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terça-feira, agosto 04, 2015

Robert W. Thune: A vida centrada no Evangelho


A VIDA CENTRADA NO EVANGELHO de Robert W, Thune e Will Walker publicado pela Vida Nova  é dos melhores guias de discipulado e introdução ao Evangelho que vi em português. Escrito 9 lições, ele aborda temas centrais do que seria realmente uma vida centrada no Evangelho.
 

Alguns trechos:

CRESCER NO EVANGELHO

"Crescer no evangelho significa enxergar mais da santidade de Deus e mais do meu pecado. E por causa daquilo que Jesus fez por nós na cruz, não precisamos ter medo de ver Deus como ele realmente é ou  de admitir quão falhos realmente somos. Nossa esperança não está na nossa própria excelência, nem na vã expectativa que Deus vai abrir mão dos seus padrões e "baixar o nível". Pelo contrário, descansamos em Jesus como nosso perfeito Redentor, aquele que é nossa "justiça, santificação e redenção"(Cl 1:30)"".p.22

CRISTIANISMO DE DESEMPENHO.

"O cristianismo de desempenho é realmente uma minimização da santidade de Deus. A ideia de que podemos impressionar Deus com a nossa vida correta mostra que temos rebaixado seus padrões a muito menos do que eles realmente são. Em vez de ficarmos admirados com a medida infinita de sua santa perfeição, temos nos convencido de que, se nos esforçarmos bastante, podemos merecer o amor e a aprovação de Deus" p. 31

MARTINHO LUTERO E A JUSTIÇA PASSIVA:

"Chama-se justiça passiva porque não temos de labutar por ela ... Não é uma justiça pela qual trabalhamos, mas a justiça que recebemos pela fé. Essa justiça passiva é um mistério que alguém não conhece a Jesus não consegue entender. Aliás, nem os cristãos têm uma compreensão completa dela e raramente usufruem dela na vida diária ... Quando existe qualquer medo ou nossa consciência fica perturbada, isso é sinal de que perdemos de vista nossa justiça passiva e Cristo está oculto.
A pessoa que se afasta da justiça passiva não tem outra escolha senão viver pela justiça das obras. Se não depender da obra de Cristo, terá de depender de sua própria obra. Portanto, temos de ensinar e continuamente repetir a verdade dessa justiça passiva ou cristã para que os cristãos continuem a crer nela e jamais a confundam com a justiça das obras"  Martinho Lutero na p. 36

BOA NOTÍCIA

"A boa notícia do evangelho não é o fato de que Deus dá muita importância para nós, mas, sim de que ele nos liberta para dar muita importância para Jesus."
  p. 36

"Quando abraçamos o evangelho dessa forma, o padrão infinito da santidade de Deus já não mais nos amedronta ou intimida. Ele leva à adoração, porque Jesus o satisfez por nós. Nossa identidade está nele. A boa notícia do evangelho não é que Deus nos favorece por causa de quem somos, mas que ele nos favorece apesar de quem somos" p. 37

LEGALISMO E LICENCIOSIDADE.

"Os legalistas continuam a viver sob a lei, acreditando que a aprovação de Deus depende, em alguma medida, de sua conduta correta. Pessoas licenciosas dispensam a lei, acreditando que, uma vez que estão debaixo da graça, as regras de Deus não tem importância.(...) a lei nos impulsiona na direção do evangelho e o evangelho nos liberta para obedecer à lei" p. 41

LUTERO E A LEI

"A lei corretamente entendida e bem compreendida, não faz nada mais do que nos lembrar do nosso pecado e nos assassinar por meio dele, e nos faz sujeitos à ira eterna...A lei não é cumprida pelo próprio poder do homem, mas unicamente mediante Cristo, que derrama o Espírito Santo em nossos corações. Cumprir a lei....é fazer suas obras com prazer e amor..que são postos no coração do homem" p. 42


PECADO

"O pecado é uma condição, e não apenas um comportamento. Da mesma maneira, o verdadeiro arrependimento é um estilo de vida, e não apenas uma prática ocasional. O arrependimento não é algo que fazemos apenas uma vez (quando somos convertidos), ou apenas periodicamente (quando nos sentimos muito culpados). O arrependimento é contínuo, e o toque divino que nos mostra o nosso pecado é sinal do amor paternal de Deus por nós "Eu repreendo e castigo a todos quantos amo: sê pois zeloso e arrepende-se" (Ap. 3:19)" p. 51

PERDÃO 

"O perdão tem um custo, pois significa cancelar uma dívida quando temos todo o direito de exigir seu pagamento. Significa absorver a dor, o prejuízo, a vergonha e o pesar do pecado de alguém contra nós. Significa desejar arrependimento e restauração. Mas é exatamente assim que Deus, em Jesus Cristo,tem agido em relação a nós. E por meio do evangelho, o Espírito Santo nos capacita a fazer o mesmo em relação aos outros" p. 58







domingo, abril 27, 2014

TRANSFORMATIONAL DISCIPLESHIP: how people really grow

Este é um comentário sobre o livro TRANSFORMATIONAL DISCIPLESHIP: how people really grow  escrito por Eric Geiger, Michael Kelley e Phillip Nation publicado pela BH Books em 2012.

O livro como seu outro livro genitor TRANSFORMATIONAL CHURCH é todo baseado em pesquisas sobre modelos e igrejas que possuem um discipulado que seja realmente eficiente.

Em suma, é um livro muito bom que oferece algumas explicações básicas sobre o evangelho e como ele opera na vida das pessoas. Como também o evangelho além de transforma as pessoas, modela a comunidade. 

A tese é que o discipulado é mais do que o repasse de informações ou uma mudança de comportamento.

Algumas igrejas que pensam no primeiro modelo, acreditam que o discipulado seria um modo de transferência de conhecimento bíblico levando a um paradigma mais informativo e não transformativo. O resultado seria apenas conhecimento sem obediência.

 Por outro lado, quem trabalho no aspecto comportamental não há uma transformação sincera, seria apenas um ajuste comportamental que não trabalha as estruturas internas das pessoas.

Eles defendem um discipulado para transformação de pessoas, a partir do Evangelho, que confia no poder regenerador  do Espírito Santo e acredita que Jesus irá trazer a mudança.

No capítulo 3,  "transformational sweet spot" vem a síntese de como os autores entendem ser um discipulado que transforma quando líderes saudáveis dão a verdade ao discípulo que está em uma posição vulnerável (p. 82). Então, são três pontos:  Verdade (disciplinas com identidade no Evangelho),  Líderes e Postura (fraqueza interdependente de alguém). 

O restante do livro é para analisar como cada um desses princípios se desenvolve num discipulado que transforma:

Na parte 1 sobre a verdade, há uma retomada do conceito de evangelho distinto de um conceito de melhora de vida, mas uma volta ao evangelho em sentido da morte de Jesus como expiação e substituição, há uma clara influência dos escritos de Tim Keller, há até uma nota em que os autores dizem que tudo que ele escreve deve ser lido (p. 228).

Eles dividem a parte da verdade em : as lentes do evangelho, como o evangelho muda o modo como vivemos a vida, 

As lentes da identidade, como o evangelho muda o modo como pensamos a respeito de nós mesmos:

"A salvação começa com a justificação quando  Cristo Sua própria retidão e termina com a glorificação quando os crentes gozam a eternidade sem a presença do pecado. O processo entre os dois é a santificação. Santificação é o processo de sermos feitos santos pelo Único que nos declarou santos e andamos em novidade de vida por causa que Ele nos fez novos. Deus é perfeitamente aquele que nos já declarou-nos perfeitos e continuamente purifica aqueles que Ele já fez puros através de Cristo" (p. 95)

"Ao invés de começar com comportamento, os líderes devem lemvrar as pessoas quem elas são em Cristo. Isto conecta os mandamentos de Deus com a identidade que Ele assegura aos seus seguidores, apresentando a obediência como um fluir do entendimento e da vida da nova natureza que Cristo nos deu" (. 96)

Ele termina este capítulo lembrando quatro aspectos de nossa identidade: noiva, embaixador, estrangeiro e escravos.

As lentes da disciplina, aqui há uma visão de sinergia entre humilharmos a nós mesmos e a presença de Deus. É o ponto da postura humilde, vulnerável que devemos ter no discipulado, como algo intencional e não passivo.

"As lentes da disciplina é um caminho de ver tudo através da obra do evangelho. É priorizar a obra de Deus, humilhando a nós mesmos diante disto, e fazendo nós mesmos sempre disponíveis para aquilo que está sendo realizado através de nós" (p. 118)

Na parte 2, os autores vão falar da postura que se releva em três posturas principais: a da fraqueza, da intedependência e da para fora (outward). Há uma posição de depravação total diante da graça de Deus que leva a fraqueza.

 No capítulo sobre interdepência, há uma posição brilhante sobre que a fé é algo pessoal mas não privado, sendo que uma comunidade transformadora é mais do que uma associação é uma participação de pessoas, que são parceiras no crescimento espiritual.

 Para fora, é o propósito de crescimento, lembrando que uma das identidades do cristão é embaixador.

A liderança deve se lembrar que vive pelo poder do evangelho e também está sujeita a fraquezas, interdepência e ser para fora.

sábado, maio 26, 2012

O que significa seguir a Jesus?



LUCAS 9:57-62: E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores.  E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.  E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá enterrar meu pai.  Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu, vai e anuncia o Reino de Deus.  Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa.  E Jesus lhe disse: Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus.


O que significar seguir a Jesus? A definição mais simples que podemos ter é a de entrar no Reino de Deus. Este reino é o poder de Deus que invade este mundo transforma tudo através do poder do Espírito Santo, não é um reino deste mundo, mas que vêm de Deus.

Diferente dos líderes humanos, Jesus não coloca seu reino como uma fantasia ou mundano, seu reino é celestial, e somente pode se entrar nele se for chamado por Jesus.

Neste texto de Lucas, nós vemos quem são as pessoas que entram e que não entram neste reinado. Para entrar neste reino, precisamos ser salvos por Jesus e ter Ele como nosso rei. Pensando em Bonhoeffer, é preciso duas coisas que, normalmente, separamos: crer (Jesus como salvador) e obedecer (Jesus como senhor).

O primeiro homem narrado por Lucas, é aquele que apenas crê, mas não entende a dureza do reino, não entende o que é obediência. Ele quer seguir a Jesus pensando que se ele seguir Ele por todos os lados,  sua vida ficará melhor. Há apenas obediência, há apenas a ilusão de que o esforço pode mudar a vida. Não há um crença em Jesus como salvador, o que salva este homem é sua obediência.

A resposta de Jesus, é que as raposas tem covis e e as aves tem ninhos, ou seja, haverá problemas. Jesus está dizendo que não tem status, não tem riquezas, não tem influência, não tem ao menos um lugar para morar. A promessa dele não está em comida ou bebida, mas em justiça, paz e alegria que é o Reino de Deus.

Muitos começam a seguir por entusiasmo próprio como este homem, achando que vão melhorar as suas vidas, mas quando acontece um revés não entendem por que aquilo que está acontecendo com eles. Estes não entendem o que Jesus diz, que haverá sofrimentos, haverá problemas, há uma cruz que devemos carregar e compartilhar com Ele, crendo que Ele e não nossos esforços vão produzir descanso para a nossa alma.

Os dois últimos homens são os exemplos de um outro lado da questão, muitos acreditam em Jesus, mas não querem obedecê-lo.  Porque não entendemos a grandeza do chamado de Jesus.

O segundo homem diz que primeiro quer enterrar seus pais, ele coloca as obrigações antes  do seguir a Jesus, ele quer cuidar do seu passado antes de começar a seguir a Jesus.  O terceiro homem diz que primeiro quer despedir dos seus familiares antes de segui-lo.  É a questão de muitos de nós, eu vou segui-lo, contudo, existe o mas antes ou o contanto que.

Entrar no reino de Deus significa um compromisso absoluto com este reinado, Jesus não pode ser nosso salvador e rei se não abrirmos mãos dos nosso mas antes.

Se você tiver qualquer condição ou qualificação, isto é, o seu verdadeiro rei, você mesmo. Você é que está no controle da sua vida. Você diz que quer ser bom, mas ainda não. Ou seja, você diz sim ou não para Jesus, diz acreditar nele mas nega sua obediência.

A primeira resposta de Jesus, deixe os mortos enterrarem seus mortos, quer dizer que se existe alguma coisa mais importante que seguir a Ele, nós estamos mortos.  E isto vai matá-lo. 

Quando dizemos a Jesus, eu vou segui-lo mas antes deixe eu fazer tal coisa ou contanto que tal coisa aconteça, esta condição é, na verdade, nosso rei e salvador, acreditamos que quando resolvemos isto estaremos salvos e vivos, por isto mesmo, estamos mortos.

A terceira resposta de Jesus diz que quem coloca a mão no arado e fica olhando para trás é apto para o reino de Deus.  Quando estamos arando uma terra é essencial que fiquemos olhando para frente para que não saia nada torto e o trabalho seja bem feito, quando estamos seguindo a Jesus há momentos em que não enxergamos claramente o fruto que será produzido com a nossa retidão em segui-lo, mas devemos continuar seguindo crendo que Ele tem o melhor para nós.

A obediência está ligada a crença de maneira inseparável, porque cremos que Ele é o nosso salvador e obedecemos porque ele é o nosso senhor, assim crer em Jesus é que Ele melhor que nós sabe o que é vida para nós e obedecemos porque confiamos em seu juízo.

Quando ficamos olhando para trás para as coisas que deixamos antes de começar a segui-Lo, os antigos ídolos do nosso coração começam a reviver, deixamos o reino de Deus.

Ninguém que ama qualquer coisa mais do que Ele pode permanecer no reino de Deus, para glorificar a Deus em nossa vida, devemos buscar nossa alegria nele somente a todo instante. Nenhum de nós está isento disto.

Para concluir, lembro-me da frase de C.S. Lewis, que muitos preferem reinar no inferno, do que servir no reino de Deus". Esta é a escolha que se coloca para cada um de nós nessa vida, uma vida ou uma morte, crer e obedecer ou morrer.


fonte:

Bonhoeffer - Discipulado.
Timothy Keller - Let the Dead Burry Their Dead
C.S. Lewis- O Grande Abismo


quarta-feira, fevereiro 22, 2012

James Houston: 3 livros

Finalmente, acabei de ler três livros de James Houston.






1. Mentoria Espiritual.

Houston coloca três modelos de mentoria em distinção ao mentoreamento cristão, são eles: heróico, estóico e terapeutico. Para Houston, a verdadeira identidade do ser humano está no seu encontro com Cristo, somente a partir do evangelho e da realidade de Jesus, os indíviduos podem se tornarem pessoas de verdade.

Houston escreve o livro sobre três influências, Edwards, Bernardo de Clairvaux e, mais preponderantemente, Kierkegaard.  As formas seculares de mentoreamento criam apenas individuos, que não geram pessoas.

O pensamento secular cria abstrações que não podem completar o ser humano, somente a vida de Jesus Cristo pode dar realidade, fazer do individuo uma pessoa.


Na mentoria cristã, há a vida de Jesus Cristo, que não dá apenas uma noção abstrata de como viver, mas o próprio viver, assim a pessoa se realiza concretamente.


A pessoa está baseada na revelação teológica do imago dei, seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus. Somos tornados justos graças à justificação por Deus, e não em ações humanas. A liberdade é definida como auto-transcendência, fundamentada em Cristo, e não numa autonomia. O discipulado é abertura para Deus, com base em seu chamado ao contrário do modelo antropológico de um auto-enclausuramento, iniquidade e desobediência.


A pessoa cristã é alguém que recebe, mas não alcança o mérito. A perfeição cristã não está no ideal grego de não ter falhas, mas numa expressão de crescimento e maturidade.




2. Meu Legado Espiritual


Houston descreve sua formação como cristão, entende que o momento atual é de um cristianismo no fio da navalha, com diversas opções dentro dele que não são exatamente cristãs.


O livro vemos mais uma vez a influência dos mentores do pensamento dele: Kierkegaard, Jonathan Edwards e Agostinho.


Na primeira parte do livro, ele fala da fé cristã como um modo de vida e uma nova identidade, está divida em duas partes, o folego da vida oculta e abertos para um viver visionário de Deus.  Há duas análises, uma sobre a vida interior e outra sobre as expectativas da vida em Cristo.

A prioridade do chamado pessoal sobre a vida institucional, o surrealismo da face visível da vida cristã e tornar-se uma pessoa: uma jornada. Aqui, Houston conta sobre seu ministério, indas e vindas, o caminho que Cristo trilhou. Surrealismo ele chama a vida oca de um cristianismo sem vida, sem cruz. Há uma dupla vocação que são conjuntas, a de discipulo e a profissional.

A jornada é ofensiva para o mundo, é uma dialética entre as duas concepções de mundo, a cristã e a mudana.

A última parte do livro, fala sobre amadurecendo na comunidade, transmitindo a fé em pessoa, fala sobre viver a verdade em amor e a transmissão da fé numa era de ruptura.


3. O Desejo.

Neste livro, Houston fala sobre o coração humano, que é insensato e sedento. Fala sobre os desejos humanos que com a idolatria podem fazer que coisas boas acabem se tornando prejudiciais.

Sobretudo, há uma excelente explicação sobre como os vícios podem afetar o nosso 
coração.

Há uma análise de como descobrir contentamento para os desejos do nosso coração, há mais uma vez a análise de que somente em Cristo, nossos desejos podem nos levar a sermos uma pessoa de verdade.

Sempre nos textos de Houston, há a influência de Kierkegaard, na questão da construção da identidade pessoal em Cristo Jesus. Há a crítica de Edwards contra o racionalismo cartesiano. E uma vida de devoção,  com a mentoria de Agostinho e Bernado de Clairvaux.

"O desejo é o incessante pulsar da vida humana. O que ansiamos determina o escopo de nossas experiências, a profundidade de nossas percepções, os padrões com os quais julgmos e a responsabilidade com que escolhemos nossos valores. Por isso é de crucial importância ansiarmos por coisas que ultrapassam o material, que sejam transcendentais"


quinta-feira, setembro 08, 2011

Dietrich Bonhoeffer: O Sermão da Montanha - A veracidade


Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao Senhor. Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus;  Nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei; Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna. MATEUS 5. 33-37

A interpretação mais comum dessa passagem segundo Bonhoeffer passou pela proibição do juramento, o que seria um engano já que o Antigo Testamento ordena o mesmo, Jesus jura em seu julgamento como também Paulo fez uso de fórmulas de juramento. "O juramento é a invocação pública  do nome de Deus por testemunha de uma afirmação que faço a respeito de coisas do passado, presente ou do futuro" (p. 80)

O juramento é em si é  a prova da mentira na humanidade, já que se houvesse a mentira não necessitaria de juramento.  Bonhoeffer constrói assim, para ele, o Antigo Testamento recusa a mentira pelo juramento, já Jesus recusa a mentira pela proibição mesma do juramento- é a própria destruição da mentira da vida dos crentes nEle. 

Toda a palavra do discípulo deve expressar a verdade, jamais precisando de juramento para confirmação desta. 

Bonhoeffer fala em uma diferenciação entre juramentos acerca de fatos pretéritos e outro sobre fatos vindouros.Quanto ao passado, ele diz que o crente nunca está isento de erro na avaliação do passado. O voto quanto ao futuro, não se sabe o que acontecerá. 

O mandamento da veracidade total  é o ser do discípulo, que vive plenamente descoberto, é conhecido de Jesus e colocado na verdade, que surge do pecado revelado e perdoado. O sentido aqui é o da revelação do homem da sua pecaminosidade,quem vive sob a cruz, o juramento como instrumento de preservação da veracidade não tem mais valor, porque esse já está na verdade perfeita de Deus.

"Não há discipulado de Jesus sem uma vida na verdade revelada perante Deus e os seres humanos" p.83

sexta-feira, agosto 12, 2011

Dietrich Bonhoeffer: Sermão do Monte - O Irmão




Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno. Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, Deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta. Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil. Mateus 5:21-26


Bonhoeffer continua a falar sobre o sermão do monte, em especial, quanto a interpretação de Jesus a respeito da justiça divina e a lei.  Jesus continua sua unidade com a lei mosaica, mas ao mesmo tempo, deixa completamente claro que ele é o Filho de Deus, o senhor e doador da lei. 

O erro pecaminoso dos fariseus é que falta Cristo, somente nele a lei se torna verdadeiro conhecimento, se torna verdade. Contudo, ao unir-se desta forma com a lei a pessoa se torna inimigo  de uma interpretação falsa dos zelosos da lei. A lei proíbe de matar e os encomenda a cuidar do irmão, a vida do irmão depende de Deus está em suas mãs, somente ele tem o poder sobre a vida e a morte. O assassino não tem lugar na comunidade de Deus.

É muito interessante este ponto do Discipulado, e pensar na vida do próprio Bonhoeffer como ele teve que se explicar ao tramar o assassinato de Hitler, para saber mais sobre isto vale a pena ler a biografia de Eric Metaxas.

Voltando ao texto do Discipulado, o irmão não é apenas aquele que está na comunidade cristã somente. O seguidor de Jesus está proibido de matar, sob pena do juízo divino. A vida do irmão é uma fronteira que não pode ser ultrapassada. Toda ira vai contra a vida alheia, que despreza o outro, buscando aniquila-la, não há diferença entre a ira justa e injusta. O discípulo não pode conhecer a cólera, porque seria contra Deus e contra o irmão. A palavra que nos escapa, que damos pouca importância, revela que não respeitamos o outro, que nós nos temos superiores e valorizamos nossa vida acima da deles.

O insulto premeditado rouba do irmão sua honra, busca deprecia-lo frente aos demais, busca com ódio o aniquilamento de sua existência interna e externa, isso constitui um assassinato. 

quinta-feira, agosto 04, 2011

Dietrich Bonhoeffer: Sermão do Monte, A Justiça de Deus

Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido.Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus. (Mateus 5:17-20)
Não é estranho que ao ouvir essas promessas, alguns pensassem que havia chegado ao fim a lei. Tinham conseguido tudo pela graça de Deus, eram herdeiros do reino dos céus, sal e luz do mundo, tinham a comunidade plena e pessoal com Cristo, por isto, o antigo havia passado. 
Os judeus não acreditavam nele, por isso deviam recusar sua doutrina da lei como uma ofensa a Deus, isto é, uma ofensa a lei de Deus. Jesus morre na cruz como um blasfemo, como um transgressor da lei, por haver revalorizado a verdadeira lei ante a falsa e mal interpretada.

O cumprimento da lei somente poderia ser cumprido com a sua morte na cruz como pecador, Ele mesmo crucificado é o cumprimento pleno da lei. Por isto, ele diz que ele veio cumprir a lei, porque somente ele vive em plena comunhão com Deus.  O caminho dos discípulos até a lei passa pela cruz, assim eles também a cumprem.
Devem recusar a vinculação sem lei, porque seria fanatismo, em lugar de autêntica união. Se eliminarmos a preocupação dos discípulos de que a vinculação a lei os separa de Jesus, esta é uma afirmação errada da lei, em lugar disto, fica clara que a autêntica união com Jesus somente pode ser alcançada estando vinculado a lei de Deus.

É verdade que Jesus está entre os discípulos e a lei, para revalorizar suas exigências, a idéia é que cumprem e ensinem a lei,  há uma ação, como ele a cumpriu. Quem permanece junto dele no seguimento, cumpre a lei, a observa e ensina no seguimento. Somente quem coloca em prática pode permanecer em comunhão. Não é a lei que os distingue dos judeus, senão justiça dos discípulos, que é algo extraordinário e especial. 

Os fariseus nunca caem em erro, contrário a Escritura, de que a lei apenas ensinavam, mas não cumpriam. O fariseu queria ser observante da lei, sua justiça consistia no cumprimento literal,  sua justiça era ação. A observância dos discípulos supera porque sua justiça era perfeita, porque entre eles e a lei está a comunhão com Cristo, que cumpriu perfeitamente a lei.


Antes mesmo de obedecer a lei, já estão cumpridas e satisfeitas suas exigências, a justiça que a lei exige já está presente, a justiça de Jesus que caminha até a cruz por amor a lei. Jesus não somente tem a justiça, como ele mesmo a é, e assim, a justiça dos discípulos, por sua chamada, os faz particípes de sua pessoa. Esta justiça melhor é aquela dada pelo seguimento, que recebe as bem-aventuranças. A justiça dos discípulo está debaixo da cruz.


É  a justiça dos pobres, combatidos, famintos, mansos, pacíficos, perseguidos por amor a Cristo, a justiça visível dos que são luz do mundo e cidade sobre o monte. Ela é melhor por causa da comunhão com Cristo, que cumpriu a lei, é autêntica porque agora eles cumprem a vontade de Deus observando a lei, não só ensinando-a como a cumprindo. Tudo isto, segundo Bonhoeffer pode ser sintetizado numa palavra: seguimento. Na participação real e sincera pela fé na Justiça de Cristo, que é a nova lei, a lei de Cristo.

segunda-feira, julho 25, 2011

Dietrich Bonhoeffer: Sermão do Monte - A Comunidade Visível

;Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.  (Mateus 5:13-16)



Os discípulos são bem-aventurados por serem parte do Reino de Deus, mas também parece que eles são indignos de viver no mundo,neste momento Jesus os define com uma imagem, vós sois sal da terra.  São o bem mais nobre, o valor supremo que possui o mundo, sem eles, a terra não pode seguir vivendo, é o sal que conserva a terra, esta vive graças a estes pobres, desprezados e debéis que o mundo recusa.  Quando ataca os discípulos, destrói sua própria vida. 

Este sal divino conserva sua eficácia, penetra na terra, é sua sustância. Como homens ligados apenas a Cristo, eles se colocam em contato com o mundo. Jesus chama de sal apenas eles, não a si mesmo, Ele permanece com o povo de Israel, mas entrega aos seus discípulos toda a terra com a condição de que sigam sendo sal e conservem sua força purificadora e saporífica e assim manterão a terra. O sal deve ser incorruptível, uma força permanente de purificação. No Antigo Testamento se usa o sal para os sacrifícios - Ex 30,Ez 16:4-. 


São o sal pelo chamado, seria um erro querer equipar com sal sua mensagem, quem segue a Cristo, captado pela sua chamada, está plenamente convertido em sal da terra.


O sal insípido deixa de atuar, só serve para ser jogado fora. A honra do sal é que deve salgar todas as coisas. Mas o que ficou insípido não pode adquirir de novo seu antigo poder. Todo alimento pode ser salvado pelo sal, mas o sal que se torna insípido se perde sem esperança.


Jesus diz vós sois, não diz deveis ser. A vocação os converteu em luz, agora estão obrigados a ser uma luz visível, do contrário, a chamada não estaria com eles. A luz não é que nos foi dado, mas é o que somos. O mesmo que disse de si, que ele era a luz do mundo, disse aos discípulos que eram a luz desde que permanecessem fiéis a chamada. Sendo assim, não podem ficar ocultos.


A luz brilha e a cidade sobre o monte não pode estar oculta, ela é visível a distância, é a comunidade dos discípulos, daqueles que seguem a Cristo não se proporia uma nova decisão, mas a única decisão possível para eles já foi produzida. Agora devem ser o que eles são, ou deixar de ser seguidores de Jesus. 


O seguimento não é se apartar do mundo, ocultar-se. É tão visível como a luz na noite, a comunidade que quer ser invisível deixa de segui-lo.


Para Bonhoeffer, o alqueire de Mateus 5:15 pode ser o medo dos homens ou uma configuração consciente ao mundo para conseguir certos fins, que podem ser do tipo missionário ou brotar de um falso amor pelo homens. Como também de uma teologia reformadora que se atreve a chamar-se de theologia crucis, que prefere uma humilde invisibilidade e uma visibilidade farisáica.  O critério é que a luz não brilhe.


As boas obras dos discípulos devem brilhar com esta luz, os homens tem de ver não são as pessoas, mas as boas obras. As boas obras são unicamente as que Jesus produziu entre eles quando os chamou,  quando os converteu para debaixo de sua cruz em luz do mundo: pobreza, separação do mundo, mansidão, edificação da paz e graça de ser perseguidos e recusados, tudo isto pode ser sintetizado numa única coisa: levar a cruz




A cruz é onde pode ser vista as boas obras dos discípulos, Não se fiz que Deus se fará visível, senão que se verá as boas obras e os homens adorarão a Deus por elas. Visível será a cruz e as obras da cruz, não se vai adorar ao homem, mas a Deus somente. Se as boas obras fossem virtudes humanas, não se adoraria a Deus mas aos discípulos, contudo, não há que exaltar o discípulo que leva a cruz e nem a comunidade que brilha e é visível. Se adorará somente ao Pai que está nos céus. 


Deste modo, os homens vêem a cruz e a comunidade do crucificado e acreditam em Deus. É a luz da ressurreição.

segunda-feira, julho 18, 2011

Dietrich Bonhoeffer: O Sermão do Monte - bem- aventuranças

No sexto capítulo do Discipulado, Bonhoeffer começa a examinar o sermão do monte, baseado no texto de Mateus 5, ele começa diferenciando os discípulos da multidão, por causa do chamado de Jesus. Agora eles são os mais pobres dos pobres, os mais combatidos dos combatidos, os mais famintos dos famintos. Somente tem a Ele, e com Ele não tem nada no mundo, absolutamente nada. Contudo, tem tudo de Deus. 

Os discípulos e a multidão estão intimamente relacionados, eles serão seus mensageiros, também aqui estão seus ouvintes e fiéis, e existirá até o fim uma inimizade entre eles.

Por isso, bem-aventurados, Jesus fala  aos discípulos - Lc. 6,20s-, a chamada os fez pobres, combatidos e famintos. Não proclama bem-aventurados por causa da sua escassez ou renúncia, o fundamento válido aqui é a chamada e a promessa. 

Os discípulos e as pessoas ali constituem a pequena comunidade dos eleitos por Jesus, por isso, as bem-aventuranças deve converter-se para todos no motivo de decisão e salvação. Todos estão chamados a ser o que são na realidade. Os discípulos são bem-aventurados pelo chamamento de Jesus, o povo é bem-aventurado pela promessa de Deus que lhe foi concedida. 

Mas, o povo conseguirá alcançar esta promessa? Este é o problema.

"Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus"

Os discípulos são pobres, carecem de tudo - Lc. 6,20-. Eles não tem força, pátria, experiência espiritual própria. Por amor a Ele, perderam tudo, ao segui-lo,  não podem colocar a sua esperança em outra coisa senão nEle. 

Jesus também conhece outros, os representantes e os pregadores da religião popular, poderosos cheios de prestígio, firmemente assentados na terra, enraizados nos costume e no espírito da época e da piedade popular.


Sobre os discípulos, que por amor a Jesus vivem em renúncia e pobreza, irrompe o reino dos céus, em meio a pobreza se faz os herdeiros do Reino.

Tem seu tesouro oculto na cruz, está prometido a eles o reino dos céus em sua glória visível, e também estão agraciados agora com a pobreza pefeita da cruz. 

O anticristo, segundo Bonhoeffer, também proclama bem-aventurados os pobres, contudo não por amor a cruz, senão pela renúncia desta através de uma ideologia político-social.

"BEM-AVENTURADOS OS QUE CHORAM, PORQUE ELES SERÃO CONSOLADOS"


A cada nova bem-aventurança se faz um abismo entre os discípulos e o povo, aqueles se ressaltam visivelmente. Os que choram estão dispostos a viver renunciando aquilo que o mundo chama de felicidade e paz. Sofrem pelo mundo, por sua culpa, seu destino e sua felicidade. 


O mundo fantasia seu progresso,pela força, do futuro, os discípulos conhecem o fim, o juízo, a vinda do reino dos céus, para a qual o mundo não está preparado.




Contudo, ninguém entende seus próximos melhor que a comunidade de Jesus, ninguém ama mais os homens, por isso se mantem fora e sofrem. Carregam as dores.


O sofrimento não cansa, nem desgasta ou amarga os discípulos, eles levam sua dor com a força daquele sofreu tudo na cruz, como sofredores, se colocam em comunhão com o crucificado. São estrangeiros por força de aquele ficou tão estranho ao mundo, que o crucificou. A comunidade dos estranhos é consolada na cruz, sentindo-se impulsionada para ir ao lugar onde espera o consolador de Israel. Ai encontra sua verdadeira pátria junto ao Senhor crucificado aqui e na eternidade.


BEM-AVENTURADOS OS MANSOS, PORQUE ELES TERÃO POR HERANÇA A TERRA




nenhum direito próprio protege a comunidade dos estrangeiros no mundo, eles tampouco reivindicam, porque são mansos. Vivem por amor a Jesus na renúncia de todo direito próprio.


Preferem deixar tudo a justiça de Deus, aquilo que parece justo ao Senhor, deve ser para eles. Apenas isto. Assim fica evidente que não pertencem a este mundo.


A terra pertencem a estes homens debéis e sem direitos, os que agora a possuem por força e injustiça terminaram perdendo-a, e os que tem renunciado a ela completamente, mostrando-se mansos até a cruz, dominaram a nova terra. 


Aqui não é justiça intramundana e castigadora de Deus, senão que quando vir o reino dos céus, se fará renovada a face da terra, esta se converterá em herança da comunidade de Jesus. 


Deus não abandona a terra, a criou, mandou seu Filho, edificou sobre ela sua comunidade. Tudo começou agora. Se deu um sinal.  Já aqui deu aos fracos um pedaço de terra, a igreja, sua comunidade, seus bens, irmãos e irmãs, em meio as perseguições até a cruz. Também o Golgota é um pedaço de terra, a partir dele, onde morreu o mais manso de todos, deve ser renovada a terra, quando chegar o reino de Deus, os mansos possuíram a terra.



BEM-AVENTURADOS OS QUE TEM FOME E SEDE DE JUSTIÇA, PORQUE ELES SERÃO FARTOS.

Os que seguem não apenas renunciaram seus direitos, mas também renunciaram a própria justiça, não se gloriam em nada do que fazem e o que sacrificam. Apenas pode possuir a justiça o faminto e sedento dela, desejam a justiça futura de Deus, mas não podem implanta-la por si mesmos.

Anelam o perdão dos pecados e a renovação plena, a renovação da terra e a justiça perfeita de Deus. Contudo, a maldição do mundo e seus pecados recaem sobre eles, morrem na cruz como um maldito.

Alcançaram a justiça não apenas de ouvidos, mas serão saciados com ela,corporalmente. O pão da verdadeira vida os alimentará na ceia futura com o Senhor, é este pão que os faz bem-aventurados, porque já o tem.


BEM-AVENTURADOS OS MISERICORDIOSOS, PORQUE ELES ALCANÇARAM MISERICÓRDIA



Os discípulos de Jesus também renunciaram sua dignidade porque são misericordiosos. Não basta sua própria necessidade, porque eles são partícipes da necessidade alheia, em sua pequenez e culpa.


Buscam o caído no pecado e a culpa. Por maior que seja o pecado, a misericórdia se encontra neles, o misericordioso dá sua própria honra ao que tem que caído em infâmia, e toma a vergonha alheia.


Só conhecem uma honra e uma dignidade, a misericórdia de seu Senhor, Ele mesmo não se envergonhou deles, e lhes trouxe misericórdia.

Deus lhes dará a sua honra e tirará deles a desonra, a honra de Deus será levar a vergonha dos pecadores e vesti-los com sua dignidade.





BEM-AVENTURADOS OS LIMPOS DE CORAÇÃO, PORQUE ELES VERÃO A DEUS



Somente é limpo de coração, quem entregou seu coração totalmente a Deus, para que Ele reine exclusivamente em seu coração.  O coração puro e sincero de uma criança não sabe nada do bem e do mal, o coração em que não reina a consciência, senão a vontade de Jesus.


A limpeza de coração está em oposição a toda pureza externa, incluída aquela de bons sentimentos, ele está limpo do bem e do mal, pertence por completo a Cristo. Seu coração está livre das imagens que o mancham, sem deixar-se arrastar pela pluralidade dos próprios desejos e intenções.


Seu coração é um espelho da imagem de Jesus Cristo.




BEM-AVENTURADOS OS QUE BUSCAM A PAZ, PORQUE ELES SERÃO CHAMADOS FILHOS DE DEUS


Quando os discípulos atenderam o chamado de Jesus, encontraram a paz. Mas, não devem apenas tê-la, mas também cria-la. Renunciam a força e a rebelião, que nunca serviram a Cristo que tem um reino de paz.


Suportam em silêncio o ódio e a injustiça, vencem o mal com o bem, e são criadores da paz divina em meio a um mundo de ódio e guerra. Contudo, sua paz nunca será maior do que quando se encontram pacificamente com o mal e estão dispostos a sofrer, porque a cruz cria a paz. Assim, também serão chamados Filhos de Deus por estarem juntos ao Filho de Deus.



BEM-AVENTURADOS OS PERSEGUIDOS POR CAUSA DA JUSTIÇA, PORQUE DELES SERÃO O REINO DOS CÉUS.


Não se fala aqui da justiça de Deus, senão de sofrimentos por uma causa justa.  Os que seguem a Jesus renunciam suas posses, a felicidade, o direito, a honra, o poder, se diferenciam em seus juízos e ações do mundo, são chocantes a este. A recompensa que o mundo dá não é reconhecimento, mas repulsa. 




Ao final das bem-aventuranças resta uma pergunta que Bonhoeffer procura resposta, qual o lugar do mundo para tal comunidade? A comunidade dos bem-aventurados fica no lugar daquele mais pobre, mais combatido, mais manso, na cruz do Golgota. A comunidade dos bem-aventurados é a comunidade do crucificado, com Ele perdeu tudo, mas encontrou tudo.  E agora Jesus os conhece:


Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.




Sobre ele recai tudo, e por sua causa são injuriados, tudo isto constitui a felicidade dos discípulos em sua comunidade com Jesus. É forçoso que o mundo ataque a estes mansos estrangeiros com suas palavras. A voz destes pobres e mansos é muito ameaçadora e potente, suas vidas são muito paciente e silenciosa, os discípulos dão um testemunho demasiadamente poderoso sobre a injustiça no mundo.


Deus mesmo enxugará toda a lágrima, dará de comer em sua ceia. Os corpos feridos e martirizados estão transfigurados, em lugar das vestes de pecado e penitência, levaram a vestidura branca da eterna justiça. 


quinta-feira, julho 14, 2011

Dietrich Bonhoeffer: O seguimento e o indivíduo

Bonhoeffer inicia o quinto capítulo com a citação de Lucas 14,26.  



A chamada converte o discípulo num indivíduo isolado, que deve decidir sozinho. Deve seguir individualmente. Com medo de ficar sozinho frente a Ele, busca proteção nas pessoas e nas coisas. Nem pai, nem mãe, nem mulher, filhos podem proteger neste momento que foi chamado.

Há ruptura entre os dados naturais onde se encontra o homem, Cristo liberta o homem das relações imediatas com o mundo, para situa-lo numa relação imediata consigo mesmo. 

É certo que algo se interpõe entre o que foi chamado por Cristo e seus dados naturais, contudo, não se trata de um depreciativo da vida, nem código de piedade. É  vida e o evangelho, é Cristo mesmo. Na encarnação se colocou entre mim e o mundo, ele quer ser o meio, tudo deve suceder unicamente através dele. 

Ele é o mediador, não somente entre Deus e os homens, mas também entre homem e homem, entre o homem e a realidade. - Jo 1,3 -. Existem muitos deuses que se oferecem como um acesso imediato, os homens buscam um relacionamento assim entre eles, contudo,isso mostra a hostilidade a Cristo, o mediador.

Romper as relações imediatas com o mundo é reconhecer Cristo como Filho de Deus,mediador. Somente o reconhecimento dele como mediador, separa o discípulo do mundo dos homens e das coisas; pensando assim, a chamada não é um ideal, realiza-se nesta ruptura completa com o mundo.

Não se trata de ideais, valores, responsabilidade, mas de atos cumpridos e de seu reconhecimento da pessoa mesma do mediador,  quem foi chamado aprende que suas relações com o mundo foram vividas numa ilusão. Agora, sabe que não pode ter nenhum intermediário, nem sequer os laços mais estreitos de sua vida, os de sangue, os de amor conjugal, os da responsabilidade histórica.


Depois de Jesus, não há nenhuma relação imediata no plano natural, histórico ou vivencial. O caminho para o proximo passa por Ele, por sua palavra e nosso seguimento. 






Sempre que uma comunidade nos impeça de ser um indivíduo diante de Cristo, sempre que uma comunidade reivindique sua imediatez, há que detesta-la a causa de Cristo, porque toda imediatez é conscientemente ou não, um ódio a Cristo. Para Bonhoeffer, é um erro a teologia usar a mediação de Jesus para justificar as relações imediatas da vida. Se reduz o amor de Deus e o amor do mundo a coisa comum, e a ruptura com os atos do mundo agora é uma incompreensão legalista da graça de Deus, o ódio de Jesus as relações imediatas com o mundo se transforma num sim ao mundo, mais uma vez a justificação do pecador se transforma numa justificação do pecado.




A ruptura com as relações imediatas é inevitável, é um chamada a levar de modo visível o opóbrio de Cristo. Abraão é o exemplo, deve abandonar a seus amigos e a casa do seu pai, Cristo se colocou entre ele e os seus, então, a ruptura deve ser visível. Abraão se converte em um estrangeiro por causa da terra prometida.


Depois foi chamado para sacrificar Isaque, ele deveria aprender que a promessa não depende de Isaque, mas somente de Deus. Esta chamada ele não a espiritualiza, não dá voltas em busca de explicações, toma Deus ao pé da letra e está disposto a obedecer. Contra toda imediatez natural, ética ou religiosa, obedece a palavra de Deus. 


Neste mesmo momento, se devolve tudo que ele havia deixado,ele recebe de novo seu filho. Deus lhe deu uma vítima melhor. Abraão recebeu seu filho de volta, mas agora recebeu das mãos do mediador, por causa dele. Por estar disposto a escutar e obedecer literalmente a ordem de Deus, lhe é permitido ter a Isaque como se não o tivesse, te-lo por Jesus Cristo.



Abraão abandonou tudo para seguir a Cristo, agora lhe é permitido viver de novo no mundo que antes vivia, por fora, tudo parece como antes, mas, o velho se passou, e aqui tudo  se fez novo.


Essa é a possibilidade de ser um indivíduo no meio da comunidade, é a ruptura secreta com os bens deste mundo, a outra é a ruptura aberta. A secreta é mais díficil, depende da fé, quem não conhece ou experimenta isto, se engana.


Para Bonhoeffer, não depende de nossa vontade eleger uma ou outra, somos chamados por Jesus para sair da imediatez, e devemos converter visivel ou secretamente em indíviduos transformados pelo fundamento da comunhão completamente nova. 


Tomando Marcos 10, 28-31, Bonhoeffer fala daqueles que abandonaram tudo quando ele os chamou, para eles há uma nova comunhão, a comunhão da igreja. Se faz uma comunidade fraternal visível que devolve multiplicadamente aquilo que ele perdeu, 




Jesus precede os discípulos, para a cruz, os que o seguem se assombra - Mc 10,32- mas, isto é porque não são forças humanas que nos levam a este caminho, mas sim o chamado do próprio Deus.





terça-feira, julho 12, 2011

Dietrich Bonhoeffer: O seguimento e a cruz


Partindo de Marcos 8,31-38, Bonhoeffer inicia o 4o. Capítulo do Discipulado,  a chamada encontra uma relação com a paixão. Jesus deve sofrer e ser recusado, o imperativo é que se cumpra a Escritura. Sofrer e ser recusado não são a mesma coisa, a dor dele poderia provocar admiração e piedade, contudo, ele foi recusado em dor. A recusa deixa o sofrimento sem dignidade e honra, sofrer e ser recusado sintetiza a cruz.

O que Pedro fez mostra que desde do princípio a igreja se tem escandalizado de Cristo sofredor, não quer a tal Senhor, não querem que imponha a lei do sofrimento. Com isto, satanás penetra na igreja, quer aparta-la da cruz do Senhor.  

O seguimento em quanto vinculação a pessoa de Cristo situa o seguidor debaixo da lei de Cristo, debaixo da cruz. Se alguém quer o seguir, negue-se a si mesmo,  a negação de si mesmo não consiste em uma multidão de atos isolados ou de exercícios ascéticos,tampouco suicídio.

Negar-se a si mesmo é conhecer somente a Cristo, não a um mesmo, significa que fixamos somente naquele que nos precede, não no caminho que nos resulta tão difícil. Ele vai adiante, mantemos firmes unidos a Ele.

Tome sua cruz, se temos deixado a nós mesmos, estamos dispostos a levar a cruz por amor a Ele. Se somente conhecemos a Ele, conhecemos as dores da nossa cruz, somente vemos a Ele. Jesus nos deixou em condições de ver a graça nestas palavras duras, a alegria do seguimento. A cruz não é o mal e o destino penoso, senão o sofrimento que resulta para nós unicamente do ato de estarmos vinculados a Ele. É necessário, não está vinculado a existência natural, mas ao fato de sermos cristãos. 

A cruz não é apenas sofrimento, mas também recusa. Ser recusado por amor a Jesus, não por outra causa. Um cristianismo de consolo barato entende a cruz como um mal quotidiano, como a miséria e o medo da nossa vida natural. Se esquece que a cruz significa ser recusado, que o opóbrio do sofrimento forma parte da cruz.

A cruz é um com-sofrer com Cristo, cada um tem sua cruz preparada, que Deus destina e prepara. O primeiro sofrimento de Cristo é a chamada que nos convida a liberarmos as ataduras desse mundo. A morto do velho homem. A cruz é o começo da comunhão com Ele. Todo mandamento dEle nos orden a morrer para nossos desejos e apetites. 

O batismo nos lembra isto, situam o cristão no seu combate diário. Cada dia, com suas tentações da carne e do mundo, as feridas que nos são infligidas nesta luta, são sinais vivos da comunidade de Cristo na cruz,

Bonhoeffer lembra que só o sofrimento de Cristo é reconciliador, contudo, como ele sofreu pelo pecado do mundo, o peso da culpa caiu sobre ele, ele tem imputado o fruto do seu sofrimento a todos os que o seguem, a tentação e o pecado também sobre o discipulo, que o expulsam. 


O autor coloca que desta feita o cristão se converte em portador do pecado e da culpa em favor dos outros homens, sustentado por aquele que levou o pecados de todos, contudo, na força do sofrimento de Cristo, é possível triunfar os pecados que recaem sobre ele, na medida em que os perdoa. O cristão se transforma em portador das cargas(Gl 6, 2).


Devo levar o peso do meu irmão, isso inclui seu pecado, a chamada para levar a cruz situa o crente na comunhão do perdão dos pecado. O perdão dos pecados é o sofrimento de Cristo ordenado aos discípulos. Bonhoeffer retoma o tema que elaborou mais detalhadamente em Vida em Comunhão.

Quem não quer carregar sua cruz, quem não quer entregar sua vida a dor e ao desprezo dos homens, perde a comunhão com Cristo, não o segue. Contudo, quem perde sua vida no seguimento, levando a cruz, a voltará a encontrar neste mesmo seguimento, na comunhão da cruz com Cristo. (p. 57) 



Sobre Mt 26,39.42, Bonhoeffer diz que o cálice do sofrimento passa dele, contudo quando ele bebe. Sabe que o sofrimento passará na medida em que sofre, sua cruz é seu triunfo.

O sofrimento é o alheiamento de Deus, ele toma sobre si o sofrimento do mundo inteiro, triunfa sobre ele, carrega com ele todo o distanciamento de Deus, o cálice passa porque ele o bebe, quer vencer o sofrimento do mundo, mas precisa experimenta-lo por completo. Na comunhão com o sofrimento de Cristo, o sofrimento triunfa sobre o sofrimento, se outorga a comunhão com Deus precisamente na dor.

A igreja agora sabe que o sofrimento do mundo busca a alguém que o leve, de forma que no seguimento de Cristo, o sofrimento recai sobre a igreja e ela o leva, sendo levada ao mesmo tempo por Cristo. Ela representa o mundo diante de Deus na medida que segue carregando a cruz. 

Deus é um Deus que leva. Levou nossa carne, a cruz, nossos pecados, nos trouxe a reconciliação. Chama-nos para levar, e assim, conservar a comunhão com o Pai.


O homem que se livra desta carga, leva o jugo de seu próprio eu, de penas e fadigas. Jesus os chama para carregar o seu jugo, que é suave, seu peso que é leve. Seu jugo e seu peso é a cruz. Ir debaixo dela não significa miséria ou desespero, senão recreio e paz para as almas, é a alegria suprema. Debaixo dele, temos a certeza de sua proximidade e de sua comunhão.