sexta-feira, maio 24, 2013

JAMES W. SIRE: Dando nome ao elefante (cosmovisão como conceito) -parte 1-.


Continuando as leituras sobre cosmovisão, até aqui foram Dooyewwerd, Frame, Craig chegamos a James W. Sire, neste livro é uma revisão de sua obra maior, por assim dizer, O universo ao lado.

O livro também é um diálogo com a obra de David Naugle: Cosmovisão: a história de um conceito.

Sire tem um quê de Dooyeweerd, ele coloca como o holandês o coração como centro da cosmovisão, que é:


Uma cosmovisão é um compromisso, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expresso como uma narrativa ou como um conjunto de pressuposições (suposições que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou inteiramente falsas) que nós sustentamos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realidade, e que fornece o fundamento sobre o qual nós vivemos, nos movemos e existimos.

No capítulo 2, Sire faz um relato histórico do conceito de cosmovisão, de Dilthey até  Naugle.  Para este,  segundo o autor, "as cosmovisões brotam da totalidade da existência piscológica humana, intelectualmente da cognição da realidade , afetivamente na valorização da vida e volitivamente no exercício ativo da vontade" (p.40)

No capítulo 3, há uma discussão sobre o que vêm primeiro: o ser ( a ontologia) ou o saber ( a epistemologia).  Para Sire, há uma preeminência da ontologia:

"Se a realidade primordial é o Deus-bíblico, a ética não está baseada nas aspirações mais altas da humanidade, mas fundamentada no caráter de Deus como a bondade última. O propósito humano não é autodeterminado por qualquer pessoa, comunidade, nação ou grupo multinacional, mas predeterminado por Deus" (p. 83)

 A ontologia é o fundamento para a epistemologia. Ele retoma o tema  calvinista do conhecimento de Deus como base para o autoconhecimento.

"A ontologia deve preceder a epistemologia na formulação de uma cosmovisão. Do contrário, estaremos baseando toda a nossa cosmovisão na estrutura frágil do ego humano, isto é, na autonomia da razão humana, o que de fato significa a autonomia do ego humano de cada pessoa ou o sentido de razão de cada comunidade. Agir assim é perigoso. A justificativa de nossa cosmovisão não deve ser a razão humana autônoma, ainda que a razão como representada pela tradição cristã. A prioridade bíblica do Ser- Deus como Ser- seria em tal caso substituída pela epistemologia ou, mais precisamente, pela hermenêutica. Nestas condições, a cosmovisão cristã se tornaria não apenas moderna, mas pós-moderna" (p.109)

A cosmovisão não é algo teórico, mas pré-teórico ou pressupocionalista. "O pressuposcional é aquilo que, para o qual embora sejamos capazes de dar razões, não podemos estritamente falando, provar" (p. 114).

Deus é tido como algo pré-teórico, como Calvino e a tradição após ele chamou de sensus divinatus, Sire cita Alvin Plantinga:  "O sensus divinatus é uma disposição ou conjunto de disposição para formar crenças teístas, em várias circunstâncias, em resposta ao tipo de condições ou estímulos que deflagram a operação deste senso de divindade" (p. 119)

Para Sire, o conflito está em "ou os seres humanos são feitos à imagem de um Deus com pelo menos algumas características humanas ( Calvino) , ou Deus é feito à imagem dos seres humanos (Freud)" (p.122).

Na mesma toada, Dooyeweerd  citado também parte dos motivos-base, sejam aquele originado em Deus ou aqueles originados no pecado. Para Sire, "o não-convertido de forma alguma pode compreender a força de um argumento para o cristianismo. O evagelho, portanto, deve ser apenas proclamado, não defendido"(p. 129)

A cosmovisão está localizada no amâgo espiritual pré-teórico do ser humano, como ensina Dooyeweerd.

Partindo desse conceito pré-teórico da cosmovisão, Sire começa a tecer um sistema de racionalidade, a cosmovisão como uma estória-mestre do pensamento, neste ponto ele se alia aos pensamentos de Leslie Newbigin, Wlash e Middleton.

"Nosso argumento é que a Bíblia, como estória cristã, normativa, canônica e fundadora, trabalha em último caso contra a totalização. Ela é capaz de fazer isso por que contém duas dimensões contraideológicas ou fatores antitotalizantes identificáveis... A primeira destas dimensões consiste de uma sensibilidade radical ao sofrimento que permeia a narrativa bíblica do êxodo até a cruz. A segunda consiste no enraizamento da estória na intenção criacional abrangente de Deus, que deslegitimiza qualquer uso estreito e partidário da estória" (p. 152)


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