sábado, setembro 26, 2009

Jane Austen: Mansfield Park

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This could not be denied, and Fanny was silenced. After another pause, he went on. "Pray, Miss Price, are you such a great admirer of this Mr. Crawford as some people are? For my part, I can see nothing in him."
"I do not think him at all handsome."
"Handsome! Nobody can call such an under-sized man handsome. He is not five foot nine. I should not wonder if he is not more than five foot eight. I think he is an ill-looking fellow. In my opinion, these Crawfords are no addition at all. We did very well without them."
A small sigh escaped Fanny here, and she did not know how to contradict him.

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CAPÍTULO X
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No capítulo 13, há dois livros: um de Rachel de Queiroz outro de Jane Austen.
He came on the wings of disappointment, and with his head full of acting, for it had been a theatrical party; and the play, in which he had borne a part, was within two days of representation, when the sudden death of one of the nearest connexions of the family had destroyed the scheme and dispersed the performers. To be so near happiness, so near fame, so near the long paragraph in praise of the private theatricals at Ecclesford, the seat of the Right Hon.
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Veio muito desapontado e com a cabeça cheia de idéias de teatro, pois o divertimento da reunião tinha sido ensaiar cenas teatrais. A peça em que ele tomava parte devia ser representada dali a dois dias, quando a morte repentina de um dos parentes mais próximos da família destruiu o projeto e dispersou os atores. Estar tão perto da felicidade, tão perto da fama, tão próximo de um longo artigo elogiando os amadores de Ecclesford, que naturalmente imortalizaria todo o grupo por no mínimo doze meses!
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A tal de Mrs. Norris sabe ser cruel :

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Apesar disso, porém, estava contente. Simples como poderia parecer a outros olhos aquele convite, para ela tinha valor e era uma novidade, pois, excetuando-se o dia em Sotherton, raras vezes havia jantado fora de casa; e embora o jantar agora não fosse nem a um quilômetro de distância e apenas de Três pessoas, em todo caso era jantar fora e todos os pequenos interesses dos preparativos eram por si um divertimento. Não contou nem com a simpatia nem com o auxílio daqueles que deveriam ter tomado parte nos seus sentimentos ou dirigido seu gosto; pois Lady Bertram nunca pensava em ser útil a ninguém e Mrs. Norris, quando veio no dia seguinte, em conseqüência de uma visita matinal e do convite que Sir Thomas lhe fizera, estava de muito mau humor e parecia empenhada, apenas, em diminuir o prazer da sobrinha, tanto no presente como no futuro, quanto pudesse.
— Palavra de honra, Fanny, você está com muita sorte recebendo tal atenção e benevolência! Deve ficar muito grata a Mrs. Grant por ter pensado em você e à sua tia por ter consentido em que vá; na verdade deve considerar isto como uma coisa extraordinária; pois espero que esteja convencida que não é muito lógico você ser convidada assim, principalmente para jantar; é uma coisa que não deve esperar que se repita. Nem tampouco deve imaginar que o convite foi feito em atenção particular a você; o cumprimento foi intencionalmente feito a seus tios e a mim. Mrs. Grant achou que fazia uma delicadeza a nós lhe prestando um pouco de atenção; do contrário nunca teria pensado nisso, e pode ficar certa que se sua prima Julia estivesse em casa, não seria você a convidada, de forma alguma.
Mrs. Norris havia tão engenhosamente destruído toda a parte de Mrs. Grant no favor, que Fanny, vendo-se na iminência de ter que responder, apenas pôde dizer que se sentia muito grata à tia Bertram por tê-la dispensado e que estava procurando deixar todos os trabalhos de sua tia bem adiantados para que não sentisse a sua falta.
— Oh! pode ficar tranqüila, sua tia pode passar muito bem sem você, senão não lhe dariam permissão para ir. Eu estarei aqui. Pode ficar bem descansada quanto à sua tia. E espero que tenha um dia muito agradável e ache tudo muito divertido. Mas devo observar que cinco pessoas numa mesa é um número dos mais azarentos que existem; e me admiro de que uma senhora tão elegante como é Mrs. Grant não tivesse pensado nisto! E além disso, ao redor daquela enorme mesa que enche toda a sala! Será um horror! Se o doutor, ao menos, como qualquer pessoa de bom senso, tivesse se contentado em ficar com a minha mesa de jantar, quando eu deixei a casa, em vez de trazer aquela mesa absurda dele, que é maior, muito maior do que a mesa de jantar daqui, teria sido infinitamente melhor! E ele seria muito considerado! Pois ninguém tem consideração por uma pessoa que sai do seu próprio meio. Lembre-se disso, Fanny. Cinco — apenas cinco ao redor daquela mesa. No entanto, aposto que haverá jantar suficiente para dez pessoas.
Mrs. Norris tomou fôlego e continuou:
— Essa tolice das pessoas saírem da sua classe e procurarem parecer mais do que são, faz-me lembrar que devo dar um conselho a você, Fanny, agora que vai fazer uma visita sem a nossa companhia. Peço e digo a você que não se mostre muito, falando e dando opiniões como se fosse uma de suas primas, como se fosse a querida Mrs. Rushworth ou Julia. Seria muito impróprio, pode crer. Lembre-se sempre, esteja onde estiver, que deve ser sempre a mais humilde, a última: e não obstante Miss Crawford estar no Presbitério como em sua própria casa, você não deve querer igualar-se a ela. Quando (*quanto) à hora de sair, deve deixar que Edmund decida isto.

Capitulo XXIII


quinta-feira, setembro 24, 2009

JANE AUSTEN: Mansfield Park

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Por esse tempo Sir Thomas estava certo de que sua cunhada iria reclamar os seus direitos sobre a sobrinha; a mudança de situação de Mrs. Norris e a idade atual de Fanny, pareciam, não só abolir qualquer antiga objeção de viverem juntas, mas, até, indicar que essa seria a medida mais acertada. E como a sua própria situação já não estava tão boa quanto antes, em vista das recentes perdas que havia sofrido em suas propriedades de West Índia, além das extravagâncias do filho mais velho, era para ele muito a desejar ver-se livre das despesas de manutenção da sobrinha e da obrigação de as prover no futuro. Na certeza de que tal coisa deveria se dar, falou com a mulher sobre a sua probabilidade e como Fanny estivesse presente na ocasião, ela virou-se calmamente para a sobrinha e disse: “Quer dizer, Fanny, que você vai nos deixar para viver com minha irmã? Que acha disso?”
Fanny ficou tão surpreendida que não pôde senão repetir as palavras da tia, — Vou deixá-los?
— Sim, querida; por que está tão admirada? Você morou cinco anos conosco e minha irmã sempre pensou em levá-la depois que Mr. Norris morresse. Mas você virá nos ver sempre que quiser.
A notícia foi para Fanny tão desagradável quanto inesperada. A tia Norris nunca lhe tinha feito um agrado e não lhe podia querer bem.
— Terei muita pena de ir, disse ela com voz trêmula.
— Sim, acredito que terá; é muito natural. Creio que ninguém no mundo seria tão bem tratada quanto você o foi, desde que veio para esta casa.
— Não creia que eu seja ingrata, titia, disse Fanny modestamente.
— Não, minha filha, não o creio. Sempre achei que você era uma boa menina.
— E eu nunca mais voltarei para aqui?
— Nunca, meu bem; mas pode ficar certa de que lá você será tão bem tratada quanto o foi aqui. E o fato de morar em uma casa ou em outra não fará grande diferença para você.
Fanny saiu com o coração apertado; achava que a diferença era bastante grande e que não poderia conceber a idéia de viver com a tia. Logo que encontrou Edmund, contou-lhe a sua desgraça.
— Primo, disse ela, vai acontecer uma coisa de que não estou gostando nada; e embora você esteja sempre me dizendo que eu devo procurar me habituar às coisas de que não gosto à primeira vista, neste caso creio que não me poderá convencer. De agora em diante vou passar a viver com a tia Norris.
— É verdade?
— É sim; a tia Bertram acabou de me dizer. Já está tudo combinado. Vou deixar Mansfield Park para morar na White House, creio, logo que ela se mudar para lá.
— Bem, Fanny, se o plano não fosse desagradável para você, diria que era excelente.
— Oh, primo!
— Sim, a não ser isso, tudo o mais é a favor dele. Minha tia está afinal agindo como uma pessoa sensata. Está procurando uma amiga, uma companheira exatamente onde a deve procurar e eu me sinto feliz em ver que sua avareza não interferiu. Tenho esperança de que você não se sinta muito infeliz, Fanny.
— Mas o fato é que me sentirei; não me conformo com a idéia. Gosto desta casa e de tudo o que ela tem; não gostarei de nada lá. Você sabe que eu não me sinto bem junto dela.
— Não me refiro à maneira como ela tratou você me criança; com todos nós foi a mesma, ou quase a mesma coisa. Nunca soube agradar uma criança. Mas você agora está em idade de ser tratada com mais consideração; creio que ela já está mesmo se portando melhor; e quando ela depender unicamente de você, você vai ter muita importância para ela.
— Eu nunca terei importância para ninguém.
— Quem o impede?
— Tudo. Minha situação, minha ignorância, minha timidez.
— Quanto à sua ignorância e timidez, minha cara Fanny, creia-me, você nunca teve nenhuma sombra de uma ou de outra, apenas está empregando as palavras impropriamente. Não há motivo para que você deixe de ter importância para aqueles que a conhecem. Você tem bom senso, o temperamento dócil, e um coração que, estou certo, é incapaz de receber uma bondade sem desejar retribuir. Não vejo melhores qualidades para uma amiga e uma companheira.
— É bondade sua, disse Fanny corando diante de tais elogios; não sei como agradecer a você por fazer tão bom juízo de mim. Oh! Se eu tiver de ir, hei de me lembrar de sua bondade até o último dia de minha vida.
— Não precisa ir tão longe, Fanny; é bastante que você se lembre de mim enquanto você estiver em White House. Você fala como se fosse morar a duzentas milhas daqui, em vez do outro lado do parque; e no entanto você nos pertencerá tanto quanto até aqui. As duas famílias estarão juntas todos os dias do ano. A única diferença é que você morando com sua tia, terá a educação que deveria ter. Aqui há muita gente atrás de quem você pode se esconder; mas com ela você será forçada a responder por si mesma.
— Oh! Não diga isso.
— Digo sim, e digo com prazer. Mrs. Norris é muito mais indicada do que minha mãe para cuidar de você agora. Ela tem disposição para fazer grandes coisas pelas pessoas por quem realmente se interessa.
Fanny suspirou e disse: — Não posso ver as coisas como você vê; no entanto devo reconhecer que tem mais razão do que eu e agradeço muito seu esforço para me reconciliar com o que tem de ser. Se eu pudesse acreditar que minha tia realmente se interessa por mim, seria um prazer sentir-me útil a alguém. Aqui, eu sei que não sou de utilidade a ninguém e mesmo assim sou tão apegada a este meio.
— Este meio, Fanny, você não precisa deixar, embora deixe a casa. Terá tanta liberdade de usar o parque e os jardins como sempre teve. Nem mesmo o seu constante coraçãozinho precisa amedrontar-se por causa da mudança. Terá os mesmos caminhos para andar, a mesma biblioteca, as mesmas pessoas para ver, o mesmo cavalo para montar.
— É verdade. Sim, o velho pônei querido! Ah! primo, quando me lembro de como tinha medo de montar, o terror que me dava ouvir que seria bom para minha saúde! E então o trabalho que você teve para me convencer a não ter medo, e pensar que depois de pouco tempo eu iria gostar! Vendo como você tinha razão, tenho esperança de que suas profecias sejam sempre certas.
— Estou certo de que sua permanência junto de Mrs. Norris será tão salutar para seu caráter como a equitação foi para sua saúde e da mesma forma também, para sua felicidade futura.
Assim terminou a discussão, a qual, por muito aproveitável que fosse a Fanny, foi inteiramente inútil, pois Mrs. Norris não tinha a menor intenção de levar consigo a sobrinha. Foi idéia que absolutamente não lhe ocorreu, naquela ocasião, senão como coisa de que se deveria livrar por todos os meios. E para evitar que esperassem dela uma tal atitude, instalou-se na menor casa que havia na paróquia de Mansfield, a White House, na qual apenas havia espaço suficiente para ela própria morar com as suas criadas e só um quarto vago destinado a uma amiga, — amiga essa de que ela fazia absoluta questão. Os quartos vagos no Presbitério nunca tinham sido utilizados, mas agora era imprescindível que houvesse um quarto para receber uma amiga. Contudo, nem com todas as suas precauções se livrou que a julgassem melhor do que o merecia; ou, talvez a importância que deu à necessidade daquele quarto a mais, tenha enganado Sir Thomas que imaginou tratar-se realmente de Fanny. Lady Bertram, porém, em pouco tempo esclareceu o negócio quando, inconscientemente, observou a Mrs. Norris:
— Acho, minha irmã, que quando Fanny for morar com você nós não precisamos mais conservar Miss Lee.
Mrs. Norris teve um sobressalto. — Morar comigo querida Lady Bertram! Que significa isto?
— Pois ela não vai para a sua companhia? Pensei que você tinha combinado com Sir Thomas.
— Eu! Nunca. Nunca disse uma palavra sobre isso a Sir Thomas nem ele a mim. Imagine, Fanny morar comigo! A última coisa no mundo que eu seria capaz de pensar ou que alguém poderia desejar, conhecendo-nos a nós duas. Santo Deus! Que faria eu com Fanny? Eu? Uma pobre viúva, sozinha, desamparada, inteiramente alquebrada, imprestável para qualquer coisa; que faria eu com uma menina dessa idade? Uma mocinha de quinze anos! Justamente na idade em que todas necessitam de maior atenção e cuidado e quando justamente precisam de alegria! Sem dúvida Sir Thomas não espera isso seriamente. Sir Thomas é muito meu amigo. Pessoa alguma que me queira bem, estou certa, faria tal proposta. Como se explica que Sir Thomas lhe tenha falado sobre isto?
— Na verdade não sei. Creio que ele julgou ser o melhor.
-Mas que disse ele? Não poderia ter dito ser desejo dele que eu levasse Fanny. Tenho certeza que no íntimo não poderia exigir de mim tal sacrifício.
— Não, apenas disse que o achava provável; e eu concordei com ele. Ambos pensamos que lhe seria um consolo. Mas se você não quer, não se fala mais nisso. Ela não nos incomoda aqui.
— Minha cara irmã, se você refletir sobre a minha triste situação, compreenderá que ela não me poderá reconfortar. Agora veja, uma pobre viúva desolada como eu, privada do melhor dos maridos, a saúde gasta nas longas vigílias que passei tratando-o, o espírito ainda pior, toda a minha paz neste mundo destruída, com uma renda apenas suficiente para manter-me em situação digna e viver de modo a não desonrar a memória do querido ausente — que possível consolo poderei encontrar em carregar sobre os ombros um peso como Fanny? Ainda que estivesse em condições de poder desejar isto para meu próprio bem, não faria uma tal injustiça à pobre menina. Ela está em boas mãos e por certo será muito feliz. Eu que me arranje como puder com as minhas tristezas e dificuldades.
— Então você não se importa de viver sozinha?
— Minha cara Lady Bertram, para que sirvo eu senão para a solidão? Uma vez ou outra espero receber uma amiga em minha casa (terei sempre um quarto para receber uma amiga); mas a maior parte dos meus dias futuros serão passados na maior solidão. E não desejo mais nada.
-Creio, minha irmã, que as coisas não estão assim tão ruins para você, considerando-se o que disse Sir Thomas, que você vai receber seiscentas libras por ano.
— Não me queixo. Sei que não posso viver como vivia, mas hei de poupar o quanto possa e aprender a administrar melhor minhas economias. Fui uma dona de casa bastante liberal mas agora não me envergonharei de ser mais econômica. Não só a minha renda quanto a minha situação estão agora muito diferentes. Não se pode esperar que eu continue com todos os encargos que o pobre Mr. Norris tinha como pastor desta paróquia. Ninguém sabe o que se gastava com mantimentos lá em casa, com os estranhos que entravam e saíam a toda hora. Em White House essas coisas têm que ser melhor controladas. Preciso viver dentro dos meus rendimentos se não quiser ficar na miséria; confesso que teria grande satisfação se pudesse no fim de cada ano guardar nem que fosse uma pequena quantia.
— E garanto que guardará. Você sempre guardou, não é?
— Meu fim, Lady Bertram, é ser útil àqueles que vierem depois de mim. É para bem de seus filhos que desejo enriquecer. Não penso em mais nada; apenas desejaria deixar alguma coisa para eles.
— Você é muito boa, mas não deve incomodar-se por causa deles. Todos ficarão bem de vida. Isto compete a Sir Thomas.
— Pois olhe, a fortuna de Sir Thomas ficará bem desfalcada se as suas propriedades em Antigua continuarem do jeito que estão.
— Ora, isto logo se arranjará. Sei que Sir Thomas já está providenciando.
— Bem, Lady Bertram, disse Mrs. Norris levantando-se para sair. — Digo apenas que meu único desejo é ser útil à sua família; e assim, se por acaso Sir Thomas lhe falar novamente em eu levar Fanny, diga-lhe por favor que minha saúde e meu estado de espírito mo impedem absolutamente; além disso não teria realmente acomodações para Fanny, visto que preciso do único quarto vago para uma amiga.
Cap. III (trad. Rachel de Queiroz)

segunda-feira, setembro 21, 2009

Veneza por Henry James


Tradução: Marcio de Paula S. Hack

“Em lugar nenhum, nem mesmo na Holanda, onde a correspondência entreas paisagens reais e as pequenas e refinadas pinturas é tão constantee tão graciosa, arte e vida parecem tão interligadas e, por assimdizer, tão consanguíneas. Todo o esplendor de luz e de cores, toda aatmosfera e história venezianas estão nas paredes e nos tetos dospalácios; e todo o gênio dos mestres, todas as imagens e visões quepuseram em suas telas, parecem tremer sob a luz do sol e dançar porsobre as ondas. Este é o interesse perpétuo do lugar – que você vivenuma espécie de conhecimento, como se em uma nuvem rósea. Não se vaiàs igrejas e galerias à procura de algo que as ruas não oferecem;vai-se a elas porque oferecem uma delicada reprodução das coisas quenos cercam. Toda Veneza foi ao mesmo tempo modelo e artista, e a vidaera tão pictórica que a arte não podia deixar de sê-lo. Mesmo comtodas as decadências, a vida é ainda pictórica, e este fato dá umfrescor extraordinário à percepção das grandes obras venezianas.Você as julga não como um connoiseur, mas como um homem do mundo, ese deleita por que são muito sociais e verdadeiras. Talvez, de todasas obras de arte igualmente grandes, elas exijam menos reflexão daparte daquele que as vê – o gozo delas não é tão cheio demistério. A reflexão apenas confirma a sua admiração, mas quase quese envergonha de mostrar sua face. Estas coisas falam com tal franquezae benignidade aos sentidos que, mesmo quando atingem o estilo maiselevado – como na “Apresentação da pequena Virgem no Templo”, deTintoretto – são ainda assim mais íntimas.

Mas é difícil, como eu dizia, exprimir tudo isso, e também édoloroso tentá-lo – doloroso por que, na memória das horas perdidas,tão plenas de beleza, a consciência da perda presente oprime. Horasdeliciosas, envoltas em luz e silêncio, tê-las conhecido uma vez épossuir sempre um terrível ideal de satisfação. Certas manhãsadoráveis de maio e junho retornam com uma objetividadeindestrutível. Veneza não está coberta de flores nesta estação, àmaneira de Roma e Florença; mas o próprio mar e o próprio céuparecem florescer e farfalhar. A gôndola espera nos degraus banhadospelas ondas, e se você é sábio, tomará seu lugar ao lado de umacompanhia judiciosa. Tal companhia em Veneza deve, é óbvio, ser dosexo que julga com mais fineza. Uma mulher inteligente que conhece asua Veneza parece duplamente inteligente, e mulher nenhuma teria apercepção embotada ao notar que é inevitável parecer graciosaenquanto levam-na por sobre as ondas. O belo Pasquale, de remo erguido,espera por seu comando, sabendo, assim por alto, a partir daobservação dos seus hábitos, que sua intenção é ir ver uma ouduas pinturas. Talvez não importe demais qual pintura você escolha:é tudo tão charmoso. É charmoso vagar pelas luzes e sombras decanais labirínticos, com arquitetura perpétua acima, e fluidezperpétua abaixo. É charmoso desembarcar nos degraus polidos de umpequeno campo vazio – uma praça alquebrada e ensolarada, com um velhopoço no meio, uma velha igreja de um lado e altas janelas venezianasolhando de cima. Por vezes, as janelas estão desocupadas; noutras, umasenhora num robe puído se inclina distraidamente sobre o peitoril.Sempre há um velho estendendo o seu chapéu, pedindo moedas; hásempre três ou quatro garotos se esquivando de possíveis estocadas deguarda-chuva enquanto o precedem, à maneira dos guardiães, à porta daigreja.”
[1882]
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Trecho da parte V do ensaio “Venice”, em Italian Hours [Penguin, 1995], páginas 21-22.

domingo, setembro 20, 2009

HENRY JAMES: The Portrait of Lady (quotes)

Our young lady's courage, however, might have been taken as reaching its height after her relations had gone home. She could imagine braver things than spending the winter in Paris--Paris had sides by which it so resembled New York, Paris was like smart, neat prose--and her close correspondence with Madame Merle did much to stimulate such flights. She had never had a keener sense of freedom, of the absolute boldness and wantonness of liberty, than when she turned away from the platform at the Euston Station on one of the last days of November, after the departure of the train that was to convey poor Lily, her husband and her children to their ship at Liverpool. It had been good for her to regale; she was very conscious of that; she was very observant, as we know, of what was good for her, and her effort was constantly to find something that was good enough. To profit by the present advantage till the latest moment she had made the journey from Paris with the unenvied travellers. She would have accompanied them to Liverpool as well, only Edmund Ludlow had asked her, as a favour, not to do so; it made Lily so fidgety and she asked such impossible questions. Isabel watched the train move away; she kissed her hand to the elder of her small nephews, a demonstrative child who leaned dangerously far out of the window of the carriage and made separation an occasion of violent hilarity, and then she walked back into the foggy London street. The world lay before her--she could do whatever she chose. There was a deep thrill in it all, but for the present her choice was tolerably discreet; she chose simply to walk back from Euston Square to her hotel. The early dusk of a November afternoon had already closed in; the street-lamps, in the thick, brown air, looked weak and red; our heroine was unattended and Euston Square was a long way from Piccadilly. But Isabel performed the journey with a positive enjoyment of its dangers and lost her way almost on purpose, in order to get more sensations, so that she was disappointed when an obliging policeman easily set her right again. She was so fond of the spectacle of human life that she enjoyed even the aspect of gathering dusk in the London streets-- the moving crowds, the hurrying cabs, the lighted shops, the flaring stalls, the dark, shining dampness of everything. That evening, at her hotel, she wrote to Madame Merle that she should start in a day or two for Rome. She made her way down to Rome without touching at Florence--having gone first to Venice and then proceeded southward by Ancona. She accomplished this journey without other assistance than that of her servant, for her natural protectors were not now on the ground. Ralph Touchett was spending the winter at Corfu, and Miss Stackpole, in the September previous, had been recalled to America by a telegram from the Interviewer. This journal offered its brilliant correspondent a fresher field for her genius than the mouldering cities of Europe, and Henrietta was cheered on her way by a promise from Mr. Bantling that he would soon come over to see her. Isabel wrote to Mrs. Touchett to apologise for not presenting herself just yet in Florence, and her aunt replied characteristically enough. Apologies, Mrs. Touchett intimated, were of no more use to her than bubbles, and she herself never dealt in such articles. One either did the thing or one didn't, and what one "would" have done belonged to the sphere of the irrelevant, like the idea of a future life or of the origin of things. Her letter was frank, but (a rare case with Mrs. Touchett) not so frank as it pretended. She easily forgave her niece for not stopping at Florence, because she took it for a sign that Gilbert Osmond was less in question there than formerly. She watched of course to see if he would now find a pretext for going to Rome, and derived some comfort from learning that he had not been guilty of an absence. Isabel, on her side, had not been a fortnight in Rome before she proposed to Madame Merle that they should make a little pilgrimage to the East. Madame Merle remarked that her friend was restless, but she added that she herself had always been consumed with the desire to visit Athens and Constantinople. The two ladies accordingly embarked on this expedition, and spent three months in Greece, in Turkey, in Egypt. Isabel found much to interest her in these countries, though Madame Merle continued to remark that even among the most classic sites, the scenes most calculated to suggest repose and reflexion, a certain incoherence prevailed in her. Isabel travelled rapidly and recklessly; she was like a thirsty person draining cup after cup. Madame Merle meanwhile, as lady-in-waiting to a princess circulating incognita, panted a little in her rear. It was on Isabel's invitation she had come, and she imparted all due dignity to the girl's uncountenanced state. She played her part with the tact that might have been expected of her, effacing herself and accepting the position of a companion whose expenses were profusely paid. The situation, however, had no hardships, and people who met this reserved though striking pair on their travels would not have been able to tell you which was patroness and which client. To say that Madame Merle improved on acquaintance states meagrely the impression she made on her friend, who had found her from the first so ample and so easy. At the end of an intimacy of three months Isabel felt she knew her better; her character had revealed itself, and the admirable woman had also at last redeemed her promise of relating her history from her own point of view--a consummation the more desirable as Isabel had already heard it related from the point of view of others. This history was so sad a one (in so far as it concerned the late M. Merle, a positive adventurer, she might say, though originally so plausible, who had taken advantage, years before, of her youth and of an inexperience in which doubtless those who knew her only now would find it difficult to believe); it abounded so in startling and lamentable incidents that her companion wondered a person so eprouvee could have kept so much of her freshness, her interest in life. Into this freshness of Madame Merle's she obtained a considerable insight; she seemed to see it as professional, as slightly mechanical, carried about in its case like the fiddle of the virtuoso, or blanketed and bridled like the "favourite" of the jockey. She liked her as much as ever, but there was a corner of the curtain that never was lifted; it was as if she had remained after all something of a public performer, condemned to emerge only in character and in costume. She had once said that she came from a distance, that she belonged to the "old, old" world, and Isabel never lost the impression that she was the product of a different moral or social clime from her own, that she had grown up under other stars.
cap. xxxi
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The elation of success, which surely now flamed high in Osmond, emitted meanwhile very little smoke for so brilliant a blaze. Contentment, on his part, took no vulgar form; excitement, in the most self-conscious of men, was a kind of ecstasy of self-control. This disposition, however, made him an admirable lover; it gave him a constant view of the smitten and dedicated state. He never forgot himself, as I say; and so he never forgot to be graceful and tender, to wear the appearance--which presented indeed no difficulty--of stirred senses and deep intentions. He was immensely pleased with his young lady; Madame Merle had made him a present of incalculable value
Cap. XXXV
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She had taken all the first steps in the purest confidence, and then she had suddenly found the infinite vista of a multiplied life to be a dark, narrow alley with a dead wall at the end. Instead of leading to the high places of happiness, from which the world would seem to lie below one, so that one could look down with a sense of exaltation and advantage, and judge and choose and pity, it led rather downward and earthward, into realms of restriction and depression where the sound of other lives, easier and freer, was heard as from above, and where it served to deepen the feeling of failure.
Cap. LXII

quarta-feira, setembro 16, 2009

SIDNEY GREIDANUS: Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento 3


A história da pregação de Cristo a partir do Antigo Testamento.

"Qualquer pessoa que leia as Escrituras com atenção descobrirá nelas a palavra sobre Cristo...pois Cristo é o tesouro escondido num campo...ele foi escondido, foi simbolizado por tipos e expressões parabólicas que no nível humano não poderiam ser compreendidos antes da consumação daquilo que foi profetizado, ou seja, a vinda de Cristo"

Irineu, Contra as Heresias, 4,26,1 p. 87

Interpretação alegórica.

permite ir além do signifcado literal, histórico, de uma passagem, para um suposto sentido mais profundo.
Irineu (c. 130-200)


Para ele, o fundamento da hermeneutica é que Cristo constitui o centro da Escritura, a Bíblia é um livro sobre o Salvador. O tema fundamental da Bíblia é o plano de salvação.


As idéias de dispensações capacita Irineu a mover-se além dos limites de simplesmente descobrir Cristo no AT para também considerar o significado da passagem para Israel. ele escreve que Deus levantou profetas na terra....esboçando, como um arquiteto, o plano da salvação para aqueles que o agradassem. E ele mesmo forneceu direção aos que contemplavam não no Egito, enquanto aos rebeldes do deserto, ele promulgou uma lei muito aplicável à sua condição. Aqui, vemos Irineu dando o primeiro passo em direção ao que um dia seria chamado de interpretação histórica.
De acordo com A.S. Wood, Irineu deduziu dois princípios hermenêuticos da unidade da Escritura: O primeiro é a harmonia da Escritura. O segundo é o princípio da analogia pelo qual é permitido à Escritura agir como seu próprio intérprete" p.95
Em oposição à interpretação alegórica dos gnósticos, Irineu sugere ainda outro princípio heremeneutico: os pregadores devem ter como alvo a interpretação comum, simples, óbvia do texto da Bíblia.




A Escola de Alexandria



A interpretação alegórica foi desenvolvida primeiramente na Grécia no sec. 3o. a.C.


"John Breck mostra como a escola filosófica grega que se originou com Platão inspirou a interpretação alegórica preferida pelos alexandrinos: ao opor o ambito eterno da verdade ao mundo historico da matéria, os herdeiros da filosofia platônica tinham a tendência de desvalorizar o conceito de História e, consequentemente, o arcabouço histórico da revelação...A interpretação de acontecimentos históricos consiste em discernir seu sentido espiritual ou seja, o significado mais profudno da realidade eterna, celestial, que se expressa na vida humana. Declarado como um princípio hermenêutico, o objetivo é discernir o significado escondido de um aconteciemnto, expondo a verdade eterna nele inserida" (p. 98).
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Clemente de Alexandria 150-215
foi o primeiro a acrescentar o metodo alegórico de Filo aos métodos de exegese já existiam.
"Como Filo, Clemente ensinava que a Escritura tinha um significado duplo; Análogo ao ser humano, ela tem um significado de corpo - literal- como também um significado de alma- espiritual- por trás do sentido literal" p. 99
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Orígenes 185-254
"A abordagem de Orígenes está muito mais arraigada numa teologia da encarnação e numa visão sacrametal de mundo...Cristo, o Logos, comunica-se conosco de três modos encarnacionais, com seu corpo historico e ressureto, com seu corpo, a igreja e com seu corpo das Escrituras, cujas letras recebem vida pelo Espírito Santo" (Thiselton, in p. 101)
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"Antes do advento de Cristo, não era completamente possível demonstrar provas concretas da inspiração divina das antigas Escrituras, enquanto que a sua vinda levou aqueles que poderiam suspeitar que a lei e os profetas não eram divinos `a clara convicção de que eles foram compostos com o auxílio da graça celestial " Origenes, First Principles, 4,1,6 in p. 101

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O problema da pregação alegórica é que eles prociuram a relaçãocom Jesus em algum detalhe um tanto incidental pra tratamento como metafora, e ñão o resto da história. A tendencia de buscar o texto e faze-lo adequar a homília.

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Interpretação tipológica

Escola de Antioquia

a principal diferença entre a tipológica e alegórica é a forma como a história da redenção funciona na interpretação, Embora, a alegórica não negue a história redentora, ela não desempenha papel importante na interpretação da Escritura. A tipológica requer a história redentora, porque a analogia e o desenvolvimento progressivo entre tipo e antitipo são feitos dentro da história redentora. Como disse K. J. Woolcombe: "A exegese tipologica é busca por elos entre acontecimentos, pessoas ou coisas dentro da estrutura historica da revelação, enquanto o alegorismo é a busca de um significado secundário e escondido subjacente ao sentido principal e obvio de uma narrativa" p. 110
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Teodoro de Mopsuéstia (350-428)

utiliza a interpretação gramatica-historica. Ele focaliza o sentido natural e literal, procura determinar o sentido historico original de uma passagem.

"Até mesmo quando o NT cita um texto do AT, ele pode ser apenas ilustrativo em vez de uma indicação do sentido messiânico; até Os. 11.1 diz ele não faz referência a Cristo, apesar de Mt. 2,15

Teodoro foi chamado de judaizante- porque ele entendia o AT dentro de seu sentido historico e se recusavaa ler as doutrinas cristãs nele, como estava sendo feito cada vez mais em seus dias. p. 113

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João Crisóstomo (347-407)

O tipo recebe o nome de verdade até que a verdade esteja prestes a vir, mas quando vier o verdadeiro, o nome não é mais usado. Semelhante , na pintura: um artista desenha um rei, mas até que as cores sejam aplicadas ele não é chamado de rei, quando as cores são vestidas, o tipo é escondido pela verdade, e não é mais visível, e dizem então: Eis o Rei. (p.115)

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Intepretação Quádrupla

literal-histórico, moral, místico e escatológico.

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Agostinho 354-430

"o objetivo do escritor desses livros sagrados, ou seja, o Espírito de DEus que nele habita, é não apenas documentar o passado, mas também retratar o futuro, no que concerne à cidade de DEus, pois aquilo que for dito daqueles que não seus cidadãos é dado para sua instrução, ou como enigma para enfeitar sua glória" p. 123

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João Cassiano (360-435)

1. sentido liteiral, que ensina os fatos historicos. Jerusalém- cidade em Israel

2. sentido alegorico, que mostra que os fatos da historia prefiguram a forma de outro mistério - fé = Jerusalém- a igreja de Cristo

3. sentido tropológico ou moral, que oferece explicação moral pertinente à purificação da vida - amor.= Jerusalém - a alma da pessoa

4. sentido anagógico, que tem a ver com mistérios espirituais, que surgem para segredos mais sublimes e sagrados do céu- esperança= Jerusalém-a cidade celestial de Deus.

"O maná pode ser visto, literalmente, como alimento dado milagrosamente aos israelitas; alegoricamente, como bendito sacramento da Eucaristia, tropologicamente, como o sustento espiritual da alma dia após dia pelo poder da habitação do Espirito de Deus, e anagogicamente, como o alimento das benditas almas no céu, a Visão beatífica e união perfeita com Cristo" p. 125


domingo, setembro 13, 2009

HENRY JAMES: O Retrato de uma Senhora-


RALPH TOUCHETT


"Uma reserva de indiferença- como uma grossa fatia de bolo que uma babá antiga e afetuosa tivesse escondido em sua primeira pasta escolar-veio em seu auxilio e ajudou-o a aceitar o sacrificio , pois, na melhor das hipóteses , estava demasiado doente para qualquer coisa que não fosse esse árduo jogo. Como disse a si mesmo, não havia realmente nada que quisesse muito fazer, de modo que ao menos não renunciara ao campo de batalha. Entretanto, no momento, a frangrância do fruto proibido parecia, de vez em quando, flutuar por perto e lembrar-lhe de que o melhor dos prazeres é impeto da ação. Viver como vivia era como ler um livro bom numa tradução ruim- parca diversão para um jovem que talvez esperasse um dia se tornar um excelente linguista" p. 63

terça-feira, setembro 08, 2009

HENRY JAMES: Retrato de uma senhora

'Retrato de uma senhora', publicado pela primeira vez em 1881, é o primeiro grande romance de Henry James, e talvez sua obra máxima. Num século em que a esposa burguesa insatisfeita tornou-se um personagem literário central, e o adultério um motivo romanesco recorrente, Henry James colocou em cena uma heroína singular, cuja carência essencial é de outra ordem. Com uma narrativa que, astuciosamente, começa lenta, quase contemplativa, e aos poucos se acelera, ganhando dramaticidade, James constrói sua história como um jogo em que cada coisa se transmuta em seu oposto - liberdade em destino, afeto em traição, pureza em artimanha - e vice-versa.



COMEÇO....

Em determinadas circunstâncias, há poucas horas na vida mais agradáveis do que aquela dedicada à cerimônia conhecida como chá da tarde. Há circunstâncias em que, tomemos ou não o chá - algumas pessoas, logicamente, jamais o fazem -, a situação é, em si, encantadora. As que tenho em mente ao começar a narrativa desta simples história criaram um cenário admirável para um inocente passatempo. Os apetrechos do pequeno banquete haviam sido dispostos sobre o gramado de uma velha casa de campo inglesa, no que eu poderia chamar de perfeito decorrer de uma esplêndida tarde de verão. Parte da tarde já se esvaíra, mas boa parte dela ainda restava, e o que ali havia era da mais fina e rara qualidade. O verdadeiro crepúsculo tardaria ainda algumas horas; porém a torrente de luz de verão já refluía, a atmosfera tornara-se branda, as sombras alongavam-se sobre a relva macia e densa. Porém cresciam lentas; e a cena expressava aquela sensação de inatividade ainda por vir, que é talvez a fonte principal do prazer de se viver tal cena nesse horário. Das cinco às oito horas é, em certas ocasiões, uma pequena eternidade; mas numa ocasião como esta, o intervalo só podia ser uma eternidade de prazer. As pessoas nela envolvidas absorviam esse prazer tranqüilamente, e não pertenciam ao sexo que supostamente fornece os habituais partidários da cerimônia que mencionei. As sombras sobre o gramado perfeito em retilíneas e angulosas; eram as sombras de um velho sentado em uma ampla cadeira de vime próxima à mesa baixa sobre a qual fora servido o chá, e as de dois homens mais jovens, andando de um lado para o outro, conversando à toa diante dele. O velho segurava a xícara nas mãos; era uma xícara de tamanho inusitado, de desenho diferente do restante do aparelho e decorada com cores brilhantes. Ele se servia de seu conteúdo com muita circunspecção, mantendo-a por longo tempo próxima a seu queixo, com a face voltada em direção à casa. Seus companheiros haviam terminado o chá ou estavam indiferentes a tal privilégio; fumavam cigarros enquanto continuavam a passear por ali. Um deles, de quando em quando, ao passar olhava com certa atenção para o homem mais velho, que, sem notar que estava sendo observado, mantinha o olhar fixo sobre a suntuosa fachada vermelha de sua residência. A casa que se erguia além do gramado era uma estrutura que merecia tal consideração e era o objeto mais característico no quadro peculiarmente inglês que tentei esboçar.Erguia-se sobre uma colina baixa, acima do rio - sendo este o Tâmisa, a cerca de sessenta e cinco quilômetros de Londres. Uma fachada de tijolos vermelhos e cumeeira alta, com a aparência marcada por proezas pictóricas infligidas pelo tempo e pelo clima que, no entanto, apenas a tinham melhorado e refinado, apresentava ao gramado suas heras, suas chaminés agrupadas, suas janelas afogadas em trepadeiras. A casa possuía um nome e uma história; o velho cavalheiro tomando seu chá teria tido o maior prazer em contar-lhes essas coisas: como ela fora construída no reinado de Eduardo VI, oferecera hospitalidade por uma noite para a grande Elizabeth (cuja augusta pessoa se estendera numa cama imensa, magnífica e terrivelmente angulosa que ainda constituía a principal honra dos aposentos de dormir), fora bastante atingida e desfigurada durante as guerras de Cromwell, e então, durante a Restauração, reparada e muito ampliada; e como, finalmente, após haver sido remodelada e descaracterizada no século XVIII, passara para a cuidadosa guarda de um arguto banqueiro norte-americano, que a comprara originalmente porque (devido a circunstâncias demasiadamente complicadas para expor aqui) lhe foi oferecida por uma pechincha: comprara-a com muitas queixas por sua feiúra, sua antigüidade, sua falta de conforto, e agora, vinte anos depois, tornara-se consciente de sua verdadeira paixão estética por ela, de modo que conhecia todos os seus recantos e poderia dizer exatamente onde postar-se para vê-los em harmonia e exatamente a hora em que as sombras de suas várias protuberâncias - que caíam tão suavemente sobre a cálida e fatigada alvenaria de tijolos -tinham a medida apropriada. Além disso, como já mencionei, ele poderia desfiar a maioria dos sucessivos proprietários e ocupantes, vários dos quais eram de fama publicamente reconhecida; fazendo isso, entretanto, com uma convicção velada de que a última fase de seu destino não era a menos honrosa. A fachada da casa voltada para aquela porção do gramado na qual estamos interessados não era a da entrada principal; esta localizava-se em local bem diverso. A privacidade, aqui, reinava soberana, e o amplo carpete de relva que cobria a parte plana do topo da colina parecia ser apenas a extensão de um luxuoso interior. Os grandes e silenciosos carvalhos e faias projetavam sombra tão densa como cortinas de veludo, e o local estava mobiliado como um aposento, com poltronas estofadas, tapetes de cores vivas, livros e papéis que jaziam sobre a grama. O rio ficava a certa distância; onde o terreno começava a descer, o gramado propriamente dito terminava. Mas mesmo assim era encantadora a caminhada até a água.O velho cavalheiro à mesa de chá, que viera da América do Norte trinta anos antes, trouxera consigo, no alto de sua bagagem, a fisionomia americana; e não somente a trouxera consigo, como também a conservara em perfeito estado, de modo que, caso necessário, poderia tê-la levado de volta a seu país de origem com total confiança. No momento, obviamente, contudo, ele não parecia disposto a transferir-se; suas viagens tinham terminado e agora ele desfrutava do repouso que precede o grande repouso. Tinha o rosto fino e bem barbeado, com feições proporcionalmente distribuídas e uma expressão de plácida sagacidade. Era evidentemente um rosto no qual a amplitude de representação não era grande, de forma que o ar de argúcia satisfeita era de ainda mais mérito. Parecia dizer que seu portador fora bem-sucedido na vida, mas também que todo seu sucesso não fora exclusivo e hostil, mas possuíra muito da inocência do fracasso. Ele certamente tinha grande experiência dos homens, mas percebia-se uma simplicidade quase rústica no débil sorriso que lhe pairava na face magra e larga e lhe iluminava os olhos bem-humorados, quando ele, por fim, pousou com lentidão e cuidado a grande xícara de chá sobre a mesa. Estava bem vestido, com trajes de um preto lustroso; mas tinha um xale dobrado sobre os joelhos, e os pés enfiados em chinelos grossos e bordados. Um belo collie estava deitado sobre a grama próximo de sua cadeira, olhando para o rosto do dono quase com tanta ternura quanto a que este dedicava à ainda mais dominadora fisionomia da casa; e um pequeno terrier, alvoroçado e de pêlo eriçado, dispensava vaga atenção aos outros cavalheiros.Um deles era um homem notavelmente bem-apessoado, de trinta e cinco anos, com feições tão inglesas quanto não o eram as do idoso cavalheiro que acabei de descrever; um rosto muito atraente, corado, claro e franco, de feições firmes e corretas, olhos de um cinza intenso e o rico adorno de uma barba castanha. Tal pessoa possuía um certo ar afortunado, brilhante e excepcional - o ar de um temperamento feliz, fertilizado por uma elevada civilização - que teria feito qualquer observador quase invejá-lo ao acaso. Calçava botas com esporas, como se houvesse acabado de chegar de uma longa cavalgada; usava chapéu branco, que parecia ser grande demais para ele; mantinha as mãos às costas, e uma delas - de punho largo, branco e bem talhado - apertava um par de luvas de couro de cachorro, manchadas.Seu companheiro, que a seu lado dava largas passadas pelo gramado, era uma pessoa de tipo bem diferente que, embora podendo talvez despertar grave curiosidade, não teria, como o outro, provocado em alguém o desejo quase imprudente de estar em seu lugar. Alto, magro, de constituição débil e deselegante, tinha um rosto feio e doentio, embora espirituoso e fascinante, dotado, mas de modo algum adornado, de um bigode irregular e suíças. Parecia inteligente e enfermo - combinação absolutamente infeliz -, e vestia um paletó de veludo marrom. Tinha as mãos nos bolsos, e havia algo na maneira como o fazia que mostrava que o hábito era inveterado. Seu modo de andar era trôpego e errante; não tinha muita firmeza nas pernas. Como já disse, sempre que passava pelo velho na cadeira, pousava o olhar nele; e nesse momento, relacionando os rostos, seria fácil perceber que se tratava de pai e filho. O pai cruzou finalmente o olhar do filho e deu um sorriso suave em resposta.- Estou me sentindo muito bem - disse ele.- Bebeu seu chá? - perguntou o filho.- Sim, e apreciei-o bastante.- Quer mais um pouco?O velho ponderou, plácido.- Bem, creio que esperarei um pouco. - Seu sotaque era norte-americano.- Está com frio? - indagou o filho. O pai esfregou lentamente as pernas:- Bem, não sei. Só poderei dizer quando sentir.- Talvez alguém possa sentir por você - disse o rapaz, rindo.- Oh, espero que alguém sempre sinta por mim! O senhor não sente por mim, lorde Warburton?- Oh, sim, imensamente - disse prontamente o cavalheiro mencionado como lorde Warburton. - Sou obrigado a dizer que o senhor me parece maravilhosamente confortável.- Bem, acredito que esteja, sob muitos aspectos. - E o velho baixou o olhar para o xale verde, ajeitando-o sobre os joelhos. - O fato é que tenho estado confortável durante tantos anos que devo ter me acostumado tanto a isso a ponto de já não saber mais.- Sim, esse é o fastio do conforto - disse lorde Warburton. - Só nos damos conta quando estamos desconfortáveis.- Parece-me que somos muito exigentes - notou seu companheiro.- Oh, sim, não há dúvida de que somos exigentes - murmurou lorde Warburton. E então os três permaneceram em silêncio por algum tempo; os dois mais jovens de pé, olhando para o terceiro, que dali a pouco pediu mais um pouco de chá. - Eu teria imaginado que o senhor se sentiria muito infeliz com esse xale - continuou lorde Warburton, enquanto seu companheiro enchia novamente a xícara do velho.- Oh, não, ele deve ficar com o xale! - exclamou o cavalheiro do paletó de veludo. - Não coloque essas idéias na cabeça dele.- Ele pertence à minha mulher - disse o velho, simplesmente.- Se é por razões sentimentais... - E lorde Warburton fez um gesto de desculpas.- Creio que deva devolvê-lo quando ela chegar - continuou o velho.- Por favor, não faça nada disso. Fique com ele para cobrir suas velhas pernas.- Ora, você não deve criticar minhas pernas - disse o velho. - Acho que são tão boas quanto as suas.- Oh, o senhor tem toda a liberdade para criticar as minhas - respondeu seu filho, estendendo-lhe a xícara.- Ora, somos dois inválidos; não creio que haja muita diferença.- Sou-lhe muito grato por chamar-me de inválido. Como está o chá?- Bem, um tanto quente.- Isso deve ser considerado um mérito.- Há grande mérito, realmente - murmurou o velho, bondosamente. - Ele é um ótimo enfermeiro, lorde Warburton.- Não é um pouco desajeitado? - perguntou o lorde.- Oh, não, ele não é desajeitado, considerando-se que também é um inválido. É ótimo enfermeiro, para um doente. Eu o chamo de meu enfermeiro doente, porque ele próprio está doente.- Ora, vamos, papai! - exclamou o rapaz feio.- Mas você está; gostaria que não estivesse. Porém creio que não pode evitar isso.- Posso tentar; é uma idéia - disse o rapaz.- Já ficou doente, lorde Warburton? - perguntou o velho.Lorde Warburton refletiu por um momento.- Sim, senhor, fiquei uma vez, no golfo Pérsico.- Ele está brincando com o senhor, papai - disse o outro jovem. - É só gracejo.- Bem, parece haver muitos gracejos hoje em dia - respondeu o pai, serenamente. - De qualquer modo, não parece que o senhor esteve doente, lorde Warburton.- Ele está farto da vida; estava me falando justamente sobre isso; falando sem parar sobre o assunto - disse o amigo de lorde Warburton.- Isso é verdade, senhor? - perguntou o velho, sério.- Se é, seu filho não me ofereceu nenhum consolo. Ele é um péssimo parceiro para se conversar, um cínico completo. Parece não acreditar em coisa alguma.- Esse é outro gracejo - disse a pessoa acusada de cinismo.- É porque sua saúde é ruim - explicou o velho a lorde Warburton. - Afeta-lhe a mente e matiza sua maneira de encarar as coisas; parece que ele sente que jamais teve uma chance. Porém tudo isso é quase só na teoria, sabe, não parece afetar-lhe o ânimo. Quase nunca o vi desanimado - mais ou menos como está agora. Ele geralmente me alegra.O rapaz assim descrito olhou para lorde Warburton e riu.- Isso é um elogio exaltado ou uma acusação de leviandade? Gostaria que eu pusesse em prática minhas teorias, papai?- Por Deus, veríamos coisas bastante estranhas! - exclamou lorde Warburton.- Espero que não tenha adotado esse tom - disse o velho.- O tom de Warburton é pior que o meu; ele finge estar entediado. Eu não estou nem um pouco entediado; até considero a vida interessante demais.- Ah, interessante demais; não deve permitir que ela seja assim, sabe disso!- Jamais fico entediado quando venho aqui - disse lorde Warburton. - A conversa é sempre inusitadamente boa.- Isso é outro gracejo? - perguntou o velho. - O senhor não tem desculpa de se sentir entediado em lugar algum. Quando eu tinha a sua idade, jamais ouvi falar de algo semelhante.- O senhor deve ter amadurecido bem tarde.- Não, amadureci bem rápido; esse foi exatamente o motivo. Quando eu tinha vinte anos de idade, já estava muitíssimo amadurecido. Trabalhava com unhas e dentes. O senhor não se sentiria entediado se tivesse o que fazer; mas vocês, jovens, são todos ociosos. Pensam demais no próprio prazer. São exigentes demais, indolentes demais e ricos demais.- Ah, alto lá - exclamou lorde Warburton. - O senhor não é a pessoa mais indicada para acusar um semelhante de ser rico demais!- Diz isso porque sou banqueiro? - perguntou o velho.- Por isso, se quiser, e porque o senhor tem, não é mesmo?, recursos ilimitados.- Ele não é muito rico - defendeu-o misericordiosamente o rapaz. - Distribuiu uma quantidade imensa de dinheiro.- Bem, suponho que o dinheiro era dele - disse lorde Warburton -; e, nesse caso, haveria maior prova de riqueza? Não está certo um benfeitor público dizer que outros prezam demais o prazer.- Papai preza muito o prazer... dos outros. O velho meneou a cabeça.- Não tenho pretensões de ter contribuído em nada para a diversão de meus contemporâneos.- Meu caro pai, o senhor é modesto demais!- Isso é outro gracejo, senhor - disse lorde Warburton.- Vocês, jovens, gracejam demais. Quando não há mais do que gracejar, não lhes resta nada.- Felizmente há sempre do que gracejar - observou o rapaz feioso.- Não acredito nisso, acredito que as coisas estão se tornando mais sérias. E vocês, jovens, descobrirão que estou certo.- A crescente seriedade das coisas. Essa é a grande oportunidade para gracejos.- Terão que ser gracejos cruéis - disse o velho. - Estou convencido de que haverá grandes mudanças; e nem todas para melhor.- Concordo plenamente com o senhor - declarou lorde Warburton. - Tenho absoluta certeza de que haverá grandes mudanças e que todo tipo de coisas estranhas acontecerá. Eis por que encontro tanta dificuldade em pôr em prática seu conselho; como sabe, disse-me outro dia que eu deveria "agarrar-me" a alguma coisa. Hesito, porém, em agarrar-me a algo que, no momento seguinte, poderá ser mandado para o espaço.- Você deveria agarrar-se a uma bela mulher - disse seu companheiro. - Ele está muito empenhado em apaixonar-se - acrescentou, à guisa de explicação, dirigindo-se ao pai.- As belas mulheres também podem ir pelos ares! - exclamou lorde Warburton.- Não, não, elas permanecerão firmes - retorquiu o velho -; não serão afetadas pelas mudanças sociais e políticas que acabei de mencionar.- Quer dizer que elas não serão abolidas? Muito bem, então lançarei as mãos sobre uma tão logo seja possível e a amarrarei ao pescoço como um salva-vidas.- As damas nos salvarão - disse o velho -; quero dizer, as melhores o farão - pois faço uma distinção entre elas. Corteje uma boa mulher e case-se com ela, e sua vida se tornará muito mais interessante.Um silêncio momentâneo marcou, talvez, por parte dos ouvintes, o senso da magnanimidade desse discurso, pois não era segredo nem para o filho nem para o visitante que sua própria experiência matrimonial não fora feliz. Como dissera, no entanto, ele fazia uma distinção; e essas palavras podem ter tido a intenção de uma confissão de erro pessoal; embora, é claro, não fosse apropriado que nenhum de seus dois companheiros observasse que aparentemente a dama de sua escolha não fora das melhores.- Se eu me casar com uma mulher interessante, ficarei interessado; é isso que quer dizer? - perguntou lorde Warburton. - Não estou nem um pouco entusiasmado para casar - seu filho deturpou minhas intenções. Mas não sei o que uma mulher interessante poderia fazer por mim.- Eu gostaria de ver qual é a sua idéia de uma mulher interessante - disse-lhe o amigo.- Meu caro, não se podem ver idéias, especialmente idéias tão altamente etéreas como as minhas. Se ao menos eu mesmo conseguisse vê-las, isso já seria um grande avanço.- Bem, o senhor pode se apaixonar por quem lhe agradar; porém não deve fazê-lo por minha sobrinha - disse o velho.O filho caiu na risada.- Ele pensará que o senhor diz isso como uma provocação! Meu querido pai, o senhor convive com os ingleses há trinta anos e já assimilou muitas de suas expressões. Mas ainda não aprendeu o que eles não dizem!- Eu digo o que me agrada - respondeu o velho, com toda a serenidade.- Não tenho a honra de conhecer sua sobrinha - disse lorde Warburton. - Creio que é a primeira vez que ouço falar dela.- Ela é sobrinha de minha esposa; a senhora Touchett a está trazendo para a Inglaterra.Então o jovem senhor Touchett explicou:- Minha mãe, como sabe, passou o inverno na América, e estamos aguardando sua volta. Ela escreveu dizendo que descobriu uma sobrinha e convidou-a a vir também.- Entendo, muito gentil da parte dela - disse lorde Warburton. - A jovem é interessante?- Sabemos tanto quanto você a respeito dela; minha mãe não entrou em detalhes. Ela se comunica conosco principalmente por telegramas, e seus telegramas são bastante inescrutáveis. Dizem que as mulheres não sabem redigi-los, mas minha mãe dominou completamente a arte da condensação. "Cansada América, clima quente horrível, volto Inglaterra com sobrinha, primeiro navio cabine decente." É esse o tipo de mensagem que recebemos dela - essa foi a última. Porém houve uma outra antes, que acredito conter a primeira menção à sobrinha. "Troquei hotel, muito ruim, funcionário insolente, endereço aqui. Adotei filha da irmã, morta ano passado, viagem à Europa, duas irmãs, muito independente." Meu pai e eu não conseguimos decifrar de todo o conteúdo; pode admitir muitas interpretações.- Mas há uma coisa bastante clara - disse o velho -; ela passou um sabão no funcionário do hotel.- Nem sequer disso estou certo, uma vez que ele a tirou de perto. A princípio pensamos que a irmã mencionada pudesse ser a irmã do funcionário; porém a menção subseqüente de uma sobrinha parece provar que a alusão refere-se a uma de minhas tias. Aí restou a questão sobre de quem eram as duas outras irmãs; são provavelmente duas das filhas de minha falecida tia. Mas quem é "muito independente", e em que sentido o termo é usado? Esse ponto ainda não está esclarecido. A expressão aplica-se especificamente à jovem que minha mãe adotou, ou caracteriza suas irmãs? E é usada em sentido moral ou financeiro? Significa que elas ficaram em boa situação, ou que elas não desejam assumir nenhuma obrigação? Ou simplesmente significa que elas gostam de fazer as coisas do seu jeito?- O que quer que signifique além disto, certamente é isto o que quer dizer - observou o senhor Touchett.- Julgarão por si mesmos - disse lorde Warburton. - Quando chega a senhora Touchett?- Estamos completamente no escuro; assim que encontrar uma cabine decente em algum navio. Talvez ela ainda esteja à espera; ou quem sabe até já desembarcou na Inglaterra.- Nesse caso, provavelmente teria telegrafado a vocês.- Ela jamais telegrafa quando se espera que o faça, somente quando não se espera - disse o velho. - Ela gosta de apanhar-me de surpresa; pensa que me encontrará fazendo algo errado. Ainda não conseguiu, mas tampouco desanimou.- É o que toca a ela no acordo familiar, a independência que menciona. - A apreciação do filho sobre o assunto em questão era mais favorável. - Seja qual for a independência daquelas jovens, não é páreo para a dela. Ela gosta de fazer tudo por conta própria e não acredita que alguém seja capaz de ajudá-la. Ela me considera tão útil quanto um selo sem cola, e jamais me perdoaria se eu me atrevesse a ir até Liverpool para recebê-la.- Poderei ao menos ser informado quando sua sobrinha chegar? - perguntou lorde Warburton.- Somente com a condição de não se apaixonar por ela! - retrucou o senhor Touchett.- Isso me parece muito duro. Não me considera bom o bastante?- Considero-o bom demais, porque não gostaria que ela o desposasse. Ela não veio até aqui à procura de um marido, espero; tantas jovens estão fazendo isso, como se não houvesse bons partidos em seu país de origem. E talvez ela esteja comprometida; as moças norte-americanas geralmente têm compromisso, creio eu. Além disso, não estou certo, afinal de contas, de que o senhor seria um bom marido.- Provavelmente ela está comprometida; conheci muitas moças norte-americanas, e elas sempre estavam. Mas não creio que isso faça alguma diferença, dou-lhe minha palavra. Quanto ao fato de eu ser um bom marido - prosseguiu o visitante do senhor Touchett -, também não estou certo a respeito disso. Só me resta tentar!- Tente quanto lhe aprouver, mas não com minha sobrinha - sorriu o velho, cuja oposição à idéia era bastante jocosa.- Bem - disse lorde Warburton em tom ainda mais jocoso -, é possível, afinal de contas, que ela não valha sequer a tentativa!



"Um caráter assim" dizia a si mesmo " ter a chance de ter essa força ardente em ação é a coisa mais bela da natureza . É mais bela que a mais bela obra de arte : um baixo-relevo grego, um grande Ticiano, uma catedral gótica. É muito agradável ser tão bem tratado por quem menos se tinha esperado. Eu nunca estive tão melancólico, tão entediado como na semana anterior à chegada dela; nunca teria esperado que algo agradável fosse acontecer. De repente, recebo um Ticiano pelo correio, para pendurar na parede, um baixo relevo grego para pregar sobre a lareira. A chave de um belo palácio é posta em minha mão e alguém me diz que posso entrar e admirar. Meu pobre rapaz, você foi muito ingrato e agora é mlehor que fique bem quietinho e não reclame mais" trad. Gilda Stuart., Cia de Bolso, p. 88
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Harold Bloom, em Como e Por que Ler.
Por que ler Retrato de uma Senhora! Por muitas razões, e para obter imensos benefícios, mas o cultivo de uma consciência individual seria, certamente, um objetivo primeiro, bem como o grande benefício decorrente de uma leitura intensa. Energia intelectual e introvisão: eis os atributos da consciência do leitor solitário que mais se desenvolvem através da leitura. Informação social, seja sobre o passado ou sobre a contemporanei-dade, a meu ver, constitui um benefício periférico à leitura, e conscientização política um ganho ainda mais tênue (p. 166)

domingo, setembro 06, 2009

BRENNAN MANNING: A questão

RICHARD FOSTER: Celebração da Simplicidade 2


"Estar satisfeito com uma vida de bondade simples entre os que vivem à nossa volta exige uma total reorientação de valores. Envolve uma reestruturação geral de nossa perspectiva acerca do que é importante na vida. Somente a graça da simplicidade pode nos conferir essa perspectiva" p. 198
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"A moderação é uma coisa boa se a liberalidade estiver unida a ela. A primeira evita as despesas supérfulas, a última as aplica para o benefício dos que estão em necessidade" William Penn in p. 211
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"Se você prega o evangelho em todos os aspectos, mas exclui as questões importantes de sua época você não está pregando o evangelho" M. Lutero in p. 215
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"As decisões não precisam ser tomadas durante a reunião. Na verdade, é melhor aguardar até que a confirmação espiritual seja percebida pelo grupo. Depois que alguém expõe sua preocupação, todos do grupo passam a buscar uma solução de acordo com a mente de Cristo. Perguntas são feitas e questões são debatidas, mas também há louvor e oração. Um conselho nunca deve ser dado as pressas, pois isso pode distorcer a verdade em vez de conduzir a ela. As palavras devem brotar do poder de Deus manifestado no meio do grupo. Cada um deve ter a disciplina de jamais expressar o que seja mera opinião pessoal. Quem não consegue controlar a língua não está apto a participar deste tipo de reunião." p. 226
PRINCIPADOS E POSTESTADES
"principados e postestades mencionados por Paulo, contradizendo a ficção popular, não são apenas espíritos desencarnados que assobram casas, cidades e países à procura de oportunidades para fazer o mal"...O que o apostolo está dizendo é que , por trás deles -seres humanos-, existem realidades muito mais profundas, que os influenciam e motivam suas ações"
"Paulo está se referindo à inter-relação dinamica daquelas quatro realidades- personalidades humanas, poderes espirituais com autoconsciência, estruturas e politicas institucionais e todo contexto cultural. Voce e eu fomos convocados para uma batalha cosmica. Em Efésios 6, Paulo nos exorta a participar da guerra pacificadora do Cordeiro contra todos os principados e potestades do mal. Guerreamos de maneira consistente contra as estruturas demoniacas e poderes desonestos utilizando as poderosas armas de Efésios 6- verdade, justiça, fé, paz e oração. Atacamos o mal em todos os níveis- pessoal, social, estrutural e institucional-" p. 237-239

terça-feira, setembro 01, 2009

DAVID GILMOUR: Clube do Filme


Como um livro ruim pode te ajudar a fazer coisas bem legais?


Assim foi com Clube do Livro, que é a história de diálogo entre um pai desempregado e crítico de cinema e seu filho que não sabe o que vai fazer da vida.


O legal é a lista dos filmes.

ALFRED HITCHCOCK: Notorious



“Se eu tivesse que escolher um só filme de Alfred Hitchcock seria Interlúdio e a razão é Ingrid Bergman. Uma relação amorosa imaginária entre Alfred Hitchcock e Ingrid Bergman tendo Cary Grant ao meio. A cena final deve ser a mais perfeita da História do cinema, onde tudo se resolve em três minutos: a história de amor, o
drama familiar e a trama de espionagem. Poucas tomadas, magníficas e inesquecíveis.”

Jacques Rivette

Mais lembrado como um mestre do suspense (ou até do terror, o que não deixa de ser um erro), Hitchcock também fez vários filmes policiais e de espionagem. "Interlúdio" é um dos melhores, com um trama simples, mas bem eficiente, e um desempenho admirável de Ingrid Bergman. Dizem que Hitchcock referia-se a seus atores como "gado". Também dizem que suas heroínas não passavam de louras geladas e desmioladas. "Interlúdio", contudo, desmente estas bobagens. Alicia (Bergman) - linda, mas com uma péssima reputação - é a filha americana de um espião nazista, que é condenado e preso nos Estados Unidos, suicidando-se logo após. Devlin (Cary Grant) trabalha para o governo dos EUA e tem a missão de transformar Alicia numa contra-espiã. Para isso, ela deve viajar para o Rio de Janeiro e encontrar-se com Sebastian, um alemão suspeito de espionagem que já esteve apaixonado por ela (o que facilita muito as coisas). Mas há um problema: Alicia e Devlin apaixonam-se no começo do filme. A trama até pode parecer rocambolesca (e é), mas aí aparece o talento de Hitchcock. Ele não está interessado na espionagem em si, nem nas conseqüências do conflito para os agentes americanos e alemães da história, e muito menos para as duas nações. Ele está interessado nos dramas mais íntimos de seus personagens, que envolvem, como sempre, amor e sexo. Ou melhor: amor, sexo e culpa. Patriotismo, como diz Alicia no próprio filme, não passa de um assunto que dá dor de cabeça. O conflito básico envolve a dificuldade de Alicia e Devlin para fingir que não estão apaixonados e, mais do que isso, para impedir que a sua relação atrapalhe a espionagem de Alicia. Ingrid Bergman está muito longe de ser uma loura burra e gelada em "Interlúdio". Ela é muito quente e muito esperta, tanto que antecipa o que será obrigada a fazer, dizendo que vai agir "como Mata Hari, que se entregava para obter segredos". As velhas preocupações morais de Hitchcock afloram a todo momento. Apesar de discreto em relação à imagem, os diálogos de "Interlúdio" são bastante explícitos. Alicia fica noiva, transa e depois casa com Sebastian, mesmo apaixonada por Devlin, para cumprir o papel que esperam dela. Devlin, por sua vez, morre de ciúmes, mas é orgulhoso demais para compreender o sacrifício de sua amada. Bobamente, acha que Alicia voltou à sua vida de festas, bebidas e amores inconseqüentes. Grant sempre fez muito bem esse papel de idiota romântico sob a pele de um homem de ação. A cena final, realizada com o costumeiro cuidado de Hitchcock com os enquadramentos e os movimentos de câmara, sustenta-se exclusivamente pelas motivações dos personagens. Não há um só tiro em "Interlúdio". Ninguém corre nem eleva o tom da voz. Em compensação, há o prazer de ver o velho Hitch em plena forma, rindo de si mesmo e de seus pobres personagens, enquanto nós, espectadores, nos deliciamos com um cinema sofisticado, capaz de reunir suspense e bom-humor numa mesma seqüência. O melhor de tudo é que "Interlúdio" é apenas uma amostra. Corra para a locadora e descubra tudo o que aquele velho careca era capaz de fazer com uma câmara e uma loura.

Carlos Gerbase é jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor. Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A gente ainda nem começou e "Fausto"). Atualmente finaliza seu terceiro longa-metragem, Tolerância, com Maitê Proença e Roberto Bomtempo.

Veja algumas sacadas de Christopher Vogler em Jornada do Escritor

Um exemplo do arquétipo do herói como motivador num filme pode ser o de Interlúdio, de Alfred Hitchcock. Cary Grant faz o papel de um agente secreto, tentando atrair para uma causa nobre Ingrid Bergman, a filha de um espião nazista. A um só tempo, ele oferece a ela um desafio e uma oportunidade. Ela pode superar sua má reputação e a vergonha da família dedicando-se à nobre causa de Cary. (No fim das contas, a causa acaba não sendo tão nobre, mas isso é outra história.)
Como a maioria dos heróis, o personagem dela tem medo da mudança e reluta em aceitar o desafio. Mas Grant, à maneira de um arauto medieval, faz a moça recordar seu passado e dá a ela motivação para agir. Faz com que a moça ouça a gravação de uma discussão que ela teve com o pai, na qual renunciava à espionagem dele e declarava sua lealdade aos Estados Unidos. Confrontada com a prova de seu patriotismo, ela aceita o Chamado à Aventura. Está motivada. (p. 70)

Desorientação e desconforto
Muitas vezes, o Chamado à Aventura pode ser perturbador e desorientador para o herói. Em outras ocasiões, os Arautos enganam os heróis, falseando a própria aparência para ganhar sua confiança e, depois, trocando de forma para fazer a entrega do Chamado. Alfred Hitchcock nos dá um poderoso exemplo em Interlúdio. A heroína, vivida por Ingrid Bergman, é uma moça que só quer se divertir, e cujo pai fora condenado como espião nazista. O Chamado à Aventura chega através de um Arauto, na forma de Cary Grant, um agente americano que tenta obter a ajuda dela, para poder infiltrar-se num círculo de espiões nazistas.
Primeiramente, ele joga seu charme e entra na vida da moça, fingindo ser um playboy que só pensa em bebida, carros velozes e... nela. Depois que ela descobre, por acaso, que o sedutor é da polícia, ele muda de conversa, põe a máscara de Arauto e transmite a ela um desafiante Chamado à Aventura.
Ingrid Bergman acorda na cama, de ressaca, depois de uma noite de festas. Grant, enquadrado na moldura da porta, dá a ela uma bebida efervescente, para acalmar o estômago. O gosto é horrível, mas Grant faz com que a moça beba de qualquer jeito.
A beberagem simboliza a nova energia da aventura — mesmo com aquele gosto de veneno, se for comparada com as bebidas finas a que a moça está acostumada — mas que, afinal, vai ser um bom remédio.
Nessa cena, Grant está encostado no marco da porta, numa silhueta, como se fosse um anjo negro. Do ponto de vista de Ingrid Bergman, esse Arauto de aparência imprecisa pode ser um anjo ou um demônio. A hipótese demoníaca é sugerida pelo nome dele, revelado pela primeira vez: Devlin (em inglês, Devlin aproxima-se de devil, que significa demônio). Quando ele avança pelo quarto, em direção à moça, para transmitir o Chamado, Hitchcock faz a câmera segui-lo, numa tomada em que o ponto de vista oscilante e estonteante reflete o estado de ressaca da heroína, deitada. Parece que Grant está caminhando no teto. Na linguagem simbólica do filme, essa tomada expressa o momento de mudança da posição do personagem de Cary Grant, de playboy a Arauto, e seu efeito desorientador sobre a heroína. Grant faz o Chamado — um convite patriótico para que ela se infiltre no círculo de espiões nazistas. E quando transmite a mensagem, Grant é visto, pela primeira vez na cena, totalmente iluminado e inteiramente na vertical, o que representa o efeito da sobriedade no personagem de Bergman.
Enquanto o casal conversa, um aplique de cabelo artificial, parecido com uma coroa, escorrega da cabeça de Bergman, mostrando que aquela existência enganosa e viciada de princesa de conto de fadas tem que chegar ao fim. Simultaneamente, na trilha sonora, pode-se ouvir o som distante de um trem afastando-se da cidade, sugerindo o começo de uma longa jornada. Nessa seqüência, Hitchcock usou todos os elementos disponíveis para assinalar que se aproxima um limiar de mudança importante. O Chamado à Aventura desorienta a heroína e a repugna, mas é necessário ao crescimento dela. (p. 102)

Good Books Don't Have to Be Hard

Good Books Don't Have to Be Hard
A novelist on the pleasure of reading stories that don't bore; rising up from the supermarket racks




A good story is a dirty secret that we all share. It's what makes guilty pleasures so pleasurable, but it's also what makes them so guilty. A juicy tale reeks of crass commercialism and cheap thrills. We crave such entertainments, but we despise them. Plot makes perverts of us all.


It's not easy to put your finger on what exactly is so disgraceful about our attachment to storyline. Sure, it's something to do with high and low and genres and the canon and such. But what exactly? Part of the problem is that to find the reason you have to dig down a ways, down into the murky history of the novel. There was once a reason for turning away from plot, but that rationale has outlived its usefulness. If there's a key to what the 21st-century novel is going to look like, this is it: the ongoing exoneration and rehabilitation of plot.
Where did this conspiracy come from in the first place—the plot against plot? I blame the Modernists. Who were, I grant you, the single greatest crop of writers the novel has ever seen. In the 1920s alone they gave us "The Age of Innocence," "Ulysses," "A Passage to India," "Mrs. Dalloway," "To the Lighthouse," "Lady Chatterley's Lover," "The Sun Also Rises," "A Farewell to Arms" and "The Sound and the Fury." Not to mention most of "In Search of Lost Time" and all of Kafka's novels. Pity the poor Pulitzer judge for 1926, who had to choose between "The Professor's House," "The Great Gatsby," "Arrowsmith" and "An American Tragedy." (It went to "Arrowsmith." Sinclair Lewis prissily declined the prize.) The 20th century had a full century's worth of masterpieces before it was half over.
But let's look back for a second at where the Modernists came from, and what exactly they did with the novel. They drew a tough hand, historically speaking. All the bad news of the modern era had just arrived more or less at the same time: mass media, advertising, psychoanalysis, mechanized warfare. The rise of electric light and internal combustion had turned their world into a noisy, reeking travesty of the gas-lit, horse-drawn world they grew up in. The orderly, complacent, optimistic Victorian novel had nothing to say to them. Worse than nothing: it felt like a lie. The novel was a mirror the Modernists needed to break, the better to reflect their broken world. So they did.
One of the things they broke was plot. To the Modernists, stories were a distortion of real life. In real life stories don't tie up neatly. Events don't line up in a tidy sequence and mean the same things to everybody they happen to. Ask a veteran of the Somme whether his tour of duty resembled the "Boy's Own" war stories he grew up on. The Modernists broke the clear straight lines of causality and perception and chronological sequence, to make them look more like life as it's actually lived. They took in "The Mill on the Floss" and spat out "The Sound and the Fury."
This brought with it another, related development: difficulty. It's hard to imagine it now, but there was a time when literary novels were not, generally speaking, all that hard to read. Say what you like about the works of Dickens and Thackeray, you pretty much always know who's talking, and when, and what they're talking about. The Modernists introduced us to the idea that reading could be work, and not common labor but the work of an intellectual elite, a highly trained coterie of professional aesthetic interpreters. The motto of Ezra Pound's "Little Review," which published the first chapters of Joyce's "Ulysses," was "Making no compromise with the public taste." Imagine what it felt like the first time somebody opened up "The Waste Land" and saw that it came with footnotes. Amateur hour was over.
But we don't live in the Modernists' world anymore. We have different problems. We've had plenty of bad news of our own. Some of which has to do with the book business itself—sales of adult trade books declined 2.3% last year, compared with 2007. Should we still be writing difficult novels? Isn't it time we made our peace with plot?
After all, the discipline of the conventional literary novel is a pretty harsh one. To read one is to enter into a kind of depressed economy, where pleasure must be bought with large quantities of work and patience. The Modernists felt little obligation to entertain their readers. That was just the price you paid for your Joycean epiphany. Conversely they have trained us, Pavlovianly, to associate a crisp, dynamic, exciting plot with supermarket fiction, and cheap thrills, and embarrassment. Plot was the coward's way out, for people who can't deal with the real world. If you're having too much fun, you're doing it wrong.
There was a time when difficult literature was exciting. T.S. Eliot once famously read to a whole football stadium full of fans. And it's still exciting—when Eliot does it. But in contemporary writers it has just become a drag. Which is probably why millions of adults are cheating on the literary novel with the young-adult novel, where the unblushing embrace of storytelling is allowed, even encouraged. Sales of hardcover young-adult books are up 30.7% so far this year, through June, according to the Association of American Publishers, while adult hardcovers are down 17.8%. Nam Le's "The Boat," one of the best-reviewed books of fiction of 2008, has sold 16,000 copies in hardcover and trade paperback, according to Nielsen Bookscan (which admittedly doesn't include all book retailers). In the first quarter of 2009 alone, the author of the "Twilight" series, Stephenie Meyer, sold eight million books. What are those readers looking for? You'll find critics who say they have bad taste, or that they're lazy and can't hack it in the big leagues. But that's not the case. They need something they're not getting elsewhere. Let's be honest: Why do so many adults read Suzanne Collins's young-adult novel "The Hunger Games" instead of contemporary literary fiction? Because "The Hunger Games" doesn't bore them.
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A selection of books that are rife with action
The Golden Compass by Philip Pullman
Fingersmith by Sarah Waters
The Talented Mr. Ripley by Patricia Highsmith
Pride and Prejudice by Jane Austen
The Great Gatsby by F. Scott Fitzgerald
Zeitoun by Dave Eggers
All of this is changing. The revolution is under way. The novel is getting entertaining again. Writers like Michael Chabon, Jonathan Lethem, Donna Tartt, Kelly Link, Audrey Niffenegger, Richard Price, Kate Atkinson, Neil Gaiman, and Susanna Clarke, to name just a few, are busily grafting the sophisticated, intensely aware literary language of Modernism onto the sturdy narrative roots of genre fiction: fantasy, science fiction, detective fiction, romance. They're forging connections between literary spheres that have been hermetically sealed off from one another for a century. Look at Cormac ­McCarthy, who for years appeared to be the oldest living Modernist in captivity, but who has inaugurated his late period with a serial-killer novel followed by a work of apocalyptic science fiction. Look at Thomas Pynchon—in "Inherent Vice" he has swapped his usual cumbersome verbal calisthenics for the more maneuverable chassis of a hard-boiled detective novel.
This is the future of fiction. The novel is finally waking up from its 100-year carbonite nap. Old hierarchies of taste are collapsing. Genres are hybridizing. The balance of power is swinging from the writer back to the reader, and compromises with the public taste are being struck all over the place. Lyricism is on the wane, and suspense and humor and pacing are shedding their stigmas and taking their place as the core literary technologies of the 21st century.
From a hieratic, hermetic art object the novel is blooming into something more casual and open: a literature of pleasure. The critics will have to catch up. This new breed of novel resists interpretation, but not the way the Modernists did. These books require a different set of tools, and a basic belief that plot and literary intelligence aren't mutually exclusive.
In fact the true postmodern novel is here, hiding in plain sight. We just haven't noticed it because we're looking in the wrong aisle. We were trained—by the Modernists, who else—to expect a literary revolution to be a revolution of the avant-garde: typographically altered, grammatically shattered, rhetorically obscure. Difficult, in a word. This is different. It's a revolution from below, up from the supermarket racks.—Lev Grossman is the book critic at Time magazine and the author of "The Magicians," a novel.