segunda-feira, maio 25, 2009

N. T. WRIGHT: O Mal e Justiça de Deus


Alguns trechos


"Muitas pessoas ficam decepcionadas quando descobrem que, segundo Ap. 21, não existirá mar no novo céu e na nova terra. Contemplar o mar, velejar e nadar são prazeres perenes, pelo menos para quem não precisa se sustentar negocioando com seus hábitos traiçoeiros e crises de mau humor. Eu mesmo compartilho dessa surpresa e decepção, pois gosto de observar o mar e nadar de vez em quando. Porém, dentro de uma visão bíblica mais ampla, as coisa podem começar a fazer sentido.

O mar faz parte da criação original. Gn 1 fala do mar antes de citar a terra seca, que, assim como os animais surgiu a partir dele. O mar faz parte do mundo que Deus, após seis dias, disse que era muito bom. Em Gn 6, no entanto, as águas do dilúvio ameaçam todo o mundo criado por Deus e apenas Noé e seu zoológico flutuante escapam, pela graça de Deus. Parece que as forças do caos, prontas para executar o julgamento divino, surgem da própria criação.

O mar só é citado novamente na Bíblia quando Moisés e os israelitas ficam diante dele, perseguidos pelos egipcios sem saber o que fazer. Deus abre um caminho no meio do mar para resgatar seu povo e, mais uma vez, julgar o mundo pagão- a mesma história, apresentada de outro jeito. Mais tarde, quando os poetas de Israel olham para esse momento decisivo na formação do povo de Deus, celebram-no usando termos dos antigos mitos de criação dos cananeus: YHWH é soberano sobre o dilúvio (Sl 29,10). Se as enchentes levantam a voz, YHWH nas alturas é mais poderoso que elas (Sl 93,3ss). As águas o viram, e ficaram com medo e retrocederam (Sl 77,16;114,3,5; YHWH é o nome bíblico do Deus de Israel). Assim quando o salmista descreve seu desespero por ter água até o pescoço, como no Sl 69, ele reconhece que YHWH controla o mar bravio e faz com que ele louve. Porém, mais tarde, em um texto que exerceu forte influência sobre o cristianismo primitivo, temos a visão de Dn 7, em que os monstros guerreiam contra os santos do Altíssimo saem do mar, que se torna sombrio, amendontrador e ameaçador, o lugar de onde o mal emerge e ameaça o povo de Deus, como uma onda gigante que se lança sobre os que vivem na costa. Para os israelitas na antiguidade, que não eram grandes navegadores, o mar representa o mal e o caos, o poder tenebroso capaz de fazer com o povo de Deus o que o dilúvio fizera com todo o mundo, a não ser que Deus os resgatasse, como resgatara Noé".p. 12-13

"

"A linha divisória entre o mal e o bem não está simplesmente entre nós e eles. Essa linha transpõe cada um de nós. A perversidade existe, e precisamos distinguir entre as versões mais brandas e as mais terríveis" p. 34


"...como contar a história cristã de forma que, sem tentar resolver o problema de maneira simplista, possamos ainda assim tratar dele com maturidade e, nesse processo, alcançar um fé profunda e sábia no Deus Criador e Redentor, cujo amor envolvente um dia nos dará uma nova criação, onde as trevas e o mar ameaçador do caos não existirão mais? O dilúvio de Noé, afinal, mostrou que até Deus, o Criador, havia se arrependido de ter criado o mundo; entretanto, com o sinal do arco-íris, estabeleceu um novo começo, uma nova aliança. Se nos esforçarmos para entedermos e participarmos tanto das lágrimas divinas diante do mal do mundo quanto da criatividade ao enviar uma pomba para buscar os ramos de oliveira que emergiam das águas do caos, estaremos no caminho certo. O mar é poderoso, mas o Deus criador é mais poderoso que ele. O mal pode continuar a existir, mas o mesmo acontece com o amor, graças a Deus" p. 37

Um comentário:

Daniel dliver disse...

Allen, dê uma olhada no vídeo que legendei: http://danieldliver.blogspot.com/2009/05/nt-wright-vida-apos-vida-apos-morte.html