quinta-feira, agosto 20, 2009

WILLIAM FAULKNER: Enquanto Agonizo

"É por isso que ele está lá fora embaixo da janela, martelando e serrando aquele maldito caixão. Onde ela pode vê-lo. Onde todo ar que ela aspira está impregnado das marteladas e serradas onde ela pode vê-lo dizendo Veja. Veja que beleza estou fazendo para a senhora" p. 17


Em "Enquanto agonizo", Faulkner costura dezenas de monólogos de 15 pessoas para mostrar o perfil psicológico de uma família que conduz o corpo da matriarca ao cemitério. A partir de "O lugarejo", o destino dos personagens de Faulkner não é mais tão trágico. Ao menos surge alguma esperança para a condição humana como uma promessa de liberação.



Eleito uns dos cem melhores romances do século XX, Enquanto agonizo é um grandioso exemplar da linguagem e do estilo praticados pelo escritor norte-americano William Faulkner. Neste romance publicado em 1930, o autor distancia-se da aristocracia sulista americana para falar sobre a gente comum e humilde da região.


O livro acompanha o cortejo da família Bruden, reunida para cumprir o último desejo da matriarca: ser enterrada na cidade de Jefferson, condado de Yoknapatawpha, longe da miserável cidade de. Sem saber que essa viagem mudaria suas vidas, o marido e os cinco filhos partem com o caixão determinados a cumprir seu objetivo.


Durante o percurso, Faulkner apresenta ao leitor os dramas pessoais familiares, mas também a miséria do sul dos Estados Unidos. A aparente tranqüilidade da vida rural esconde as relações complexas entre os membros da família, reveladas pelo escritor de forma cativante e inovadora: cada capítulo é narrado em primeira pessoa e de forma não-linear pelos personagens, com flashbacks que vão se entrelaçando e formando um espelho da condição humana.


Enquanto Leio

do site odisséia 2005


Quem nunca comprou um produto exclusivamente por causa da marca? Inconscientemente, há a certeza de que aquele produto satisfará nossos anseios, que aquela marca representa qualidade. Para quem conhece um pouco da obra de William Faulkner, o inicio da leitura de um livro do autor se dá mais ou menos da mesma maneira: uma sensação de qualidade, de um autor que domina plenamente a capacidade de narrar. Às vezes isso pode ser até um pouco prejudicial, uma sensação de que não é preciso ficar atento às qualidades da obra, pois elas são evidentes. De fato, livros como "O Som e a Fúria", "Absalão, Absalão", "Luz em Agosto" e "Enquanto Agonizo" são constantemente citados como verdadeiras obras-primas. Mas ao prestar atenção à medida que lemos tais obras, serve para descobrir qualidades literárias que podem passar por alto.


Quando Faulkner escreveu "Enquanto Agonizo" o mundo já conhecia autores que usavam o 'stream-of-consciousness', um recurso literário bastante interessante (algo como descrever exatamente o pensamento dos personagens, com a desordem típica de um pensamento em formação). De fato, Virginia Woolf e James Joyce são autores exemplares neste tipo de escrita e são lidos e estudados até hoje. No entanto, para o leitor que não está acostumado com a atividade de 'ler' pensamentos, o recurso pode causar estranhamento. Muitos enfadados por descrições nada ordenadas - onde tempo, espaço e formas se misturam -, acabam simplesmente abandonando tais obras em busca de algo mais linear. No entanto, Faulkner em "Enquanto Agonizo" consegue oferecer o mesmo recurso literário complexo de um jeito altamente atraente, irresistível, que nos faz avançar a cada página quase que com voracidade.



"Enquanto Agonizo" tem um enredo aparentemente comum: Addie Bundren, a matriarca da família, está gravemente enferma e todos se preparam para seu funeral. Um pedido feito em seu leito de morte, faz com que os outros membros da família se preparem para viajar até Jefferson, uma cidade vizinha, onde a personagem será enterrada. A aparente simplicidade do roteiro esconde relações complexas entre todos os membros da família e a obra procura refletir isso dum modo poderoso e inovador para a época: cada capítulo da história é narrado em primeira pessoa por algum personagem. São, portanto, várias primeiras pessoas nos informando sobre o que acontece ao seu redor e (claro) em seu interior. O recurso põe em evidência assim o 'stream-of-consciousness' de maneira a enriquecer a narrativa, com um domínio que somente um mestre da literatura mundial poderia exercer.


O eixo da roda
do artigo de Silviano Santiago para folha

O eixo da roda narrativa dramatiza a agonia e morte de Addie Bundren, mulher e mãe, responsável por um único e solitário capítulo no meio do romance. Do eixo central saem e a ele retornam os raios da roda, ou seja, os 59 curtos capítulos do romance. Cada capítulo é um monólogo. Os monólogos são de responsabilidade do marido e dos cinco filhos de Addie, bem como dos vizinhos com quem mantêm laços de amizade. O todo da narrativa constitui o aro externo da roda. Eis o resumo do romance que Faulkner escreveu com a ajuda da água e do fogo. Da água que desce dos céus em chuva, fazendo transbordar o rio, derrubando pontes, isolando ainda mais o grupo social. Do incêndio com que o mais ardiloso dos filhos pretende dar por encerrado o périplo tragicômico, às vezes grotesco, do caixão até o cemitério de uma cidade vizinha. Os raios da roda se articulam ao eixo fixo central no tempo do enquanto -para se valer de palavra tomada de empréstimo ao título da obra.
Tentemos descrever essa forma do tempo mítico, circular, com a ajuda da mecânica da roda. Enquanto a mulher e mãe agoniza, morre e é enterrada, cada um dos membros da família repassa experiências que foram definitivas na sua configuração de seres humanos e por elas se deixa obsedar. No tempo do enquanto, o que é tido como superficial no calendário das pequenas ações e conversas do cotidiano passa a calar fundo graças às reminiscências. O monólogo que constitui um personagem leva água para o monjolo do outro. Na família, cada um é diferente do outro e são todos iguais. Como montar o quebra-cabeça da esquizofrenia familiar faulkneriana? Não há progresso nos 59 micromonólogos que compõem "Enquanto Agonizo". O tempo da narrativa gira sobre si mesmo como a roda na areia. Com a ajuda de Nathalie Sarraute, digamos que a mulher e mãe, semelhante ao sol, afeta a todos da família e da comunidade pelo efeito de tropismo. Tal qual plantas numa paisagem inóspita, todos os personagens reagem a ela. Dela se aproximam em busca de vida, dela se afastam em busca de autonomia e a ela retornam reconciliados com o destino. A mulher e mãe irradia uma luz feiticeira. Ao atrair, sua claridade espetaculariza vontades, desejos e devaneios. Ao refluir, revela a sordidez, a imundície e a miséria em que vivem esses camponeses do Mississippi. Addie é a força amorosa e traiçoeira que deixa à vista essa família de "white trash" (lixo branco), para usar a expressão que os negros usam para designar os brancos que se igualam a eles na pobreza. Como na novela "A Morte de Ivan Ilitch", de Tolstói, o romance exala o cheiro (catinga e perfume) da morte. Um cheiro forte, como teria dito o camponês Guerasim, alçado à condição de ajudante de mordomo, diante do urinol usado pelo patrão. Faulkner, é sabido, teve primeiro sucesso junto aos intelectuais franceses. Anos depois será reconhecido pelos compatriotas e ingleses. Tenho uma hipótese. A literatura francesa, na sua forma mais tradicional, que é a do "récit", sempre se interessou pelo monólogo longo, que no fundo nada mais é do que suporte para a prosa introspectiva (observações sobre a vida íntima pelo próprio sujeito).

Intimidade caipira

De Madame de la Fayette, no século 17, a André Gide, Albert Camus e Patrick Modiano, nos nossos dias, criou-se a tradição do monólogo ficcional francês. Na literatura francesa, cartesiana por definição, o narrador/ personagem da prosa introspectiva tem de ser inteligente, capaz de destrinchar sentimentos e emoções que constituem o sujeito no mundo, ao lado de pares cujo maior prazer é se exercitarem na perversidade e sutileza dos jogos sociais aristocratizantes.

Faulkner não tem medo de usar o monólogo quando o personagem é destituído de raciocínio lógico. Seus colegas de ofício, como Hemingway ou Steinbeck, preferem imitar a técnica do romance policial. Ambos se valem dos recursos da psicologia comportamental (behaviorista) que lhes é proposta por William James e seus seguidores. Nada de vida íntima nos romances dos expoentes da geração perdida europeizada, tudo é ação e gesto. Faulkner trata a brutalidade de outra forma. Ele é o detetive da intimidade caipira. Devassa-a para descobrir (e mostrar) seres tão complexos na sua fúria de viver quanto os citadinos.Calculem a bomba que explode nos arraiais artísticos franceses quando figuras como Valery Larbaud, tradutor de James Joyce, são levadas a defrontar com um, com vários narradores/personagens de Faulkner. Estão diante de seres ignorantes, violentos e brutos, mas ao mesmo tempo extremamente sensíveis, capazes duma fala profética e poética modelar, como é o caso, respectivamente, de Darl e Vardaman. Uma baforada de ar do campo abre as janelas e varre os salões cosmopolitas.

Como não admirar Faulkner por ter dado ao caçula dos Bundren, Vardaman, um capítulo com uma única e curta frase que, na sua verdade poética, exprime a riqueza simbólica tanto do romance imerso na chuva quanto do caixão submerso nas águas furiosas do rio. Pensa Vardaman: "Minha mãe é um peixe". É o mesmo Vardaman que faz furos no caixão para que a mãe defunta possa respirar. Como não admirar Faulkner por ter emprestado a Cash, o mestre carapina da família, uma lógica construtiva que faria inveja a muitos arquitetos diplomados. Ele idealiza e fabrica o caixão da mãe, imaginando que ele teria de ser feito "de esguelha": "O magnetismo animal de um corpo morto faz com que a pressão funcione obliquamente, de forma que as junturas e as ligações de um caixão devem ser feitas de esguelha".

Faca de dois gumes

A ignorância no universo dos personagens faulknerianos é uma faca de dois gumes. Tanto aponta para a iluminação poética de raiz mítico-religiosa como pode ainda apontar para formas inaceitáveis de violência contra o indivíduo e a sociedade.Ao tentar salvar o caixão da mãe das águas revoltosas do rio, Cash quebra uma vez mais a perna. Não recorre a médico ou farmacêutico. Deseja acompanhar o féretro da mãe até a cidade vizinha. Custe o que custar. O pai não titubeia. Compra um saco de cimento. Mistura o pó com água. Encana a perna do filho com a mistura, sem antes untá-la com gordura. Lá vai ele montado no caixão da mãe. No dia seguinte a perna de Cash parece a de um crioulo, como diz o texto. Na profundidade do equívoco assassino do pai não está a evidência da barbárie humana. Antes a vontade de curar pelos meios que estão a bordo da navegação pobre pela vida. Na vítima filial, no seu rosto e palavras resplandece a dor sem sofrimento, tema de que será arauto entre nós o cristão Mário de Andrade. À pergunta do médico: "Está doendo?", Cash responde: "Nada que não seja suportável".

2 comentários:

Gabrielle Sarkis disse...

Ótima crítica! Tomei a liberdade de usá-la para fazer uma: http://rubrobelo.blogspot.com.br/2012/07/critica-enquanto-agonizo-de-william.html

Abraços!

Gabrielle Sarkis disse...

Ótima crítica! Tomei a liberdade de utilizá-la como uma das referências para fazer a minha: http://rubrobelo.blogspot.com.br/2012/07/critica-enquanto-agonizo-de-william.html

Abraços!