR! Os olhos dele se fecharam de novo. Disquei para o 911. Enchi uma tigela com água fria e a joguei nele. Encostei o ouvido no seu coração. Distante, um sussurro vago. A ambulância veio. No hospital, bombearam seu estômago. Por que você tomou todas aquelas pílulas?, o médico perguntou. Bruno, nauseado, exausto, ergueu os olhos friamente. POR QUE VOCÊ ACHA QUE EU TOMEI TODAS AQUELAS PÍLULAS?, guinchou. A sala de recuperação caiu no silêncio; todos olharam. Bruno gemeu e se virou para a parede. Naquela noite eu o pus para dormir. Bruno, eu disse. Sinto muito, ele disse. Tão egoísta. Suspirei e me voltei para sair. Fique comigo!, ele gritou.
Depois, nunca mais falamos daquilo. Como nunca falamos da nossa infância, dos sonhos que partilhamos e perdemos, de tudo o que aconteceu e do que não aconteceu. Uma vez, estávamos sentados em silêncio. De repente, um de nós começou a rir. Foi contagiante. Não havia razão para o riso, mas começamos com uma risadinha e no instante seguinte nos balançávamos na cadeira, uivando, uivando, de tanto rir, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Uma mancha úmida vicejou na minha virilha e nos fez rir ainda mais, eu esmurrava a mesa, com falta de ar, e pensei: Talvez eu morra assim, num surto de riso, o que seria melhor, rir e chorar, rir e cantar, rir para esquecer que estou só, que minha vida está no fim, que a Morte espera por mim do outro lado da porta.
Quando eu era menino, gostava de escrever. Era a única coisa que eu queria fazer na vida. Inventava pessoas imaginárias e enchia cadernos com suas histórias. Escrevi sobre um menino que cresceu e ficou tão peludo que as pessoas o caçavam interessadas em seu pêlo. Ele teve de se esconder nas árvores, e se apaixonou por um pássaro que pensava que ele era um gorila de cento e cinqüenta quilos. Escrevi sobre irmãos siameses, um dos quais estava enamorado de mim. Eu achava que as cenas de sexo eram inteiramente originais. E no entanto. Quando fiquei mais velho, decidi que desejava ser um escritor de verdade. Tentei escrever sobre coisas reais. Pretendia descrever o mundo, porque viver num mundo não descrito era muito solitário. Escrevi três livros antes dos vinte e um anos, ninguém sabe o que aconteceu com eles. O primeiro era sobre Slonim, a cidade onde eu vivia, que às vezes era Polônia, outras vezes Rússia. Desenhei o mapa para a folha de rosto, assinalei as casas e as lojas, aqui ficava Kipnis, o açougueiro, e aqui Grodzenski, o alfaiate, e aqui morava Fishl Shapiro, que ou era um grande tzaddik ou um idiota, ninguém conseguia decidir, e aqui a praça e o descampado onde brincávamos, e aqui o rio se alargava e aqui se estreitava, e aqui começava a floresta, e aqui ficava a árvore em que Beyla Asch se enforcou, e aqui e aqui. E no entanto. Quando o mostrei à única pessoa em Slonim cuja opinião importava, ela só deu de ombros e disse que achava melhor quando eu inventava as coisas. Assim, escrevi um segundo livro, e inventei tudo. Eu o enchi de homens que criavam asas e de árvores com raízes que cresciam para o céu, de gente que esquecia do próprio nome e de gente que não conseguia esquecer de nada; cheguei a inventar palavras. Quando ele estava terminado, corri para a casa dela. Irrompi na porta, escada acima, e o entreguei à única pessoa em Slonim cuja opinião importava. Apoiei-me na parede e observei seu rosto enquanto ela lia. Lá fora escureceu, mas ela continuou a ler. Passaram-se horas. Escorreguei para o chão. Ela lia e lia. Quando terminou, ergueu os olhos. Durante muito tempo, não falou nada. Depois, disse que talvez eu não devesse inventar tudo, porque ficava difícil acreditar em alguma coisa.
Outro talvez tivesse desistido. Eu comecei de novo. Dessa vez, não escrevi sobre coisas reais e não escrevi sobre coisas imaginárias. Escrevi sobre a única coisa que eu conhecia. As páginas se empilharam. Mesmo depois que a única pessoa cuja opinião me importava partiu num navio para a América, eu continuei a encher páginas com o nome dela.
Depois que ela se foi, tudo desmoronou. Nenhum judeu estava seguro. Havia rumores de coisas inimagináveis, e, porque não podíamos imaginá-las, deixamos de acreditar nelas, até não termos mais escolha e já ser tarde. Eu trabalhava em Minsk, mas perdi o emprego e voltei para casa, para Slonim. Os alemães arremetiam para o leste. Chegavam cada vez mais perto. Na manhã em que ouvimos a aproximação dos tanques, minha mãe mandou que eu me escondesse na mata. Eu quis levar meu irmão mais novo, ele tinha apenas treze anos, mas ela disse que ela mesma o levaria. Por que lhe dei ouvidos? Porque era mais fácil? Corri para a mata. Deitei-me no chão, imóvel. Cães latiam à distância. Passaram-se horas. E depois os disparos. Muitos disparos. Por alguma razão, ninguém gritava. Ou talvez eu não pudesse ouvir os gritos. Em seguida, apenas silêncio. Meu corpo estava amortecido, lembro de sentir gosto de sangue na boca. Não sei quanto tempo passou. Dias. Nunca voltei. Quando me levantei, tinha largado a única parte de mim que um dia pensara que eu seria capaz de encontrar palavras para o menor dos detalhes da vida.
E no entanto.
Alguns meses depois do meu ataque de coração, cinqüenta e sete anos depois de ter desistido, comecei a escrever de novo. Eu o fazia somente para mim, para mais ninguém, e essa era a diferença. Não importava se não encontrasse as palavras, e, mais que isso, eu sabia que era impossível encontrar as certas. E porque aceitei que na realidade era impossível o que um dia eu acreditara ser possível, e porque eu sabia que jamais mostraria uma palavra daquilo a ninguém, escrevi uma frase:
Era uma vez um menino.
Ela ficou ali, fitando-me da página, de resto em branco, durante dias. Na semana seguinte, acrescentei mais uma. Logo havia uma página inteira. Ela me fez feliz, como se falasse em voz alta para mim mesmo, o que às vezes faço.
Uma vez eu disse a Bruno: Adivinhe, quantas páginas você acha que eu já tenho?
Não faço idéia, ele disse.
Escreva um número, eu disse, e me passe sobre a mesa. Ele deu de ombros e tirou uma caneta do bolso. Pensou por um ou dois minutos, estudou meu rosto. Um palpite aproximado, eu disse. Ele se curvou sobre o guardanapo, rabiscou um número e o virou. Eu escrevi o número correto, 301, no meu próprio guardanapo. Aproximamos os dois guardanapos sobre a mesa. Eu peguei o de Bruno. Por razões que não sei explicar, ele havia escrito 200 000. Peguei meu guardanapo e o virei. Ele ficou de queixo caído.
Às vezes eu acreditava que a última página do meu livro e a última página da minha vida eram uma coisa só, que o término do meu livro seria o meu fim, um vento forte sopraria pelos quartos levando as páginas, e, quando o ar se livrasse das folhas brancas esvoaçantes, o quarto cairia no silêncio e a cadeira em que eu me sentava estaria vazia.
Toda manhã eu escrevia um pouco mais. Trezentas e uma: é melhor do que nada. Vez ou outra, ao parar, eu ia ao cinema. É sempre um grande acontecimento para mim. Talvez comprasse umas pipocas e, se houvesse gente em volta olhando, as derrubasse. Gosto de sentar na frente, gosto que a tela preencha todo o meu campo de visão para que nada me distraia do instante. E depois desejo que o instante dure para sempre. Nem sei como dizer quanto me faz feliz assistir a tudo lá no alto, ampliado. Eu diria maior que a realidade, mas nunca entendi a expressão. O que é maior que a realidade? Sentar na primeira fila e olhar o rosto de dois andares de altura de uma garota bonita e sentir as vibrações da voz dela massageando suas pernas é ser lembrado das dimensões da realidade. Assim, eu me sento na primeira fila. Se saio com uma cãibra no pescoço e uma ereção se acabando, o lugar foi bom. Não sou um homem sujo. Sou um homem que ansiou estar à altura da vida.
Há trechos do meu livro que eu sei de cor.
De cor não é uma expressão que uso com desprendimento.
Meu coração é fraco e indigno de confiança. Minha partida será por causa do meu coração. Procuro sobrecarregá-lo o mínimo possível. Se alguma coisa vai representar um impacto, eu a desvio para outro lugar. Para o meu intestino, por exemplo, ou para os meus pulmões, que podem se deter por um instante mas nunca deixaram de dar mais uma respirada. Quando passo por um espelho e me surpreendo num relance, ou se estou no ponto de ônibus e alguns garotos surgem atrás de mim e dizem: Quem está com cheiro de merda?, essas pequenas humilhações cotidianas eu, de modo geral, assimilo no fígado. Outros estragos absorvo em outros lugares. O pâncreas eu guardo para ser atingido por tudo o que foi perdido. É verdade que são muitas coisas, e o órgão é muito pequeno. Porém. Você se surpreenderia de saber quanto ele é capaz de suportar, tudo o que sinto é uma dor aguda, momentânea, e depois acaba. Às vezes imagino minha própria autópsia. Desapontamento comigo mesmo: rim direito. Desapontamento dos outros comigo: rim esquerdo. Fracassos pessoais: kishkes. Não quero dar a impressão de que fiz disso uma ciência. Não é tão bem pensado. Assimilo a coisa onde ela aparece. Acontece que percebo certos padrões. O anoitecer, antes que eu esteja pronto, porque os relógios foram atrasados, sinto, por razões que não consigo explicar, nos meus pulsos. E, quando acordo e os dedos estão enrijecidos, eu quase certamente sonhava com a infância. O terreno onde costumávamos brincar, o terreno onde tudo se descobriu e onde tudo era possível. (Nós corríamos tanto que achávamos que íamos cuspir sangue: para mim, esse é o som da infância, respiração difícil e sapatos esmagando a terra dura.) Rigidez nos dedos é o sonho da infância como ele voltou no final da minha vida. Tenho de corrê-los sob água quente, com vapor embaçando o espelho, lá fora o arrulho de pombos. Ontem vi um homem chutando um cachorro, e a sensação se alojou atrás dos meus olhos. Não sei que nome dar a ele, ao lugar antes das lágrimas. A dor de esquecer: na espinha. A dor de lembrar: na espinha. Todas as vezes em que de repente eu me dava conta de que meus pais estavam mortos, e, ainda hoje, me surpreende que eu exista no mundo se os que me fizeram deixaram de existir: meus joelhos requerem meio tubo de Ben-Gay e uma grande produção só para se dobrarem. Para tudo, o seu tempo, para cada vez que acordei e cometi o erro de acreditar por um instante que alguém dormia a meu lado: uma hemorróida. Solidão: não há órgão que possa suportá-la inteira.
Toda manhã, um pouco mais.
Era uma vez um menino. Ele morava numa aldeia que não existe mais, numa casa que não existe mais, na extremidade de um campo que não existe mais, onde tudo foi descoberto e tudo era possível. Um pedaço de pau podia ser uma espada. Um pedregulho podia ser um diamante. Uma árvore, um castelo.
Era uma vez um menino que morava numa casa no terreno de frente para uma menina que não existe mais. Inventaram mil jogos. Ela era Rainha e ele era Rei. Na luz do outono, o cabelo dela brilhava como uma coroa. Eles juntavam o mundo em pequenos punhados. Quando o céu escurecia, separavam-se com folhas nos cabelos.
Era uma vez um menino que amava uma menina, e a risada dela era uma pergunta que ele desejava passar a vida a responder. Quando tinham dez anos, ele a pediu em casamento. Quando tinham onze, ele a beijou pela primeira vez. Quando tinham treze, eles brigaram e não se falaram por três semanas. Quando tinham quinze, ela mostrou a ele a cicatriz no seio esquerdo. O amor deles era um segredo que não contavam para ninguém. Ele prometeu a ela que jamais amaria outra menina enquanto vivesse. E se eu morrer?, ela perguntou. Nem assim, ele disse. No aniversário de dezesseis anos, ele deu a ela um dicionário de inglês, e juntos eles aprenderam as palavras. O que é isso?, ele perguntou, passando o dedo indicador no tornozelo dela, e ela procurou. E isso?, ele perguntou, beijando o cotovelo dela. Cotovelo! Que palavra é essa?, e depois ele o lambeu, e a fez rir. E o que acha disso?, ele perguntou, tocando a pele macia atrás da orelha dela. Não sei, ela disse, e apagou a lanterna e rolou, com um suspiro, sobre as costas. Quando tinham dezessete, fizeram amor pela primeira vez, numa cama de palha num galpão. Mais tarde - quando aconteceram coisas que eles nunca poderiam ter imaginado - ela lhe escreveu uma carta que dizia: Quando você vai aprender que não existem palavras para todas as coisas?
Era uma vez um menino que amava uma menina cujo pai foi esperto o bastante para juntar todos os zlotis que tinha para mandar a filha mais nova para a América. Primeiro, ela se opôs, mas o menino também sabia que devia insistir, jurando pela sua vida que ganharia algum dinheiro e acharia um meio de ir atrás dela. Assim, ela partiu. Ele arranjou um emprego na cidade mais próxima, trabalhou como porteiro num hospital. De noite ficava acordado e escrevia o livro. Mandou para ela uma carta em que copiou onze capítulos numa letra miúda. Ele nem tinha certeza de que o correio chegaria. Guardou todo o dinheiro que pôde. Um dia, foi despedido. Ninguém disse por quê. Ele voltou para casa. No verão de 1941, os Einsatzgruppen penetraram mais para o leste e mataram centenas de milhares de judeus. Num dia claro, quente, de julho, entraram em Slonim. Àquela hora o menino estava deitado de costas na mata e pensava na menina. Poderia se dizer que foi o amor dele por ela que o salvou. Nos anos seguintes, o menino se transformou num homem que se tornou invisível. Assim, ele escapou da morte.
Era uma vez um homem que, tornado invisível, chegou na América. Ele havia passado três anos e meio escondido, na maior parte do tempo em árvores, mas também em frestas, porões, buracos. Depois, acabou. Os tanques russos chegaram. Durante seis meses ele morou num campo de refugiados. Enviou uma mensagem ao primo dele, que era chaveiro na América. Em sua cabeça ele praticava as únicas palavras que conhecia em inglês. Joelho. Cotovelo. Orelha. Finalmente, os papéis saíram. Ele tomou um trem até um navio, e depois de uma semana chegou à baía de Nova York. Num dia frio de novembro. Dobrado na mão, levava o endereço da menina. Naquela noite, ficou acordado no chão do quarto do primo. A estufa tinia e chiava, mas ele se sentia agradecido pelo calor. De manhã o primo lhe explicou três vezes como se tomava o metrô para o Brooklyn. Ele comprou um maço de rosas, mas elas murcharam, porque, embora o primo tivesse explicado o caminho três vezes, ele ainda assim se perdeu. Por fim, ele encontrou o lugar. Somente quando seu dedo pressionou a campainha, cruzou-lhe a mente o pensamento de que talvez devesse ter ligado. Ela abriu a porta. Usava um lenço azul no cabelo. Ele ouviu a transmissão de um jogo através da parede do vizinho.
Era uma vez a mulher que havia sido uma menina e embarcara num navio para a América e vomitara durante a viagem inteira, não porque estivesse mareada, mas porque estava grávida. Quando descobriu, escreveu para o menino. Todos os dias ela esperou por uma carta dele, mas não chegou nenhuma. Ela foi ficando cada vez maior. Tentou esconder para não perder o emprego na fábrica de vestidos onde trabalhava. Algumas semanas antes de nascer o bebê, alguém lhe disse ter ouvido que judeus estavam sendo mortos na Polônia. Onde?, ela perguntou, mas ninguém sabia. Ela parou de ir ao trabalho. Não conseguia sair da cama. Passada uma semana, o filho do patrão foi vê-la. Levou comida para ela e pôs um buquê de flores num vaso junto da sua cama. Quando descobriu que ela estava grávida, chamou uma parteira. Nasceu um menino. Um dia a menina sentou-se na cama e viu que o filho do patrão embalava a criança ao sol. Alguns meses mais tarde, ela concordou em se casar com ele. Dois anos depois, teve outro filho.
O homem que havia se tornado invisível ficou de pé na sala da casa dela e escutou isso tudo. Ele tinha vinte e cinco anos de idade. Havia mudado tanto desde que a vira pela última vez, e naquela hora uma parte dele desejou rir, uma risada dura e fria. Ela deu a ele uma pequena fotografia do menino, que tinha cinco anos. Sua mão tremia. Ela disse: Você parou de escrever. Pensei que estivesse morto. Ele olhou para a fotografia do menino que cresceria para se tornar parecido com ele, que, embora àquela altura o homem ainda não soubesse, entraria na universidade, se apaixonaria, se desapaixonaria, se tornaria um escritor famoso. Como ele se chama?, ele perguntou. Ela disse: Eu o chamei de Isaac. Ficaram em silêncio durante um longo tempo, enquanto ele fitava a fotografia. Por fim, ele conseguiu dizer duas palavras: Venha comigo. Da rua vinha o som de gritos de crianças. Ela apertou os olhos. Venha comigo, ele disse, e estendeu a mão. Lágrimas correram pelo rosto dela. Ele pediu três vezes. Ela balançou a cabeça. Não posso, disse. Olhou para o chão. Por favor, ele disse. E assim ele fez a coisa mais difícil que havia feito na vida: pegou o chapéu e foi embora.
E, se o homem que um dia havia sido um menino e prometera não se apaixonar por outra menina enquanto vivesse cumpriu a promessa, não foi porque fosse teimoso ou mesmo fiel. Ele não podia fazer diferente. E, por ter se escondido durante três anos, esconder o amor por um filho que não sabia da sua existência não parecia impensável. Não, se fosse o que a única mulher jamais amada por ele lhe pedisse. Afinal, o que significa para um homem esconder uma coisa a mais se ele desapareceu completamente?
[...]

A história do amor


A história do amor é um livro sobre não-desaparecer, é um registro que vai a função da literatura mais egoísta e humana por isso mesmo, a de continuar-me vivo, ainda que morto.




"Para pintar uma folha, é preciso sacrificar a paisagem toda. A princípio, isso parece uma limitação, mas passado um tempo se percebe que a posse de um centrímetro de alguma coisa oferece uma oportunidade maior para apreender uma certa sensação do Universo do que o anseio de abraçar todo firmamento" p. 61


"Por que as pessoas sempre herdam o nome de gente morta? Se o nome tem de vir de algum lugar, por que não pode ser de coisas mais duradouras, como o céu e o mar, ou mesmo de idéias, que nunca morrem de verdade, nem mesmo as más?" p. 224

Espiritualidade, Contemplação e Paz

"É um desastre espiritual para o homem contentar-se com sua identidade exterior com a fotografia do seu passaporte. Sua vida resume-se apenas às suas impressões digitais?" Thomas Merton


"Para sermos perfeitamente o que Deus quer que sejamos, é-nos preciso ser com toda a verdade nós mesmos. Mas, para sermos nós mesmos, de verdade, temos que encontrarmo-nos em Cristo- o que só pode acontecer se nos perdermos Nele. É esta nossa grande vocação"p. 37



"Num sacrifício puro, o que realmente importa é a preferência do amor de Deus a tudo mais e o gesto mais efetivo é aquele que de modo mais claro e completo exprime essa preferência" p. 52


Thomas Merton,

Diderot: Erro


"A todo momento, eu topo com o erro, porque a língua não me fornece o propósito a expressão da verdade. Abandono uma tese, por falta de palavras que exprimam bem as minhas razões. No fundo do coração eu tenho uma coisa, e digo uma outra"

D. Diderot

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Se você gosta de consultar crítica antes

http://www.metacritic.com/

A História do Amor


A história do amor de Nicole Krauss.


A história como o oposto de desaparecer.

Entrevista dela ao Guardian:

The novel is, in her own description, 'a book about the way in which books can change people's lives'. It's also about love, loss and longing - 'embarrassing things,' as Krauss calls them, which she partly puts in the witty, unplangent voice of an old Jewish locksmith called Leo Gursky. Krauss's sentences are precise but never cold: 'We met each other when we were young,' one character writes, 'before we knew enough about disappointment, and once we did we found we reminded each other of it.'
Her characters are ideas with lives. Leo Gursky is a person who makes others famous, a great writer who nobody knows about but millions have read; he's a brilliant invention, perhaps more brilliant than the book he has written, which we read in lyrical snatches as it's translated. How the book came into the translator's hands is part of a structure of maze-like qualities and phenomenal (eventual) neatness.
There are other voices and other books: European-Jewish and Latin-American fictions are mistaken for one another, or actually become one another, with all the melding of philosophy, humour and magic that implies. And Krauss's range of apparent influences - Bruno Schultz, Jorge Luis Borges, Grace Paley - is such that The History of Love turns out to be, perhaps, all of the fictional books it's about.
Over lunch, we are surrounded by the sunny sounds of Brooklyn life - the continuous song of a playground in the distance. Krauss speaks in a small, sprightly, careful voice. Although she possesses a quiet kind of glamour, there is also a little mischief about her; her easy smile reveals a tiny gap between her teeth.
Although Krauss, who is 30, will be seen as part of a new generation of novelists to whom the word 'wunderkind' is liberally applied, she says: 'I honestly kind of avoid meeting other writers. When I was younger, I was amazed by writers and I thought they were some kind of angels. But when writers get together, sadly, they tend not to talk about the great philosophical issues of the day, but rather, who is your publisher and did you see that awful review that so and so did? It's really disappointing.'
Krauss grew up on Long Island, where, she says, 'the houses were pretty far from each other. I didn't really know my neighbours'. She immersed herself in reading - 'crumbly yellow paperbacks', a biography of Henry Miller, Ayn Rand's The Fountainhead, Roth's Portnoy's Complaint - all by the age of 12.
At 13, she was taught One Hundred Years of Solitude at school and had an epiphany. The teacher said it was a book about nostalgia and she thought: 'A word for the thing I feel.' What she was nostalgic for is something she's had to think about a good deal. It didn't make sense to be a teenager and have that feeling. Her first book - Man Walks Into a Room, about a person with amnesia - might be seen as an investigation of that question, just as much as The History of Love, which is dedicated to her grandparents.
'I think it has something to do with - or everything to do with - the fact that my grandparents came from these places that we could never go back to, because they'd been lost,' she reflects. 'And people were lost. My great-grandparents and lots of great-uncles and aunts died in the Holocaust. I don't know; maybe it's something that's inherited in the blood, a sense of a loss of that thing and a longing for it.
'When the word nostalgia was coined in the 18th century, it was used to describe a pathology - not so much a sense of lost time, but a severe homesickness.'
In The History of Love, the symptoms of loss are so well-judged and so entertaining that they barely leave room for considerations about the cause. There is Alma, who writes volumes of notebooks on the subject of 'How to survive in the wild'; her brother, who jumps off buildings and thinks he's the new messiah; their mother, a translator who exists in a pile of dictionary pages and has a habit of looking into a glass of water 'as if there were a fish in it that only she could see'.
The death of the father in this family is a constant presence, but only as they themselves realise how long this has been going on does the reader's heart begin to break.
In her first year at Stanford University, Krauss went to a lecture given by Joseph Brodsky, and handed him some poems she had written. She didn't think she would hear from him, but the next morning he called, and they spent seven hours working on her poems.
As a teenager, Krauss had a crush on German philosopher Walter Benjamin. She ended up marrying Jonathan Safran Foer, not a bad second choice, given that Benjamin died in tragic circumstances in 1940 (that, of course, had been part of the attraction).
The two writers, whose second books have been published within months of one another, have met with extraordinary critical success, and both have signed major film deals (Foer's first book, Everything is Illuminated, will be actor Liev Schreiber's directorial debut and is due to open in the US this summer; The History of Love will be directed by Alfonso Cuarón, who made Y Tu Mamá TambiéŽn and the third Harry Potter).
What's extraordinary, and quite moving, is not that they are both writers (people ask her whether they compare notes; the answer is no, they don't read each other's books until they're in proof form) but how much they must have shared before they even knew of each other's existence.
They met through their Dutch publisher, when their first books were just out. He had edited a book about artist Joseph Cornell; she had written her thesis about him. Both are preoccupied with the past.
Krauss says: 'First, it has to do with why we love each other, long before we ever get to the fact that we're writers or write about similar things. I think we come from such a similar place. His grandmother survived the Holocaust. I think we intuited a lot of the same things in the silences of our childhood.'
In Krauss's book, Leo Gursky is at work on another novel. It's called Words for Everything. Does she think there are words for everything, in the end?
'No, I guess. Unfortunately. And fortunately, too. But great to try to write a book with that title. I could never do it, but Leo could. Gloriously,' she says with a laugh, 'he'll never get reviewed!'The novel is, in her own description, 'a book about the way in which books can change people's lives'. It's also about love, loss and longing - 'embarrassing things,' as Krauss calls them, which she partly puts in the witty, unplangent voice of an old Jewish locksmith called Leo Gursky. Krauss's sentences are precise but never cold: 'We met each other when we were young,' one character writes, 'before we knew enough about disappointment, and once we did we found we reminded each other of it.'
Her characters are ideas with lives. Leo Gursky is a person who makes others famous, a great writer who nobody knows about but millions have read; he's a brilliant invention, perhaps more brilliant than the book he has written, which we read in lyrical snatches as it's translated. How the book came into the translator's hands is part of a structure of maze-like qualities and phenomenal (eventual) neatness.
There are other voices and other books: European-Jewish and Latin-American fictions are mistaken for one another, or actually become one another, with all the melding of philosophy, humour and magic that implies. And Krauss's range of apparent influences - Bruno Schultz, Jorge Luis Borges, Grace Paley - is such that The History of Love turns out to be, perhaps, all of the fictional books it's about.
Over lunch, we are surrounded by the sunny sounds of Brooklyn life - the continuous song of a playground in the distance. Krauss speaks in a small, sprightly, careful voice. Although she possesses a quiet kind of glamour, there is also a little mischief about her; her easy smile reveals a tiny gap between her teeth.
Although Krauss, who is 30, will be seen as part of a new generation of novelists to whom the word 'wunderkind' is liberally applied, she says: 'I honestly kind of avoid meeting other writers. When I was younger, I was amazed by writers and I thought they were some kind of angels. But when writers get together, sadly, they tend not to talk about the great philosophical issues of the day, but rather, who is your publisher and did you see that awful review that so and so did? It's really disappointing.'
Krauss grew up on Long Island, where, she says, 'the houses were pretty far from each other. I didn't really know my neighbours'. She immersed herself in reading - 'crumbly yellow paperbacks', a biography of Henry Miller, Ayn Rand's The Fountainhead, Roth's Portnoy's Complaint - all by the age of 12.
At 13, she was taught One Hundred Years of Solitude at school and had an epiphany. The teacher said it was a book about nostalgia and she thought: 'A word for the thing I feel.' What she was nostalgic for is something she's had to think about a good deal. It didn't make sense to be a teenager and have that feeling. Her first book - Man Walks Into a Room, about a person with amnesia - might be seen as an investigation of that question, just as much as The History of Love, which is dedicated to her grandparents.
'I think it has something to do with - or everything to do with - the fact that my grandparents came from these places that we could never go back to, because they'd been lost,' she reflects. 'And people were lost. My great-grandparents and lots of great-uncles and aunts died in the Holocaust. I don't know; maybe it's something that's inherited in the blood, a sense of a loss of that thing and a longing for it.
'When the word nostalgia was coined in the 18th century, it was used to describe a pathology - not so much a sense of lost time, but a severe homesickness.'
In The History of Love, the symptoms of loss are so well-judged and so entertaining that they barely leave room for considerations about the cause. There is Alma, who writes volumes of notebooks on the subject of 'How to survive in the wild'; her brother, who jumps off buildings and thinks he's the new messiah; their mother, a translator who exists in a pile of dictionary pages and has a habit of looking into a glass of water 'as if there were a fish in it that only she could see'.
The death of the father in this family is a constant presence, but only as they themselves realise how long this has been going on does the reader's heart begin to break.
In her first year at Stanford University, Krauss went to a lecture given by Joseph Brodsky, and handed him some poems she had written. She didn't think she would hear from him, but the next morning he called, and they spent seven hours working on her poems.
As a teenager, Krauss had a crush on German philosopher Walter Benjamin. She ended up marrying Jonathan Safran Foer, not a bad second choice, given that Benjamin died in tragic circumstances in 1940 (that, of course, had been part of the attraction).
The two writers, whose second books have been published within months of one another, have met with extraordinary critical success, and both have signed major film deals (Foer's first book, Everything is Illuminated, will be actor Liev Schreiber's directorial debut and is due to open in the US this summer; The History of Love will be directed by Alfonso Cuarón, who made Y Tu Mamá TambiéŽn and the third Harry Potter).
What's extraordinary, and quite moving, is not that they are both writers (people ask her whether they compare notes; the answer is no, they don't read each other's books until they're in proof form) but how much they must have shared before they even knew of each other's existence.
They met through their Dutch publisher, when their first books were just out. He had edited a book about artist Joseph Cornell; she had written her thesis about him. Both are preoccupied with the past.
Krauss says: 'First, it has to do with why we love each other, long before we ever get to the fact that we're writers or write about similar things. I think we come from such a similar place. His grandmother survived the Holocaust. I think we intuited a lot of the same things in the silences of our childhood.'
In Krauss's book, Leo Gursky is at work on another novel. It's called Words for Everything. Does she think there are words for everything, in the end?
'No, I guess. Unfortunately. And fortunately, too. But great to try to write a book with that title. I could never do it, but Leo could. Gloriously,' she says with a laugh, 'he'll never get reviewed!'

http://books.guardian.co.uk/departments/generalfiction/story/0,,1484082,00.html

terça-feira, fevereiro 20, 2007


"Não! não é por pessimismo ou desespero que eu recuso o mundo moderno; eu o recuso com todas as forças de minha Esperança" Georges Bernanos, 1946

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Lendo...



Não se pode dizer que o americano Jonathan Safran Foer não seja corajoso. Incensado pela crítica ao estrear no romance em 2002, aos 25 anos, com um relato pouco ortodoxo em torno do Holocausto chamado “Tudo se ilumina” (Rocco, tradução de Paulo Reis e Sérgio Moraes Rego, 368 páginas, R$ 48), Foer – que virá à Flip – construiu seu segundo livro ao redor de mais um grande trauma coletivo. Desta vez, porém, a ferida está bem mais perto de casa, tanto no tempo quanto no espaço – daí se falar em coragem, embora não falte quem fale também em oportunismo. Inevitável. “Extremamente alto & incrivelmente perto” (Rocco, tradução de Daniel Galera, 392 páginas, R$ 47) é conduzido pela narração de um menino brilhante de 9 anos, Oskar, que sofre com a perda de seu pai no ataque terrorista ao World Trade Center. A prosa inventiva de Foer, recheada – e não raro, convenhamos, entulhada – de jogos de linguagem, às vezes parece pesada demais para a criança que a enuncia, mas nem sempre. No fragmento abaixo, Oskar soa absolutamente convincente enquanto ouve as mensagens que seu pai deixou na secretária eletrônica na manhã do atentado (Sérgio Rodrigues)
Não somos racistas é um livro nascido do espanto. Movido pelo instinto de repórter, Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, começou a perceber que a política de cotas proposta pelo Governo Lula — e que pode ser aprovada em breve pelo Senado — divide o Brasil em duas cores, eliminando todas as nuances características da nossa miscigenação. Ali constata, estarrecido, que, nesta divisão entre brancos e não-brancos, os "não-brancos" são considerados todos negros: “Certo dia, caiu a ficha: para as estatísticas, negros eram todos aqueles que não eram brancos. Cafuzo, mulato, mameluco, caboclo, escurinho, moreno-bombom? Nada disso, agora eram brancos ou negros. Pior: uma nação de brancos e negros, onde os brancos oprimem os negros. Outro susto: aquele país não era o meu”.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Lado a Lado


RABEY, Louis e Steve Lado a Lado Ed. Mundo Cristão


SILÊNCIO
“Aquele que possui a Palavra de Jesus é verdadeiramente capaz de ouvir até seu silencio, pode ser perfeito e pode agir pelo que fala e ser reconhecido pelo silêncio” Inácio de Antioquia, p. 33
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5 MARCAS DO SERVO
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1. Tem de estar disposto a ter varias responsabilidades sobre si, sem nenhuma consideração com ele próprio.
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2. Ao fazer isso devemos estar dispostos a não receber gratidão nenhuma
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3.depois de fazer tudo, não se deve acusar os outros de egoísmo.
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4.tendo feito tudo isso, não há lugar para orgulho ou autocongrutulacao, mas devemos confessar que somos servos indignos.
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5. Admitirmos que se fizemos o que tínhamos que fazer em mansidão e humildade, não fizemos nada além da nossa obrigação.
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CUSTO DO DISCIPULADO
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“Nessa igreja o mundo encontra uma propiciarão barata para o pecado; nenhuma contrição é exigida, muito menos um desejo real de se livrar do pecado. Graça barata, portanto, é a negação da Palavra viva de Deus; de fato, é uma negação da encarnação da Palavra de Deus” Dietrich Bohoeffer, p. 51
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“Todos nós desejamos ser deuses com Deus, mas Ele sabe que poucos desejam ser homens com Ele em sua humanidade, carregar a cruz com Ele, ser pregado nela com Ele e pagar o débito da humanidade” Hadewijch de Brabant, p. 54
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DISCIPULADO X SUPERCRENTES
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“Não podemos ser induzidos a acreditar que as disciplinas são para os gigantes espirituais, estando assim de fora do nosso alcance ou são para os contemplativos que passam a toda a vida em oração e meditação. Longe disto, Deus tenciona que as Disciplinas da vida espiritual sejam praticadas pelos seres humanos comuns: pessoas que têm emprego, que cuidam de crianças e que lavam louca e cortam grama” Richard Foster, p. 60

Trechos da Mensagem Secreta

McLAREN, Brian A Mensagem Secreta de Jesus Thomas Nelson Brasil, 2007.

“Eis o escândalo: não apenas que Jesus fale do novo Reino (ainda que sua imagem do Reino seja única e poderosa), mas que ele diga estar o Reino próximo, disponível para ser agarrado, batendo à porta- não apenas algum dia no futuro, porém, aqui e agora. Aqui e agora!” p. 42

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Sobre PARÁBOLAS
“Não ouça apenas com seus ouvidos, ouça com seu coração. Não ouça apenas minhas palavras, ouça o significado mais profundo do que eu estou querendo dizer. Não ouça o sentido literal acessível à sua mente racional, busque mais profundamente por um significado, o que requer que você invista com sinceridade em esforço e imaginação pessoal“. p. 65
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“a maior genialidade de uma parábola: ela não agarra ninguém pelo colarinho e berra em seus ouvidos. Não força alguém a se submeter, mas deixa livre para que descubra e escolha por si mesma (...) a mensagem do Reino não venha nem como uma simples formula nem como uma grave ameaça ou ultimato, e sim, como um segredo escondido em uma parábola, como um tesouro escondido em um campo, como uma semente emabaixo do solo, como fermento escondido na massa” p. 70
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REINO DE DEUS
“A única maneira do Reino de Deus ser suficientemente forte, de um modo verdadeiramente libertador, é através de um certo tipo de fraqueza, escandalosa e não-coercitiva, a única forma de ser poderoso é através de uma fenomenal vulnerabilidade, a única maneira de dar vida é morrendo, o único modo de ter sucesso é fracassando?” p. 95

COMUNHÃO
“A vida é para eles agora um relacionamento interativo- reconciliados com Deus, reconciliados uns com os outros- e, portanto, vêem sua vida inteira como sendo uma oportunidade para se tocar a bela musica do Reino de Deus, de modo que cada vez mais pessoas serão atraídas a ele e que o mundo seja transformado pela sua crescente influência” p. 109
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RELIGIÃO E REALIDADE
“A religião se tornou o nosso calmante para que não ficássemos tão indignados com a injustiça” p.111
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LEIGOS X CLÉRIGOS
“Posso nos imaginar abandonando a falsa idéia de que alguns são clérigos (pessoas especiais que representam) e outros são leigos (pessoas passivas que observam- e frequentemente criticam- o desempenho dos clérigos). Em vez disso, posso nos imaginar vendo a cada um como agentes potenciais do Reino” p.112
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MUNDO E OUTRO MUNDO
“ESte mundo não está livre de conflitos, porém o conflito conduz à reconciliação e não à vingança. Neste mundo não estamos livres de passar necessidade, mas a generosidade flui onde e quando a necessidade surge. Em resumo, este novo mundo é aquele prometido pelos profetas. A mensagem secreta de Jesus, portanto, nos diz que este novo mundo é possível que está próximo, ou seja, ao alcance de todos. E, como resultado, esta é a hora de se reconsiderar a respeito de tudo e de se começar a aprender a viver segundo o estilo do Reino de Deus” p. 223
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“Se um numero suficiente de pessoas puder visualizar o Reino- e, ao vê-lo, reconsiderar sua vida, crendo que o impossível é possível- tudo poderá mudar” p. 250
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“Vislumbres deixam fragmentos em nossos corações e, uma vez tendo um vislumbre do Reino de Deus, nada mais poderá nos satisfazer plenamente” p.244
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A BÍBLIA, OS CRENTES E KIERKEGAARD
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“A Bíblia é muito simples de se entender. Mas nós, cristãos, somos um bando de caloteiros intrigantes. Fingimos ser incapazes de compreende-la porque sabemos muito bem que, no instante que a compreendermos, estaremos obrigados a agir de acordo com ela. Pegue quaisquer palavras do Novo Testamento e deixe tudo o mais do lado exceto seu empenho pessoal de agir de modo coerente com elas. Meu Deus! -você dirá- Se fizer isto, toda a minha vida está arruinada. Como poderia dar continuidade à minha vida neste mundo?

Eis, portanto, o verdadeiro propósito da erudição cristã. A erudição cristã é a invenção mais prodigiosa para se defender da Biblia, a fim de garantir que poderemos continuar sendo bons cristãos sem que a Bíblia sem aproxime demais de nós. Quão temível é cair nas mãos do Deus vivo! Sim, mais temível ainda é ficar a sós com o Novo Testamento.”
Soreen Kierkegaard,na p. 263

domingo, fevereiro 04, 2007

A Mensagem Secreta de Jesus



Brian McLaren propõe as perguntas mais relevantes que o Cristianismo poderia enfrentar: Seria possível que a Igreja entendeu tudo errado ou que tenha até mesmo distorcido intencionalmente a principal mensagem de Jesus? Todos acreditamos que Jesus estava certo, mas e se ele estivesse certo de uma forma completamente diferente? E se muitos de nós estivermos praticando uma religião que perdeu seus tesouros mais valiosos que estão escondidos na verdadeira mensagem de Jesus de Nazaré? McLaren nos convida para uma análise dura e uma reflexão profunda, cujos resultados e respostas encontrados poderão mudar radicalmente nossas idéias, prioridades e práticas espirituais.